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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 


A GEOGRAFIA NO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO:
UMA ANÁLISE CRÍTICA

 

Wagner Sena Passos
Graduando em Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF

 

Palavras-chave: Ensino; Livro didático; Educação ambiental
Eixo: 1.- Aplicação da geografia física ao ensino
Sub-eixo: 1.1.- Ensino Fundamental e Médio

 

 

Introdução

Há décadas a Geografia vem convivendo com a dicotomia entre Geografia Física x Geografia Humana. Isso acaba refletindo nos professores de Geografia de ensino fundamental e médio que, apoiando-se em livros didáticos inadequados acabam por fazer uma abordagem que separa o quadro natural do quadro social. “Então, como deve ser feita uma abordagem do quadro físico?” “Poderá a Geografia renunciar ao estudo da natureza nos ensinos fundamental e médio?”

Quando executamos uma análise dos livros didáticos (de ensino fundamental), em relação ao conteúdo adotado para a Geografia Física, percebe-se que tal conteúdo distribui-se de forma irregular ao longo dos volumes, pois o quadro físico restringe-se ao terceiro ciclo (antiga 5ª e 6ª séries e em alguns livros da antiga 7ª e 8ª - quarto ciclo- aborda-se de forma rarefeita na parte de Geografia Regional do mundo) e, ainda, “na observação do sumário dos livros nota-se um maior volume de conteúdos de Geografia Humana em detrimento da Geografia Física e estes, encontram-se dispostos sempre nos últimos capítulos das obras didáticas, o que leva, muitas das vezes a não serem ministrados por falta de tempo hábil...” (Filho et al., 1996). “Se ao aluno não escapa a transformação da natureza, por que abordá-la em separado, sem relação com o social ?” (Vlach, 1989). Voltando as perguntas que antecedem a esta, devemos perceber que o quadro físico é a “(...) base material onde a produção espacial se desenvolve através de seus arranjos econômicos e sociais” (Carvalho, 1989). Deve-se ressaltar, ainda, que “o estudo da natureza sempre constituiu uma das bases sobre a qual se estruturou o conhecimento geográfico” (Rua et al., 1993).

Perspectivas para o ensino da geografia

Diante da padronização dos conteúdos programáticos apresentados pelos livros didáticos, o professor deve ter uma abordagem distinta da apresentada por tais livros, servindo estes como um instrumento de apoio devido ao fato de ser colocado nos seus conteúdos uma gama de informações e conceitos. Mesmo assim, é necessário que haja uma revisão dos livros didáticos e uma reformulação nas licenciaturas dos cursos de graduação.

Cabe ressaltar também que para se ter uma visão integradora do conteúdo da Geografia, ou seja, a percepção da unidade na relação sociedade-natureza, faz-se necessário que o desenvolvimento do raciocínio do aluno seja conduzido a partir do “espaço vivido”: o bairro onde ele (aluno) reside, por exemplo. Destarte, uma forma que o professor pode pôr em prática na sua dinâmica de aula de forma que haja uma conjunção entre sociedade e natureza é através da “educação ambiental”. Segundo Sudo & Leal (1997), a educação ambiental “é um processo educativo de ensino e aprendizagem contínuo e permanente baseado em observações e experiências, que visa a conscientização do homem, individual e coletivamente, a respeito dos seus direitos e obrigações para com o meio ambiente baseado no respeito a todas as formas de vida e com reconhecimento de valores e estímulo a ações que contribuam para a sua integração plena ao meio ambiente... Como atividade educativa formal, cabe ao professor ou demais pessoas ligadas ao ensino, tendo em vista a realidade local, da região ou do país, procurar conscientizar os alunos sobre a importância da nossa interação com o meio e fazer com que o que se aprende na escola seja refletido no social (em sua casa, seu bairro, com pais, amigos, conhecidos...) resgatando esta grande função social que a escola possui e que, em muitos lugares, se perdeu”.

Considerações finais

 

Como se vê, a desgastada discussão da dicotomia geografia física versus geografia humana deve ser ultrapassada de modo que tenhamos uma geografia escolar que traga uma unidade entre o quadro natural e social, possibilitando ao aluno uma visão global da dinâmica que se assenta no espaço geográfico e, por conseguinte, uma visão crítica acerca da realidade. Senão, a geografia escolar está fadada a ter parte de seu conteúdo abolido e incorporado por outra disciplina (é o que está acontecendo com os conteúdos do quadro físico/natural, que estão sendo incorporados ao ensino de Ciências).

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