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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

O ESTUDO DO CLIMA NO ENSINO FUNDAMENTAL

 

 

Monique Cristine de Britto[1]. (moniquebritto@bol.com.br)

Raphael de Freitas Saldanha[1]. (raphaelsaldanha@uol.com.br)

Helen de Oliveira Faria[1].. (helengeo@yahoo.com.br)

Liliane Rinco[1]. (lirinco@yahoo.com.br)

Luiz Alberto Martins[2] .  (lalberto@artnet.com.br)

 

 

[1] Acadêmicos do curso de Geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

[2] Professor do Departamento de Geociências da

Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

 

Palavras-chave: Climatologia, Ensino.

Eixo: 1.- Aplicação da geografia física ao ensino

Sub-eixo: 1.1.- Ensino Fundamental e Médio

 

 

 

Introdução

 

O estudo da atmosfera fundamentado em parâmetros estatísticos e em combinações medias, conduz a um não entendimento por parte dos alunos, pois não explica a espacialização dos fenômenos atmosféricos. É imprescindível que sejam incorporadas às práticas pedagógicas, noções de “ritmo” e de sucessão que transformam o clima em um atributo dinâmico.

Para BARBOSA e ZAVATINE (2000), a tradicional concepção do clima como um conjunto de fenômenos meteorológicos que caracterizam o estado médio da atmosfera em um ponto da superfície terrestre foi substituída pelas idéias de SORRE (1951), que propôs a reformulação do conceito de clima como sendo “a série dos estados atmosféricos acima de um lugar em sua sessão habitual”. Assim foi incorporado a noção de ritmo à climatologia, dando origem a uma nova abordagem, baseada no dinamismo da atuação dos sistemas atmosféricos e dos tipos de tempos produzidos.

No Brasil, a “Climatologia Dinâmica ou Geográfica” teve seus fundamentos alicerçados por intermédios de MONTEIRO (1964) que, embasado pelos ensinamentos de SORRE, SERRA RATISBONNA e PEDELABORDE, criou regras elementares que introduziram a noção de ritmo climático, tornando possível a visualização e a interpretação simultâneas dos elementos do clima e o reconhecimento de diferentes problemas dele advindos.

Basicamente, esta metodologia despreza os valores médios em benefício de um desdobramento mais criterioso  da variação dos elementos do clima  como a temperatura, a umidade relativa, a precipitação a pressão barométrica, o vento, a nebulosidade e principalmente a situação sinóptica das massas de ar, como nos mostra RIBERINO (1982).

 

“As passagens frontais deram uma contribuição significativa para a explicação do dinamismo dos fenômenos climáticos reconhecendo a importância que a frente polar assume no mecanismo da sucessão e da geração dos estados atmosféricos e suas conseqüências.”

 

Ainda de acordo com RIBERINO (1982), outro aspecto a ser considerado é a interação do ritmo com os fatos geográficos do espaço: problemas de natureza ecológica (definição de sistemas morfo-estruturais, dinâmica do escoamento pluvial, balanço hídrico); problemas rurais (calendário agrícola e produção); problemas urbanos (riscos ambientais, poluição atmosférica).

            Em função dos pressupostos discutidos anteriormente acreditamos que este novo paradigma, apresenta um grande potencial de contribuição para a compreensão do espaço geográfico e o funcionamento da natureza em suas múltiplas reações. Conforme argumenta LIMA e VLACH (2002), “conhecer o espaço geográfico e o funcionamento da natureza em suas múltiplas reações, de modo a compreender o papel das sociedades em sua construção e na produção do território , da paisagem e do lugar; Identificar e avaliar  as ações dos homens em sociedade e sua consequência em diferentes espaços e tempos, de modo a construir referencias que possibilitem uma participação propositiva e reativa sócio ambientais locais”.            

            A expansão das cidades decorrentes do processo urbanização de industrialização, gera interferência na paisagem urbana, ocasionando diferenças na distribuição da temperatura e precipitação na área urbana.

 

            “A cidade gera um clima próprio  (clima urbano) resultante da interferência de todos os fatores que se processam sobre a camada limite urbana e que agem no sentido de alterar o clima em escala local. Seus efeitos mais direto são percebidos pela população através de manifestações ligada ao conforto térmico, á qualidade do ar, aos impactos pluviais e outras manifestações capazes de desorganizar a vida da cidade  e deteriorar a qualidade de vida de seus habitantes” (MONTEIRO,1976 ).

           

O clima vem adquirindo crescente importância nos estudos ambientais, destacando – se como um dos principais componentes da qualidade ambiental urbana. O enfoque atual concentra-se, essencialmente, na contaminação da atmosfera e nas alterações e sua intensidade de recuperação sobre a qualidade do ar (a poluição atmosférica e seus efeitos sobre a saúde) o conforto térmico (configuração de “ilhas de calor”) e os impactos pluviais concentrados( geradores de frequentes inundações). A ilha de calor representa o fenômeno mais significativo do clima urbano.

            Ao iniciar uma análise do clima urbano, é essencial considerar o sítio, espaço concreto e material sobre o qual a cidade se assenta, e o conjunto de elementos do meio natural que consistiu o marco e o suporte da cidade. Neste contexto, seus aspectos de natureza topográfica e morfológica são fundamentais na correlação com o clima.

            As diferentes morfologias do sítio urbano - uma encosta, um vale, um topo de planalto, uma colina, entre outras, - configuram diferentes comportamentos da atmosfera. E dentro de uma mesma cidade, em pequenas distâncias, podem haver diferenças microclimáticas significativas, resultantes das distintas conformações do relevo, aliadas a outros elementos da paisagem urbana ( diferentes estruturas arquitetônicas, áreas de laser, parques, jardins, arruamentos com pavimentação entre outros).

  

O Clima Urbano de Juiz de Fora

 

 Inserido no complexo serrano da Mantiqueira Setentrional, na Zona da Mata Mineira (43º20’40” W e 21º41’40” S) o município de Juiz de Fora apresenta um relevo fortemente dissecado que “varia de ondulado a montanhoso, geralmente mostrando elevações com topos arredondados, vertentes convexas e côncavo-convexas, terminando em vales planos de larguras variadas” (MARTINS, 1996).

             Constituem o rio Paraibuna e seus afluentes, elementos naturais mais importantes no ordenamento da ocupação do sítio, uma vez que, ao longo de seus terraços, se desenvolvem terrenos de declividades menos acidentadas, com as únicas áreas favoráveis a ocupação em meio a uma topografia agressiva.

 

“Condicionado pelos agentes morfológicos predominantes na região, a ocupação do espaço urbano de Juiz de Fora, desenvolveu-se inicialmente nas várzeas do rio Paraibuna e, na medida de seu adensamento, foi ocupando os vales secundários formados pelos afluentes desse rio. Hoje, já os tendo ocupado em quase sua totalidade cresce em suas vertentes muitas vezes de forma desordenada, acarretando profundas alterações no espaço urbano” (RINCO, 2003).

 

A cidade de Juiz de Fora apresenta o centro denso e diversificado configurando-se como uma área de intensa verticalização, com edifícios de altura média de trinta metros, sem afastamento entre as construções em sua maior parte.

O Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental (LabCAA) do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ao longo dos últimos trinta anos, formou um banco de dados composto por informações diárias processadas pela Estação Climatológica Principal de Juiz de Fora (convênio UFJF/INMET) e também por postos de coleta de temperatura e precipitação distribuídos em vários locais da área urbana de Juiz de Fora (vide anexo, “mapa juiz de fora.cdr”).

Essas informações geraram estudos que comprovam a formação de “ilha de calor”, com uma diferença de temperatura urbano-rural de 10,2 oC no inverno (MARTINS,1996); a distribuição geográfica das chuvas na área urbana de Juiz de Fora (MARTINS, 1998); aumento no número de dias de chuvas, tanto no inverno quanto no verão (MARTINS, 1994). Com relação aos poluentes, foram observados uma concentração de partículas inaláveis na área central da cidade com valores acima dos padrões recomendados (MARTINS, 1998).

 

Uma proposta de ensino da climatologia

 

Os resultados originados de trabalhos acadêmicos acerca do clima urbano de Juiz de Fora, na maioria das vezes, não são transmitidos aos alunos das escolas de ensino fundamental e médio, que pautam os ensinos da climatologia em parâmetros estatísticos vinculados às classificações médias dos estados atmosféricos.

Neste sentido, com o objetivo de colaborar com o processo de ensino e aprendizagem na área da geografia física, o Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental tem produzido um informativo mensal impresso, que procura demonstrar as várias configurações que os elementos climatológicos apresentam no sítio urbano de Juiz de Fora (vide em anexo, “folder.cdr”).

A introdução deste impresso como material motivador do ensino da climatologia, levará os alunos à compreensão do clima como um atributo dinâmico que compõe o sistema natural, influenciando e sofrendo influências das ações humanas. Especificamente em Juiz de Fora, desenvolver nos alunos a capacidade de distinguir os parâmetros estatísticos das combinações médias distantes da realidade, pela percepção das diferenças na distribuição da temperatura e da precipitação no município e assim apreender os mecanismos desencadeadores de fenômenos relacionados à “ilha de calor”, “inversão térmica”, “movimento de massa”, “enchentes”, entre outros.

Desta forma, o acesso dos alunos a estes dados, possibilitaria o avanço dos conhecimentos e noções mais complexas sobre os processos interativos que se estabelecem entre o clima e as características dos diversos espaços habitados.

            Ao observar estes dados, organizados em gráficos e tabelas, o aluno é levado a elaborar conceitos a partir do que foi visualizado, compreendendo assim os fatores que ocasionam as variações na temperatura e precipitação nos diferentes ambientes da cidade. Para esta análise é imprescindível a utilização do Atlas Geográfico Escolar de Juiz de Fora (AGUIAR, 2000), como forma de buscar a espacialização dos fenômenos atmosféricos no município.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

AGUIAR, V. T. B. de. Atlas geográfico escolar de Juiz de Fora. Juiz de Fora: EdUFJF, 2000.

 

BARBOSA, L. B. & ZAVATINE, J. A. Dinâmica pluvial e movimentos de massa: considerações iniciais a respeito de um estudo de caso, região noroeste da área urbana em Juiz de Fora – MG.. Rio de Janeiro:UERJ, 2000. IV Simpósio Brasileiro de Climatologia Geográfica – Clima e Ambiente

 

CHANDLER, T. J. Abslute and relative humidities In TOWNS. In: Bulletin of american meteorological society, v.48, n.6, 1967, p. 394-399.

 

LANDSBERG, H. The urban climates. New York: Academic Press Inc., 1981.

 

MACHADO, P. J. O. Apontamentos de aula., 2002.

 

LIMA, M. H. & VLAC H, V. R. Caminhos de geografia 3. Ed. 5, 2002

 

MARTINS, L. A. A temperatura do ar em Juiz de Fora – MG: influências do sítio e da estrutura urbana. Rio Claro: UNESP/IGCE, 1996. Dissertação de mestrado.

 

-------------. As Possíveis Alterações Climáticas na Cidade de Juiz de Fora - MG In: I Seminário Nacional de Impactos Sócio-ambientais Urbanos: Desafios e Soluções, 2002, Curitiba.
 

-------------. A Distribuição Geográfica das Chuvas e suas Implicações na Área Urbana de Juiz de Fora - MG In: CD-ROM, 1998.
 

-------------. Localização Industrial sob o Ponto de Vista do Controle da Poluição do Ar - O Caso de Juiz de Fora - MG In: CD-ROM, 1998
 

-------------. Localização Industrial sob o Ponto de Vista do Controle da Poluição do Ar - O Caso de Juiz de Fora - MG In: CD-ROM, 1998
 

MONTEIRO, C. A. F. Teoria e clima urbano. São Paulo: USP/IG, 1976. Série Teses e Monografias, n.26.

 

RIBERINO, C. A. O desenvolvimento da climatologia dinâmica do Brasil. In: RIBERINO, C. A. Geografia e ensino. Belo Horizonte: UFMG, 1982. Ano.1 N.2.

 

RINCO, L. Alterações na dinâmica superficial da microbacia de drenagem do Ribeirão do Yungue em Juiz de Fora – MG. Juiz de Fora: EdUFJF, 2003. Monografia de Bacharelado em Geografia.