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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

AVALIAÇÃO DO CONTEÚDO DA CIÊNCIA DO SOLO EM LIVROS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA DO ENSINO MÉDIO

AMORIM, Reis Raul (reisraul@uol.com.br) e MOREAU, Ana Maria Souza Santos

Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais, Universidade Estadual de Santa Cruz

Palavras-chave: Ensino, Geografia, Solo

Eixo: 1.- Aplicação da geografia física ao ensino

Sub-eixo: 1.1.- Ensino Fundamental e Médio

 

 

INTRODUÇÃO

 

A importância do ensino da ciência do solo para os alunos do Ensino Médio deve-se a possibilidade de visualização das inter-relações entre as quatro esferas que constituem a Terra (atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera) e atuam nos processos de formação e evolução dos solos, já que as mesmas atuam como matéria-prima e agente desse processo.

Guerra e Cunha (2001) afirmam que o homem tem dado pouca atenção a esse recurso natural, pelo menos no que diz respeito à sua utilização e conservação, ressaltando que o solo é um recurso que o homem utiliza, sem se preocupar com o período necessário para sua recuperação.

Porém, a atenção dada ao tema floreia apenas por dois aspectos: uma visão agronômica e a outra uma visão ecológica, deixando de aplicar seu estudo segundo uma abordagem geográfica, ou seja, relacionando as configurações espaciais e suas categorias de análise.

A falta de base no que se diz respeito aos aspectos da ciência do solo é para Lima (2002) uma inadequação das aulas ministradas sobre a temática, em conseqüência da própria formação dos professores nos cursos de licenciatura das universidades, que não transpõem os conteúdos referentes ao tema solo para as salas de aula do ensino fundamental e médio. Esta falta de habilidade leva-o a uma única fonte de informação: o livro didático, que na maioria dos casos tratam deste tema de maneira resumida e equivocada.

Assim, pretendeu-se com a presente pesquisa avaliar o conteúdo da ciência do solo nos livros didáticos de geografia do ensino médio quanto à conceituação de solo, formação do solo, propriedades e características, classificação dos solos, formas de uso e aplicação do conteúdo da ciência do solo, possibilitando com isso uma análise técnica dos conteúdos e principalmente, uma identificação dos fatores responsáveis pela dificuldade de aprendizado da ciência do solo nos cursos de Agronomia, Geografia e Biologia.

 

-MATERIAL E MÉTODOS

 

Inicialmente procedeu-se um levantamento dos livros didáticos de geografia mais adotados nas escolas particulares, estaduais e municipais do Sul da Bahia. Após este procedimento, as obras foram pesquisadas e avaliadas quanto ao conteúdo da ciência do solo no que diz respeito aos conceitos apresentados, forma de desenvolvimento do assunto, classificação dos solos, aplicação do conteúdo, inter-relação do assunto com outros temas da Geografia Física. Em seguida, foi realizada pesquisa bibliográfica sobre o tema solos e as metodologias de ensino.

 

-RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Conceituação do elemento SOLO

 

Não existe um consenso quanto ao conceito de solos nos livros didáticos. Alguns autores apresentam uma visão geológica como Sene e Moreira (1998) por exemplo, que afirmam que uma rocha ao sofrer intemperismo, transforma-se em solo. Para Coelho e Terra (2002), solo é a camada superficial da crosta terrestre, um complexo composto de materiais minerais e orgânicos. Lucci (1998) simplifica ainda mais ao afirmar que solo é uma camada superficial de espessura variável.

Outros autores apresentam uma visão biológica e,ou, agronômica como o fazem Oliva e Giansanti (1996) afirmando que os solos constituem-se em uma película delgada de material terroso que recobre as terras emersas e é capaz de sustentar as plantas. Nesta película ocorre permanente atividade de microorganismos (...), que modificam a sua composição química e suas características físicas. Para Magnoli e Araújo (2000) solo é a superfície não consolidada que recobre as rochas (...) formado por fragmentos de rochas e matéria orgânica (...). Assim o solo, completam os autores, é a interseção do mundo orgânico e inorgânico. Para Vesentini (2002) o conceito de solo abrange duas vertentes: uma generalista, onde se designa o chão que pisamos, e o outro se restringe a agricultura.

Adas (1998) conceitua solo segundo a geologia pois o designa como uma rocha suficientemente decomposta enquanto que, para Moreira (2002), o solo é a parte exterior da crosta terrestre em contato direto e indireto com os demais elementos do meio ecológico (o clima e a biota). Para Coimbra e Tibúrcio (2002) solo é um recurso natural não-renovável, formado por rochas intemperizadas, água, ar, matéria orgânica proveniente de vegetais e animais em decomposição e uma miríade de seres vivos – de insetos a microrganismos. Estes autores, portanto, trabalham o conceito numa concepção mais ampla, ambiental, enfocando os processos pedogenéticos e a participação dos organismos.

O contexto em que o conceito de solos é aplicado dificulta a compreensão do leitor, já que não se aplica, na realidade, uma visão geográfica dos solos, onde além de elemento natural, o solo é um elemento vital na construção das relações de configuração do espaço geográfico, que o utiliza como arcabouço das relações históricas que marcam a relação entre a sociedade e a natureza por meio do trabalho.

É viável, a partir do estudo dos solos, ou qualquer outro elemento físico, se aplicar às categorias de análise da Geografia: o território (a luta pela posse da terra/solo) e suas relações políticas e socioeconômicas; a região (é possível estabelecer uma regionalização utilizando como critério a potencialidade dos solos e outros critérios) e paisagem, pois, segundo Santos (1996), os solos são perceptíveis aos nossos olhos, perceptíveis aos sentidos.

Bigarella et al. (1996) contemplam, no conceito de solo, uma visão geográfica pois, segundo os autores, solo é um material mineral e/ou orgânico inconsolidado, poroso, finamente granulado, com natureza e propriedades particulares, herdadas da interação de processos pedogenéticos com fatores ambientais envolvendo as variáveis: material de origem, clima, organismos vivos, relevo e tempo. Desse modo, os solos são capazes de dar sustento à vida de vegetais terrestres superiores.

Curi et al. (1989) completa o conceito ao afirmar que solo é um material mineral e/ou orgânico inconsolidado na superfície da terra que foi sujeita e influenciada por fatores genéticos e ambientais do material de origem, clima (incluindo efeitos de umidade e temperatura), macro e microrganismos, e topografia, todos atuando durante um período e produzindo um produto-solo, o qual difere do material do qual ele é derivado pelas propriedades e características físicas, químicas, mineralógicas, biológicas e morfológicas.

Para Resende et al. (2002), o solo é resultante da combinação de clima, organismos, material de origem (rocha) e tempo, deixando de mencionar a ação do relevo e sua influência na dinâmica da água e condição de drenagem.

 

-Formação dos solos

 

  Verificou-se que a ciência do solo, nos livros didáticos, inicia-se com a conceituação de solo, sendo necessário um entendimento anterior dos processos de desagregação e dissolução das rochas – intemperismo. Os livros pesquisados quase não abordam o tema solos, e quando isto acontece, ou o fazem de maneira sucinta e simplória, ou apresentam conceitos equivocados.

Por exemplo, sobre a gênese do solo, Adas (1998), Coimbra e Tibúrcio (2002) afirmam que o resultado final do processo de intemperismo é a formação do solo, no entanto, sabe-se, que o produto do intemperismo pode sofrer diagênese e transformar-se em uma rocha sedimentar ou pode sofrer pedogênese originando um solo, os caminhos, portanto, são distintos e os produtos obtidos também.

Outros autores como Vesentini (2002), Magnoli e Araújo (2000) e Sene e Moreira (1998) em momento algum fazem em suas obras, uma abordagem sobre intemperismo, que é um pressuposto para o entendimento do conteúdo referente a solo. Assim, o ensino da geografia, apesar de tantas teorias, continua muito tradicional e fragmentado da realidade, tornando-se pouco interessante e de pouca utilidade para seus alunos.

Dentre os livros didáticos analisados, apenas Adas (1998) trata com ênfase, os processos de contração e dilatação que os minerais das rochas sofrem com a oscilação da temperatura levando a rocha a fragmentar-se no decorrer do tempo. A referida obra retrata um tipo de intemperismo físico comum nas regiões tropicais e este tipo de contextualização permite ao aluno estabelecer conexão com o ambiente em que ele vive, tornando o estudo dos solos uma ciência aplicada.

O autor diferencia ainda o intemperismo físico causado pela oscilação da temperatura (termoclastia) - regiões quentes e úmidas, daquele ocasionado pela ação do gelo (criosclastia) - países de clima temperado e ainda, o  intemperismo ocasionado pela ação eólica (abrasão) - regiões mais secas.

Adas (1998) caracteriza os ambientes mais propícios a ocorrência do intemperismo químico: climas úmidos e atribui ao intemperismo químico, o papel de agente modelador do relevo e afirma que animais e vegetais também participam do processo de intemperismo, ou atuando como agente do intemperismo físico (desagregação) ou como agente do intemperismo químico (decomposição).

Os livros didáticos, na tentativa de simplificação da exposição do processo de formação do solo, deixam de abordar algumas temas importantes., como por exemplo, relação entre mineralogia do solo e tipo de material de origem, relevo como condicionador da drenagem e a suscetibilidade a erosão, formação de solos em ambientes climáticos diferenciados, etc.

Para Adas (1998) o solo deve ser compreendido como um corpo tridimensional, que possui comprimento, largura e espessura, citando a atuação de processos pedogenéticos e fatores de formação. Segundo o autor, os fatores de formação do solo atuam de maneira lenta e exige-se de 100 a 2500 anos para a sua formação. Essa amplitude deve-se a variações da umidade, amplitudes térmicas, ação biológica e a resistência da rocha ao desgaste.

Coelho e Terra (2001) indicam diversos fatores atuando na formação do solo: temperatura, vento, água corrente, chuva (clima), tipo de topografia (relevo), cobertura vegetal (organismos) e tipo de rocha matriz. Não se referem ao fator tempo como enfoca Resende et al (2002) que descreve: "Clima e organismos atuam sobre o material de origem (rocha) e transformam esse substrato inicial em solo, com o correr do tempo."

O estudo dos fatores de formação é fundamental para que o aluno passe a compreender que os solos são formados da combinação destes, ou seja, clima, organismos, material mineral, relevo e tempo. Tal visão permite um entendimento do porquê da diversidade de solos encontrados no mundo e conseqüentemente das mais variadas formas de uso.

È importante enfatizar que existem solos com idades semelhantes, mas com estágios de evolução do perfil diferenciados, isso porque os fatores de formação do solo, segundo Resende et al (2002) e Vieira (1988), relacionam-se de forma particular em cada situação ambiental.

Ao analisar a obra de Oliva e Giansanti (1996) encontra-se a afirmação que os solos vivem em equilíbrio com os fatores que determinam sua formação e suas característica. Os autores apresentam o solo como um ecossistema aberto, cuja função não se restringe a apenas transferir nutrientes para as plantas, pois o mesmo estabelece uma relação de troca com outros sistemas, podendo ganhar ou perder energia externa, como por exemplo, a ação do clima, o transporte de sedimentos, os fertilizantes artificiais, a lixiviação e as colheitas que representam entradas e saídas de energia ao “sistema solo”.

 

 

3.3. Características e Propriedades dos Solos

 

Para de classificar os solos e conseqüentemente realizar trabalhos de planejamento e uso da terra é imprescindível conhecer e descrever as características e propriedades dos mesmos, sejam elas morfológicas, físicas, químicas ou mineralógicas. Tais feições aparecem como resultado da atuação combinada dos fatores de formação e dos processos pedogenéticos. Para o aluno do ensino médio é de fundamental importância o entendimento da diversidade de solos, o potencial de utilização dos mesmos, conservação, manejo, recuperação de áreas degradadas, processos erosivos, contaminação, etc. Assim, tal entendimento torna-se dificultado sem ao menos mencionar algumas dessas características adquiridas durante sua formação.

A análise, desta temática nos livros didáticos revelou que são poucos os autores que utilizam este item como subsídio para classificação dos solos. Nesta tentativa, Moreira (2002) define textura do solo como a forma de organização de suas partículas; quando este conceito é de estrutura. Resende et al (2002), define textura como a proporção relativa das partículas que constituem o solo por tamanho, isto é, argila, silte e areia. Curi et al. (1989), conceitua granulometria como as quantidades das frações areia, silte e argila, separadas por tamanho. Assim, Moreira (2002), faz um equívoco quando dissocia textura de granulometria, uma vez que a granulometria das partículas define as classes texturais. Sugere-se que o autor substitua o termo “Textura” por “Estrutura”, e associe os termos “Textura e Granulometria”.

Moreira (2002) comenta ainda sobre a possibilidade de diferenciar os solos quanto os aspectos físicos (se arenoso ou argiloso) ou segundo os aspectos químicos (o teor de elementos químicos responsáveis pela fertilidade). No entanto, este tipo de classificação é pouco precisa pois a classes textural por si só não pode ser utilizada como parâmetro para avaliação da capacidade de uso dos solos e resistência dos mesmos aos processos erosivos. Uma informação complementar a esta seria o tipo de argila e a sua atividade.

Adas (1998) menciona as propriedades do solo como por exemplo, a profundidade, textura e fertilidade de forma direta; e granulometria e estrutura do solo indiretamente ao referir-se a erosão e degradação dos solos.

 

 

3.4. Horizontes do solo e Classificação

 

Este item é pouco contemplado nos livros didáticos e os que os abordam o fazem de maneira simplória e generalizada. Por exemplo, segundo seus autores, todos os solos apresentam a mesma seqüência de horizontes, ou seja, A-B-C e R. Esta conotação deixa implícito que os solos, independente do seu tempo de formação e características, teriam a mesma nomenclatura. Assim, todos os solos seriam formados da mesma maneira, sob as mesmas condições e teriam o mesmo grau de evolução. Além disso, há uma tendência enorme de enfatizar a existência do horizonte O, generalizando a sua ocorrência e deixando de mencionar que o referido horizonte é comum em solos desenvolvidos sob floresta ou regiões frias onde o aporte de matéria orgânica é intenso ou quando há fatores que limitam a velocidade de decomposição da mesma, respectivamente. Portanto, exige-se condições específicas para a sua formação.

Os livros não fazem distinção do horizonte A quanto à espessura, cor e teor de matéria orgânica. Assim, o horizonte A da Floresta Amazônia seria o mesmo do semi-árido e das estepes. É necessário deixar claro que os horizontes são diferenciados pelos processos pedogenéticos (transformação, remoção, translocação e adição). A generalização que os livros apresentam ao afirmar que no horizonte A concentra-se a matéria orgânica e que o horizonte B é formado por rocha intemperizada, água e ar, é errônea.

Todos os livros didáticos analisados utilizam como sistema de classificação dos solos o sistema natural que, segundo Lepsch (2002), se baseia em critérios geográficos e avaliações da ação conjugada dos cinco fatores de formação do solo, agrupando os solos em três categorias:

1.Ordem Zonal – são agrupados os solos bem desenvolvidos ou refletindo a influência dos fatores clima e organismos, ativos da formação do solo.

2.Ordem Intrazonal – situam-se aqueles que têm características que refletem mais a influência do relevo local, e/ou do material de origem, do que do clima ou organismos. 

3.Ordem Azonal – são aqueles que não têm características bem desenvolvidas, seja devido ao pouco tempo de sua formação.

Tal classificação prioriza um fator de formação do solo em detrimento dos demais, com isso, relega a segundo plano a concepção de ação conjunta dos mesmos. Pode-se afirmar que o clima atua com maior intensidade que o relevo ou a resistência da rocha matriz na formação dos solos?

Magnoli e Araújo (2000) afirmam “a formação dos solos é condicionada essencialmente pelos climas”, entrando trata-se de um pressuposto largamente aceito que a existência de diferentes tipos de solos é controlada por cinco principais fatores de formação: clima, organismos, material de origem, relevo e idade da superfície do terreno.

Vesentini (2002), Lucci (1998), Coelho e Terra (2002), Coimbra e Tibúrcio (2002) e Sene e Moreira (1998) fazem descrições de classes de solos utilizando os termos como solo de Terra-Roxa, solo Massapê, solos Hidromórficos, solos de Löess entre outros.

È dispensável para os alunos do ensino médio os conteúdos referentes aos tipos e características dos horizontes diagnósticos superficiais e subsuperficiais, mas que mencione as classes de solos mais representativos do Brasil, utilizando o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos da EMBRAPA (1999).

 

 

3.5.Aplicação da Ciência do Solo

 

O enfoque da ciência do solo nos livros didáticos restringe-se a aplicação dos conhecimentos para a produção agrícola, aborda principalmente aspectos relacionados às técnicas aplicadas ao campo e os impactos do mesmo.

Por exemplo, Sene e Moreira (1998) mencionam o uso nocivo de insumos agrícolas. Adas (1998), Coelho (2002), Coimbra e Tibúrcio (2002), Lucci (1998) e Oliva e Giansanti (1996) relacionam o uso agrícola dos solos e os processos erosivos.

Oliva e Giansanti (1996) reconhecem o homem como agente ativo de alteração dos solos, especialmente na adoção de práticas agrícolas. Apresenta vários aspectos que interferem na capacidade do solo de serem bem aproveitados para a agricultura como a maior ou menor presença de água; fertilidade; maior ou menor propensão à erosão e acidez.

Uma outra vertente que poderia ser utilizada na aplicação do conteúdo da ciência do solo diz respeito ao uso do solo urbano, no entanto, este enfoque foi registrado apenas nas obras de Sene e Moreira (1998), Adas (1998). Coelho (2002), Coimbra e Tibúrcio (2002) o fazem, mas, de maneira tímida, retratando apenas os impactos ambientais urbanos.

Para Sene e Moreira (1998) o solo urbano é um substrato que sofre influências e impactos relacionados ao uso e ocupação humana para fins, predominantemente, econômicos. Os autores enfatizam os problemas relacionados aos depósitos de lixo, contaminação dos lençóis de água por dejetos industriais e de esgotos.

Adas (1998) retrata muito bem o solo urbano ao referir-se aos movimentos de massa decorrentes da ocupação das encostas pelas minorias sociais, que, sem o auxílio técnico devido, constroem seus barracos em áreas de risco, levando a catástrofes sociais e ambientais.

Sugestiona-se que os livros de Ensino Médio enfatizassem problemas relacionados à mecânica dos solos (erosão e movimentos do subsolo), enfocando assim as áreas de risco para assentamentos urbanos, deixando de restringirem-se aos aspectos ligados à fertilidade e uso agrícola.

Outro enfoque pouco abordado nos livros didáticos é o impacto ambiental decorrente da exploração descontrolada de aqüíferos em terrenos sedimentares ocasionando a subsidência, com sérias conseqüências para a construção civil. Este processo ocorre em cidades como Tóquio e Cidade do México.

Por fim, um tema para a aplicação da ciência do solo seria a natureza do solo e sua interação com as condições atmosféricas, quanto se trata da questão da impermeabilidade do solo urbano. A impermeabilização gera problemas para o microclima das cidades e para a manutenção de seus lençóis freáticos. Pouco se fala sobre as compactações do solo decorrente das edificações urbanas, que afeta o desenvolvimento saudável de árvores e áreas verdes, além de aumentar a quantidade de calor que o solo absorve e armazena, reduzindo seu arejamento e comprometendo a percolação das águas pelo solo, levando as famosas enchentes que destruem tudo por onde passam.

 

4.CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Diante do que foi avaliado, pressupõe-se que a dificuldade de compreensão da ciência do solo pelos graduandos de geografia, agronomia e biologia diz respeito, principalmente, a forma fragmentada e não seqüenciada dos assuntos nos livros didáticos, impossibilitando, com isso, a construção do conhecimento do objeto de estudo – solo. Magnoli (2002) questiona: como discutir a erosão dos solos, sem previamente, construir passo a passo os conceitos de solo e erosão?

Sendo o solo um produto da interação de processos pedogenéticos com fatores ambientais, então, como estudar os solos, sem anteriormente, compreender Elementos de Geologia (rochas e minerais; tempo geológico), Noções de Climatologia (temperatura, precipitação), Geomorfologia (feições de relevo e sua relação com a drenagem e erosão), Biogeografia (comportamento dos organismos e sua distribuição espacial) e Hidrografia (Ciclo Hidrológico)? O aluno, desde o ensino fundamental, deve ser constantemente estimulado a perceber a inter-relação entre estas ciências e que o conteúdo das mesmas estão interligados. Assim, a concepção de solo passa a ser de um elemento a mais da paisagem e portanto um sistema em equilíbrio com os demais elementos da natureza.

Deve-se buscar uma contextualização na abordagem do tema, para que assim, o aluno, visualize que o conhecimento e o manejo dos solos estão presentes em seu cotidiano. Exemplos que levem o aluno a diferenciar os solos de sua cidade com as demais partes do mundo, uso adequado do sistema solo, enfocando aspectos como acúmulo de lixo no quintal de casa ou em terrenos baldios levando a contaminação do lençol freático; são algumas das abordagens que podem trazer a ciência do solo para o dia a dia do estudante.

O conteúdo referente a solos geralmente é contextualizado para a atividade agrícola, não os aproximando do tema proposto, pelo fato da maioria do alunado ser da zona urbana. È indiscutível a importância do solo para atividades agropecuárias, mas é necessário também que se dê ênfase ao uso e valor do solo urbano.

Além disso, a prática ainda é o método mais eficaz de aprendizagem, e muito pouco se sugestiona nos livros didáticos a aplicação deste método para a compreensão do tema. Conhecendo o espaço onde a escola está inserida, os aspectos físicos e socioeconômicos ao seu redor, o aluno será capaz de reconhecer os tipos de solo da área, como estão sendo utilizados e os impactos ambientais decorrentes da falta de planejamento no uso.

É preciso deixar o aluno descobrir, enfocar criticamente a questão ambiental e as relações sociedade/natureza, relacionar o que aprende em sala de aula com seu meio, levar o aluno a interpretar problemas sócio-espaciais.

Não se pode negar que o solo é, na realidade, um dos fundamentos essenciais do desenvolvimento e desempenha principalmente quatro papéis: o solo é fonte de alimentos; o solo é fonte de materiais e energia; o solo exerce grande influência sobre o comportamento das águas; e o solo é, enfim, o suporte das construções do homem, podendo assim, ser analisado a partir das categorias de análise do espaço geográfico.

 

 

 5. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 

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