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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


O APREENDIDO DE CARTOGRAFIA DOS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL DE  5a A 8a  SÉRIE NAS ESCOLAS ESTADUAL E MUNICIPAL DE ITAPÉ-BA.

 

Aryany M. dos Vales Santana  e  Eliana Trindade F. Fontes

Ednice de Oliveira Fontes

Universidade Estadual de Santa Cruz


 

Palavras-chave: Ensino e Cartografia
Eixo 1: Aplicação da Geografia Física ao Ensino
Sub-eixo 1.1: Ensinos Fundamental e Médio
 

 

A Geografia tem um papel importante pois propõe uma leitura de mundo para tornar compreensível a relação sócio-espacial. Neste aspecto deve-se considerar  que existe uma linguagem específica na qual é necessária uma alfabetização cartográfica.

Entretanto, as formas mais usuais de se trabalhar a linguagem cartográfica não garantem que os alunos construam os conhecimentos básicos para atender as diversas necessidades, das mais cotidianas às mais específicas.

Essa pesquisa realizou-se com o objetivo de dar enfoque à importância da Cartografia no Ensino Fundamental II, verificando o grau de interesse e as dificuldades apresentadas pelos alunos de 5ª a 8ª série, identificando as metodologias e avaliações utilizadas pelos três professores de Geografia dessas escolas, procurando verificar  até que ponto o ensino da Cartografia está associado ao cotidiano dos alunos e se existe  interfaces com outras disciplinas.

Este tema é de demasiada importância pois pode auxiliar na reformulação de metodologias e avaliações dos professores contribuindo para que seja dada a ênfase necessária a linguagem cartográfica no Ensino Fundamental II, já que a escola é um lugar para exercitar o pensamento crítico e para construir referenciais capazes de ajudar na formação de alunos autônomos.

Esta pesquisa é do tipo explicativa, e tem uma abordagem qualiquantitativa, pois busca a compreensão, e ao mesmo tempo, a explicação do apreendido de cartografia dos alunos das seguintes escolas: Centro Educacional de Itapé e  Escola Comunitária Alzair Martins da Silva ambas localizadas no Município de Itapé-Bahia. Para sua realização  foi feito um levantamento bibliográfico prévio, um  trabalho de campo no qual  foram realizadas entrevistas com todos os três professores de Geografia de 5ª a 8ª série das referidas escolas.  Através de amostragem aleatória simples, os alunos responderam a questões formuladas   com atividades correspondentes aos conteúdos da série anterior, já que a coleta realizou-se no período de Março a Maio/2003, início do ano letivo. Os questionários continham os principais temas trabalhados na cartografia, conforme recomenda os Parâmetros Curriculares Nacionais, em suas respectivas séries. 

Universo e Amostra da pesquisa:

Série

Total de alunos

Amostra

Nº de alunos selecionados por turma (em média)

Porcentagem

5ª (8 turmas)

287

55

7

19

6ª (6 turmas)

198

38

6

19

7ª (5 turmas)

151

28

5

18,5

8ª (3 turmas)

105

20

7

19

Fonte: Pesquisa de Campo, 2003.

A partir dos dados coletados, desde os estágios iniciais da pesquisa, foram sendo desenvolvidos diferentes momentos de análise e interpretação dos mesmos, utilizando-se gráficos, tabelas e finalizando com um relatório. Estes instrumentos de pesquisa nos ajudaram a  obter a compreensão do problema e atingir os objetivos propostos na pesquisa.

Resultados e Discussões

Análise das entrevistas com os professores 

Dos três professores entrevistados, apenas uma é licenciada em Geografia. Os outros dois tem formação distinta: uma professora fez apenas magistério e admitiu ter dificuldade para trabalhar os conteúdos da alfabetização cartográfica com seus alunos e o   outro professor é estudante de graduação de Agronomia e Administração. Essa diversidade, na formação dos professores pode estar ocasionando  algumas deficiências no processo ensino-aprendizagem da Geografia enquanto disciplina e da  alfabetização cartográfica como conteúdo importante  no entendimento e interpretação de fenômenos geográficos.

Segundo os professores, os recursos existentes nas escolas e que podem ser usados para se trabalhar conteúdos de cartografia  são poucos e encontram-se na sua maioria desatualizados: existem alguns mapas, globos e quase não tem Atlas, são estes os recursos que eles costumam utilizar em suas aulas. De acordo com os professores, os alunos quando chegam a 5ª série não têm as noções básicas de Cartografia, na realidade não sabem nem os princípios da orientação, e apresentam bastante dificuldade. O trabalho é iniciado com atividades consideradas simples: desenhos de trajetos do cotidiano, brincadeiras de orientação em sala de aula, até chegar em atividades mais complexas como leitura e interpretação de mapas.

Na avaliação dos  professores  os alunos chegam ao Ensino Fundamental II e ao  Ensino Médio com "medo" de mapas, devido à falta de alfabetização cartográfica no Fundamental I,    esta deficiência prossegue durante toda a vida escolar do aluno,  e tem se refletido no ensino superior, principalmente nos cursos de geografia. Entre as maiores dificuldades dos alunos em relação a Cartografia estão: cálculo de escala, fuso horário, manuseio de mapas e globos, interpretação de mapas, etc. Isso porque muitos deles não conseguem distinguir a função da legenda, tão pouco diferenciar os mapas pelo título. Muitos acham que quando o formato do desenho é igual eles estão mostrando a “mesma coisa”, e para a maioria a “mesma coisa” pode ser traduzida na Divisão Política do Brasil por exemplo.  Isso  demonstra, a falta de contato dos alunos com os instrumentos da Cartografia.

Os professores disseram que avaliam seus alunos através da  construção e interpretação de mapas, e também com o uso de metodologias  mais tradicionais como as cópias de mapas dos Atlas e/ou simples pintura de alguns aspectos ou cidades, por exemplo.

Apesar de demonstrarem um pouco de insegurança durante a entrevista e de deixarem transparecer a falta de domínio em alguns conteúdos cartográficos, e de cometerem alguns equívocos nas suas formas de avaliar os alunos, estes admitiram a  importância da Cartografia no ensino de Geografia e até de outras disciplinas, e na contribuição desta para a formação da cidadania.

Toda esta problemática advém da falta de políticas educacionais sérias, pois no Estado da Bahia é comum encontrar pessoas de qualquer área do conhecimento dando aulas de geografia, isso porque ainda deve perpetuar na cabeça de nossos dirigentes que a Geografia é menos importante que a Matemática e o Português. 

Análise das atividades desenvolvidas com os alunos 

Foi dado um Mapa mudo da América do Sul  para alunos da 5ª e  solicitado que eles identificassem  e localizassem os países que faziam limites com o Brasil, do total de alunos da amostra 45% não responderam e  55% erram. Este é um dos conteúdos que segundo os PCN´s deve ser trabalhado desde o Ensino Fundamental I, mas de acordo com as análises da atividade proposta acima, percebe-se que estes alunos estão chegando à 5ª série sem terem noção de limites e do próprio formato do desenho do Brasil. Questões de localização são fundamentais para o aprendizado em geografia.  Para os alunos da 6ª série, foi trabalhada uma questão semelhante, nesta pedia-se que eles localizassem no Planisfério mudo o Brasil, apenas 21% dos alunos acertaram localizar o país. Este resultado nos mostra o pouco contato que estes alunos têm com os mapas em sala de aula e em casa também.

Para os alunos da 7ª e 8ª séries, foram dados dois mapas para que os mesmos de acordo com o titulo de cada um identificassem sua tipologia, pois o titulo é um dos primeiros passos para uma leitura correta dos mapas, na 7ª série cerca de 40% dos alunos acertaram, mas na 8ª apenas 20% conseguiram identificar os tipos de mapas expressos no papel. Ou seja, estes alunos estão chegando na Porta de entrada para o Ensino Médio sem saberem distinguir os tipos de mapas que podem ser cartografados. 

Dentre as atividades distribuídas, uma dizia respeito à escala. Distribuiu-se os mapas e foi pedido aos alunos da 5ª, 7ª e 8ª  série que identificassem os tipos de escala ( se gráfica ou numérica) que estavam nos mapas dados, e a média de acertos entre eles foi de 35%. Verificasse aí, a dificuldade com um dos principais conhecimentos da Cartografia que é a Noção de escala, pois sem este conhecimento não conseguimos ter a noção real dos fatos e fenômenos cartografados.  Para os alunos da 6ª série,  pediu-se que eles fizessem a conversão de uma escala dada de cm para km e apenas 8% acertou, essa questão demonstra que as dificuldades não são somente com a geografia, pois este assunto também é tratado na matemática. No decorrer do trabalho foram feitas outras atividades com conteúdos da cartografia indicados nos PCN´s,  e em nenhuma delas conseguimos obter acima de 70% de acertos no geral.

Conclusão

 A Cartografia é uma ferramenta indispensável para a compreensão geográfica, mas muitos professores e alunos desconhecem a utilidade da linguagem cartográfica no ensino de todas as disciplinas e principalmente na Geografia.

Analisando esta pesquisa realizada em duas escolas do Estado da Bahia  de 5ª a 8ª chegamos a algumas conclusões:  1) Os alunos chegam na 5ª série sem uma alfabetização cartográfica, e no decorrer das séries do Ensino Fundamental II continuam apresentando dificuldades que podem estar associadas ao fato de não terem apreendido as noções básicas da cartografia durante o Ensino Fundamental I. 2) Mais da metade dos alunos erraram questões sobre coordenadas, fusos horários, identificação de principais paralelos, do meridiano de Greenwich, e nenhum aluno conseguiu identificar as zonas térmicas da Terra. Esses são conhecimentos básicos no ensino de geografia. Esses erros refletem que existe algum problema no processo de ensino/aprendizagem da geografia.

Toda esta situação nos remete a  algumas reflexões: 1)  Qual é a geografia que esta sendo “ensinada” em sala aula?  2)  Quem é o profissional que está dando aula de geografia em nossas escolas? 3) Que profissional de geografia está sendo formados nas Faculdades e Universidades?

Verificar e analisar o apreendido da Cartografia pelos alunos do Ensino Fundamental II nas escolas de Itapé foi um exercício  interessante, pois as dificuldades apresentadas pelos alunos tais como: falta de alfabetização cartográfica, dificuldades na construção e leitura de mapas, falta de domínio e compreensão da linguagem cartográfica;  refletem o despreparo de alguns professores que muitas vezes quando não dominam determinado conteúdo termina, segundo os alunos “passando por cima”, ou seja, não dão a devida importância, e um exemplo clássico disso são os  conteúdos de Fuso horário e escala.  Na  pesquisa notou-se uma dissociação entre o discurso e a prática.

Portanto, apesar dos esforços empreendidos no Estado da Bahia, ainda restam grandes problemas a serem enfrentados. A cobertura do ensino fundamental limita-se a 80% da população em idade escolar, e a do ensino médio atinge menos de 40%da faixa etária. A qualidade do sistema educacional é comparável com a média do Nordeste, inferior, portanto, ao que seria de se esperar, dado o nível de desenvolvimento do Estado em outros setores. A iniqüidade dentro do sistema educacional existente contribui para perpetuar e ampliar desigualdades sociais que só poderão ser minoradas através de uma boa educação escolar para toda a população.

Referências Bibliográficas 

Ministério da Educação e Cultura.  Parâmetros Curriculares Nacionais-Geografia. Brasília, 1997. 

 

SOUZA, J. G. e KATUTA, ª M. geografia e Conhecimentos Cartográficos: A Cartografia no Movimento de Renovação da geografia Brasileira e a Importância do uso de Mapas. São Paulo: Unesp, 2001.