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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 

PRÁTICA DE CAMPO EM GEOLOGIA E GEOMORFOLOGIA: UMA EXPERIÊNCIA MULTIDISCIPLINAR


Edison Ramos Tomazzoli(edison@cfh.ufsc.br)

Joel Robert Marcel Pellerin

 

 

 

 

Departamento de Geociências – Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, Campus Trindade, Florianópolis, SC

 


Palavras-chave: Prática de campo, ensino, geografia

Eixo 1: Aplicação da Geografia Física ao Ensino

Sub-eixo 1.2: Pós-graduação e formação profissional

 


Aspectos Gerais

A concepção de novas disciplinas de caráter prático e teórico-prático a serem incorporadas no currículo de cursos de graduação em geografia representa sempre um grande desafio: a elaboração de metodologias e procedimentos adequados ao desenvolvimento do tema.

A disciplina Prática de Campo em Geologia e Geomorfologia foi criada no Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina no primeiro semestre de 1998, como disciplina optativa. Possui carga horária semanal de 6 horas, totalizando uma carga horária semestral de 108 horas-aula, distribuídas entre atividades teóricas, teórico-práticas e trabalhos de campo. Dentre seus objetivos, destaca-se o de propiciar aos alunos de graduação em geografia uma mais completa integração dos conteúdos anteriormente ministrados em disciplinas como geologia, geomorfologia, fotointerpretação e cartografia, por meio de trabalho prático.

Etapas da disciplina

De uma maneira geral os trabalhos teórico-práticos que constituem a disciplina podem ser divididos em 4 etapas: 1a etapa – conceitos fundamentais e trabalhos preparatórios à etapa de campo, 2a etapa – trabalho de campo, 3a etapa – sistematização dos dados, 4a etapa – confecção dos mapas e textos explicativos.

Esta disciplina costuma ser ministrada por dois, eventualmente por três professores, devido à necessidade do acompanhamento das diversas equipes durante os trabalhos de campo.

Um dos primeiros passos é a escolha da área a ser mapeada, por parte dos professores. Em face ao tema da disciplina, a área deve, a princípio, possuir um contexto geológico-geomorfológico variado, para facilitar o processo didático. O mapeamento costuma ser de semi-detalhe, nas escalas 1:10.000 ou 1:25.000. Por questões operacionais, é interessante que a área de estudo não fique muito distante e tenha fácil acesso. O tamanho da área vai depender do número de alunos inscritos.

A 1a etapa – conceitos fundamentais e trabalhos preparatórios à etapa de campo, inicia com a exposição dos conceitos e técnicas de mapeamento e cartografia geológico-geomorfológica, bem como elementos de geologia e geomorfologia da área a ser mapeada. Nessa etapa é feita a divisão dos inscritos em pequenas equipes de dois ou três alunos; cada equipe fica responsável pelo mapeamento de um setor da área escolhida. A partir desse momento, as equipes passam a trabalhar cada uma em seu setor, selecionando cartas plani-altimétricas, imagens aéreas e realizando trabalhos de fotointerpretação preliminar, sempre sob a supervisão dos professores, no sentido de preparar os trabalhos de campo subseqüentes.

A 2a etapa - trabalhos de campo é parte fundamental da disciplina e tem uma duração média de cerca de oito dias. Para facilitar a participação dos alunos, procura-se, dentro do possível, programar este período de forma com que coincida, parcialmente, com finais de semana e feriados. O transporte é feito utilizando-se veículos do setor de transportes da UFSC. No campo, os trabalhos consistem na identificação e caracterização de feições geológicas e pedológicas, correlacionando-as com as geomorfológicas. Além do exercício da orientação no terreno com a contínua identificação dos pontos-estação na carta ou fotografia aérea, são elaboradas descrições em caderneta, medição de estruturas geológicas, utilizando-se bússola, tradagens e descrições de perfis, além da amostragem de rochas, sedimentos e solos.

Os trabalhos de sistematização dos dados (3a etapa), que sucedem os de campo são realizados em laboratório e sala de aula. Além da criteriosa descrição das amostras coletadas são realizados trabalhos de fotointerpretação que culminam com a confecção de overlays, que, além dos dados fotointerpretativos, são elaborados também, a partir dos dados de campo e da caracterização de amostras coletadas. Os overlays são a base para a elaboração dos mapas geológico e geomorfológico.

A 4a etapa compreende a elaboração dos mapas geológico e geomorfológico, bem como do relatório final sob a forma de texto explicativo. Os mapas são confeccionados sobre cartas plani-altimétricas de escala 1:10.000 ou 1:25.000, a partir dos overlays elaborados por fotointerpretação, na etapa anterior. A elaboração dos relatórios, sob a forma de textos explicativos dos mapas e das feições de campo, constitui-se na etapa final da disciplina.

Discussão das questões operacionais e metodológicas

 

No decorrer da aplicação da disciplina, foram identificadas algumas questões de cunho operacional e/ou metodológica que merecem ser discutidas.

 

Uma primeira questão, de caráter operacional, diz respeito ao tempo a ser dedicado para os trabalhos de campo. De uma maneira geral, o aluno do curso de graduação em Geografia da UFSC não tem disponibilidade para realizar oito dias de trabalho de campo, em regime integral. Como concluiu-se que oito dias seria o tempo mínimo para o aluno adquirir prática de campo razoável, optou-se por dividir esse período em duas etapas, cada uma de quatro dias consecutivos, em finais de semana (quinta, sexta, sábado e domingo). Eventualmente esse período é colocado de forma a englobar algum feriado na quinta ou na sexta-feira. Esse procedimento gera uma sobrecarga de trabalho a professores e alunos que tem de dispor de seus fins de semana e feriados, porém essa foi a única alternativa viável à estruturação da disciplina. Mesmo assim, por vezes, fica difícil para alguns alunos, (principalmente para os que estudam e trabalham), abrir mão dos compromissos em três ou quatro dias úteis. Esse é um dos motivos de a disciplina ser oferecida em caráter optativo.

Outro motivo pelo qual a disciplina é oferecida em caráter optativo diz respeito à metodologia empregada. Os alunos inscritos são divididos em equipes com três no máximo quatro participantes. Um número maior de integrantes não é bom, pois o grau participação tende a cair muito quando a equipe é mais numerosa. Como os professores precisam de acompanhar as equipes durante os trabalhos de campo, fica inviável um número de inscritos na disciplina muito superior a doze alunos, já que no campo os professores podem acompanhar a três, no máximo a quatro equipes. Em função disso, fica praticamente impossível oferecer a disciplina em caráter obrigatório, quando então as turmas seriam bem maiores.

O transporte tem sido um problema operacional constantemente enfrentado. O setor de transportes da UFSC, embora razoavelmente equipado, parece que não foi concebido para atender as demandas diretamente relacionadas ao ensino. Mesmo com as áreas de mapeamento situadas próximo à universidade, há uma grande dificuldade devido ao péssimo atendimento, por parte da instituição. Os motoristas, por não receberem diárias de campo (exatamente devido à curta distância das viagens) aparentemente não ficam satisfeitos em trocar seu afazeres cotidianos de pequenos transportes urbanos de cargas e de membros da administração da universidade, por tarefas pouco mais trabalhosas, porém legitimamente acadêmicas, como o envio e recolhimento de equipes de alunos e professores no campo em horários determinados. Isso tem gerado atritos constantemente, além de numerosas faltas e atrasos provocados indiscutivelmente pela má vontade no atendimento. Talvez essa tenha sido a pior dificuldade encontrada no desenvolvimento da disciplina. A administração central da universidade tenta contornar esse problema contratando ônibus de empresas privadas de turismo, para cobrir determinados dias, principalmente os feriados e fins de semana. Acredita-se, porém, que o procedimento correto seria fornecer condições administrativas e orientar os servidores sobre a necessidade de um bom atendimento às atividades acadêmicas: as atividades-fins que justificam a existência da universidade pública.

Apesar desses contratempos e dificuldades que sempre aparecem porque são inerentes a qualquer proposta nova, em implantação, a sistemática dessa disciplina tem se mostrado plenamente satisfatória pois propicia a integração dos conteúdos anteriormente ministrados em disciplinas como geologia, geomorfologia, fotointerpretação e cartografia. Além do mais, tem promovido o contato direto dos alunos de graduação em geografia com procedimentos básicos de pesquisa utilizados em geografia física e que são usualmente utilizados do desenvolvimento de monografias de conclusão de curso (1), dissertações e teses de pós-graduação, bem como em artigos acadêmicos, que foram gerados a partir dos trabalhos da disciplina (2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11).

Referências

 

1. BARNETCHE, D. Compartimentação Geomorfológica da Bacia Hidrográfica do Rio Valdik, Morro do Cantagalo e Ponta do Goulart, Florianópolis-SC. 2003. Trabalho de Conclusão de Curso. Depto. de Geociências, UFSC, 59p.

 

2. PONTELLI, M. E., PELLERIN, J. R. G. M., TOMAZZOLI, E. R. Morfodinâmica e Estratigrafia dos Depósitos Aluviais na Bacia do Rio da Vargem do Braço - SC In: III Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2000, Campinas - SP.  Anais. , 2000. v.Vol. I. p.198 – 198

 

3. TOMAZZOLI, E.R.; PELLERIN, J.R.M & ESTEVES, M.B. Geologia e Unidades Morfotectônicas na Área Central da Cidade de Florianópolis-SC. enc. Ao IX Congresso da ABEQUA. 2003 – Recife-PE.

 

4. TOMAZZOLI, E. R. Evidências de Noetectônica na Ilha de Santa Catarina e Área Continental Adjacente In: 41ºCongresso Brasileiro de Geologia, 2002, João Pessoa. Anais. , 2002. p.371 – 371.

 

5. TOMAZZOLI, E. R., PELLERIN, J. R. G. M., ESTEVES, Marcelo Borges Geologia e Geomorfologia da Àrea de Influência do Maciço Central da Cidade de Florianópolis - SC In: I Simpósio do Maciço Central, 2002, Florianópolis, 2002

 

6. TOMAZZOLI, E. R., PELLERIN, J. R. G. M. Geologia e Geomorfologia da Área de Influência do Maciço Central da Cidade de Florianópolis In: IV Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2002, São Luiz - MA. Anais. , 2002. v.1. p.101 – 102

 

7. TOMAZZOLI, E. R.Litotipos da Ilha do Arvoredo In: 41ºCongresso Brasileiro de Geologia, 2002, João Pessoa - Pb. Anais. , 2002. p.478 – 47

 

8. TOMAZZOLI, E. R., PELLERIN, J.R.G. Aspectos Geológico-Geomorfológicos do Sul da Ilha de Santa Catarina In: 8º Encontro de Geógrafos da América Latina, 2001, Santiago, Chile.  CD dos trabalhos completos do evento. , 2001. v.TEMA 3. p.08 – 14

 

9. TOMAZZOLI, E. R., PELLERIN, J.R.G. Alvéolos e Vales Suspensos: feições erosivas comuns no relevo da Ilha de Santa Cararina In: IX Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, 2001, Recife - PE.  Boletim de Resumos. , 2001. v.único. p.97 – 98

 

10. TOMAZZOLI, E. R., PELLERIN, J. R. G. M. Evidências de Neotectônica no Vale do Rio Cubatão, SC In: VIII Congresso da ABEQUA, 2001, Imbé - RS.  Boletim de Resumos. , 2001. v.único. p.307 – 308

 

11. TOMAZZOLI, E. R. Plutonic and Volcanic Rocks of Santa Catarina Island In: 31st International Geological Congress, 2000, Rio de Janeiro (RJ).  Abstracts Volume, General Symposia, Seccion 6-1, Granitic Magmatism. , 2000.