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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 


A CLIMATOLOGIA APLICADA AOS ESTUDOS AMBIENTAIS
 


Josefa Eliane Santana de Siqueira Pinto [1]

 

 

Eixo 1: Aplicação da Geografia  Física ao Ensino

Sub-eixo 1.2 – Pós-graduação e formação profissional

 

 


INTRODUÇÃO
 
Uma temática apropriada aos estudos geográficos trata do meio ambiente, sua configuração e suas correlações, e os procedimentos metodológicos mais apropriados ao seu conhecimento. É indiscutível a importância do clima como fator configurador da paisagem e sua incidência sobre algumas atividades humanas.
A Geografia se preocupa com o estudo dos arranjos espaciais resultantes da relação sociedade/natureza e cada vez mais se afirma como imprescindível elo de ligação entre as ciências da natureza e as da sociedade.
“A Geografia não dissocia os aspectos culturais dos naturais e nisso reside sua singularidade. Analisa a ecosfera em seus cinco componentes: atmosfera, litosfera, hidrosfera, biosfera e antroposfera, as quais se encontram em permanente processo interativo”(CONTI, 1998) .
 
O objeto específico de investigação da Climatologia, por sua vez, é a atmosfera, em suas características transitórias, cujo comportamento interessa ao conjunto do globo, já que interfere nos processos geomorfológicos, hidrológicos e no mundo vivo.
Os processos atmosféricos são regidos por leis físicas porém seus reflexos na superfície terrestre são da maior relevância, interferindo, ainda nos arranjos regionais e, portanto, na caracterização dos espaços das terras emersas.
“El campo de aplicacion de la climatologia es cada dia más amplo, especialmente en los estudios medioambientales. Los distintos especialistas desempeñon un papel fundamental, pero la complejidad del medio natural hace necessario el trabajo en equipos interdisciplinares. La única manera de hacer posible la integracion y que los resultados no sean una mera recopilación de estudos parciales, es ampliando los conocimientos básicos de las distintas especialidades que intervienem en el proceso de elaboración de los informes o estudios de investigación” (GARCIA, 1996).
 
Em seu sistema multivisional, a climatologia deve contribuir para o domínio científico, sobre o ambiente, em sua integração com os demais aspectos do meio natural. Análises atuais devem investigar os mecanismos e as influências naturais e antrópicas, aplicando seu conhecimento à gestão e planejamento dos recursos naturais em suas múltiplas manifestações.
Em bacias, sub-bacias ou microbacias hidrográficas, tem sido aplicado estudos de ordem climatológica, às vezes, em análises integradas à outros conhecimentos, nos moldes sugeridos por outros autores, entre eles, MENDONÇA (2000), cujos resultados são estimuladores, principalmente pela possibilidade oferecida de se ter um conhecimento integrado e interativo da estrutura e dos processos geográficos.
Deve-se realçar pesquisas atuais, envolvendo a Climatologia Aplicada, como clima e turismo, clima e saúde e clima e a criminalidade (MENDONÇA,2001).
A contribuição desta proposta se fundamenta, pois em discussões e viabilidades metodológicas de trabalhos desenvolvidos em escalas locais, com enfoque para o ambiente atmosférico.
A grande dificuldade consiste em que o clima é um conceito abstrato e complexo, não podendo ser reduzido a valores exatos, sendo sempre necessário simplificar e generalizar. As dificuldades se multiplicam quando se trata de definir o clima de uma área e suas correlações e impactos.
 
I ESTUDO CLIMATOLÓGICO APLICADO ÀS MICROBACIAS HIDROGRÁFICAS.
 
As bacias hidrográficas e principalmente as microbacias têm sido pertinentes como grandeza de área geográfica para estudos de gerenciamento do desenvolvimento sustentável e para os estudos aplicados da Climatologia.
Muito embora se possa regionalizar a superfície dos continentes em grandes bacias hidrográficas, as pessoas e as comunidades vivem e vivenciam o quadro ocupacional das pequenas bacias hidrográficas. São elas que se tornam o cenário de suas atividades.
A obtenção dos recursos hídricos, o uso dos solos e as instalações implantam-se e ocasionam reflexos nessa pequena escala regional que, evidentemente está atrelada às outras escalas.
A escolha analítica sobre microbacias hidrográficas, o estudo sobre cada uma, cria a possibilidade de se trabalhar com sistemas ambientais de alta complexidade, em unidades espaciais de elevada operacionalidade, tanto no sentido analítico como no gerenciamento sócio-econômico e político. As tomadas-de-decisão nas escalas das municipalidades podem e são mais facilmente compatibilizadas com as realidades vivenciadas pelas pessoas. Da mesma maneira, torna-se mais adequado receber e avaliar a participação da comunidade.
Um planejamento ambiental em microbacias hidrográficas requer o levantamento de dados acerca de seus atributos físicos, como clima, geologia, relevo, solos, rede de drenagem e vegetação.
“O clima é o insumidor energético dos sistemas ambientais físicos (geossistemas) que se expressam como essencial para as atividades sócio-econômicas” SANTOS (1998).
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A análise de dados climáticos revela informações importantes, como período de maior potencialidade erosiva das chuvas, risco de estiagens, geadas etc. Além disso, a partir da análise do sistema de balanço hídrico, é possível conhecer as perdas de água do solo por evapotranspiração, que podem caracterizar ou não, períodos de excedentes de água no solo e/ou deficiência hídrica. Tais dados são significativos, especialmente quanto ao uso e ocupação agrícola das terras.
Uma análise climatológica nas microbacias hidrográficas deve objetivar a retomada da análise morfológica do clima, descrevendo as características da precipitação e da temperatura, em sua distribuição anual, sazonal e mensal em escala regional; Analisar a variabilidade e da tendência, inseridas no contexto das mudanças climáticas de curto prazo, com base no estudo das séries temporais de registros sobre precipitação e temperatura e os eventos climáticos críticos: enchentes, cheias, secas, geadas, granizo, veranico e tornados.
Com a análise da tendência geral dos parâmetros climáticos procura-se verificar se houve manutenção ou se houve aumento ou diminuição constante nos valores da seqüência temporal. Na análise da tendência geral são utilizadas técnicas exploradas anteriormente, discutidas e exploradas em autores especializados e aplicadas por alguns estudos da literatura geográfica. Baseia-se no cálculo das semi-médias, no uso das médias móveis e no uso dos mínimos quadrados.
Na análise das características dos dados dos parâmetros climatológicos relacionados à tendência central, dispersão, variabilidade, assimetria e formato da curva de freqüência pode ser utilizada a média, podendo ser utilizadas também a mediana e a moda. A variabilidade pode ser entendida como sendo a maneira da variação dos valores de um elemento climático no interior de um determinado período de tempo. Os parâmetros que focalizam a dispersão de variabilidade dos dados em uma determinada série de observações analisam a amplitude total, variância, desvio padrão, variabilidade relativa e coeficiente de variação.
O acompanhamento dos eventos climáticos críticos dos últimos cinco anos, observando as conseqüências nas atividades humanas; a formação do banco de dados e de notícias sobre os eventos climáticos críticos e suas conseqüências na sociedade local e regional, como contribuição dos registros das transformações ambientais, deve ser relevante para o conhecimento do clima próprio de uma análise de bacias hidrográficas.
  Com isto, espera-se contribuir com indicadores para estudos agrícolas, visando planejamentos racionais perante as ocorrências e mudanças climáticas e para a análise e estabelecimento do grau de vulnerabilidade da área em função das ocorrências de eventos críticos. Outrossim, busca-se prestar contribuição setorial, para o estudo global do desenvolvimento sustentável, pois representa a fórmula para a sobrevivência do homem no planeta em face das transformações ambientais.
Para acompanhamento dos sistemas climatológicos e tipos de tempo que provocam eventos críticos utilizam-se imagens de satélite, via moden, e previsão do tempo, via internet. O banco de notícias jornalísticas é formado por matérias retiradas através de consultas diárias nos jornais locais e regionais.
A microbacia, por ser pequena, apresenta, em geral, um clima bastante homogêneo, a depender de diferenças altimétricas, posição, forma e comprimento da bacia. A caracterização climática torna-se difícil, devendo-se recorrer à inquéritos à população local no sentido de apontar as áreas que se destacam, ou instalar, quando possível, alguns pluviômetros.
O trabalho de campo pode ser importante atividade suplementar e consiste em aplicar questionários junto à população das cidades envolvidas para observação da percepção dos eventos climáticos críticos na Região.
 
II CLIMA E VIDA AGRÁRIA
 
Uma atividade regulada pelas condições do tempo e do clima é a agricultura. Na realidade, a produção agrícola depende fundamentalmente de quatro fatores que estão inter-relacionados de forma complexa: a planta, o solo, o clima e o homem.
Todo planejamento agrícola ou análise de uma cultura para uma determinada região exige estudos sobre as características ecológicas do vegetal e do meio físico (fatores ecológicos, fisiológicos e genéticos). Entre as condições ambientais destaca-se o clima e o entrelaçamento de seus elementos e fatores, que determinam não só o tipo de vegetação que cresce naturalmente, bem como os vários tipos possíveis de cultivos.
Os elementos climáticos mais importantes que controlam diretamente o crescimento e o desenvolvimento das plantas cultivadas são: a temperatura, a precipitação ou a água no solo e a luz (duração e intensidade da radiação solar).
A temperatura é o fator cuja variação (latitude e altitude) determina os locais onde espécies podem vegetar ou não naturalmente e estabelece os limites geográficos bem definidos para vários cultivos de importância econômica. À medida que nos aproximamos do equador, aumenta numa gradação constante, a produtividade biológica, que tem significado diferente de produtividade agrícola.
A importância do calor na distribuição geográfica das plantas é tão significativa, que praticamente todos os processos vitais são afetados, como a solubilidade dos minerais no solo, a absorção da água pelas raízes, e, em muitas espécies, a própria germinação e reprodução depende da temperatura do solo e do ar. O crescimento de uma planta varia de acordo com a quantidade de calor à qual foi submetida durante toda sua vida. Na prática, podemos considerar que existe um intervalo entre um mínimo e um máximo, abaixo e acima dos quais o crescimento das plantas é interrompido. Entre esses limites existe um ótimo de temperatura no qual o crescimento ocorre com maior eficiência. Quando as temperaturas máximas e mínimas são atingidas, a planta para de crescer, permanecendo em estado latente, até que uma temperatura ainda mais rigorosa provoque a destruição dos tecidos. Essas são denominadas temperaturas máximas e mínimas letais e variam conforme a espécie considerada.
A duração de um cultivo (do plantio à colheita) varia segundo as regiões e até em uma mesma localidade, de acordo com a evolução das condições do tempo meteorológico.
A temperatura dos órgãos vegetais tende a seguir a temperatura do ambiente em que a planta vive. Abaixo de uma certa temperatura, seu desenvolvimento é praticamente nulo. Essa temperatura limite denomina-se TB ou temperatura base.
A quantidade de radiação solar que atinge uma comunidade vegetal, em condições normais de campo, é geralmente utilizada nos seguintes processos: aquecer o ar e o solo, consumir energia através da evaporação, na fotossíntese e na transpiração dos vegetais.
Fotoperiodismo ou duração do dia é um dos elementos ambientais mais importantes, pelo qual os organismos regulam suas atividades, principalmente nas regiões temperadas. Sob a influência direta do fotoperíodo estão a floração e o alongamento dos caules. Algumas plantas florescem em um período de dias longos e outras, ao contrário, florescem em dias curtos. Existem também plantas que são indiferentes ao comprimento do dia. Geralmente as plantas que precisam de dia longo para florescer são, como é de se esperar, as provenientes de altas latitudes.
A fotossíntese é a maneira pela qual a energia do sol, transmitida à terra como radiação, é transformada em energia química, pelas substâncias orgânicas. Na realidade, o crescimento das plantas depende do saldo de matéria orgânica seca acumulada pela fotossíntese líquida ou taxa de assimilação líquida.
O papel desempenhado pelo fator hídrico pode ser expresso na afirmação de que as plantas estão adaptadas, em estrutura e fisiologia aos regimes de água dos ambientes que normalmente ocupam.
Os processos fundamentais para a existência da vida na Terra, tais como a fotossíntese e a transpiração dos vegetais, são diretamente controlados pelo deslocamento dos fluxos de água, no sistema solo-planta-atmosfera. O efeito do fator hídrico no crescimento, desenvolvimento e produção dos vegetais e a freqüência do stress hídrico a que estão submetidos, é considerado importante na limitação da produção agrícola mundial.
Entretanto, não se pode classificar um clima como sendo úmido ou seco, simplesmente considerando os valores pluviométricos totais. Para se saber se a chuva é suficiente para atender às necessidades das plantas, isto é, manter o solo úmido, é indispensável considerar o consumo de água através do processo de evapotranspiração, o qual é tanto mais intenso quanto maior a intensidade de energia solar da região.
Um dos conceitos mais importantes para a análise das condições térmicas e hídrica favoráveis ou não à um determinado tipo de cultivo é o da evapotranspiração potencial (EP), introduzido por THORNTHWAITE e outros, em 1944, para exprimir a quantidade de água que evapora dos solos e transpira das plantas em um solo inteiramente vegetado, livremente exposto à atmosfera e onde nunca falte umidade para as plantas. A EP representa a pluviosidade ideal para manter uma área vegetada sempre verde e turgida, constituindo-se no fluxo de umidade que volta à atmosfera pela planta e pelo solo. O processo contábil, onde o solo funciona como caixa (reservatório de água), a chuva funciona como entrada ou depósito de água e a evapotranspiração, a saída ou perda de água, é chamado de balanço hídrico.
Muito embora, a EP dependa de fatores puramente meteorológicos, a evapotranspiração real (ER), depende do tipo e do estágio de desenvolvimento do cultivo, do tipo de solo, e principalmente é limitada pelos totais de chuva. A ER corresponde à parte da evapotranspiração potencial que realmente ocorre em condições de campo. Quando as duas são iguais significa que não existe deficiência hídrica. Quanto maior for a ER maior será a produtividade biológica ou primária.
Os estudos de balanço hídrico são capazes de simplificar e generalizar a complexa relação entre a atmosfera e o sistema solo - planta. Por balanço hídrico entende-se a contabilidade de entrada e saída da água no solo. Portanto, balanço hídrico é: "Uma ferramenta extremamente útil, tanto no aspecto de solução imediata, quanto e principalmente no aspecto analítico de uma situação passada. Também, é caracterizado como indicador de potencial climatológico, de um local, para um vegetal qualquer" (OMETTO, 1981, p. 373).
O estudo do balanço hídrico tem finalidades distintas para as diversas áreas do conhecimento. "Para o climatologista, o conhecimento do balanço hídrico é importante em superfície própria ao cultivo de vegetais, necessários à população humana, os quais, por sua vez, ocorrem em solos de topografia favorável" (OMETTO, 1981, p. 374). A topografia favorável na qual destaca o autor é quando a inclinação do solo é suave e a intensidade da precipitação é baixa, nesse caso a duração da precipitação passa a ser o fator primordial no molhamento do perfil.
A demanda hídrica depende predominantemente das condições climáticas, das características específicas da cultura e de seu estágio fenológico, além das propriedades físicas do solo. Dessa forma: "O solo é o reservatório natural de água para a vegetação. A entrada de água é representada pela precipitação e irrigação enquanto a saída é a evapotranspiração. Tem uma capacidade de armazenamento de água, que uma vez satisfeita, permite a percolação da água excedente para o lençol freático" (TUBELIS & NASCIMENTO, 1984, p. 300).
A capacidade de armazenamento do solo é uma característica da planta e independe do tipo de solo. Como esclarece TUBELIS & NASCIMENTO: "O crescimento do sistema radicular da planta é inversamente proporcional à capacidade de armazenamento de água por unidade de volume de solo" (1984, p. 301), ou seja, nos solos onde a capacidade de armazenamento é baixa, o sistema radicular das plantas desenvolve-se de forma que o volume do solo explorado supre a necessidade de água específica da vegetação.
O método de Thornthwaite considera que a água do solo é igualmente disponível aos vegetais desde a capacidade de campo até o ponto de murchamento permanente. Isso significa dizer que a evapotranspiração ocorre potencialmente enquanto o armazenamento de água no solo não for nulo. Sob armazenamento nulo, ocorre deficiência de água no solo, caracterizada como a água que falta para que a evapotranspiração real ocorra potencialmente.
O método de Thornthwaite - Mather considera que a disponibilidade da água no solo decresce com a diminuição do armazenamento, levando em conta a evapotranspiração real.
O critério utilizado por Thornthwaite para estimar a evapotranspiração potencial baseia-se em índices de calor e com isso utiliza-se somente da temperatura média do ar. É um critério mais propício a definir as características climáticas do local e sua viabilidade encontra-se mais próxima aos valores médios mensais.
Os dois métodos apresentados nesse estudo estabelecem que a entrada de água no sistema somente ocorre pela superfície do solo, não se considerando a pequena parcela de água que poderia entrar pelo limite inferior no perfil considerado.
Os estudos de balanço hídrico devem ser desenvolvidos, visando a relação lavoura/clima, no qual permitirá que os agricultores ajustem seus cultivos ao clima e evitem as conseqüências indesejáveis de um planejamento agrícola deficiente no conhecimento adequado do clima.
 
III CLIMA E VIDA URBANA
 
“O clima urbano é um sistema que abrange o clima de um dado espaço terrestre e sua urbanização. É um mesoclima que está incluído no macroclima e que sofre, na proximidade do solo, influências microclimáticas derivadas dos espaços urbanos. Por outro lado, a cidade deve ser considerada parte integral do espaço regional, assim como suas contradições internas. Deve-se analisar as variações do ambiente urbano, nos vários níveis, tais como nos bairros, ruas, casas, ambientes internos. A ação ecológica natural, associada aos fenômenos urbanos, constitui o conjunto complexo de inter-relações que produzem o clima urbano” (LOMBARDO,1985).
 
A cidade constitui a forma mais radical de transformação da paisagem natural, pois seu impacto não se limita a trocar a morfologia do terreno, mas a modificar as condições climáticas e ambientais. Surge, assim, um espaço eminentemente antropizado em que a atuação do homem se manifesta em uma dupla vertente: por um lado, as modificações que introduzem direta e conscientemente, que tem sua melhor manifestação no plano e na morfologia urbanos; de outro, as que se derivam deste mesmo espaço construído e as atividades que nele se desenvolvem, cujas manifestações mais significativas são a contaminação e a aparição de um clima específico da cidade.
Atualmente, o clima urbano é um dos campos da climatologia mais consolidados e seus resultados podem ser aplicados em outros campos e outras escalas. O clima urbano, não só interessa aos habitantes das cidades, pois constitui um claro exemplo de modificação climática não intencional, um dos problemas climáticos de maior relevância na atualidade. Ademais, a cidade é um excelente laboratório em que se podem experimentar, de forma relativamente simples, os complexos mecanismos desencadeados pela ação humana sobre o clima, as modificações que se produzem como conseqüência destas ações e as influências que tais modificações podem ter sobre o homem.
Os fenômenos do clima urbano se ligam à questão do conforto térmico e podem prejudicar a saúde do homem, causando-lhe distúrbios de coração, de circulação e respiração. Por outro lado, a flora e a fauna tendem a adaptar-se ao calor dos centros urbanos. O efeito da geada é reduzido em torno de 25%.
A intensidade e as características das modificações são diferentes em função de que consideramos a cidade em seu conjunto ou os distintos elementos que a integra (rede viária, densidade e tipo de edificações, etc). Por isto, nos estudos de clima urbano é preciso estabelecer uma clara distinção entre: a camada limite e o espaço urbano.
a)A camada limite é a camada de mistura ou turbulenta, gerada pela rugosidade da superfície e os movimentos convectivos associados ao aquecimento do ar em contato com o solo. Nas zonas rurais esta camada limite se situa em torno de 10 metros. Sobre a cidade é bastante mais espessa devido a altura dos telhados, o aquecimento do ar urbano e as turbulências que neste espaço alcançam maior intensidade que no campo.
Não obstante, quando se alcançam as maiores diferenças e com situação estável em que a inversão superficial reduz a camada limite a zero em campo, mesmo que na cidade possa alcançar vários metros, formando a conhecida cúpula de contaminação.
b)O espaço urbano é o espaço compreendido entre o solo e os telhados dos edifícios. O vento e as temperaturas experimentam trocas notáveis em espaços muito reduzidos, e se forma um complexo entranhado de microclimas diferenciados devido ao traçado da rede viária, os usos do solo, os materiais de asfalto e edifícios, assim como por diferentes alturas e orientações.
Assim mesmo, as partículas atuam como núcleos de condensação que podem favorecer a formação de nuvens e o aumento de dias com precipitações fracas.
Como conseqüência dos processos urbanos, as variáveis climáticas regionais sofrem transformações no espaço urbano, pelo que se evidencia ao comparar os valores que estas mesmas variáveis apresentam no espaço rural.
1)A temperatura é a variável mais afetada e a que melhor caracteriza o clima das cidades, propiciando o efeito da ilha de calor;
2)A radiação solar direta, é bastante menor nas cidades que nas zonas não construídas, devido a poluição e as sobras criadas pelos edifícios:
3)A iluminação diminui consideravelmente como conseqüência da altura dos edifícios e da largura das ruas;
4)A umidade, as precipitações e o vento. Os resultados obtidos ainda não permitem estabelecer umas pautas homogêneas de comportamento entre as diferentes cidades.
A maior parte dos métodos de estudo do clima urbano está dirigida para a análise da ilha de calor, como elemento mais representativo do clima urbano e como reflexo da totalidade de trocas microclimáticas produzidas pela alteração do espaço urbano devido a ação antrópica.
As cidades contribuem para a alteração do balanço de energia, gerando ilhas de calor que correspondem a uma área na qual a temperatura da superfície é mais elevada que as áreas circunvizinhas, o que propicia o surgimento de uma circulação local. É um fenômeno que se constitui parte do estudo do clima urbano e reflete a interferência do homem na dinâmica dos sistemas ambientais.
Os edifícios desempenham papel significativo na caracterização da ilha de calor. De manhã, as paredes dos edifícios expostas diretamente ao sol apresentam temperaturas mais elevadas que a dos telhados e as das áreas rurais em torno. O calor acha-se concentrado entre as paredes das ruas mais estreitas. Ao meio dia, os telhados e as áreas estão bem aquecidas, ao passo que as paredes não expostas apresentam temperaturas menos elevadas. Durante a noite, as edificações liberam a energia acumulada durante o dia, funcionando como bolsas de água quente, irradiando energia em várias direções.
A ilha de calor pode proporcionar um clima de deserto artificial, em dias extremamente quentes e secos, causando grande desconforto térmico. No verão, em áreas próximas à corpos d’água, com altos valores de pressão, a sensação de um ar aquecido e úmido é desconfortável.
A comparação entre observatórios rurais e urbanos permite apreciar diferenças nas temperaturas médias e, sobretudo, nas extremas em todas as cidades, independente de tamanho e localização, embora a intensidade dependa mais do tamanho da cidade.
A freqüência e intensidade da ilha de calor apresenta um ritmo diário e sazonal característico, que pode ser extrapolado com pequenas variações na maior parte das cidades de latitude similar.
A máxima diferença térmica aparece com tempo anticiclônico de ar em calma e céu claro, sem nuvens, que permite uma elevada insolação e resfriamento rápido durante a noite; o contrário ocorre com céu nublado ou com precipitações.
Das variáveis climáticas associadas aos tipos de tempo, é o vento que mais influencia a ilha de calor. Esta influência se manifesta pelo enfraquecimento da ilha de calor e diminuição do máximo térmico na direção de onde sopra o vento.Por conseguinte, a intensidade da ilha de calor é diretamente proporcional a sua população e inversamente proporcional a velocidade do vento. A densidade de edificações e os diferentes usos do solo condicionam a distribuição das temperaturas no interior da cidade.
A morfologia e a estrutura urbana condicionam as variações espaciais da temperatura, segundo o tipo de material e uso do solo, a altura e traçado da rede viária, que modifica a radiação que alcança a superfície.
A maior parte das cidades, com efeito, se localiza em lugares singulares como portos ou vales abrigados por razões de defesa, de comunicação ou pela existência de recursos hídricos ou minerais. Todos eles produzem interferências importantes dos fatores locais com os do clima regional. Estas influências podem ser maiores, em algumas ocasiões, que as derivadas da própria cidade.
O padrão de circulação característico das cidades agrava o problema da poluição, não só pela direção convergente dos ventos decorrente das diferenças barométricas, como pelo estabelecimento de uma camada de inversão.
A modificação das correntes de vento na cidade deve ser analisada também com o tipo de tempo, a posição orográfica, a estrutura das construções e o sítio urbano. As cidades, em época de calmaria, recebem ventos de periferia em direção ao centro e aumentam assim a concentração de poluentes no ar.
 
IV CLIMA E TURISMO
 
O clima como recurso turístico apresenta algumas conotações específicas, entre elas: É uma riqueza permanente e renovável; Se encontra desigualmente distribuída; Não é transportável e nem aramazenável.
O turismo é afetado, em curto prazo, pelo tempo que faz e em longo prazo pelo clima. A maior parte das pessoas tem como exigências fundamentais: o sol, a ausência de chuvas diurnas e o conforto fisiológico.
As pesquisas para este conhecimento têm desenvolvido índices com o objetivo de definir e avaliar as condições ou potencialidade climática de uma determinada zona ou lugar, em função dos objetivos e as variáveis potenciais que podem influenciar no turismo.
Para o turismo costeiro e veraneios as variáveis climáticas mais representativas são: as temperaturas, a duração da insolação e a ausência ou presença de precipitações. Em outros casos avaliam-se as possibilidades do clima para as atividades ao ar livre em geral.
 
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