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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

MEIO AMBIENTE: AS CONSEQÜÊNCIAS DE NOSSAS AÇÕES

 

 

 

Gilberto de Oliveira(gil-informa@ig.com.br)

Irane Pereira Silva(iraneps@terra.com.br)

 

 

UNESP - campus de Rio Claro/SP

 


Palavras-chave: Educação Ambiental, Degradação Ambiental, Aula de Campo

Eixo 1: Aplicação da Geografia Física ao Ensino

Sub-eixo 1.3: Educação Ambiental


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente os habitantes das cidades estão enfrentando grandes transtornos causados pela degradação ambiental. Muitas vezes essa degradação é provocada pela omissão dos órgãos públicos, contudo em outras tantas vezes são pela falta de tomada de consciência da população e não somente pela falta de informações.

O meio ambiente está em evidência na mídia. Entretanto, raramente aparecem programas de conscientização. Na grande maioria das vezes são vinculadas informações sobre o meio ambiente apenas quantificando determinados assuntos ou informações utilizadas como propaganda para determinados produtos ou ainda para determinadas pessoas (públicas) com o intuito de se autopromoverem perante a opinião pública.

Informações sobre meio ambiente existem, tanto que os meios de comunicação costumam dar como manchetes que: o Brasil gera 125 toneladas de lixo diariamente; Brasil é campeão mundial em reciclagem de alumínio; água é o petróleo do século XXI; escassez de água já é realidade; o limite permitido de emissão de ozônio na atmosfera é ultrapassado em alguns nos centros urbanos; a falta de arborização e o grande fluxo de veículos automotores propiciam o aparecimento de ilhas de calor; etc.

Porém, falta a população consciência e competências midiáticas para quando se deparar com determinadas informações difundidas pelos meios de comunicação, sempre questionar e refletir sobre o assunto que foi vinculado, comumente fazer para si mesmo perguntas, tais como: A quem interessa este tipo de informação?; Quem será prejudicado com essa situação?; Quais as conseqüências que acarreta ou acarretará esta situação?; e a principal, Como evitar e o que fazer nessa situação?

E de quem é o papel de ensinar e de desenvolver essas competências?

Sim, é papel da escola, pois é no seu cotidiano escolar que o aluno aprende a conviver em sociedade e a respeitar o meio ambiente.

A educação ambiental faz parte dos conhecimentos que os alunos devem adquirir e desenvolver em sua vida escolar, para que haja uma minimização dos impactos provocados pelo homem na relação homem-natureza. Entretanto,

 

a educação ambiental não pode ser feita apenas entre quatro paredes, com aulas expositivas e usando apenas como recursos filmes, documentários e transparências. As saídas a campo são necessárias, porque é nesse momento que o aluno irá colocar em prática o conhecimento adquirido em sala de aula e poderá testar e comprovar todas as hipóteses levantadas na etapa anterior do processo de aprendizado. Mas, em todo o processo de conscientização ambiental, sempre há de se levar em consideração o conhecimento e a experiência de vida de cada indivíduo, demonstrando as conseqüências positivas e negativas que seus atos poderão ocasionar ao meio ambiente e à toda a sociedade (OLIVEIRA, 2003).


Com intuito de minimizar os impactos ambientais causados diretamente e indiretamente pela comunidade dos bairros Jardim Pérola, Cidade Nova e Esmeralda, localizados na região leste da cidade de Santa Bárbara d´Oeste-SP, desenvolveu-se um projeto de educação ambiental que atendesse os alunos do 3º ano do ensino médio da EE Profª Alcheste de Godoy Andia, no ano de 2001.

O objetivo almejado pelo projeto era o de levar os alunos a compreenderem e a terem consciência das conseqüências de seus atos para com o meio ambiente e à sociedade; educá-los e orientá-los a exigir de forma consciente dos órgãos públicos, ações preventivas e corretivas que minimizassem os impactos ambientais; e, principalmente, que esses alunos se tornassem agentes multiplicadores em defesa do meio ambiente.


DESENVOLVIMENTO DO PROJETO


Para desenvolver o projeto primeiramente realizou-se uma avaliação diagnóstica para saber o quanto de informações os alunos tinham a respeito sobre degradação ambiental e quais os problemas ambientais que ocorriam nos bairros. Os educandos listaram informações muitas vezes distantes de suas realidades, como a derrubada da floresta Amazônica; a contaminação dos rios da região norte por mercúrio; o efeito estufa; buraco na camada de ozônio; entre outros. Muitos alunos relataram os problemas, porém quanto as conseqüências à natureza não souberam argumentar, haja vista que, a mídia dá muita ênfase aos problemas ambientais, entretanto deixa em segundo plano de quem é a responsabilidade e quais são as conseqüências geradas. Com relação aos problemas ambientais que ocorrem no bairro alguns alunos conseguiram citar, outros não. Os impactos ambientais citados pelos mesmos nos bairros foram a poluição do ar; a poluição do solo; e dos córregos próximos a esses bairros.

Num segundo momento os alunos realizaram pesquisas em livros e em sítios na rede mundial de computadores para conheceram as conseqüências à natureza e ao homem dos impactos ambientais listados pelos mesmos em sala de aula, principalmente os impactos que atingem o mundo de uma maneira geral.

O terceiro momento foi o que antecedeu as saídas a campo. Neste momento foi proposto aos educandos a confecção de um diário de campo, onde seria anotados as seguintes informações: a data das saídas a campo; o local visitado; as observações realizadas; o nome das pessoas entrevistadas e o telefone para contato; as experiências realizadas; e se fosse o caso, colariam recortes de jornais locais sobre o tema pesquisado. Também, neste momento foi idealizado o roteiro das saídas a campo; as perguntas mestras das entrevistas; e marcou-se as datas para a entrega dos trabalhos e dos seminários, bem como, o formato de apresentação dos mesmos.

Curiosamente, ocorreu um fato quando o professor entregou aos alunos o caderno que era para ser utilizado como diário de campo. Muitos não quiseram aceitar o mesmo, pois argumentaram que o caderno era de “criancinha”, porque era um pequeno caderno de brochura (em sua capa há desenhos feitos por crianças com a seguinte afirmação: “a criança tem direito à educação gratuita desde o nascimento” - FIG. 01) que a escola tinha ainda em seu estoque do tempo em que havia o ciclo I e II do ensino fundamental na instituição. Ficou evidente neste momento que muitos ainda não tinham consciência de como esse tipo de atitude era prejudicial ao meio ambiente. O professor precisou fazer uma intervenção para explicar o motivo pelo qual aquele caderno ainda estava no estoque de material da escola; argumentou quantas árvores tiveram de ser derrubadas para que fosse possível a confecção desses cadernos; o porque não jogar aqueles cadernos no lixo; o quanto era importante economicamente, socialmente e ecologicamente utilizar aquele caderno; e principalmente enfatizar que não é porque passa na televisão um ator utilizando um caderno de grife que você tenha que jogar fora seu caderno velho, pois o mesmo ainda contém folhas em branco e pode, e deve ser aproveitado ao máximo. Essa com certeza, foi a primeira ação de conscientização ambiental do projeto.

Então, chegou a hora tão esperada pelos alunos, A AULA DE CAMPO.

As primeiras visitas foram aos locais que apresentavam disposição irregular do lixo. Esses locais são próximos, como pode-se observar, de terrenos baldios, não se atentando ao fato de ser próximo de córregos; de avenidas; ou estarem localizados no centro de um bairro (FIG. 2, 3). No decorrer das visitas alguns alunos relataram fatos que evidencia a utilização de terrenos baldios como depósitos de lixos, por parte de seus familiares.

 

FIG. 01 - Caderno utilizado como diário de campo

 

 

Os estudantes puderam constar que esse lixo pode propiciar a proliferação de vetores de doenças bem como o aparecimento de escorpiões, entre outros. Entretanto, também constataram que no lixo havia muito material que poderia ser reciclado. A prefeitura municipal de Santa Bárbara d’Oeste-SP em 2001 não prestava o serviço de coleta seletiva aos cidadãos, porém havia e ainda há na cidade, um grande número de catadores de lixo. Afim de se conhecer um pouco mais o cotidiano destas pessoas, os estudantes entrevistaram alguns destes trabalhadores. Todos os entrevistados afirmaram que a grande parte dos munícipes não respeita e não reconhece a importância do catador no processo de reciclagem, ao contrário, esses agentes ecológicos são considerados por muitos como vagabundos ou que não gostam de trabalhar.

O lixo além de causar todos os problemas já citados, também causa a poluição do ar devido a queima do mesmo. Segundo relato de moradores que residem próximo a Avenida São Paulo, para evitar o acúmulo de lixo alguns moradores colocam fogo, assim criando uma intensa camada de fumaça e que muitas vezes foi preciso acionar o corpo de bombeiros para apagar o fogo. Os discentes também puderam constatar um outro problema gerado pelo acúmulo de lixo: os bueiros sendo utilizados como lixeiras vêm causando grandes transtornos aos moradores locais (FIG 4).

 


FIG. 02 – Terreno baldio com disposição inadequada de lixo


 

FIG. 03 – Terreno baldio com lixo no centro do bairro



As próximas visitas foram aos Córregos Mollon e Giovanetti. Os alunos foram a um dos afluentes do Córrego Mollon, onde puderam constatar com ajuda de uma planta das áreas urbanizadas cedida pelo DAE, que o olho d´água localiza-se no meio da rua Salvador Jatarola, esta nascente foi canalizado por alguns metros e depois corre a céu aberto passando por trás do Tivolli Shoping. Alguns moradores mais antigos do local relataram aos estudantes que ao construir suas casas, o solo apresentava uma grande umidade a cerca de 1,5 metros de profundidade. Logo atrás do Tivolli Shoping coletou-se amostras de água (FIG. 05) para fazer uma análise física da mesma tendo-se constatado que esta apresentava um limbo verde. Quando este braço d´água se encontra com o Córrego da Ponte Funda, forma-se o Córrego Mollon que recebe todo o esgoto dos bairros adjacentes a ele, e, também uma grande quantidade de lixo (FIG 06). O Córrego Giovanetti tem sua nascente próxima ao distrito industrial onde estão localizadas algumas indústrias têxteis, e, ao desaguar no Córrego Mollon gera um contraste. As águas do Córrego Giovanetti possui uma coloração escura (azul marinho) e o Córrego Mollon uma coloração clara (cinza), o primeiro poluído com resíduos industriais e o segundo outro com esgoto. O Córrego Mollon é afluente do Ribeirão dos Toledos (FIG 07) que também recebe todo o esgoto da região central da cidade, desaguando no Rio Piracicaba.

 

FIG. 04 - Bueiro com lixo em período de estiagem

 

Todo os locais visitados foram fotografados e filmados pelos alunos para servirem de material de apoio para a confecção dos trabalhos dissertativos e para montagem dos painéis.

 

FIG. 05 – Coleta de amostra

 

 

FIG. 06 – Esgoto e lixo sendo destinados ao Córrego Mollon



 

FIG. 07 - Ribeirão dos Toledos recebe todo o esgoto da região central da cidade


 

RESULTADOS


Com as aulas de campo os alunos puderam observar os impactos ambientais provocados pelos cidadãos de forma direta e não direta. Em um dos debates em sala de aula os alunos concluíram que os cidadãos geram impactos ambientais de forma proposital quando os mesmos jogam lixo nos terrenos baldios, nos córregos ou quando queimam o lixo, pois o município possui coleta domiciliar regular e um aterro sanitário que apresenta condições satisfatória de operação perante aos órgãos fiscalizadores (SÃO PAULO, 2001).

Outro resultado importante do projeto foi o reconhecimento e valorização por parte dos alunos, ao trabalho realizado pelos catadores. Constatou-se que além de conseguirem sobreviver com o dinheiro ganho com a comercialização dos materiais recicláveis coletados, os mesmos ajudam a diminuir a quantidade de lixo a ser destinada no aterro sanitário aumentando assim, seu tempo de vida útil.

Com relação a entrega dos trabalhos, os alunos decidiram entregá-lo em disquete, justificando que a folha de papel poderia ser utilizada apenas em duas partes ( frente e o verso) . Já o disquete poderiam utilizá-lo inúmeras vezes, assim preservando o meio ambiente.

Também realizou-se na escola uma exposição com os painéis confeccionados pelos alunos, apresentando os resultados de suas pesquisas para os demais discentes, assim informando, e, principalmente demonstrando aos demais as conseqüências de seus atos para com o meio ambiente.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Os alunos puderam perceber que a Prefeitura, neste caso, possui sua parcela de culpa, entretanto os “cidadãos” têm colaborado, e muito, com a degradação ambiental seja ela do solo, do ar ou da água.

Ficou explícito nos debates e nas apresentações dos trabalhos que mesmo o indivíduo não participando diretamente no processo de degradação ambiental do bairro, como por exemplo jogando lixo nos córregos, ele tem sua parcela de culpa pois muitas vezes é conivente com a situação, uma vez que não denuncia os infratores .Os educandos tiveram mudanças de atitudes, pois começaram a agir em defesa do meio ambiente, conscientizando os cidadãos locais a mudarem o atual panorama de degradação nos bairros pesquisados.

De senso comum ficou esclarecido que só depositando lixo em locais adequado, realizando a coleta seletiva do lixo e o reciclando não irá resolver todos os problemas causados pelo mesmo. Tem que se mudar o hábito de consumo da sociedade rapidamente. Este consumismo desenfreado está afetando diretamente o meio ambiente, proporcionado a degradação da qualidade de vida da sociedade tanto local como global. O episódio do caderno deixou bem claro como a sociedade é manipulada pelos meios de comunicação. O pequeno caderno de brochura teve a mesma utilidade que o caderno de grife, entretanto, com certeza gerou menos impacto ambiental de o confeccionado com: capa dura, plástico, adesivos, cheio de cores, e outros acessórios que para serem fabricados geram inúmeras agressões ao meio ambiente.

Com relação a responsabilidade da Prefeitura os alunos tiveram uma postura mais crítica, pois os mesmos começaram a indagar porque os órgãos públicos não realizam um trabalho de educação ambiental junto aos bairros que apresentam degradações ambientais?

Felizmente consegui-se que a grande maioria tomasse consciência e compreendessem as reais conseqüências de seus atos e de outras pessoas ao meio ambiente. A educação ambiental é um processo contínuo, e todos os anos são desenvolvidos projetos visando a conscientização dos jovens e a formação de novos agentes multiplicadores que irão defender o meio ambiente.


REFERÊNCIAS:


ÁREAS URBANIZADAS: cadastro dos sistemas de água e esgoto. Santa Bárbara d´Oeste, SP. DAE, 2001. 1 mapa, color. Sem escala.


COMO DEFENDER A ECOLOGIA: tudo o que você pode fazer para salvar o meio ambiente.[S. l.]: Nova Cultural, 1998. 256p.


OLIVEIRA, Gilberto. ALUNOS PERGUNTAM: tudo que você joga fora é lixo?. In: FÓRUM DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS PAULISTAS: ciência e tecnologia em resíduos, 1., 2003, São Pedro. Anais … Ribeirão Preto: USP/UNICAMP/UNESP/UFSCar/IPT/IPEN, 2003. 1CD-ROM.


SÃO PAULO. (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Conceitos para se fazer educação ambiental. 2. ed. São Paulo: SMA, 1997. (Série educação ambiental).


SÃO PAULO. (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Guia pedagógico do lixo. 2. ed. São Paulo: SMA, 2000. 96p.


SENAC-SP. POR UMA CIDADE MAIS LIMPA: conheça mais sobre o lixo que produzimos e faça a sua parte. [São Paulo]: [Uni Design e Comunicação], [199-?a]. Não paginado. (SENAC Alerta).


SENAC-SP. POR UMA CIDADE MAIS LIMPA: 10 atitudes práticas para uma vida melhor. [São Paulo]: [Uni Design e Comunicação], [199-?b]. Não paginado. (SENAC Alerta).