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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM JOVENS EM RISCO SOCIAL :
ESPAÇO, TEMPO E CULTURA

 

 

 

 

Ângela Maria da Silva Gomes

Márcia Rodrigues Marques

Maria Lúcia YoshicoWakisaka

 

 

 

Depto. de Ciências Biológicas, Ambientais e da Saúde / Curso de Geografia e Análise Ambiental/ Centro Universitário de Belo Horizonte- UNI-BH
 

 

 

 

Palavras – chaves: Educação Ambiental – Jovens – Risco socia

Eixo 1: Aplicação da Geografia Física ao Ensino

Sub-eixo 1.3 - Educação Ambiental

 

 

 

 

Sumário

As análises aqui desenvolvidas fundamentam-se em experiências de um projeto de  Educação Ambiental como instrumento político de intervenção na realidade vivenciada por jovens  de comunidades de baixa renda no Município de Belo Horizonte.  Apresenta entre seus objetivos estimular uma reflexão que permita  aos sujeitos sociais desenvolverem uma postura crítica e ética  nas relações sociais e na integração  ser humano/natureza.

O projeto do curso de capacitação de multiplicadores em Educação Ambiental: Espaço, Tempo e Cultura compreende a Educação Ambiental como instrumento de exercício da cidadania em um contexto de construção de uma nova racionalidade  ambiental, tendo como base a participação dos jovens, a igualdade social, o direito à pluralidade e autodeterminação das comunidades locais, compreendendo a biodiversidade como patrimônio coletivo e instrumento de inclusão social.

 

A importância do “Conhecimento Ambiental

           A civilização ocidental moderna vem ao longo dos anos construindo uma representação de natureza fragmentada, objetificada e etnocêntrica, um dos resultados é o perfil caótico das cidades, que se desenvolvem realizando, por vezes, planejamentos que desconsideram princípios ecológicos. Entre os resultados dessa realidade estão: o aumento da impermeabilização dos solos, o desaparecimento dos cursos d’água que se transformaram em avenidas sanitárias, poucas áreas de conservação e, portanto redução de abrigo à fauna. E apesar das informações sobre as questões ambientais estarem diariamente no universo dos meios de comunicação em massa, a relação ser humano/natureza está se modificando apenas com ações pontuais e descontínuas.

A ciência moderna traz em sua construção histórica uma desvalorização do conhecimento tradicional. Nos planejamentos ambientais a participação das comunidades na elaboração e execução dos projetos é ainda reduzida. No Brasil muitos dos que vivem na cidade, principalmente nos bairros de baixa renda, vieram da área rural com um conhecimento importante dos ecossistemas naturais, mas poucas são as experiências da inclusão destas informações nos projetos de urbanização. Entretanto, segundo LEFF (2001) esses saberes tradicionais são fundamentais para construir novos espaços de governabilidades, a partir da valorização do desenvolvimento local, garantindo espaços de diálogo entre setor público/comunidade, técnicos/comunidades e educadores/educandos.

Possibilitar a construção de “novas humanidades” trabalhando-a a partir da realidade dos excluídos, e do conhecimento e desejos que possui por meio de uma Educação Ambiental sistemática e transformadora torna-se um instrumento de intervenção eficaz. Estimula reflexões e permitir aos sujeitos sociais desenvolverem uma postura crítica diante da relação ser humano/natureza.  

Neste projeto entende-se a Educação Ambiental como uma ação problematizadora importante para a inclusão de preocupações ambientais, fundamentais para o exercício de uma cidadania plena por meio da ética ambiental. Este trabalho tem como objetivo construir, junto aos jovens, um conhecimento que permita transformar sua relação com o espaço urbano e sua representação de natureza.

 

Multiplicadores em Educação Ambiental

O Curso de Multiplicadores em Educação Ambiental - Espaço, Tempo e Cultura  integra um conjunto de projetos para o Centro Social Esportivo Educativo Tremedal desenvolvido por professores e estagiários[1] do Curso de Geografia e Análise Ambiental, dentro da parceria firmada entre o Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte/MG e a AMAS (Associação Municipal de Assistência Social). Tem como objetivo desenvolver atividades sócio- educativas com jovens em risco social e possibilitar o desenvolvimento da percepção, apreciação, valorização da diversidade na natureza e na sociedade, assim como promover uma interligação entre educação, ética ambiental e cidadania.

Participaram do projeto trinta e dois jovens que se distribuíam na faixa etária entre 12 e 16 anos, pertencentes à famílias de baixa renda, moradores em sua  maioria, da Favela Pedreira Prado Lopes, Bairro São Cristóvão. O grupo foi dividido em duas turmas, orientados por uma equipe multidisciplinar composta por sete estagiários e seis professores do Curso de Geografia e Análise Ambiental pertencentes às seguintes áreas: Geografia, Biologia, Agronomia, Engenharia Florestal. Contou também com o apoio de professores e alunos dos Cursos de Graduação em Nutrição e Educação Física e um militante do Movimento Negro Unificado, colaborando na fitoterapia de matriz africana. O curso foi desenvolvido no período de 16 de outubro a 09 de dezembro de 2002.

 

Espaços Vivenciados

A maioria das ações sócio-educativas  foram desenvolvidas no Centro Social Esportivo Tremedal localizado no  Bairro Carlos Prates, Regional Administrativa Noroeste. Possui duas piscinas, uma quadra poliesportiva, salão de ginástica, cantina e vestiários entre outras dependências. É interessante observar que este espaço era um antigo clube operário de industrias metalúrgicas do entorno do clube. Desativado por vários anos, a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte estabelece em 2002 uma parceria com a AMAS e UNI-BH com vistas a reconstrução do local e destina-lo a trabalhos voltados para crianças e jovens em “risco social”, público alvo da AMAS.

Em sua totalidade os jovens são moradores de Bairros pertencentes à Regional Noroeste do Município de Belo Horizonte, uma cidade planejada para ser a capital do Estado de Minas Gerais e que, desde sua fundação, em 1897 objetivava romper com o passado colonial, de acordo com os novos ideais republicanos. A nova cidade, símbolo da modernidade, deveria apresentar condições “precisas de higiene” segundo seus planificadores. Entretanto, sua inauguração quando os equipamentos urbanos ainda estavam inacabados, e a falta de infra-estrutura para abrigar os trabalhadores da construção fez com que os problemas de exclusão social e o conseqüente  surgimento de cortiços, vilas e favelas, ocorressem desde esse período.

A Administração Regional em questão, se caracteriza pela convivência de bairros típicos de classe média juntamente com vilas e favelas, que proliferaram na década de 1960 devido ao êxodo rural brasileiro. A Favela Pedreira Padre Lopes se encontra entre as que surgiram nessa época, em uma antiga pedreira localizada no embasamento cristalino, da depressão de Belo Horizonte cuja litologia granito-gnaissica foi utilizada na construção  da cidade.

 

Apropriação do território

             A construção da desigualdade, levantou barreiras com linhas divisórias invisíveis nas quais os oprimidos ficaram  subjugados aos territórios  desqualificados e, desvalorizados das áreas urbanas e os opressores ao território  reconhecido como  cidade.

As barreiras e os limites foram construídos em estereótipos que muitas vezes impedem a  convivência entre os grupos, uma vez que o estereótipo de marginalidade e criminalidade estão em territórios e o espaço onde não saberemos nos comportar ou seremos discriminados é melhor não irmos.

Na verdade o racismo, a xenofobia são mecanismos fundamentais para dificultar ou impedir que pobres e negros tenham acesso aos territórios e portanto de serviços públicos de qualidade, incluindo aí lazer e porque  não,  as unidade de conservação ambiental de melhores infraestrutura por exemplo.

Garantir o acesso aos bens significa possibilitar uma releitura dos espaços de convivência e conflitos.

 

Aspectos Metodológicos

A metodologia desse trabalho baseou-se na abordagem participativa dentro de uma construção sócio-afetiva do conhecimento, iniciando com a leitura do corpo como primeiro território de ação e reflexão. E a partir daí ampliar para uma análise crítica da sociedade e dos ecossistemas, diagnosticando  conflitos e propondo formas de cooperação cidadã. Foram utilizadas técnicas de vivência e dinâmicas de grupo que pudessem favorecer o diálogo em relação ao saber acumulado/vivenciado dos jovens para o aprofundamento das questões relacionadas à biodiversidade e diversidade cultural. Foram realizadas diversas atividades de campo, no meio natural e construído como visita Parque Municipal das Mangabeiras, à região central de Belo Horizonte e  instalações do Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH no Campus Estoril.

Materiais e técnicas diversas foram utilizadas para desenvolver a aprendizagem na perspectiva da construção de competências e formação de valores, tais como: desenhos livres, produção de textos, murais, dinâmicas corporais, plantio, leitura cinematográfica e outras linguagens que contribuem na interpretação da realidade.

            Foram realizados dois encontros semanais, com a duração de duas horas para cada turma, além de reuniões da equipe de professores e estagiários para monitoramento e planejamento semanal  uma vez por semana .

      Os eixos temáticos desenvolvidos foram:

a)       Percepção e representação que os participantes têm de si mesmos e da realidade sócio-ambiental local;

b)      História  e dinâmica dos ecossistemas;

c)      Sociedade e exclusão: processo de inserção, marginalização da mulher, do negro, do índio e minorias étnicas na sociedade;

d)      Biodiversidade e diversidade cultural: construindo novos olhares.

 

Os conteúdos programáticos foram organizados no projeto  de acordo com os seguintes módulos:

I - O corpo: nosso território

II -  Espaço e história: O local de onde viemos e onde vivemos

III -  Os ecossistemas naturais e antrópicos: O ambiente em que vivemos

IV - A crise ecológica: As transformações

V - A biodiversidade e diversidade cultural : Novos olhares

 

Processos e  resultados

             Esta análise se desenvolve considerando os eixos temáticos propostos para o curso: percepção e representação que os participantes têm de si mesmos e da realidade sócio-ambiental local; história  e dinâmica dos ecossistemas; sociedade e exclusão: processo de inserção e marginalização da mulher, do negro, do índio e outras minorias étnicas na sociedade; biodiversidade e diversidade cultural: construindo novos olhares. São descritas e analisadas  algumas das atividades realizadas e o processo transcorrido.

Entende-se que  é fundamental que crianças e jovens vivenciem a dinâmica dos ecossistemas, as relações ecológicas, observando as interdependências, interconexões e, a partir das mesmas possa fazer as associações entre meio biofísico e o meio social, biodiversidade e a diversidade cultural e construam instrumentos de intervenção sobre as mesmas.

 As unidades de conservação e instituições de ensino adquirem um papel fundamental neste processo de trabalhar a representação da natureza e, portanto, a relação do ser humano/natureza e na construção de novos conhecimentos de gestão ambiental para construção de uma “sociedade sustentável”. A partir desse entendimento foi desenvolvido o trabalho de campo no Parque Municipal das Mangabeiras, localizado na região Sul de Belo Horizonte

Projetado pelo paisagista  Burle Marx, o Parque Municipal das Mangabeiras  localiza-se  nas encostas da Serra do Curral, um do maiores parques urbanos do país, com 2,3 milhões de metros  quadrados,  sendo a maior parte coberta por vegetação nativa, com formações de Cerrado, Campo e Floresta Estacional Semidecidual.

A maioria dos jovens visitava pela primeira vez  um parque desse tipo e ficaram surpresos com a beleza e a existência de uma área com vegetação tão densa incrustada no meio urbano. A presença de animais silvestres, tais como quatis, causaram encantamento e admiração com a sua aproximação tranqüila na busca de alimento durante a hora de  nosso lanche nos quiosques. Os quatis parecem estar acostumados com a presença dos visitantes e a se alimentarem  com os restos deixados por eles.

Durante a trilha  foram realizadas exposições dialogadas com os jovens sobre  morfologia, fisiologia e reprodução das espécies vegetais e a relação com seu habitat. Evitou-se o formato somente informativo e expositivo desse tipo de atividade. Durante a  trilha os educadores utilizaram troncos em decomposição encontrados no caminho  para trabalhar a questão do ciclo da matéria e a relação de dependência entre os seres.

 Buscou-se o conhecimento e a curiosidade dos jovens para exploração do espaço do parque. Nessa atividade foi possível perceber nos jovens, do ponto de vista cognitivo,  a construção da teia da vida  com base em conceitos ecológicos  com  interdependência, fluxos de energia, biodiversidade e associações.

A visita ao campus do Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH propiciou aos jovens o encontro com possibilidades incomuns aos seus cotidianos. O espaço do conhecimento não somente desenvolveu a curiosidade sobre os diversos bairros e domínios morfológicos atravessados, como também possibilitou o contato direto com laboratórios que lidam com  conhecimentos cotidianos de forma científica.

As visitas aos laboratórios possibilitaram uma visão mais prática sobre assuntos relacionados ao meio ambiente, em que muitos  já tinham  alguns  conhecimentos prévios. Na visita ao laboratório de Climatologia,  professores e estagiários explicaram como é possível através de programas de computadores fazer a previsão do tempo e a forma de utilização dos diversos equipamentos climatológicos. Através de maquetes, os professores de geomorfologia e pedologia explicaram a formação e análise dos solos e a morfodinâmica que envolve as diferentes paisagens geomorfológicas. Tiveram contato com fotografias aéreas através de  estereoscópios, e muitos se entusiasmaram ao perceber a imagem tridimensional. Finalmente, no Laboratório de Sensoreamento Remoto foi possível a visualização de suas residências em sites de localização, muitos deles manuseando pela primeira vez, um computador.

A percepção da beleza dos jardins e da estrututura universitária ficou evidente na curiosidade de alguns, que perguntaram ao atravessá-la como, e se poderiam voltar a esse espaço. Finalmente a auto-estima dos jovens ficou ainda mais trabalhada, quando foram recepcionados pelo Coordenador do Curso de Geografia e análise Ambiental, lancharam e pousaram para fotos com toda a equipe de professores e alunos do curso envolvidos no projeto.

            O trabalho a partir da realidade dos saberes acumulados por estes sujeitos sociais- estabeleceu um diálogo de saberes, o saber das populações tradicionais e o saber acadêmico, favorecedor do processo de aprendizagem e ensino. Como exemplo é o caso do jovem filho de pedreiro, Hanz, 11 anos, morador da Favela da Pedreira Prado Lopes, que guarda um conhecimento de granulometria do solo, diferenciando argila e areia e sobre pigmentos e minerais. Também poderíamos citar o conhecimento de morfologia botânica do jovem Fernando, 14 anos, sobre morfologia dos vegetais, assentado principalmente na vivência com ervas medicinais, hortas e frutíferas dos quintais. Segundo CUNHA (2002) “Práticas e verdades culturais comandam a observação e a experimentação. A observação é detalhada, minuciosa, e cada um está atento ao que vê e ouve.” Essa é a possibilidade de aprendizagem que acontece fora do ensino formal, denominada pela autora como  conhecimento tradicional.

          Com relação ao desenvolvimento motor utilizou-se prática dialógica interativa de percepção do próprio corpo e da corporeidade do outro. Para isso foram desenvolvidas dinâmicas de grupo. Entre essas merece destaque  o mapeamento do corpo (dinâmica em que um desenha o contorno do corpo do outro que se encontra deitado sobre folha de papel) a partir da qual foi possível fazer emergir as relações de violência em vários níveis que são vivenciadas pelos jovens em vários espaços. A questão da baixa auto-estima ficou evidente, principalmente nas jovens, no início da atividade não querendo exibir o desenho de seus próprios corpos. Com o afloramento dessas questões os educadores problematizaram esses sentimentos e atitudes para iniciar discussão sobre a diversidade, sexualidade, estética, cidadania e mecanismos de exclusão como racismo e machismo. Apesar da curta duração da dinâmica, ao final dela os e as jovens apresentam os primeiros sinais de melhora  da auto-estima e cidadania.

Visando o desenvolvimento afetivo  foram trabalhadas as relações dos jovens  com a expressão de seus sentimentos, de forma verbal e não verbal. Dentre os avanços é fundamental refletir sobre:

a) Os combinados foram construídos por meio de diálogo e negociações que resultaram em relações de respeito, solidariedade e afetividade  como pode ser observado na fala de  Hanz:    “que bom nós aprendemos muitas coisas”, “que tal nós pararmos de bater um no outro,  ser mais legal” ; “que legal a gente poder brincar com uns com os outros”.

b) A interação entre os jovens em sua fase inicial pode ser descrita como reticente e marcada por resistências. No decorrer do processo essas relações foram construídas de forma mais solidária, cooperativa e afetiva.

 Exemplos desses fatores foram possíveis de se identificar ao trabalhar uma dinâmica com vistas a conhecer os espaços de vivência ou convivência dos alunos. Utilizou-se a linha da vida, na qual as pessoas são chamadas a representar, desde as primeiras lembranças até as mais recentes, com destaque para os pontos que mais lhe marcaram. Hélio um jovem de 10 anos ,  destacou que o mais importante que teve na sua vida “foi quando juntei dinheiro e no natal saí com o Hanz, pegamos um táxi, para ficarmos rodando pela cidade, foi o melhor natal que tive”.

O espaço sócio-ambiental  e a exclusão silenciosa - Desafios

O conteúdo relativo as diversas formas de territorialidades  foi trabalhado através de dinâmica que possibilitaram discussões sobre conhecimento geográfico, eurocentrismo, cultura e geografia africana. Nessa atividade o grupo está sentado em circulo  e deve se movimentar, trocar de lugar  no sentido anti-horário,   toda vez que o educador falar  a palavra chave, neste caso, a palavra era África. Nesta dinâmica o grupo em um determinado momento assumiu a condução da atividade, propondo novas regras como a inclusão daqueles que haviam sido excluídos e assumindo o lugar do educador, utilizando os seus próprios conhecimentos sobre o continente africano. 

A utilização de uma pedagogia intercultural possibilitou construir tanto uma problematização da dominação cultural como da importância de leituras da realidade a partir da riqueza da diversidade e da igualdade de direitos. No dia 20 de novembro, por exemplo foi realizado um resgate da História da África antiga, como berço da civilização e da humanidade  e, com um debate com militante do Movimento Negro onde  surgiram nesse trabalho diversos discursos de preconceito, principalmente em relação à opção sexual. Entretanto muitos jovens negros (que eram a maioria no curso) se identificaram e sentiram orgulho ao saberem de sua história e de seus direitos. Através de conjuntos de lápis de cores e estética trabalhou-se a beleza da diversidade, onde associamos à biodiversidade resguardada pelos povos tradicionais, e ressaltou-se a importância dos quilombos como exemplos de sociedades baseadas em convivência intercultural.

O trabalho desenho do nome, a fotografia e o questionamento de apelidos, também possibilitaram a construção de laços de solidariedade, afeto e respeito. O objetivo era resgatar a história do nome, uma vez que um dos mecanismos de objetificação das crianças e jovens na escola é a substituição dos seus nomes por apelidos em geral depreciativos e ou associados aos animais que por sua vez eles também tem estereotipados como nocivos, feios ou pouco inteligentes.

Inicialmente é importante o trabalho com a auto-estima, a transformação e ruptura com os discursos de “objetificação“, que foram construídos para garantir um mito de democracia racial e encobrir o racismo e discriminação social no Brasil. Também foi importante a reflexão para que os oprimidos se libertem da ideologia do opressor: “quero ser branco”, “só podia ser coisa de pobre”; ou dos processos de naturalização da desigualdade. Esta ruptura significa pensar no Brasil as outras histórias encobertas pelo “eurocentrismo” e dar vida a memória, percepção do espaço e cultura dos povos africanos e indígenas, que representam uma importante contribuição na formação étnica brasileira.

Uma concepção de uma Educação Ambiental transformadora ou “libertadora” significa rupturas com modelos de ensino e aprendizagem ou com políticas públicas neoliberais, que encobrem e mantém as desigualdades. Esse desafio coloca muitas vezes o educador diante do desafio do tempo e espaço: até onde ele deve seguir nesse espaço, quando deve parar e quando deve dar continuidade em outros territórios, antes que o modelo neoliberal se aproprie das formas do projeto, esvazie seus conteúdos e elimine os princípios que o nortearam. Esse projeto teve seu término devido a diferenças de concepção metodológicas da assistência social do poder público representado pela figura  da AMAS  em relação aos educadores da área de meio ambiente.

O poder público, principalmente pós-período militar no Brasil, vem desenvolvendo muitas ações com jovens de risco social em uma política de Assistência Social  paternalista, disciplinária ou dentro um de objetivo de inserção laboral. Nesse contexto atua em geral com parcerias com entidades de filantropias que tradicionalmente construíram uma visão de comunidades carentes como depositária de conhecimentos e de doações materiais. Está ai imbuído o estereótipo de “objetos carentes” e não a de sujeitos sociais. Dialeticamente a comunidade que não esteja passível de ser enquadrada na visão de incapacitada de produzir saberes, passa a ser entendida de forma estereotipada, como ameaça social ao produzir saberes “não controláveis” pelas elites dominantes, principalmente dentro do modelo neoliberal.

Algumas entidades filantrópicas se tornaram uma extensão do poder público, uma vez que a maioria do seu recurso para projetos vem do poder público e em geral a primeira dama é a presidente dessa entidade, como é o caso da AMAS, em Belo Horizonte. Grande parte dos jovens é colocada pelos pais nessas instituições com um sentido de reformatório ou porque a entidade em geral coloca esses jovens para trabalharem, e com isto existe uma contribuição para complementação da renda familiar. Mesmo que a denominação seja de atividades sócio educativas, para alguns especialistas a prática observada é de cumprimento de carga horária e tarefas semelhantes ao de qualquer trabalhador formal (office boy).

Falar de Educação Ambiental para o exercício da cidadania em um contexto como este passa   a ser um campo de conflito de classes e de poder. A educação ambiental servindo a um modelo conservador assume o papel de adestradora de conflitos, com celebrações fragmentadas de “Dia da árvore”, “Dia do Meio Ambiente”, “Campanha de coleta seletiva”, que passou a fazer parte da agenda de várias dessas instituições públicas e algumas privadas. Em geral se caracteriza por ser fragmentada, descontínua, despolitizada e não partipativa          (antidemocrática), segundo autores não transforma a crise ambiental em que vivemos. Na verdade remodela para uma melhor acomodação dos impactos ambientais contemporâneos e futuros. Seus  resultados tão desalentadores: 85% das árvores plantadas no “dia da árvore” em Belo Horizonte estão depredadas no outro dia. Mas as vezes mesmo com resultados negativos, a análise em geral é feita culpando a comunidade e raramente à prática equivocada de gestão ambiental.

 Ao contrário dessa visão conservadora da Educação Ambiental, no projeto desenvolvido- Espaço, Tempo e Cultura entende-se essa questão como uma ação problematizadora importante para a inclusão de preocupações ambientais, fundamentais para o exercício de uma cidadania plena através da ética ambiental. Este trabalho tem como objetivo construir, junto aos jovens, um conhecimento que permita transformar sua relação com o espaço urbano e sua representação de natureza. Possibilitar a construção de novas humanidades trabalhando-a a partir da realidade dos excluídos, e do conhecimento e desejos que possui.

 

Considerações  Desafiantes

É comum às pessoas colocarem que a Educação Ambiental deve ser feita com o público infantil. Aos olhos do neoliberalismo parece-nos que é  transferir a intervenção e mudança do modelo para frente e não ter que mudar a gestão agora. As crianças na sociedade ocidental pouco poder têm: não votam, não compõem o legislativo, não compõem o executivo, sua ação e seu poder são limitados. Não podem ser prometidos para um futuro pior, mais poluído, sem acesso à escola, sem acesso a moradia.

Entretanto é importante trabalhar as crianças em um contexto transformador, que possibilite a construção de valores, sua criatividade , fantasia e que promova um desenvolvimento sadio de sua personalidade e de sua relação social e com os demais seres vivos dos ecossistemas naturais.

Os direitos das crianças podem ser instrumentos de aprendizagem e ensino dos direitos dos animais e vegetais e uma releitura da sociedade. Para tal, é importante construir espaços de democratização, como tentou-se no grupo. No primeiro dia de encontro se abrem todas as portas e armários para que os educandos rotulados como favelados conheçam o espaço e cuidem dele e para que os educadores façam uma co-gestão daquele espaço com os educandos.

Passa a ser fundamental a capacitação dos sujeitos em instrumentos ludo-pedagógicos que garantam a construção coletiva dessa transformação, que tem como eixos fundamentadores as dimensões do espaço, tempo e cultura. Ao mesmo tempo é urgente a politização dos educadores ambientais. A complexidade dos ecossistemas se modela na complexidade social e vice-versa.

            Mesmo considerando o reduzido tempo disponível para o desenvolvimento do projeto os resultados alcançados superaram as expectativas dos formadores.  Principalmente porque houve valorização do saber ambiental dos educandos. Partindo do princípio que  estes jovens são excluídos  socialmente, inclusive da comunidade escolar e habitam áreas de risco, a sociedade demanda da Educação Ambiental uma visão sistêmica , crítica maior e constante para responder a complexidade da crise ambiental. Ao mesmo tempo, concepções e práticas de democratização e inclusão social, revelam que projetos dessa natureza permitem desenvolver  posturas mais críticas em relação ao espaço vivido e valores que propiciam cidadãos mais solidários, conscientes e afetivos.

 

Bibliografia

 

BOFF,   Leonardo. Ecologia grito da terra , grito dos pobres. São Paulo : Ática, 2a ed., 1996.

 

CUNHA, Manuela & ALMEIDA, Mauro Barbosa(orgs)- Enciclopédia da Floresta- O Alto Juruá: práticas e conhecimentos das populações - São Paulo: Companhia das Letras,2002.

 

LARKIM, Elisa. Sankofa- resgate afro- brasileiro. Rio de Janeiro:Ed. UERJ,1998.

 

LEFF, Enrique . Saber Ambiental. Sustentabilidade, racionalidade, complexidade e poder. São Paulo :Editora Vozes.2002

 

LOUREIRO, Carlos Frederico Bernardo et alli, Educação Ambiental: repensando o espaço da cidadania. São Paulo: Cortez, 2002.

 

MORIN, Edgar. La cabeza bien puesta. Repensar la reforma, reformar o pensamento. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión.1999

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra ,1970

 

_____________ Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessarios a Prática Eduativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

 


 

[1] Prof. Carla Juscélia de Oliveira Souza, Prof. Miriam Bueno, Prof. Telma Fernanda Ribeiro, Prof. Carlos Eduardo Mazzetto , Jorge Batista de Souza. Estagiários: Mônica de Oliveira Ribeiro, Renata Juliane de Olveira, Bruno Victor Pedra, Eudes Franscisco Barreto, Luana Rodarte Oliveira Zadorosny, Guilherme Souza Ferreira.