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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 

 

 

RELEITURA SÓCIO AMBIENTAL DA SERRA DA JIBÓIA: UM ESTUDO VOLTADO PARA A PRODUÇÃO CONTINUADA DE UMA PRÁTICA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL.

 

 

 

 

ANDRÉ BARRETO SANDES (Professor da Rede Pública do Estado / sandes@hotmail.com)

MARCO ANTONIO TOMASONI (Universidade Federal da Bahia –UFBA / tomasoni@ufba.br)

SÔNIA M.R. P. TOMASONI (Universidade do Estado da Bahia-UNEB /smarise@zipmail.com.br)

 

 

 

 

Palavras-chave: Meio ambiente, Serra da Jibóia, geossistema, escola e Educação Ambiental

Eixo 1: Aplicação da Geografia Física ao Ensino

Sub-eixo 1.3 - Educação Ambiental

 

 

 

 

1. INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea conseguiu, com o acúmulo de experiência ao longo da história, atingir um nível intelectual fantástico, evidenciado com o desenvolvimento cientifico-técnico, capaz de aproximar todo o globo por uma densa conectividade de rede de comunicação, permitindo, dessa forma, socializar as informações a todos que têm acesso à máquina. Esse acesso é restrito apenas a alguns cuja situação econômica permite.

Contrastando com esse desenvolvimento o homem “civilizado” enfrenta, nesse momento, uma crise de valores existenciais, socioculturais, ecológicos, entre outros que põem em risco toda vida na terra, além da pobreza, que também é uma forma de agressão e afeta uma quantidade muito grande de pessoas cuja renda mensal não é suficiente sequer para atender suas necessidades básicas como alimentação e higiene.

Frente a essa crise generalizada podemos seguir dois rumos distintos: ou nos omitimos e pomos em risco a possibilidade de usufruto dos recursos naturais para as gerações futuras, nossas relações interpessoais sadias e até nossa existência, ou aproveitamos a oportunidade para garantirmos nosso futuro com sabedoria, desenvolvendo nos indivíduos responsabilidade, paciência, respeito e amor, valores esses tão desgastados e negligenciados pela exploração e a busca inconseqüente de lucro e poder.

Como respeitar os seres ditos “inferiores” se não há respeito entre os homens ?

Yi-Fu Tuan (1980) afirma acertadamente que “sem à auto compreensão, não podemos esperar por soluções duradouras para os problemas ambientais que, fundamentalmente são problemas humanos” .

Todos desejam e sonham com um futuro mais promissor, com uma sociedade sustentável, solidária e menos injusta. Numa análise preliminar esse ideal parece ser utópico e impossível de se atingir, mas a utopia, segundo Leonardo Boff (1999:65) “ é que mobiliza movimentos, cria ideologias e alimenta o imaginário dos seres humanos que não se cansam de sonhar com um futuro reconciliado e integrado da sociedade humana”.

Partindo desse pressuposto ”cabe a intelectualidade lúcida e generosa e, principalmente, às universidades reforçar e garantir o horizonte utópico de toda a sociedade” (Boff, 2000:93) desenvolvendo projetos que amenizem os problemas sociais, culturais e ecológicos, se aproximando da comunidade para em parceria e sem imposição agir, “pensar globalmente e agir localmente”, uma vez que não adianta projetos belíssimos se não postos em prática e a omissão também é uma forma de agressão.

A escola, vista como o espaço mais nobre que a sociedade conseguiu produzir, é de fundamental importância nesse contexto, no sentido de socialização e de formação do indivíduo, e deve ser, para melhor atender as necessidades atuais, repensada e reformulada para que possa resgatar, de forma interdisciplinar, a cultura, a auto estima e a dignidade do homem, estimulando a auto compreensão e a auto valorização, desenvolvendo uma topofilia, ou seja, “um elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico” (TUAN, 1980).

O projeto de releitura sócio-ambiental da Serra da Jibóia é um trabalho voltado para a produção continuada de uma prática em Educação Ambiental, e se propõe a trabalhar com um grupo de aproximadamente 40 educandos, assessorado por uma equipe interdisciplinar de educadores do Colégio Estadual Aldemiro Vilas Boas (CEAVB) em São Miguel das Matas – Bahia, com o objetivo de discutir as potencialidades e agressões antrópicas, visando desenvolver práticas que amenizem os impactos existentes no geossistema da Serra da Jibóia, que ainda resiste às agressões antrópicas causadas principalmente pela utilização insustentável de seus recursos.

Devido à fragilidade desse ecossistema perante as ameaças do “desenvolvimento” de atividades econômicas no seu entorno e pelos visitantes, justifica a tomada de medidas urgentes. Para tanto, se faz necessário uma intervenção participativa para desenvolver atividades que sensibilizem e criem um sentimento de valor na população do entorno da Serra da Jibóia, com vistas à conservação deste patrimônio no presente para gerações futura

Este trabalho está organizado em três partes principais: a primeira caracteriza o geossistema da Serra, que é o objeto de estudo, o segundo expõe o referencial utilizado para o desenvolvimento das atividades e o terceiro que explicita a intervenção, as dificuldades e os resultados obtidos.

 

2. MÉTODOS E PROCEDIMENTOS

Não é recente a preocupação e os estudos realizados na Serra da Jibóia. No ano de 2001 os envolvidos nesse projeto visitaram esse ambiente e produziram um relatório de viagem que foi trabalhado e discutido em sala de aula para despertar o interesse e refletir a importância de se preservar esse patrimônio natural.

Entretanto, as visitas foram direcionadas, estruturadas e reorientadas em 2002 para melhor explorar as potencialidades desse espaço, trabalhando Educação Ambiental a partir de uma intervenção participativa.

Como elemento diagnostico foram utilizadas questionários com 40 educandos objetivando perceber a visão dos mesmos perante os problemas ambientais e potencialidades da região em estudo, a evolução dessa percepção após as discussões firmadas no ano anterior e o grau de interesse em agir em prol da sua manutenção.

Dessa forma, primeiramente foi realizado um mini-curso com o titulo “A sociedade contemporânea e os desafios da Educação Ambiental (EA)” com carga horária de 10h, seguida de uma oficina diagnóstico, a fim de relembrar e rediscutir o relatório de viagem produzido no ano anterior. Também foram trabalhadas noções básicas de cartografia e analisados mapas da região em questão, em diferentes escalas. Foram utilizadas também imagens de satélite para dar uma idéia mais adequada da região estudada, visando, instrumentalizá-los para a produção de um croqui da serra onde eles pudessem expressar suas percepções e localizar pontos estratégicos já visitados e as ações dos atores sociais.

Foram planejadas e realizadas visitas à Serra da Jibóia com os envolvidos no projeto, sob orientação interdisciplinar com os docentes de diversas disciplinas da escola CEAVB, na tentativa de um exercício de interdisiplinaridade. Isso visou contribuir para o diagnóstico dos problemas e propor ações que visem minimizar os impactos sócio-ambientais.

As visitas funcionaram como estudo orientado abrangente do meio e tiveram como objetivo sair do circuito restrito de sala de aula e perceber In loco as peculiaridades e potencialidades desse ambiente para a região e sua importância para as gerações futuras, herdeiras e responsáveis pela manutenção e preservação para a posteridade.

Como atividades complementares foram realizadas coletas de lixo e confecção de placas educativas através de mutirões e parcerias com escolas e prefeituras.

Finalmente foi preparado um documentário em fita de vídeo e repassado para escolas, bibliotecas e secretarias de educação da região, o qual será utilizado em salas de aula, palestras, entre outras atividades, expandindo os efeitos do programa e disseminando as idéias de cuidado com o meio ambiente, sensibilizando um número cada vez maior de indivíduos.

Em todos os encontros, foi produzido um memorial descritivo analítico objetivando registrar os assuntos discutidos.

É fundamental a continuidade desse trabalho para o futuro, uma vez que a educação é um processo contínuo e necessário, mas que surte efeito em longo prazo.

 

3. REFERENCIAL TEÓRICO

Vários autores contribuíram para a formação das bases da EA, entretanto vale salientar a importância de Rousseau (1712/1778) para quem “a natureza é nosso primeiro mestre”(citado por Novo,1996:21) propondo utilizar o meio como fonte de conhecimento, aprendizagem e de formação para crianças e jovens (recurso educativo) (Novo,1996:21), do biólogo alemão Ernest Haeckel (1834/1919) que propôs em 1866, a criação de uma nova disciplina científica, ligada à biologia, que deveria estudar as relações entre os animais e o meio ambiente, atribuindo-lhe o vocábulo Ecologia e do escocês Patrick Geddes (1854/ 1933) considerado fundador da EA comentando em 1889 que ”uma criança em contato com a realidade do seu ambiente não só aprenderia melhor, mas também desenvolveria atividades criativas em relação ao mundo em sua volta” (Insight into evironmental education, pag. 3, in Dias,2000:29).

A publicação do clássico livro Silent Spring (Primavera Silenciosa) em 1968 pela jornalista Rachel Carson tem sua relevância pela repercussão que fez desencadear uma grande inquietação internacional e críticas à sociedade tecnológica industrial e seus impactos negativos no meio ambiente, que implicou num sobressalto na história como uma tomada de consciência em prol da qualidade de vida e do meio ambiente.

A partir da década de 70 realizaram-se diversas conferências, congressos, encontros e seminários para se discutir o tema, como exemplo temos a Conferencia de Estocolmo (1972), Encontro de Belgrado (1975), Conferência de Tbilisi (1977), Seminário da Costa Rica (1979), Congresso de Moscou (1987), RIO-92 (1992), Conferência do Cairo (1994),mais recentemente a RIO+10 na África do Sul, entre outras que contribuíram para formular princípios, conceitos, objetivos e estratégias para um programa internacional de EA.

Assim, podemos perceber a gradativa mudança que o conceito de meio ambiente sofreu, transcendendo os mecanismos funcionais e biológicos para envolver problemas econômicos e políticos que repercutem na degradação ambiental.

Em 1977 na Geórgia, ex. URSS, foi realizado a conferência de TBILISI, I Conferência internacional sobre EA, organizada pala Organização das Nações Unidas para a EA , Ciência e Cultura (UNESCO) em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), constituindo o ponto de partida de um programa internacional de EA envolvendo os aspectos políticos, socioculturais, éticos, econômicos, técnico-científico, ecológico e espirituais de forma interdisciplinar, formulando suas bases, definindo objetivos, estratégias e planos nacionais e internacionais.

Em 1987 divulga-se o relatório da Comissão Mundial ou Comissão BRUNDTLAND, criada pela ONU, sobre meio ambiente e desenvolvimento tratando dos desafios e perspectivas do desenvolvimento sustentável. Nesse mesmo ano em Moscou, ocorre o Congresso internacional da UNESCO-PNUMA sobre educação e formação ambiental, objetivando discutir o progresso da EA desde Tbilisi, a partir de um relatório que deveria ser apresentado por cada representante dos países presentes.

No ano de 1992 reuniram-se representantes de 170 países no Rio de Janeiro - Brasil para conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento que ficou conhecida como RIO-92, onde se elaborou um plano de ação para a sustentabilidade (Agenda 21), fazendo do encontro um dos mais importantes da história.

Da RIO-92 até a atualidade os discursos sobre EA e Sustentabilidade tornaram-se rotina nas campanhas eleitorais, nos meios acadêmicos, escolas e bate-papos informais.

Em uma breve análise, percebemos avanços bastante significativos nas questões teóricas, restando apenas pôr em prática e esperar os resultados que apesar de serem em longo prazo, devido a amplitude e complexidade serão certamente satisfatórios.

A evolução do conceito de EA está diretamente relacionada com o conceito de Meio Ambiente e como este era percebido, inicialmente restrito e reduzido exclusivamente aos aspectos físicos e biológicos, desconsiderando ou atribuindo pouca importância ao homem, sua cultura e relações entre si e com o meio, distante dessa forma, de uma abordagem holística.

Devido a complexidade e amplitude do tema, existe uma infinidade de conceitos, entretanto para nomear nossas reflexões utilizaremos a definição dada pelo autor do presente trabalho monográfico, no Referencial de Planejamento para implantar Educação Ambiental em São Miguel das Matas, realizado em 2000, como sendo “o conjunto de ações educativas voltadas para a compreensão das relações existentes entre o meio físico (abiótico) e biológico (biótico), incluindo o homem, sua cultura, economia, política, sociedade, história, sob uma perspectiva holística e as relações entre os homens e destes com o meio, objetivando o conhecer, o sensibilizar, o respeitar e o atuar em prol de um meio ambiente mais saudável e melhor qualidade de vida”. (Sandes,2000:14).

A EA é uma alternativa promissora e necessária para resgatar na sociedade contemporânea os valores perdidos, a qualidade de vida e desenvolver um sentimento de cooperação e inclusão entre as pessoas, em busca de uma sociedade menos injusta e, sustentável em todos os aspectos.

A proposta de desenvolvimento sustentável surge nesse contexto, a partir da conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizado pela ONU em 1972, Estocolmo (Suécia) como alternativa de conciliação de desenvolvimento econômico com sócio-ambiental, atendendo às necessidades do presente sem comprometer o usufruto para as gerações futuras, conciliando trabalho com cuidado (Boff ,1999).

Sem dúvida o desafio para o novo milênio deverá evidenciar a importância de uma educação sócio-ambiental para um desenvolvimento sustentável no sentido amplo, um pacto internacional onde a sociedade comprometa-se a utilizar os recursos do meio com prudência e responsabilidade preservando-os no presente para as gerações futuras e “criar novas formas de ser e estar no mundo, superando os pobres valores que estão na gênese e no crescimento da sociedade ocidental e sua cultura (Gutiérrez e Prado,1999:34 ).

Para tanto vai requerer um novo e produtivo relacionamento entre educandos e educadores, escolas e comunidade, sistema educacional e sociedade, um esforço internacional de mudanças profundas no comportamento, para superar a inconcebível disparidade social entre os países, pessoas e o exagerado consumo mundial dos recursos não renováveis. Enfim, que busque a “evolução de uma consciência coletiva, altruísta e eminentemente ética, como única possibilidade de sobrevivência da espécie, mas para essa evolução não podemos contar com o mecanismo passivo da seleção natural”(Branco,1994:70) de Darwin, mas sim com nossa capacidade de trilhar por novos caminhos em busca da utópica e almejada sustentabilidade, ”economicamente viável, socialmente justo, ambientalmente adequado”( Gutiérrez e Prado,1999:105).

 


Fonte: Tomasoni, 2000.


 

4. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE TRABALHO

A Serra da Jibóia é uma das “ilhas” com remanescentes da mata atlântica que é, segundo o artigo 225, parágrafo 4 da constituição federal de 1988 considerada patrimônio nacional.

Este espaço regional será aqui tratado por geossistema, fundamentado na teoria geral que induziu concepções de comunidade e rede, interpretando o contexto e percebendo a natureza de suas relações (Capra,1996:46-47), ou seja, um esforço de análise integrada, segundo Monteiro (2001:32), relacionando os fatores naturais e humanos, transcendendo a velha dicotomia homem / natureza, numa visão holística e polivalente onde os elementos socioeconômicos não sejam vistos como um outro sistema, oponente e antagônico, mas incluído no próprio sistema (Monteiro,2001: 54).

A Serra da Jibóia, localiza-se na região econômica do Recôncavo Sul da Bahia e envolve parte do território de São Miguel das Matas, Varzedo, Santa Terezinha, Castro Alves e Elísio Medrado (Mapa1).

Seu clima é tropical semi-úmido e sua temperatura média anual 22º c. variando em função da altitude, que em alguns pontos passam dos 800m (CEI,1994). O índice pluviométrico anual, de aproximadamente 1200mm no perímetro da área em estudo, é alto em função das constantes chuvas orográficas, concentradas principalmente entre os meses de abril à julho, contribuindo diretamente na formação e manutenção de importantes nascentes.

Em relação aos recursos hídricos vale salientar que a serra marca o divisor de água das sub-bacias dos rios Jaguaripe, Da Dona, Jiquiriçá e Paraguaçu, além de fornecer água de qualidade para a população autóctone.

Os latossolos e os podzóis são os tipos de solos predominantes na região, utilizados para o plantio de culturas tradicionais que substituíram progressivamente as anteriores pela pecuária extensiva, reduzindo significativamente a biodiversidade e desencadeando sérios prejuízos ao ecossistema.

A vegetação predominante na vertente oriental é Floresta Ombrófila Densa, com remanescentes de Mata Atlântica, por receber influência das chuvas orográficas, onde os ventos úmidos, oriundos do litoral, ao encontrar essa barreira natural, faz precipitar grande parte da umidade que contribui para manter sua densidade e exuberância. Já na porção ocidental, por ser menos úmida, foi desenvolvida formações florestais caracterizadas como Floresta Estacional Semi-decidual, Floresta Decidual e Caatinga Arbórea com palmeiras.

Essa posição ecótone, ou seja, transição climática acompanhada pela vegetação, faz da região um tesouro natural com uma biodiversidade bastante rica, inclusive com espécies endêmicas.

A imagem de satélite LANDSAT (EMBRAPA, 1998) abaixo, mostra a ilha de vegetação que se tornou a Serra da Jibóia, como se apresenta hoje isolada, rodeada por áreas de pastagem extensiva que dominam na paisagem do recôncavo sul.

Não se podem desconsiderar os problemas socioculturais que induzem a utilização insustentável de seus recursos e a ausência de incentivos governamentais pouco preocupado e interessados no desenvolvimento rural do pequeno agricultor, agricultura orgânica e de subsistência, qualidade de vida, apoio financeiro e técnico que permita a autonomia dessas famílias. Em contra partida são priorizadas as monoculturas dos latifúndios, principalmente do centro-sul do país, agravando a situação socioeconômica. Conseqüentemente esses proprietários de pequenas porções de terra, recorrem aos recursos provenientes da mata, que não suporta e entra em declínio.

 

 

A perda das matas ciliares, por exemplo, ameaça os riachos e conseqüentemente as atividades agropecuárias que trará, em um futuro muito próximo, sérios prejuízos aos agricultores que necessitam desse recurso para desenvolver suas atividades, e sua ausência desencadeará problemas socioeconômicos de maiores proporções, aumentando o êxodo rural, pobreza e violência nos grandes centros urbanos. Como se pode perceber um impacto desencadeia vários outros até atingir dimensões continentais e globais.

A ausência da cobertura vegetal também provoca progressiva perda da fertilidade do solo, da produtividade e da renda dos agricultores. Outros efeitos desastrosos são a erosão e o ressecamento do solo, alterações do micro clima pela elevação da temperatura e redução da umidade provocada pela irradiação de calor a atmosfera, antes minimizada pela vegetação que absorvia grande parte deste. Para sanar o problema de fertilidade do solo, os agricultores nessa situação, normalmente recorrem a fertilizantes e agrotóxicos num esforço de melhorar a produtividade, numa relação cada vez maior de dependência e desespero.

Para promover o desenvolvimento sustentável nesse geossistema deve-se antes de mais nada estudar, conhecer para cuidar desse ambiente, considerando suas peculiaridades, potencialidades e interações entre todos esses elementos naturais e humanos, compreendendo este ambiente (um geossistema) como um todo, para em seguida ou paralelamente planejar um desenvolvimento no sentido amplo, que envolva as dimensões sociais, culturais, econômicas e ambientais.

 

5. ELEMENTOS REFERENCIAIS PARA IMPLANTAÇÃO DO PROJETO SÓCIO-AMBIENTAL NA SERRA DA JIBÓIA

O desenvolvimento local é, antes de mais nada, uma vontade coletiva de melhorar a qualidade de vida de uma comunidade. Essa vontade é baseada nos recursos existentes e na capacidade de utilizá-los racionalmente, visando a construção de um “mundo” menos injusto, sustentável e de um futuro mais promissor.

Para tanto, se faz necessário, envolver a comunidade local, os estabelecimentos educacionais, representantes políticos, comerciais e rurais, ou melhor, um número cada vez maior de pessoas para somar esforços e definir suas vontades, propagando seus benefícios no tempo e no espaço.

 

5.1 REFERENCIAL PROPOSTO

Acredita-se que uma “releitura” do papel e importância da Serra da Jibóia levará a uma sensibilização que tenha como conseqüência a produção de uma ação diferenciada para com a realidade sócio-ambiental da referida serra.

No entanto para confirmação dessa hipótese, fez-se necessário um diagnóstico do local a ser estudado. No presente capítulo o referencial utilizado se compõe de diagnóstico, que consistiu na análise e identificação das peculiaridades, potencialidades e os impactos já provocados no seu entorno, e de um prognóstico que se consistiu na elaboração das diretrizes, decisão da forma de intervenção participativa que criasse um sentimento de responsabilidade e uma necessidade de cuidar desse patrimônio natural para as gerações posteriores.

A execução foi a operacionalização das diretrizes e a avaliação dos resultados que acompanharam e direcionaram paralelamente todas as fases.

 

6. O PROCESSO DE INTERVENÇÃO E OS RESULTADOS OBTIDOS

Uma pesquisa realizada em 2000 (SANDES,2000:30-31) com 30 educandos de 8ª série do Ensino Médio, utilizando o método probabilístico simples com escolha aleatória, constatou o seguinte:

  • Grande número dos estudantes matriculados nesse ano letivo no CEAVB residia na zona rural , o que os colocava em constante contato com a natureza, utilizando os recursos oferecidos pela mesma para sua sobrevivência.

  • Observou-se também que existe reservas de mata em muitas propriedades rurais, ainda que debilitadas e ameaçadas pelo uso inconseqüente de seus recursos, como caça predatória, derrubada de mata, utilização de adubo químico entre outros e que na região prevalece a monocultura da mandioca, havendo pouca variedade para a subsistência, contribuindo, dessa forma, para uma alimentação pobre que repercute diretamente no rendimento escolar.

  • Em relação à Educação Ambiental, verificou-se nessa pesquisa que não existia uma preocupação, ou pelo menos projetos e iniciativas práticas para trabalhar o tema na escola e que os educandos manifestavam grande interesse pelo ambiente, valorizava a natureza e eram favoráveis à sua preservação, o que facilitou a implantação do “Referencial de Planejamento para Implantar Educação Ambiental em São Miguel das Matas” para sanar tal deficiência.

  • O aluno miguelense desconhecia, não tinha informações ou não acreditava estar a seu alcance uma ação efetiva pelo ambiente, o que justificava, desde aquele período, a tomada de medidas. Quando solicitados a citar os elementos que compõe o meio ambiente, mencionavam primeiramente os elementos físicos como mata, animais silvestres, rios, e outros, atribuindo pouca importância às questões sociais e até a presença humana, desconsiderando suas relações com o meio ambiente e entre si.

  • Como se pode notar, havia dificuldades para entender que meio ambiente envolve além dos elementos bióticos e abióticos, o homem, pobreza, economia, desenvolvimento, ou seja, sua cultura e relações. Era precária ou inexistente a relação estabelecida entre degradação ambiental e o modelo econômico adotado pela sociedade capitalista e suas conseqüências.

Detectado esse problema os docentes e discentes se mobilizaram para reverter este lastimável quadro de desconhecimento, promovendo encontros, discussões, palestras, além de trabalhos práticos na serra. Como já foi mencionado a preocupação com as questões ambientais não é recente, a partir de 2000, constatado a carência em que o corpo discente se encontrava, foram realizados trabalhos intensivos para sensibilizá-los e despertar a vontade de se aprofundar, consultando materiais e discutindo com colegas e amigos, assuntos relacionados com o meio ambiente. No ano de 2001 criou-se a FEMA (Feira do Meio Ambiente) com intenção de promover um encontro que envolvesse escolas, comunidade e professores visitantes para refletir o ambiente natural e humano do município, seu entorno e os globais que nos afetam direta ou indiretamente.

 

6.1 AVALIAÇÃO

Dois anos depois (2000 - 2002) percebe-se claramente o amadurecimento da comunidade escolar, fruto do esforço, para ampliar o conhecimento acerca da região em estudo. Sendo assim propomos fazer uma releitura da Serra da Jibóia desenvolvendo trabalhos práticos como confecções de placas, coleta de lixo e produção de um documentário para expandir os efeitos do projeto, convidando outras pessoas para nos ajudar nesse processo tão difícil quanto encantador que é cuidar do ambiente para as futuras gerações.

Ficou evidente, no contato com educandos e educadores desse estabelecimento escolar, que grande número dos residentes estão no meio rural o que os coloca em constante contato com o meio natural, levando a utilização de seus recursos para sobrevivência.

Como no projeto anterior constatou-se que ainda existe mata em muitas propriedades e que deve ser preservada.

Todos conhecem a Serra da Jibóia, tanto a exuberância quanto os problemas apresentados e os motivos das agressões, consideram importante a preocupação com esse patrimônio natural, tem interesse, podem e querem contribuir nesse desafio.

A partir dessas observações foi possível visualizar a postura dos envolvidos e com eles sistematizar e traçar as metas do projeto e os objetivos a serem alcançados.

 

6.2 RELEITURA DA SERRA E A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A releitura sócio-ambiental da Serra da Jibóia foi um estudo voltado para a produção continuada de uma prática em EA e se propôs, baseado no questionário preliminar e aspirações do grupo, a pôr em prática os objetivos acertados nos encontros.

O grupo batizado de “Anticorpos da Serra da Jibóia” é uma metáfora, relaciona os agentes de defesa do sistema imunológico do corpo humano com os envolvidos nesse trabalho, que somam esforços para conhecer, cuidar, sensibilizar e envolver um número cada vez maior de pessoas, convidando-as a participar e cuidar dessa região tão importante quanto ameaçada.

“Quanto mais entendemos a realidade na qual vivemos, mais humildes nos tornamos, adquirimos um respeito excepcional por todos os seres vivos sem qualquer exclusão, passamos a ter um relacionamento melhor com todos”(Oscar Motomura, in Capra, 1996:16).

Conhecer nosso ambiente significa sair do circuito restrito de sala de aula e se aventurar na construção do conhecimento, percebendo in loco e testando a veracidade e a aplicabilidade dos conteúdos trabalhados previamente e isso dá uma satisfação muito grande ao educador já que “a docência é algo que envolve a coletividade dos alunos, ensinar teoricamente sem prática ... é destinar-se ao fracasso (Monteiro,2001: 106) e furtar a possibilidade dos mesmos de agir como protagonista da história, se tornando verdadeiros cidadãos.

“Na escola o aluno tem vez, pode participar, tem condições de interferir nas deliberações que os afetam diretamente. Cidadão é o indivíduo que tem consciência de seus direitos e deveres e participa ativamente de todas as questões da sociedade. O que acontece no mundo ou nos arredores de nossa cidade ou propriedade é do interesse dele” (Reigota, 2001:21-22).

A construção do conhecimento coletivamente, a partir dos conhecimentos prévios dos envolvidos e observações reais, no campo, cria uma atmosfera favorável para o desenvolvimento de suas potencialidades e associação da teoria com a prática.

Todo o andamento de processo de intervenção procurou se fundamentar nesses pressupostos.

 

6.3 RESULTADOS OBTIDOS

Detectado as aspirações do grupo, esquematizou-se um cronograma prévio de atividades que foram desenvolvidas para atingir os objetivos propostos, que ao fim dos encontros foram registrados e agrupados num Memorial Descritivo Analítico.

Finalmente, o documentário realizado constitui-se em um importante produto, fruto do esforço conjunto para se retratar não só as características geoambientais do projeto, como também atividades que estão sendo desenvolvidas por entidades distintas, mostrando-se dessa forma como indutor de boas práticas, um vez que poderá ser utilizado como recurso didático em escolas e/ou encontros, auxiliando no processo de sensibilização e promovendo discussões em torno das questões ambientais.

 

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Introduzir projetos práticos de Educação Ambiental nas escolas revela uma concepção inovadora e o compromisso social em oferecer uma educação de melhor qualidade, que busque desenvolver nos educandos valores de sensibilidade, solidariedade, convivibilidade e cordialidade, submersos nos mares capitalistas onde o econômico pressiona e afoga o equilíbrio natural e social.

Para tanto se faz necessário criatividade e coragem para percorrer difíceis e longas trilhas, exigindo de todos envolvimento, comprometimento, otimismo e perseverança. É provável que sem essa integração efetiva o avanço seja limitado, podendo o projeto se esfacelar junto com o meio ambiente local, que já se encontra numa situação preocupante, ameaçando São Miguel das Matas de ser conhecido, num futuro próximo, como “São Miguel Desmata”.

Ainda assim é possível a postura transformadora, desde que prática. “Revolução é sempre cabível, mas não em teorias, na sala de aula pode-se dizer tudo, do modo mais radical imaginável, porque nada acontece. A crítica sem prática coerente faz a mesma função do pão e circo” (Demo 1999:89).

Parafraseando Paulo Coelho (1988), “quando queremos algo o universo conspira ao nosso favor”, não devemos então permitir que os problemas tomem proporções ainda maiores (irreversíveis), pois “a guerra não é evitada, mas adiada para vantagem dos outros” (Maquiavel 1996:23), no nosso caso da degradação sócio-ambiental.

Para amenizar os problemas do entorno da Serra da Jibóia e promover seu desenvolvimento sustentável recomenda-se:

  • Uma atuação efetiva do poder público no sentido de fomento a pesquisa e estimulo a iniciativas práticas que auxiliam na preservação desse patrimônio.

  • A ampliação de parcerias entre escolas, prefeituras municipais, ONGs, igrejas e sindicatos, envolvendo a comunidade local, sem a qual, qualquer projeto estará condenado ao fracasso.

Dentro dessa perspectiva o Grupo “Anticorpos da Serra da Jibóia” tem a tarefa de sensibilizar, convencer e convidar as pessoas a cuidar do que ainda nos resta. Para tanto acreditamos piamente nas premissas da Educação Ambiental como instrumento para essa tarefa, principalmente na sensibilização das crianças, que herdarão e tomarão as decisões do amanhã.

 

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