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E1- 1.4T232

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

UTILIZAÇÃO DE IMAGENS DE SATÉLITES NO ENSINO FUNDAMENTAL – O ESTUDO DO RELEVO DAS TERRAS EMERSAS
 

 


Aline Garcia dos Santos – UFRJ – alinegarciadosantos@yahoo.com.br
Fabrício de Oliveira Moté – UFRJ – fabricioufrj@bol.com.br
Lívia Guimarães Andrade – UFRJ –livia.andrade@graffiti.net
Carla Bernadete Madureira Cruz – UFRJ – cmad@igeo.ufrj.br
 

 


Palavras-chave: imagens de satélite, terras emersas, ensino fundamental
Eixo 1: Aplicação da Geografia Física ao ensino
Sub-eixo 1.4: Novas tecnologias aplicadas a processos educacionais

 

 



I – INTRODUÇÃO

A abordagem de assuntos referentes à geografia física, principalmente no ensino fundamental, tem sido um problema tanto para os professores quanto para os alunos. Atualmente, um dos maiores problemas enfrentados pelas nossas instituições de ensino é a grande escassez de recursos que possibilitem ao professor aulas não apenas teóricas, mas também práticas. A utilização de tais recursos práticos na abordagem de conteúdos de geografia física é fundamental, devido a pouca abstração dos alunos, principalmente pela idade que os mesmos apresentam. Além de tal escassez, a maneira como tais conteúdos são apresentados para os educando também tem sido feita, muita das vezes, de maneira equivocada.
Vesentini e Vlach (2000) afirmam que um ensino tradicional tem como base a aula expositiva, em que o professor ensina os conceitos, dá as definições prontas e os exemplos para os alunos, que devem somente assimilar esse conhecimento. Na verdade, cabe ao aluno memorizar os conhecimentos ensinados pelo professor.
Nesse contexto, na sala de aula o que se vê são atividades e conteúdos pré- estabelecidos, o que limita a percepção da realidade.
Atualmente, diversos autores e educadores têm buscado soluções que venham desenvolver diversas potencialidades nos educandos, como seu raciocínio lógico, sua inteligência emocional, sua criatividade, seu espírito crítico, sua capacidade de aprender coisas por conta própria, de pesquisar, de buscar coisas novas (Vesentini e Vlach, 2000).
De uma geografia descritiva, de caracterização de capitais, território nacional, bases físicas e sociais restritas a dados matemáticos, o aluno agora se depara com uma ciência voltada à criticidade, que procura apresentar ao mesmo, questões que o levem a perceber e avaliar o espaço geográfico no qual o mesmo é um agente reprodutor, logo onde está inserido (Vesentini, 1992).
As bases físicas, outrora apenas citadas e memorizadas, agora são explanadas, buscando relação com as dinâmicas espaciais e influências da reprodução humana sobre o espaço e modificações que as mesmas proporcionam ao relevo, dentre os outros elementos que compõe a paisagem.
Dentro de tais perspectivas, a abordagem dos conteúdos aqui propostos continua a encontrar barreiras, já que constantemente o educador deve evitar apenas trazer aos alunos os conteúdos referentes às terras emersas, mas sim relacioná-las com as dinâmicas espaciais no bairro, cidade ou região onde o aluno vive, e desta forma, também acaba por ser um agente reprodutor do espaço.
Apesar de tais barreiras, é de grande importância à abordagem de tais conteúdos, uma vez que é indispensável a compreensão do educando da diferença da escalas de tempo dos agentes naturais construtores e modeladores do relevo e da escala humana. É fundamental que os educandos compreendam que de uma maneira muito brusca e efetiva, o homem modifica e constrói novas paisagens, transformando o que as dinâmicas e processos ocorridos numa escala de tempo geológico levaram até milhões de anos para formar, e como isso, na maioria das vezes, causa sérios problemas ambientais em nossa atualidade.
A utilização do computador na sala de aula passa, assim, a ser uma ferramenta motivadora tanto por parte dos educadores, como dos educandos, já que o mesmo possibilita a busca diária de informações, troca de idéias e utilização de diferentes técnicas e estratégias educacionais.
Uma das ferramentas de grande utilidade disponível para ensino de geografia são os produtos de sensoriamento remoto, dentre eles as imagens de satélites, que podem ser empregadas em diversas temáticas, tais como clima, relevo e urbanização. Na quinta série do ensino fundamental, diversos conteúdos referentes à geografia física são abordados, possibilitando ao professor a utilização de tais imagens na discussão e abordagem dos mesmos.
Como estratégia complementar às imagens de satélites, fotografias e trabalhos de campo também devem ser empregados, buscando uma maior criticidade por parte dos alunos dos conteúdos abordados no local onde os mesmos vivem. Tais ferramentas adicionais procuram assim mostrar que os conteúdos estudados em sala e aula estão relacionados com a realidade.


II – OBJETIVO

Buscando uma melhor compreensão por parte dos alunos em relação ao conteúdo referente às terras emersas, ministrados na quinta série do ensino fundamental, foi proposto neste estudo a utilização de imagens de satélites disponíveis na internet como estratégia complementar. Como os autores deste trabalho residem e lecionam no estado do Rio de Janeiro, foi dada uma importância maior a imagens do estado que possam contribuir na abordagem do conteúdo proposto por professores do nosso estado.


III – METODOLOGIA

A metodologia baseou-se numa revisão bibliográfica sobre o ensino de geografia física na escola e na consulta de diversos livros referentes ao assunto a ser abordado: o espaço das terras emersas. Após revisado o conteúdo a ser abordado, foi proposto um plano de aula referente a seis tempos de aula, contendo introdução, desenvolvimento dos conteúdos e conclusões.
Durante a realização do plano de aula, os sites www.embrapa.gov.br, www.ncdc.noaa.gov/pub/data/images e www.spaceimaging.com foram consultados para a seleção das imagens de satélites que subsidiem o conteúdo a ser abordado. Foram selecionadas 09 imagens a serem utilizadas nas aulas, sendo do satélite LANDSAT, disponíveis no site www.embrapa.gov.br, e 02 do satélite NOAA, disponíveis no site www.ncdc.noaa.gov/pub/data/images e www.spaceimaging.com.



IV – RESULTADOS

Como resultado, apresenta-se um plano de aula no qual propõem-se os seguintes assuntos a serem abordados: diferença entre terras emersas (continentes e ilhas) e imersas (relevo submarino); os três tipos de ilhas (oceânica, costeira e fluvial); a estrutura das terras emersas, dentre eles o interior da Terra, a crosta terrestre, tectonismo, sismos, a deriva dos continentes, vulcanismo, minerais, rochas e intemperismo; os agentes construtores e modeladores do relevo (internos e externos); a ação eólica, fluvial, costeira, glacial e até a antrópica (agentes externos) na construção e modelagem do relevo das terras emersas; formas de relevo (montanha, serra, planalto, vale, morro, planície), ressaltando as formas do próprio bairro e cidade onde a escola está inserida. Os livros didáticos utilizados na abordagem dos conteúdos propostos são os de Sales, Sourient et al (2002) e Vesentini & Vlach (2000).
Junto ao plano de aula referente a seis aulas de 50 minutos cada uma, propõe-se a utilização de imagens de satélites como ferramenta no ensino dos conteúdos propostos.
A utilização de produtos de sensoriamento remoto na quinta série do ensino fundamental requer uma anterior abordagem nos conteúdos referentes à cartografia. O livro didático de Vessentini e Vlach (2000), nas páginas 59, 60 e 61, aborda o sensoriamento remoto ao falar sobre a elaboração de mapas atuais e as técnicas utilizadas para tal elaboração, entre elas o sensoriamento remoto, incluindo as imagens de satélites. O livro também explica de uma maneira bastante compreensível como as imagens são obtidas dos satélites e como tais são utilizadas na confecção de mapas.
Nos dois primeiros tempos de aula, seria explicada a diferença entre terras emersas e imersas, enfatizando as emersas. Utilizando imagens de satélites, seria discutida a diferença entre continentes e ilhas (figuras 01, 02, 03 e 04). Os cinco continentes seriam assim abordados, sendo a América do Sul enfatizada através de uma imagem do satélite NOAA (figura 05), além de países insulares, como a Inglaterra (figura 01), além de ilhas menores, como a Ilha do Governador/RJ e Florianópolis/SC, no Brasil (figuras 02 e 03). Seriam explanados os três tipos de ilha (oceânica, costeira e fluvial), utilizando para isso imagens de satélites (figura 01, 02, 03 e 04).

 

 
FIGURA 02: Imagem do satélite LANDSAT da Baía de Guanabara que ressalta a diferença

FIGURA 01: Imagem do satélite NOAA onde pode ser observada a Inglaterra, um dos países insulares do Reino Unido, ilha oceânica

(Fonte:www.ncdc.noaa.gov/pub/data/images)

 

entre o continente e ilha, sendo a maior delas a Ilha do Governador, ilha costeira
(Fonte: www.embrapa.gov.br)


 


FIGURA 03: Imagem do satélite LANDSAT onde

 

pode ser explanada a diferença entre continente e ilha, que no caso é a ilha de Florianópolis/SC, ilha costeira (Fonte: www.embrapa.gov.br)

 

FIGURA 04:  Imagem do satélite LANDSAT referente a uma área do estado do Amazonas onde pode ser visto diversas ilhas do tipo fluviais, além de se observar o trabalho fluvial como modelador do relevo (Fonte: www.embrapa.gov.br)

 

FIGURA 05: Composição de imagens do satélite NOAA onde pode ser abordado um dos cinco continentes, o continente americano (Fonte:www.spaceimaging.com)


No decorrer da aula seriam também abordados os conceitos relacionados à estrutura da crosta terrestre citadas no tópico sobre objetivos específicos.
Por fim, seria exposto o esquema da deriva dos continentes das páginas 126 e 127 do SALES, G. F., ressaltando como a tectônica de placas foi uma como peça fundamental na construção do relevo que hoje faz parte de nossas vidas.
Nos terceiro e quarto tempos, o conteúdo ministrado em aula seria a abordagem conceitual dos agentes construtores e modeladores do relevo, assim como as principais formas de relevo. Primeiramente seriam questionados os principais agentes internos construtores e modeladores do relevo terrestre. No fim deste tópico, seriam abordados os principais agentes externos modeladores do relevo terrestre (as chuvas, o vento, os rios, as geleiras, o mar), utilizando exemplos regionais através de imagens de satélites, como o exemplo da ação costeira na formação e modelagem do relevo (figuras 06 e 07). Além disso, também seria utilizado o esquema de formas litorâneas apresentado na página 98 do livro didático Sourient et al (2002).

 

FIGURA 06: Imagem do satélite LANDSAT referente à Lagoa de Araruama onde pode ressaltar-se a ação marinha na construção do relevo, como tais feixes arenosos que formaram a lago

(Fonte: www.embrapa.gov.br)

 


 

FIGURA 07: Imagem do satélite LANDSAT da restinga da Marambaia/RJ, onde observa-se a ação costeira na construção das formas do relevo, como é o caso deste cordão arenoso
(Fonte: www.embrapa.gov.br)

 

FIGURA 08: Imagem do satélite LANDSAT que mostra a Serra do Mar, relevo continental do tipo serra, além da baixada fluminense inserida num relevo de planície

(Fonte: www.embrapa.gov.br)

 


Por fim, seriam apresentados aos alunos formas de relevo continental (montanha, serra, planalto, vale, morro, planície) ressaltando exemplos do próprio bairro (através de fotos) e do estado onde a escola está inserida, através de imagens de satélites (figuras 08 e 09).

 

FIGURA 09: Imagem do satélite LANDSAT da planície do Rio Macaé, município de Macaé/RJ, onde pode ser observada as formas de relevo de planície, morros e Montanha, além da ação do homem na modelagem do relevo da planície através da canalização do baixo curso do Rio Macaé Fonte: www.embrapa.gov.br


Os dois últimos tempos de aula (quinto e sexto) seriam reservados para trabalhos práticos e a avaliação. Tais trabalhos práticos seriam compostos de identificação de formas do relevo da local onde o aluno vive através de fotografias, imagens de satélites, além das formas de relevo existentes ao redor da escola, motivando o aluno a perceber e explicar cada forma, levando em consideração os conceitos abordados em sala de aula. É proposto aqui o uso de fotografias como uma ferramenta adicional ao uso das imagens de satélite devido ao pequeno grau de abstração dos alunos. Tais fotografias contribuiriam grandemente na compreensão das formas de relevo visualizadas nas imagens de satélites por parte dos alunos.
Desta forma, seria proposto um trabalho onde fotografias seriam tiradas no entorno da escola para a identificação da forma de relevo.
No sexto tempo, a avaliação seria realizada através de uma prova contendo cinco questões discursivas sobre os conceitos dados em sala de aula e três questões práticas de identificação de formas de relevo, tanto continental como costeiro, através de imagens de satélite de diversas áreas do planeta.
Tais conteúdos seriam ressaltados em trabalhos de campo a serem realizados com os alunos em torno da escola, bem como na cidade onde os mesmos habitam.


V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

A internet trouxe uma grande inovação no uso e consulta de imagens de satélites, principalmente pela possibilidade de livre acesso e aquisição gratuita por qualquer usuário que disponha de um computador conectado a Internet. Para as instituições de ensino, tal ferramenta significa mais comodidade e baixos custos no que diz respeito ao ensino em Geografia. Nesse contexto, as imagens de satélites disponíveis na web são um grande suporte ao ensino e aprendizagem dos conteúdos de Geografia, dentre eles as terras emersas, pois estão disponíveis em rede mundial e são uma forma bastante atrativa e interativa na aprendizagem dos alunos.
Para fins didáticos, o plano de aula completo por nós confeccionado está disponível (sem as figuras, que estão destacadas acima) como anexo no final deste trabalho. Esperamos com isso uma contribuição significativa para professores que desejam inovar seus conteúdos de aula, através da utilização de imagens de satélites.
Apesar de, como já dito, ter-se utilizado neste trabalho algumas imagens de satélites do estado do Rio de Janeiro, cabe aos interessados no assunto uma adequação à realidade da escola e do próprio aluno, buscando imagens do local, cidade e estado, disponíveis principalmente no site www.embrapa.gov.br, que viabiliza a aquisição de imagens em diferentes resoluções, de todos os estado brasileiros.


V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROCHA, César Henrique Barra (2002). “Sensoriamento Remoto” In: Geoprocessamento Tecnologia transdicisplinar, Juiz de Fora – MG, 2a Edição, pp. 120-121.


SALES, Geraldo Francisco de. “O espaço das terras emersas”. In: Geografia A globalização do saber A produção econômica do espaço geográfico. 5a Série. Editora IBEP, 109-150 pp.


SALES, Geraldo Francisco de. “A construção do relevo”. In: Geografia A globalização do saber A produção econômica do espaço geográfico. 5a Série, Editora IBEP, 109-150 pp.


SOURIENT, Lilian, RUDEK, Roseni e OLSZEWSKI, Kátia (2002). “A dinâmica do relevo terrestre”. In: Geografia em foco: o mundo em transformação. Unidade 4, 5a Série, Editora do Brasil, livro do professor, pp. 70-87.


SOURIENT, Lilian, RUDEK, Roseni e OLSZEWSKI, Kátia (2002). “As diferentes formas do litoral”. In: Geografia em foco: o mundo em transformação. Unidade 5, Item 2.4, 5a Série, Editora do Brasil, livro do professor, pp. 98.


VESENTINI, José William (1992). Para uma Geografia Crítica na escola, São Paulo, SP, Editora Ática, pp. 135.


VESENTINI, José William e VLACH, Vânia (2000). “Litosfera (I): as rochas e as placas tectônicas”. In: Geografia Crítica, Volume 1, capítulo 8, Editora Ática, livro de professor, pp. 81-92.


VESENTINI, José William e VLACH, Vânia (2000). “Litosfera (II): o relevo terrestre”. In: Geografia Crítica, Volume 1, capítulo 8, Editora Ática, livro de professor, pp. 93-107.


VESENTINI, José William e VLACH, Vânia (2000). “Técnicas/estratégias pedagógicas e avaliação”. In: Geografia Crítica, Volume 1, Editora Ática, livro de professor, pp. VII-X.


www.embrapa.gov.br


www.ncdc.noaa.gov/pub/data/images


www.spaceimaging.com