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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

AS VOÇOROCAS DE CHINIQUÁ, RIO GRANDE DO SUL:

ORIGEM E A GEOGRAFIA DO TURISMO PALEONTOLÓGICO

 

 

 

 

Pedro Luiz Pretz Sartori - UNIFRA, Santa Maria-RS. sartori@unifra.br

Lúcia Abib Grassi - UNIFRA, Santa Maria-RS

 

 

 

 

Palavras-chave: voçoroca; sanga; fósseis.

Eixo 2: Aplicação da Geografia Física à Extensão

Sub-eixo 2.1: Projetos e ações junto à comunidade

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

            Na localidade de Chiniquá, no interior do Município de São Pedro do Sul são conhecidas, desde o início do século passado, na literatura paleontológica e, também, pelos moradores do lugar, expressivas voçorocas ,em razão das suas dimensões.

  Essas grandes voçorocas, resultaram de processos erosivos que ocorreram nos siltitos argilosos do Membro Alemoa da Formação Santa Maria (BORTOLUZZI, 1974), e tem propiciado a coleta de ossos de répteis fósseis do Período Triássico, estudados na área, pela primeira vez, por HUENE (1990). Em Chiniquá, recobrindo em certos locais essa unidade sedimentar, ocorrem camadas de arenito fluvial, contendo troncos de madeira silicificada.

            Tais feições erosivas estão distantes da sede municipal, cerca de 20 Km. No passado o acesso por estrada vicinal de pouco movimento e com dificuldade de trânsito, trouxe ao longo do tempo dificuldades para chamar a atenção e mostrar à comunidade os elementos que compõem esta paisagem, com aspecto tão diferenciado. Atualmente, o traçado da RS-257 permite mais facilmente o acesso ao local.

            As grandes voçorocas sempre chamam a atenção das pessoas pela forma interessante que apresentam, levando a pensarem sobre as causas que conduziram a sua existência. No caso da localidade de Chiniquá, a coloração avermelhada das rochas sedimentares que as compõem, juntamente com a ocorrência de ossos de répteis fósseis, sempre despertou a atenção das pessoas que visitaram o lugar.

            Hoje, em razão da grande importância dessa localidade, do ponto de vista paleontológico e geoturístico para o desenvolvimento científico do Município de São Pedro do Sul, ressurge então a necessidade de verificar-se a situação atual em que se encontram as voçorocas, visando, dentre outros,  uma análise dos aspectos geomorfológicos relacionados com a formação delas, incluindo a elaboração de um mapa atualizado de localização, com as principais vias de acesso local.

            Essas foram, portanto, as razões principais que levaram a realização deste trabalho, pois a Geografia Física também deve ocupar-se em estudar os fenômenos e acidentes naturais que se produzem na Terra e que originam os tipos diferenciados de paisagens ao longo do tempo.

 

REVISÃO DE LITERATURA

            A geomorfologia e a paleontologia são ciências que fornecem elementos importantes para a reconstituição da história geológica da Terra levando, no caso das voçorocas de Chiniquá, à análise dos aspectos genéticos e do estudo do conteúdo fossilífero que vem sendo encontrado nelas.

            A localidade de Chiniquá, mostra um modelado do relevo na forma de coxilhas, que faz parte da borda meridional da Bacia Sedimentar do Paraná. Esta grande unidade geotectônica que abrange uma região significativa do Sul do Brasil e países vizinhos originou-se durante a Era Paleozóica, sendo preenchida por sedimentos, inicialmente de origem marinha, e posteriormente de natureza continental. Durante o Período Triássico (230-225 milhões de anos), numa extensa área de planície, onde se depositam sedimentos detríticos de cor avermelhada, sob um clima quente e semi-árido, a existência de um ambiente flúvio-lacustre era disputada por uma diversificada fauna de répteis.

Na parte superior da Formação Santa Maria, denominada estratigraficamente de Membro Alemoa, constituído por um siltito argiloso de cor vermelha, ocorre uma importante paleofauna de répteis fósseis do Período Triássico que tem sido descritos e classificados por paleontólogos do Brasil e do exterior, desde o início do século passado (SOUZA & SARTORI, 1998).

            Do ponto de vista geomorfológico, as vertentes das coxilhas, quando expostas à erosão pluvial, originaram ravinas que favorecem o afloramento dos esqueletos desses répteis, cujos grupos principais, na localidade de Chiniquá, são: Dicinodontes, Cinodontes, Tecodontes e Dinossauros. Na ausência da cobertura de solo e vegetação, a incidência da água pluvial sobre o siltito argiloso, impermeável e bastante friável, faz com que o escoamento superficial acentue a erosão, havendo a formação de ravinas. Nas vertentes, onde o processo de ravinamento foi acentuando-se, com o aumento da profundidade da incisão e o alargamento da ramificação, formou-se uma sanga cuja profundidade e extensão estão relacionadas com a atividade erosiva ao longo do tempo, associada ao nível de base local que estabelece o plano de controle da erosão.

Geologicamente, a área de Chiniquá encontra-se na porção mais meridional da Bacia do Paraná. Nela esta inserida a Unidade Geomorfológica da Depressão do Rio Ibicuí, onde se localizam as referidas  voçorocas.

            Essa unidade apresenta formas de relevo em coxilhas dissecadas, com feições de topos convexos e as vertentes caindo, suavemente, em direção aos vales, associados à erosão fluvial.

            As linhas de pedra ocorrem com bastante freqüência nessa área, e são compostas, principalmente, por seixos de arenito silicificado, quartzo leitoso e por fragmentos de madeira silicificada,  todos recobertos por colúvios de natureza arenosa.

            Nas  voçorocas de Chiniquá, conhecidas desde o início do século passado, e amplamente investigadas por Huene, foram realizadas por ele, no ano de 1929, escavações na procura e coleta de ossos desses répteis fósseis.

Nos trabalhos desenvolvidos,  Friedrich Von Huene e seu colaborador Rudolf Stahlecker contaram com ajuda de moradores locais, tendo se hospedado na antiga morada de Abel Luiz da Silva Flôres, (Belo Flôres).

Durante esse trabalho, o pesquisador denominou as sete voçorocas estudadas de “sangas”. Em cada  uma delas, usou como  atributo para sua localização outro elemento de fácil identificação, como é o caso da “Sanga da Árvore”.

Huene usou a denominação de sangas para tais afloramentos, tendo em vista que cada uma delas localizava-se nas vertentes das coxilhas que são locais de nascentes d’água, ou de concentração inicial da água superficial de escoamento de origem pluvial.

            Os jazigos de Chiniquá denominados de sangas por Huene, e conhecidos pelos moradores locais  como barrancas, barranqueiras, barrocas, barroqueiras e barrocadas, correspondem às ravinas e voçorocas na terminologia geológica (BELTRÃO, 1965).

Nas coxilhas de Chiniquá, as feições erosivas se ampliaram numa determinada época e a erosão superficial, na forma sulcos com paredes inclinadas e de fundo estreito, deram origem às voçorocas, com o afloramento do nível freático que acelerou o processo de erosão na base das vertentes.

Passados mais de 75 anos do trabalho  HUENE (1990), e mais de 30 anos das referências sobre a localidade feitas por  BELTRÃO (1965), surgiu, então, o interesse na retomada  dos estudos, com a  busca de novos elementos sobre a paisagem local que é vista nos dias de hoje.

 Pelo fato de não existir informações sobre a gênese das voçorocas de Chiniquá e sobre a situação atual em que elas se encontram, uma retomada deste estudo justificou, portanto, a realização deste trabalho.

 

METODOLOGIA

Após uma revisão de literatura sobre as informações a cerca das ocorrências de répteis fósseis nas voçorocas de Chiniquá, visitas à localidade possibilitaram verificar a situação atual em que elas se encontram, com o registro de uma nova documentação fotográfica que permitisse a comparação com as mais antigas conhecidas na literatura científica da área (BELTRÃO, 1965; HUENE, 1990).

Entrevistas feitas com moradores da localidade, Arthur Martins de Oliveira e Cláudio Einloft, possibilitaram a coleta de novas informações a respeito dos fatos relacionados com as investigações que haviam sido realizadas.

Durante os trabalhos de campo foram observados os elementos naturais, a identificação das voçorocas, das vias de acesso e a distância delas em relação à cidade de São Pedro do Sul.

Num segundo momento, em laboratório, foi elaborado um mapa atualizado de localização das voçorocas, com as principais vias de acesso ao local.

Por último, uma análise da paisagem atual permitiu constatar novos elementos que devem ser considerados nos estudos que envolvam a geomorfologia climática da região.

 

AS VOÇOROCAS DE CHINIQUÁ

            O principal grupo de voçorocas do Chiniquá são em número de sete e foram designadas de sangas por HUENE (1990). O mapa da Figura 2 mostra a localização das sangas em Chiniquá, Município de São Pedro do Sul, Rio Grande do Sul.

 

Sanga dos Cinodontes ou Sanga Béles (N° 1)

Este local, hoje, está atravessado pela RS-287, distante 27,3 Km do entroncamento para a cidade de São Pedro do Sul. Fica no lado norte, de fronte a casa que foi de Teotônio Béles Xavier. A fotografia da Figura 1, tirada por Huene em 1929, mostra a imponência desta sanga que foi um dos principais pontos de coleta dos fósseis.

Com o traçado da RS-287 que secionou a voçoroca na sua porção mediana, cessaram os processos erosivos naturais que vinham ocorrendo, fazendo com que hoje o local esteja sendo coberto por uma vegetação pioneira que vem se instalando e que impossibilita o trabalho de novas descobertas (Figura 3). Resta, assim, tão somente a importância histórica desse local de coleta, referido na literatura científica sobre a área (HUENE, 1990). O nome faz referência ao grupo de répteis que foram encontrados em abundância e, também, a antiga morada de Teotônio Béles Xavier.

 

 

Figura 1. Sanga dos Cinodontes, fotografada por Huene, em 1929.

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Figura 2. Localização das sangas de Chiniquá, São Pedro do Sul, RS.

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Segundo BELTRÃO (1965), foi nessa mesma sanga que Vicentino Prestes de Almeida, em 1925, encontrou o fragmento de mandíbula do primeiro Pseudossúquio sul-americano. Nas camadas basais que afloram nesta sanga, Huene e Stahlecker, em 1929, acharam, também, invertebrados fósseis (crustáceos) pela primeira vez na Formação Santa Maria.

 

 

Figura 3. Sanga dos Cinodontes, atravessada pela RS-287, apresentando-se nos dias atuais (junho de 2003) recoberta por uma vegetação de gramíneas, com o término dos processos erosivos.

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Sanga Vermelha (N° 2)

Esta sanga, fica a uns 1.700 m, rumo 120º SE da encruzilhada da estrada (BELTRÃO, 1965), fronteira à antiga morada de Abel Luiz da Silva Flôres, (Belo Flôres), onde Huene e Stahlecker se hospedaram durante o tempo que estiveram realizando as coletas de ossos de répteis fósseis na área. Está voltada para oeste, e situada numa das nascentes de um dos córregos afluentes do Arroio Jacaré. Neste local, Huene não atribui nenhuma coleta de fósseis (Figura 4).

 

 

Figura 4. Sanga Vermelha, com reduzida   exposição dos siltitos argilosos vermelhos devido o recobrimento pela vegetação de gramíneas. No seu interior vê-se uma árvore de Arueira que cresceu num ponto de maior umidade.

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Sanga da Árvore (N° 3)

Assim chamada pela presença de uma Timbauva ali existente, fica a leste da localização da anterior (BELTRÃO, 1965). As fotografias das  Figuras 5 e 6 foram tiradas por Huene, em 1929. Hoje, no local, existem duas árvores de Arueira restando, no chão, tão somente um fragmento do tronco da referida Timbauva (Figuras 7 e 8). Está voltada para Oeste, localizada na nascente leste do Arroio Jacaré.

 

 

Figura 5. Sanga da Árvore, fotografada por Huene, em 1929.

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Figura 6. Sanga da Árvore. Fotografia tirada por Huene, em 1929, durante a coleta dos ossos de Stahleckeria potens.

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Figura 7. Sanga da Árvore fotografada na sua zona central, com árvores de  Arueira no lugar da antiga Timbauva cujo tronco seco vê-se atrás do Arthur Martins de Oliveira, morador da localidade (junho de 2003). O recobrimento pela vegetação rasteira na sua zona central é mais expressivo do que em 1929 (ver Figura 5).

 

 

Figura 8. Vista geral da Sanga da Árvore, no sentido leste, com a exposição das rochas vermelhas somente em parte das vertentes mais íngremes. A zona central está totalmente recoberta por gramíneas.

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Sanga Vazia (N° 4)
Encontra-se contígua e a leste da Sanga da Árvore, estando voltada para Leste. Nela são abundantes os fragmentos de troncos de madeira petrificados espalhados na superfície (Figura 9).
 

 

Figura 9. Vista geral da Sanga Vazia, no sentido Leste, vendo-se ao fundo a antiga morada de Abel Luís Flôres da Silva (Belo Flôres).

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O divisor d’água bastante estreito que separa as duas sangas é hoje utilizado como área de trânsito pelo gado que habita esses campos (Figura 10).
 

 

 

Figura 10. Trilhas feitas pelo gado ao longo do divisor d’água que separa as sangas da Árvore (à direita) e Vazia (à esquerda). A erosão que vem ocorrendo pela exposição direta da rocha às águas de precipitação pluviométrica direciona o processo de comunicação entre as duas sangas.

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Assim, o pisoteio dos animais vai gerando sulcos onde se estabelecem ravinas pela erosão pluvial.
Esse processo, no local, está acelerando a comunicação entre as suas sangas que não áreas de nascentes e de escoamento da água de precipitação pluvial, em sentidos opostos nas vertentes da coxilha.
 A Sanga Vazia está voltada para Leste e a Sanga da Árvore para Oeste.

 

Sanga César (N° 5)
Situa-se a leste da Sanga Vazia e o nome faz alusão a Artur L. César, morador na sua vizinhança e na época proprietário das terras em que ela se localizava (Figuras 11 e 12). Hoje, vegetação arbórea ocorre na sua área central mais úmida.

 

Figura 11. Vista lateral da Sanga Cézar vendo-se na zona central a presença de árvores de Pitangueira, Arueira, Capororoca, Canela do Mato e Sete Sangrias, identificadas Arthur Martins de Oliveira. O desenvolvimento delas ocorre no local de maior umidade.

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Figura 12. Vista geral da Sanga Cézar situada na nascente do arroio que segue rumo Norte. As ravinas ao longo das suas margens mostram-se, hoje, recobertas de gramíneas.

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Sanga do Caminho (N° 6)

Encontra-se junto à antiga estrada  que ia do Chiniquá ao Rincão do Colorado, hoje abandonada. Segundo BELTRÃO (1965), fica a uns 350 m no sentido sudoeste da anterior e a uns 400 m rumo sul da sanga Vazia. Na área central desta voçoroca o proprietário das terras, a cerca de cinco anos, represou a água dando origem a um açude para o gado beber água (Figura 13).

 

             

Figura 13. Vista geral da Sanga do Caminho com a sua zona central totalmente recoberta de vegetação rasteira. Pequenos deslizamentos rotacionais ocorreram em parte das suas vertentes diminuindo suas alturas.

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Sanga ao Sul do Caminho (N° 7)
Localiza-se ao sudeste da precedente. Esta sanga é pouco expressiva e Huene não menciona achados fossilíferos (Figura 14).

 

 

Figura 14. Vista geral da Sanga ao Sul do Caminho, bastante recoberta por vegetação rasteira. O antigo caminho passava à direita. Ao fundo, vê-se a Sanga Vazia.

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ASPECTOS DA GEOMORFOLOGIA DA ÁREA DE CHINIQUÁ

            Na  localidade de Chiniquá, o tipo de modelado é caracterizado pela presença de coxilhas de topo convexo e vertentes côncavas, com a presença de voçorocas, localmente referidas como sangas. O topo das coxilhas na área está nivelado na altitude de 170 m (Figura 15), mostrando que os processos de dissecação fluvial que geraram essas formas de relevo tiveram seu início a partir de uma superfície de aplainamento que evoluiu  por pediplanação.

 

 

Figura 15. Vista geral do relevo de coxilhas com a dissecação fluvial que originou ravinas ao longo dos cursos d’água.

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            Abaixo da cobertura de solo e vegetação, linhas de pedra assinalam o contato entre o substrato geológico, constituído pelos siltitos argilosos do Membro Alemoa da Formação Santa Maria, e os depósitos de formações superficiais de colúvio que registram a mudança de um clima semi-árido para outro mais úmido. O soerguimento das litologias que compõem esta unidade sedimentar, aliado ao estabelecimento do nível base de erosão local, comandado pelo Rio Toropi, foram elementos que favoreceram o processo de dissecação fluvial vertical que se estabeleceu sob condições de clima mais úmido.

            Com a retração da vegetação, numa época recente e de clima mais seco durante o Holoceno, entre 3.500 aP e 2.400 aP (BOMBIN & KLAMT, 1974), a exposição superficial do substrato geológico ficou submetida aos efeitos que se seguiram com a retomada do clima mais úmido e que caracteriza os dias atuais.

            Foi durante esse último período de alternância climática que se originaram as voçorocas nas vertentes das coxilhas e as ravinas na sua base, pela água superficial de escoamento pluvial em direção aos vales onde hoje se localizam os leitos fluviais dos arroios que drenam a área.

            Durante o século passado até os dias de hoje, partindo das informações de Huene em 1929, das observações levadas a efeito por Beltrão em 1965, e da entrevista realizada  com Arthur Martins de Oliveira, morador na localidade por mais de 40 anos, aliadas à documentação fotográfica comparativa, obtida ao longo deste tempo, pode-se dizer que, provavelmente, um gradativo aumento na precipitação pluviométrica vem acontecendo, conforme as indicações de ALMEIDA et al. (2001) sobre a variabilidade e tendência do comportamento pluviométrico na região.

            Esse fato fez com que pequenos movimentos de massa, nas vertentes mais abruptas das voçorocas, ocasionaram deslizamentos rotacionais havendo uma diminuição dos desníveis e da altura (paredes) das voçorocas. De outra parte, o lento avanço da cobertura vegetal na forma de gramíneas e de alguns arbustos nos locais de maior umidade contribuíram, também, para a evolução do processo de retração em que se encontram as voçorocas, ficando cada vez mais difícil a exposição dos ossos de répteis fósseis.

            A ação do sistema biogeográfico com o fornecimento de matéria vegetal, favorecida pela atuação do sistema climático com o aumento da precipitação pluviométrica, vem diminuindo assim a influência da participação do sistema geológico na formação das voçorocas.

            Por último, a elaboração do mapa atualizado da localidade de Chiniquá, com a localização das 7 sangas onde foram realizadas, no século passado, importantes coletas de ossos de répteis fósseis do Triássico, e a documentação fotográfica atualizada da área, dá subsídios novos que ajudam o desenvolvimento da geografia do turismo paleontológico do Município de São Pedro do Sul.

 

CONCLUSÕES

            Na  localidade de Chiniquá, o tipo de modelado é caracterizado pela presença de coxilhas e as formas de relevo destas coxilhas são de topo convexo com vertentes côncavas, e com a presença de voçorocas. O topo das coxilhas, nivelado na altitude de 170m, mostra que os processos de dissecação fluvial que geraram essas formas de relevo tiveram seu início a partir de uma superfície de aplanamento que evoluiu por processos de pediplanação.

            Durante a última época de alternância climática que ocorreu no Holoceno, na localidade de Chiniquá, originaram-se as voçorocas nas vertentes das coxilhas e as ravinas na sua base, pela água superficial de escoamento pluvial que se dirigia aos vales onde hoje se localizam os leitos fluviais dos arroios que drenam a área. As observações de campo realizadas e a entrevista com moradores da localidade indicam que um gradativo aumento na precipitação pluviométrica vem acontecendo.

Com o aumento gradativo da cobertura vegetal e a diminuição dos processos de erosão pluvial, fica cada vez mais difícil a exposição dos ossos de répteis fósseis contidos na formação geológica subjacente.  Em vista disso, a Paleontologia sofre prejuízo a interrupção que tende a ocorrer, na descoberta de novos achados fossilíferos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALMEIDA, Alcionir Pazetto; KEGLER, Lucas Luiz; MISSIO, Luís Rodrigo, et al. 2001. Variabilidade e tendência do comportamento pluviométrico na região de Santa Maria – RS, in: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA, IXº, Recife. Resumos..., Recife: UFPe, p. 227.

 

BARBERENA, Mario. 1987. Cinodontes e rincossauros no sul do Brasil. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, v. 6, n° 34, p. 44-50.

 

BELTRÃO, Romeu. 1965. Paleontologia de Santa Maria e São Pedro do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. Boletim do Instituto de Ciências Naturais da UFSM, Santa Maria, n° 2, p. 5-114.

 

BOMBIN, Miguel; KLAMT, Egon. 1974. Evidências paleoclimáticas em solos do Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, XXVIII°, Porto Alegre. Anais..., Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Geologia, v. 3, p.183-193.

 

BORTOLUZZI, Carlos Alfredo. 1974. Contribuição da geologia da região de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil. Pesquisas, Porto Alegre, v. 4, n° 1, p. 7-86.

 

HUENE, Friedrich Freiherr von. 1990. Répteis Fósseis do Gondwana Sul-Americano. Trad. Carlos Burger Júnior. Santa Maria: UFSM.

 

SCHULTZ, Cesar L. 1995. Os répteis fósseis da região de Santa Maria. Ciência e Ambiente. Santa Maria, nº 10, pp. 7 – 25.

 

SOUZA, Gisele Dias; SARTORI, Pedro Luiz Pretz. 1998. Importância geomorfológica e paleontológica da erosão pluvial nas vertentes da Formação Santa Maria. In: SIMPÓSIO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSSÃO, II°, Santa Maria. Anais..., Santa Maria: Centro Universitário Franciscano, p.197.