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E2-2.3-T027

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 


 

DIAGNÓSTICO DO PROCESSO EROSIVO EM GOIÂNIA
 

 

 


Maria Amélia L. S. do Nascimento(amelia@iesa.ufg.br)1;

Maurício M. Sales(msales@eec.ufg.br)2
 

 

 

 

1Instituto de Estudos Sócio-Ambientais – Departamento de Geografia - UFG
2Escola de Engenharia Civil – UFG

 

 


Palavras-chave: erosões urbanas, cadastro de erosões, processo erosivo.
Eixo2: Aplicação de Geografia Física à Extensão

Eixo 2.3: Parcerias Governo/Sociedade
 

 

 


1. INTRODUÇÃO

Entre 1992 e 1993 foi realizado um cadastramento das erosões em Goiânia, por meio de um convênio entre o Departamento de Geografia da Universidade Federal de Goiás e o Departamento de Estradas de Rodagem do Município (DERMU). Com base nesse cadastramento e nas medidas de combate sugeridas, muitas das 45 erosões localizadas foram contidas, outras eliminadas, mas algumas permaneceram sem qualquer intervenção.
Em 2002 foram feitas visitas às erosões cadastradas em 1993, para avaliação das intervenções realizadas, bem como para verificar o atual estágio das erosões. Desta feita, 63 erosões foram cadastradas. Apesar da contenção de algumas cadastradas em 1993, outras erosões, de menor porte, surgiram.
Este trabalho consta de um diagnóstico básico apoiado na análise dos cadastros realizados e na história do processo erosivo em Goiânia, que decorre de seu processo de ocupação desordenado e do tipo de tratamento que é dado às erosões, o que inclui a prática danosa de entulhamento, com sérias conseqüências para o sistema de drenagem, notadamente o assoreamento intenso.
Fundada em 1933, a cidade de Goiânia foi projetada para 50 mil habitantes. O Censo 2000, do IBGE, aponta uma população de 1.093.007 habitantes, portanto mais de 20 vezes a população prevista inicialmente. As erosões, com características de boçoroca, chegam, em 1993, a 45, e em 2002 aumentam para 63, e aparecem notadamente na periferia, para onde é feita a transferência dos problemas do centro da cidade, principalmente o lançamento das águas servidas e pluviais.
Nesses 9 anos, em algumas dessas erosões o problema foi parcialmente resolvido, ou pelo menos houve tentativas de se fazê-lo. Habitantes foram realocados, como no caso do Jardim Botânico, obras de engenharia caras foram realizadas, como no Autódromo Internacional de Goiânia e no Jardim Botânico. Mas os problemas persistem. As obras de engenharia não resistiram muito tempo à dinâmica do relevo em constante transformação.

2. OBJETIVOS

O trabalho teve como objetivos:

  • Realizar o recadastramento das erosões identificadas por Nascimento (1993), observando as intervenções realizadas e o estágio atual das que surgiram posteriormente;

  • Realizar o cadastramento das novas erosões existentes na área urbanizada do município e analisar sua distribuição espacial;

  • Promover a necessária integração entre a universidade, os órgãos públicos municipais e a comunidade;

  • Proporcionar aos alunos dos cursos de Geografia e de Engenharia Civil, a oportunidade de suas inserções no trabalho junto à comunidade e a vivência junto aos problemas sócio-ambientais do município;

  • Fornecer à administração pública municipal, especialmente ao DERMU (Departamento de Estradas de Rodagem do Município), os 63 cadastros das erosões juntamente com seus croquis, documentário fotográfico, mapa com a localização das erosões, e um trabalho sobre o diagnóstico ambiental dessa situação;

3. METODOLOGIA

A metodologia utilizada na elaboração deste trabalho baseou-se, em linhas gerais, no trabalho de Salomão e Rocha (1989) e constou dos seguintes procedimentos:

  • Levantamento da bibliografia existente sobre o assunto;

  • Elaboração e preenchimento de uma ficha de cadastro (Salomão e Rocha, 1989) e a inclusão de ensaio granulométrico;

  • Obtenção de dados sobre a caracterização geoambiental de cada erosão, por meio dos mapas temáticos (geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação, declividade) elaborados para a Carta de Risco de Goiânia em 1991;

  • Treinamento de uma equipe de 20 alunos estagiários, dos cursos de Geografia e de Engenharia Civil, para o preenchimento do cadastro em campo;

  • Trabalhos de campo realizados em todas as erosões, por 5 equipes de trabalho, no período de fevereiro a dezembro de 2002, com o objetivo de preencher a ficha de cadastro;

  • Entrevistas com moradores e/ou proprietários de lotes e edificações, procurando saber a origem da erosão e as sugestões de medidas de combate;

  • Documentário fotográfico de cada erosão, mostrando a vista geral do local onde elas se instalam e detalhes de sua origem e evolução;

  • Realização de ensaio granulomético de algumas erosões;

  • Elaboração de um diagnóstico ambiental, com base nos dados cadastrados;

  • Localização das erosões cadastradas em um mapa na escala 1:40.000 do município de Goiânia.

4. RESULTADOS

O preenchimento dos 63 cadastros em trabalhos de campo e discutidos entre a equipe permitiu a elaboração de um quadro-síntese que permite a visualização geral da situação das 63 erosões visitadas. Com base nesse quadro pôde-se fazer uma caracterização das erosões quanto aos seus aspectos geoambientais e quanto aos seus aspectos sócio-econômicos.

4.1. Características geoambientais

4.1.1. Litologia

A análise da Tabela 1 permite verificar que 36 erosões, ou seja, 57,1% das cadastradas ocorrem em rochas do Grupo Araxá Sul de Goiás, constituída basicamente de micaxistos e quartzitos. Onde a erosão atinge as rochas do Grupo Araxá Sul de Goiás, a forma do canal do fundo da boçoroca apresenta sinuosidades, denotando a direção da xistosidade das rochas que compõem essa formação. Tal fato leva a supor que essa xistosidade facilita e orienta a direção da erosão.
Nas rochas do Complexo granulítico Anápolis-Itauçu, registraram-se 27 erosões, representando uma porcentagem de 42,9%. Essa menor quantidade de erosões deve-se ao fato de o sítio urbano de Goiânia se desenvolver, em sua maior parte, sobre rochas do Grupo Araxá Sul de Goiás, sobre as quais desenvolve-se o Planalto Rebaixado de Goiânia. Já as rochas do Complexo Anápolis-Itauçu constituem a área que circunda o sítio urbano de Goiânia, representadas pelas superfícies residuais mais elevadas que compõem o Planalto Dissecado de Goiânia.
Outro fato observado em trabalhos de campo é que as dimensões (comprimento, largura e profundidade) das erosões desenvolvidas nas rochas do Grupo Araxá Sul de Goiás são maiores do que as que se desenvolvem em rochas do Complexo Anápolis-Itauçu, conforme consta no cadastro, o que parece comprovar o favorecimento da xistosidade à erosão.


Tabela 1. Formação geológica / litologia
 

Formação – litologia

Quantidade de erosões

%

Grupo Araxá Sul de Goiás – PmaC e PmaD -  (micaxistos e quartzitos)

36

57,1

Complexo granulítico Anápolis-Itauçu – APIgaip -  (para e ortogranulitos, metabásicas, metagranitóides e metavulcanosedimentares)

27

42,9

Total

63

100

 


4.1.2. Solos

Existe em Goiânia predomínio generalizado de latossolos, que se diferenciam dos demais tipos pelo teor de óxido de ferro e de alumínio. São eles, o Latossolo Roxo, o Latossolo Vermelho-Escuro, o Latossolo Vermelho-Amarelo.(Tabela 2). Em áreas mais restritas aparecem o Cambissolo, o Gleissolo e os solos Litólicos. Combinação de dois ou mais tipos de solos também ocorre. Todos os solos identificados apresentam caráter distrófico, o que significa que têm mais de 50% de sua capacidade de troca ocupada pelo hidrogênio e alumínio, portanto, são os menos férteis.
O Latossolo Vermelho-Escuro distrófico, textura argilosa, é o que predomina em 24 das erosões cadastradas, ou seja, em 38,2% das erosões. Já o Latossolo Vermelho-Amarelo foi registrado em 9 erosões, representando 14,3 do total. Somados, os dois tipos de latossolos vermelhos totalizam 33 erosões, ou seja, 52,5% do total. Via de regra, as texturas arenosas e médias são as que mais facilitam a erosão. Em Goiânia, a maior parte dos solos possui textura argilosa, o que em princípio dificultaria seu aparecimento. Porém a existência de apreciáveis quantidades de gibbsita e de hematita nos latossolos favorece a estrutura granular que facilita a erosão por causa da pouca coerência entre os grânulos.
Outro tipo de solo onde freqüentemente se instalam as erosões, são os Latossolos Roxos distróficos, identificados em 18 erosões, representando 28,6% do total. No município de Goiânia derivam das rochas do Complexo Granulítico Anápolis-Itauçu e possuem caráter distrófico. A maior parte dos Latossolos Roxos é quimicamente rica, constituindo uma exceção à baixa fertilidade generalizada dos demais latossolos.
Em número de ocorrências registraram-se quatro erosões em áreas de Gleissolo distrófico, representando 6,3% do total. Correspondem a solos hidromórficos, pouco evoluídos, formados sob condições de encharcamento constante, senão por vários meses consecutivos. Nestas condições forma-se um solo caracterizado por apresentar um horizonte subsuperficial gleizado, de coloração acinzentada ocasionada pela redução de ferro, devido à presença quase constante do lençol freático à superfície do solo. Esse tipo de erosão é decorrente, quase sempre, do desmatamento, desprotegendo o solo frágil, e da posterior ocupação urbana, sem os devidos cuidados. A evolução da erosão nessas condições pedológicas é rápida e constitui perigo iminente.
Os demais tipos de solo, Podzólico e Litólico, foram verificados em pequenas proporções e não são muito significativos do ponto de vista da erosão na área estudada.


Tabela 2. Tipos de solos
 

Solos

Quantidade de erosões

%

Latossolo Roxo distrófico  LRd

18

28,6

Latossolo Vermelho-Escuro distrófico   Led

24

38,2

Latossolo Vermelho-Amarelo distrófico  LVd

9

14,3

Podzólico Vermelho-Escuro distrófico  Ped

1

1,6

Cambissolo distrófico  Cd

2

3,1

Gleissolo distrófico  Ge

4

6,3

Solos litólicos distróficos  Rd

3

4,7

Combinação de dois ou mais solos

2

3,2

Total

63

100

 


4.1.3. Lençol freático

A Tabela 3 mostra que em 37 erosões cadastradas, ou seja, em 58,8% dos casos, não aflora o lençol freático. Comparando esse dado com o do cadastramento efetuado em 1992 e 1993 constata-se que houve uma diminuição dos casos em que o lençol freático aflorava no fundo das erosões. Esse fato sugere, em primeiro lugar, que parte das 45 boçorocas cadastradas naquela época foram sanadas. Em segundo lugar, que das 63 erosões atuais cadastradas, 37 não exibem o lençol freático, portanto são mais rasas e menos problemáticas, exigindo soluções mais possíveis e menos onerosas, já que se enquadram na categoria de ravinas e sulcos.
Entretanto, ainda existem 26 erosões, ou 41,2% dos casos em que aflora o lençol freático, e nessa situação a problemática é maior e de mais difícil solução. Sabe-se que a erosão é mais rápida e mais intensa no solo do que na rocha. Ao atingir a rocha, há o afloramento do lençol freático. O aprofundamento da erosão tende a ser mais lento no sentido vertical devido à maior resistência oferecida pela rocha. Entretanto, a erosão lateral se intensifica porque a água do lençol freático escoa no fundo da erosão e vai solapando os taludes, promovendo seu desmoronamento. Esse processo é rápido e acelera a evolução lateral das erosões, aumentando o seu grau de risco, e configurando boçorocas que comprometem seriamente a ocupação do solo em suas adjacências, atingindo residências, bem como patrimônio público e privado.
 

Tabela 3. Afloramento do lençol freático
 

 Comportamento

Quantidade de erosões

%

Aflora o lençol freático

26

41,2

Não aflora o lençol freático

37

58,8

Total

63

100,0

 


4.1.4. Origem das erosões

A análise dos cadastros e do documentário fotográfico permite verificar que as duas principais causas das erosões em Goiânia são as galerias pluviais, onde existe asfaltamento, e o escoamento concentrado, onde não há. Tendo a galeria pluvial como causadora principal, foram encontradas 36 erosões, ou 57,1% do total. E o escoamento concentrado é responsável pelo surgimento de 23 erosões, ou 36,5% do total cadastrado. Outras causas encontradas envolvem 4 erosões, representando 6,3% do total. Essa origem detectada pode ser visualizada na Tabela 4.
Observações em campo mostraram que o problema das galerias pluviais é de quatro ordens:
1. O subdimensionamento da tubulação é um problema comum, devido, provavelmente, a fatores de ordem econômica, o que não justifica o problema, já que gastos com a recuperação de áreas danificadas por erosões superam em muito os gastos com uma tubulação de dimensões adequadas. Deveria ser levado em conta, no planejamento sobre o dimensionamento das tubulações, o tipo de clima a duas estações encontrado em Goiânia, já que de novembro a março ocorrem vazões máximas decorrentes das fortes precipitações e da crescente impermeabilização da área urbana. Assim, é freqüente observar nesta cidade, grandes danificações nas galerias pluviais, por não suportarem o aporte de água nessas ocasiões. Os transtornos causados por causa desse subdimensionamento, vão desde a necessidade de reconstrução de toda obra até as enchentes nas áreas centrais da cidade, atrapalhando o trânsito e a vida das pessoas.
2. O lançamento de águas pluviais em áreas de cabeceiras de drenagem é o aspecto mais comum, dada a facilidade de escoamento e a economia de tubulação. Entretanto, há de se considerar que as cabeceiras de drenagem evoluem naturalmente à montante, fato agravado intensamente com o lançamento de águas pluviais ou servidas.
3. O lançamento de águas pluviais a meia encosta é outro grande problema que faz com que as galerias pluviais sejam apontadas como causadoras de boçorocas. Normalmente isso é feito em áreas de fundos de vales, onde se acentuam as declividades do terreno. O forte impacto das águas no período chuvoso faz com que se instale a erosão. O aprofundamento do terreno no local impactado, vai, aos poucos, solapando o talude e consequentemente a base da obra de galerias pluviais, danificando-a lentamente. A tubulação vai aos poucos se desarticulando e caindo no fundo da erosão, normalmente já em estágio de boçoroca.
4. Outro aspecto que contribui para o desencadeamento das erosões é a falta de monitoramento e assistência técnica a essas obras. Assim, é comum observarem-se bueiros e bocas-de-lobo entupidos por lixo das ruas, obstruindo a passagem das águas de enxurradas. Se há pavimentação asfáltica, esse fato provoca alagamentos de ruas e avenidas, causando transtornos de ordem social e econômica aos cidadãos, como congestionamentos, arraste de carros estacionados, queda de árvores, dentre outros. Por outro lado, quando não há pavimentação asfáltica, a água procura outros caminhos para chegar ao córrego mais próximo, e nessa procura vai abrindo sulcos que se transformam em ravinas, que evoluem para boçorocas.
Outra causa importante no surgimento das boçorocas é o escoamento concentrado das águas pluviais ou das águas servidas, quase sempre em áreas sem pavimentação asfáltica. Isso se verifica principalmente nas áreas periféricas, destituídas de canalização de água e esgoto. A ocupação urbana nas periferias e nos fundos de vale se dá de forma aleatória e desordenada. A cobertura vegetal, que atenua o impacto das gotas de chuva e de seu escoamento, é retirada. A água escoa vertente abaixo, arrastando consigo sedimentos, solos agricultáveis, animais, e mais tragicamente, pessoas.
 

Tabela 4. Origem das erosões
 

Tipo

Quantidade de erosões

%

Galerias pluviais

36

57,1

Escoamento concentrado (geralmente onde não há asfalto)

23

36,5

Outros

4

6,3

Total

63

100,0

 

4.2. Danos sócio-econômicos

O cadastramento permitiu identificar também os tipos de danos causados ao meio sócio-econômico: residências, vias públicas, estradas, obras ou patrimônio público ou privado.


Tabela 5 – Danos sócio-econômicos decorrentes dos processos erosivos
 

Condição

Quantidade de erosões

%

Compromete residência

30

47,6

Compromete vias públicas

35

55,5

Compromete obras ou patrimônio público

22

34,9

Compromete obras ou patrimônio privado

06

9,5

Compromete rodovia

2

3,2



A Tabela 5 mostra que das 63 erosões cadastradas, 30 comprometem residências, ou seja, 47,6% do total cadastrado.
Essa situação é preocupante, já que a dinâmica de evolução da erosão é intensa, principalmente se já atingiu o estágio de boçoroca. A erosão evolui não só a montante, como também lateralmente, dependendo do estágio em que se encontra. O efeito piping pode causar abatimentos no terreno, de forma a promover trincas, rachaduras, e mesmo recalque de residências. Pode haver também desbarrancamento de taludes, destruindo a casa de moradores. Ao longo do córrego Capim Puba, por exemplo, esse fato ainda ocorre.
A consulta aos cadastros permite verificar os casos onde essa situação ocorre, e assim, tomar as devidas providências, que parecem as mais sérias do ponto de vista da população atingida.
As vias públicas (ruas e avenidas) pavimentadas ou não, também são muito afetadas pelas erosões. Constatou-se, conforme Tabela 5, que em 35 locais, ou em 55,5% dos 63 locais visitados, foram observados comprometimentos de vias públicas.
Em vários locais, os limites de bairros, vilas e setores são definidos pelas vias públicas. Muitas vezes essas vias públicas não pavimentadas são construídas paralelamente aos cursos d´água, e as vias perpendiculares a ela são quase sempre acompanham o sentido da declividade. Como nem sempre há pavimentação, a água da chuva escoa no sentido dessa declividade, ocasionando erosões, muitas vezes de grandes proporções.
Foram consideradas como obras ou patrimônio público, galerias pluviais, poços de visita, solos agricultáveis, hospitais, pontes, áreas de preservação ambiental, instituições públicas, dentre outras.
Áreas verdes, como a do Parque Vaca Brava, Parque Areião, Parque Jardim Zoológico, Jardim Botânico, também foram consideradas como patrimônio público.
A Tabela 5 mostra ainda, que 22 das erosões, ou 34,9% do total, comprometem obras ou patrimônio público, representando um prejuízo não só para os cofres públicos, como também para o meio ambiente e para a população que usufrui dessas áreas.
Muitas vezes os contratos entre a Prefeitura e as empresas que prestam os serviços de contenção de erosão não especificam corretamente a área a ser recuperada e a obra, onerosa, acaba sendo comprometida. Um exemplo pode ser visto no Jardim Botânico, onde a construção de interessante obra de contenção, de acordo com modernas técnicas paisagísticas, e incorporando os conceitos de auto-recuperação do ambiente, deixa a desejar, por não envolver os processos de erosão remontante e por não eliminar a causa do problema, que é a entrada de água no Jardim Botânico. Essa causa somente será eliminada quando da construção de um anel de galerias pluviais em torno do Jardim Botânico.
Foram consideradas como obras ou patrimônio privado, empresas, confecções, postos de gasolina, hospitais, clínicas.
De acordo com a Tabela 5, constatou-se que apenas 6 das erosões cadastradas, ou 9,5% do total (63), envolvem obras ou patrimônio privado. Além disso, observa-se que o patrimônio público é mais danificado pelas erosões do que o patrimônio privado, e sobre isso cabe maior atenção por parte da Prefeitura.
A Tabela 5 mostra também, que apenas duas erosões comprometem rodovias, ou seja, 3,2% do total.

4.3. Medidas de combate à erosão urbana

Muitas tentativas já foram feitas no sentido de conter, corrigir ou prevenir erosões em Goiânia; algumas com sucesso, outras desastrosas. Muitos autores apresentaram opções de recuperação de boçorocas em áreas urbanas, a exemplo de Bigarella e Mazuchowischi (1985). Simpósios sobre erosões urbanas são realizados periodicamente na tentativa de encontrar soluções para problema tão sério e cujo controle custa tão caro aos cofres públicos.
Na elaboração deste trabalho, foram observadas, em campo, as medidas mais freqüentemente utilizadas na contenção do problema, e também foram sugeridas medidas adequadas visando a solução, ou pelo menos, a minimização do problema.
Dentre as medidas mais freqüentemente utilizadas, predomina em 70% das erosões o aterro, que juntamente com o entulho, é jogado dentro das erosões, misturado a lixo doméstico (plásticos, vidros, latas, lixo orgânico) e a lixo que é retirado das ruas (restos de podas de árvores, troncos, madeiras).
A prática desse hábito danoso vem trazendo sérias conseqüências para o meio ambiente, para a saúde das pessoas e para os cofres públicos. O local preferido para o despejo desse material normalmente é a cabeceira da erosão, justamente onde os processos erosivos são mais acelerados e freqüentemente danificam vias públicas. Nas primeiras chuvas esse material é conduzido para jusante, gerando em seu percurso, atrito com o fundo da boçoroca, ajudando a intensificar o processo erosivo. Mas o agravante maior é o intenso assoreamento que promove.
As outras medidas de combate utilizadas são menos expressivas em quantidade e podem ser vistas na Tabela 6.


Tabela 6. Medidas de combate utilizadas
 

Medidas de combate

Erosões

%

Aterro

44

69,8

Construção de galerias pluviais

11

17,5

Construção de curvas de nível

8

12,7

Represamento com gabião

6

9,5

Dissipador de energia

4

6,3

Rampa de concreto

2

3,2

Construção de meio fio

2

3,2

Desvio de canal

1

1,6

Calha de madeira e manta geotêxtil

1

1,6

Calha de concreto

1

1,6

 

4.3.2. Medidas de combate sugeridas

As visitas às erosões permitiram um bom entendimento sobre os processos que as geraram. Com base nesse conhecimento foram sugeridas, para cada erosão cadastrada, as medidas de combate mais apropriadas, e que constam na Tabela 7.
 

Tabela 7 . Medidas de combate sugeridas
 

Medidas

Erosões

%

Construção de galeria pluvial

22

34.9

Recuperação da galeria pluvial

18

28.5

Pavimentação

16

25,3

Reflorestamento

12

19

Revestimento vegetal dos taludes

10

15.8

Construção de meio fio

7

11.1

Rede de esgoto

5

7.9

Construção de dissipadores de energia

5

7.9

Construção de curvas de nível

4

6.3

Construção de paliçadas

4

6.3

Canalização da nascente

3

4.7

Suavização dos taludes

3

4.7

Outras

6

9,2

 

Para a maior parte das erosões foi sugerida a construção de galerias pluviais. Isso se justifica na medida em que se considera, conforme mostra a Tabela 4, que uma das causas das erosões é a própria galeria pluvial (57,1% dos casos). Elas são construídas em regiões instáveis, como cabeceiras de drenagem ou margens de cursos d´água, e essa instabilidade, natural em ambientes fluviais, provoca seu desmantelamento. O lançamento das águas pluviais e servidas a meia encosta também é um fator gerador de erosões.
Outra causa é o escoamento concentrado, gerado pela ausência da galeria pluvial (36,5 % dos casos). A água pluvial escoa acompanhando a declividade do terreno, e nesse trajeto, abre sulcos, que rapidamente se transformam em ravinas, que podem passar a boçorocas. A construção de galerias pluviais nessas áreas é prioritária, para disciplinar o caminho das águas.
A recuperação de galerias pluviais deve ser outro aspecto prioritário nas ações da Prefeitura. O fato de a maioria delas serem construídas em áreas instáveis como cabeceiras de drenagem, margens de rios e à meia encosta torna-as suscetíveis a desmoronamentos. O solapamento constante na base das obras de galerias pluviais tira-lhes a estabilidade, e as galerias, vão, aos poucos se desarticulando e caindo no fundo da erosão. Há de se levar em conta que esse processo é constante, e que a erosão é remontante, podendo gerar prejuízos enormes aos órgãos públicos e à população, que pode ter suas residências ameaçadas por esse processo, o que freqüentemente acontece. As galerias pluviais devem, do ponto de vista geomorfológico, ser lançadas em áreas mais estáveis, como o médio curso dos córregos, com obras de dissipadores de energia, com proteção dos taludes, com drenos com material sintético geotêxtil (onde necessários), dentre outros.
A pavimentação asfáltica é outra forma de prevenir as erosões e de melhorar a qualidade de vida das populações. Mas deve ser antecedida por redes de água e de esgoto, e meio fio, e não simplesmente colocada a massa asfáltica sem essa infraestrutura. A pavimentação sem essa infraestrutura pode promover o direcionamento das águas nas laterais das ruas e avenidas, acelerando o processo erosivo.
O reflorestamento é indicado na maioria das áreas marginais aos cursos d´água, como forma de recuperação da mata ciliar e como forma de contenção do processo erosivo. A vegetação promove maior infiltração das águas da chuva e protege a camada superficial do solo, do escoamento concentrado. Também em áreas de solo degradado por retirada de material para pavimentação, ou para outro tipo de material de construção, deve ser feito o reflorestamento, como forma de prevenção da instalação dos processos erosivos.
Em áreas onde é feita a suavização dos taludes, deve ser guardada a parte superficial do solo e recolocado no talude suavizado. Sobre esse solo também deve ser feito o replantio das espécies nativas como forma de prevenir a erosão.
A construção de meio fio ou guias e sarjetas são obras que têm por finalidade captar as águas superficiais do leito das ruas. De acordo com o manual de ocupação de encostas (Cunha,1991), em vias não pavimentadas recomenda-se proteger a faixa ao longo das sarjetas (cerca de 80 cm de largura) com solo argiloso e brita, solo melhorado com cimento ou grama, visando evitar o surgimento de erosões.
Outra medida sugerida é a construção de rede de esgoto. O lançamento de águas servidas decorre, quase sempre, da inexistência de sistema de esgoto adequado. Esta situação permite uma infiltração contínua no solo, podendo provocar sua saturação e conseqüente ruptura de cortes e aterros. O problema torna-se mais crítico nos períodos chuvosos, quando a saturação do solo aumenta naturalmente. Assim, é necessária a implantação de rede de coleta e condução das águas servidas, separada do sistema de drenagem das águas pluviais. (Cunha, 1991)
Encostas com inclinações elevadas podem transportar grandes vazões e causar sérios problemas erosivos. A construção de escadas d´água, ou de dissipadores de energia pode minimizar o movimento de terra. Informações mais detalhadas sobre as escadas d’água são obtidas em Cunha (1991).
A construção de curvas de nível é necessária onde a erosão remontante está evoluindo rapidamente e a urbanização ainda não se completou, restando portanto, áreas de pastagem, com características rurais. Devem ser acompanhadas de camalhões, para que o escoamento concentrado não avance para jusante e para que a água se infiltre o máximo possível.
A construção de paliçadas é indicada de forma paliativa, em áreas com características mais rurais que urbanas, como obra auxiliar de proteção. De acordo com DAEE/IPT (1989), em boçorocas de pequeno porte em estágio inicial de desenvolvimento, ou nas porções terminais de boçorocas praticamente estabilizadas, pode-se recomendar a implantação de obras de pequeno porte, simples na sua concepção e execução. Neste caso, deve-se buscar o máximo de aproveitamento de materiais e de mão de obra disponíveis no local, como pedras, bambus, eucaliptos. Entre essas obras destacam-se pequenos barramentos, visando ao assoreamento de fundo da boçoroca, pequenos aterros tipo “murundum” .
A canalização da nascente de cursos d´água é uma medida necessária, principalmente em casos de piping, quando a água verte do talude e promove a formação de verdadeiras tubulações que insidiosamente provocam abatimentos no terreno. De acordo com Salomão e Rocha (1989) tratar as águas superficiais, provenientes do lençol freático ou do lençol suspenso é um dos maiores desafios existentes na execução de obras em boçorocas estando pouco desenvolvidas técnicas totalmente eficazes. A ação das águas subterrâneas é apontada como uma das causas do desenvolvimento lateral das boçorocas. Quando a boçoroca atinge o lençol freático, os mecanismos de erosão são intensificados, em função do surgimento de um gradiente piezométrico que ao emergir no pé do talude apresenta suficiente força para deslocar partículas sólidas, podendo estabelecer o processo de erosão tubular regressiva (entubamento ou piping). Ocorre também a liquefação do material arenoso pela lenta percolação d água junto à parede da boçoroca, ocorrendo uma diminuição da coesão do solo e conseqüente solapamento do talude. O tratamento convencional é feito com a aplicação de drenos enterrados, visando à drenagem das águas subsuperficiais de maneira a impedir o arraste do solo pelo piping.
A suavização dos taludes, ou retaludamentos (Salomão e Rocha, 1989) são obras de estabilização caracterizadas por alterações na geometria dos taludes, principalmente através de cortes nas porções superiores da encosta, para alívio da carga ali atuante. Muitas vezes também são executados aterros compactados na base dos taludes que agem como uma carga estabilizadora no trecho inferior da encosta. Os retaludamentos podem abranger desde porções restritas da encosta até modificações de todo o perfil do talude e, para sua execução, necessitam de espaço disponível suficiente. Em Goiânia, devem se restringir às grandes erosões, como a do Autódromo, por exemplo, onde em parte dos taludes já se tomou essa providência. Na área a jusante dessa erosão, também é necessária essa obra.
Outras medidas sugeridas incluem contenção de depósito de entulho, contenção de lançamento de água pluvial e servida, construção de gabião e colocação de manta de geotêxtil, que podem servir como medidas complementares às medidas sugeridas.
Com relação às demais diretrizes para a concepção de projetos de contenção de boçoroca, deve-se consultar Salomão e Rocha, 1989.

8. CONSIDERACÕES FINAIS

A análise dos resultados permite afirmar que o aparecimento de erosões urbanas deve-se, em primeiro lugar, ao crescimento desordenado da cidade. Goiânia possui um sítio urbano favorável e condições naturais que não induzem facilmente ao surgimento de erosões. Seus solos são argilosos. As erosões aparecem mais freqüentemente nos solos arenosos. Seu relevo não é acidentado e portanto não possui áreas extensas com declividades elevadas que favorecem o processo erosivo.
O grande problema está ligado às ocupações urbanas em fundos de vales, áreas naturalmente instáveis suscetíveis ao aparecimento de erosões, e em declividades que não favorecem a ocupação urbana. Há de se considerar, quanto às declividades, que não haveria necessidade de se ocupar essas áreas, já que o município dispõe de grandes áreas planas em condições mais favoráveis de uso. Entretanto, muitas dessas áreas encontram-se nas mãos de incorporadoras, aguardando valorização. Assim, a população mais desfavorecida e sem acesso às melhores áreas, promove a ocupação dessas áreas de risco.
Outro problema é a ocupação profissional de áreas, ou seja, a existência de pessoas que vivem de ocupar áreas e vendê-las a qualquer preço. Como não são áreas regularizadas pela prefeitura, essas pessoas garantem sua ocupação, aguardando regularização dos loteamentos pela prefeitura. Essas também são áreas problemáticas, já que a ocupação se faz desordenadamente, induzindo os processos erosivos.
Outro problema detectado, tanto no cadastramento de 1993 quanto no presente cadastramento, é no tocante às medidas de combate utilizadas. A velha e danosa prática de entulhar as erosões a cada ano, vem acarretando problemas sérios de assoreamento no sistema de drenagem, gerando, consequentemente, sérios problemas de enchentes, já que os leitos dos cursos d´água vão ficando cada vez mais rasos. As águas das chuvas então, necessitam de cada vez mais área para escoar suas águas. E assim, acontecem, sazonalmente, as enchentes, que tanto prejudicam a população e oneram a prefeitura, no socorro aos habitantes ribeirinhos.
Este trabalho pretende, assim, fornecer subsídios ao órgão interessado no sentido de fornecer um diagnóstico sobre as erosões e orientar no tocante às medidas de combate a serem utilizadas, enfatizando que o entulhamento é a pior prática no combate às erosões.

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