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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

A INFLUÊNCIA DE INSTITUIÇÕES E EVENTOS CIENTÍFICOS NA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO
 


Marcos Barros de Souza(souzamb@bol.com.br)
Sueli Ângelo Furlan(suelifurlan@hotmail.com)
 

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP
 


Palavras-chave: Evolução do Pensamento Geográfico, Geografia Física
Eixo: 2 – Aplicação da Geografia Física à Extensão
Sub-eixo: 2.4 – História e Participação da Geografia Física na Sociedade

 


Algumas instituições como as Universidades, a Associação dos Geógrafos Brasileiros, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, além dos eventos científicos ligados à área, tiveram grande influência sobre o pensamento geográfico brasileiro.

ANDRADE (1977) relata que a década de trinta marcou o desenvolvimento do conhecimento geográfico com a colocação da Geografia nos currículos dos cursos superiores de Administração e Finanças (que deram origem aos modernos cursos de Ciências Econômicas, de Ciências Contábeis, de Administração e de Direito) e nos cursos de Geografia e História das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. A criação do IBGE, com o recrutamento de engenheiros civis para os trabalhos de Geografia, provocou a renovação do estudo e do ensino de Geografia no Brasil.

Nas décadas de quarenta e cinqüenta, as principais contribuições ao desenvolvimento do conhecimento geográfico estão contidas nas teses e contribuições ligadas à Universidade de São Paulo, nos artigos publicados na Revista Brasileira de Geografia e nos trabalhos esparsos conduzidos pela Associação dos Geógrafos Brasileiros em suas reuniões anuais. O autor cita os mais variados trabalhos que contribuíram, de uma forma ou de outra, ao desenvolvimento do conhecimento geográfico no Brasil. Alerta, ainda, que a literatura geográfica não vem tendo a repercussão que merece nos meios universitários e culturais e que a mesma contém uma contribuição válida para a interpretação e apresentação de soluções à maioria dos problemas nacionais.

ANDRADE (1994b) relata que a partir da Revolução de 30, quando se deu ênfase à modernização e ao conhecimento do território brasileiro, é que se pode falar em uma Geografia estruturada, científica e acadêmica, desenvolvida em instituições governamentais (IBGE) - e em Universidades. A partir de então, surgiram revistas, boletins e livros científicos, especificamente geográficos, denotando uma grande influência dos geógrafos franceses.

MAMIGONIAN (1991) relata que a Associação dos Geógrafos Brasileiros nasceu em 1934, no mesmo ano de criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que permitiu a implantação da Universidade de São Paulo. Esta associação se caracterizou como sendo de pesquisadores, reunindo, inicialmente, Pierre Monbeig, seus alunos de Geografia e História e, também, grandes intelectuais como Caio Prado Junior e Rubens Borba de Morais. A Associação dos Geógrafos Brasileiros se constituiu num lugar mais criativo do que o próprio curso de Geografia e História, por se usar a liberdade intelectual mais plenamente, pela prática constante das palestras, debates e diversidade de opiniões. Quando a Associação dos Geógrafos Brasileiros foi se tornando nacional, a partir de 1944, reunindo, sobretudo, geógrafos de São Paulo e Rio de Janeiro, já existia uma nítida distinção entre as práticas intelectuais das Universidades e da Associação.

ANDRADE (1994a) relata que só em 1944 a Associação dos Geógrafos Brasileiros tornou-se verdadeiramente nacional, com a união dos geógrafos paulistas e cariocas, iniciando-se, assim, um trabalho de cooperação, a partir da Assembléia Geral ocorrida em Lorena. Porém a Associação dos Geógrafos Brasileiros foi profundamente aristocrática uma vez que estabeleceu duas categorias de sócios: os efetivos, com direito pleno; e os cooperadores, formados por todas as pessoas interessadas pelo estudo da Geografia, mas que não tinham uma obra específica na área. O sócio se iniciava como cooperador e só passava a efetivo se os efetivos resolvessem elegê-lo para o “clube fechado”, sendo que esse sistema ocorria para evitar que intelectuais não-geógrafos chegassem a posições de controle e direção da Associação, em nível nacional e fazer uma espécie de patrulhamento científico, a fim de que a Associação mantivesse uma linha uniforme de pensamento.

GEIGER (1994) relata que a Associação dos Geógrafos Brasileiros, nas décadas de quarenta/cinqüenta, foi dominada por conservadores, porém os jovens, contestadores para ter um espaço que lhes era negado, no entanto não abandonaram a instituição. Quando novos grupos alinhados à esquerda política brasileira passaram a dominar a Associação, nos anos setenta, utilizando-a não só para contestar a ditadura militar, mas também para pregar a revolução, procuraram igualmente negar espaço a antigos geógrafos que não seguiam sua orientação política, seja por serem “reacionários” ou por serem dissidentes, muitos dos antigos sócios se retiraram. Segundo o autor, em uma atmosfera democrática, há lugar para todas as correntes de pensamento e deve haver total liberdade para que cada corrente de pensamento existente ou que venha a aparecer, tenha o direito de se apresentar.

A partir da década de setenta, houve uma grande mudança nos Congressos de Geógrafos, os quais alcançaram um nível diferente do que vinha sendo realizado nas décadas anteriores, sendo que com a reformulação do Estatuto da Associação dos Geógrafos Brasileiros teve início a realização de Encontros de Geógrafos.

Houve uma evolução quantitativa nos trabalhos apresentados nos eventos, sendo que estes trabalhos eram produzidos pelos novos geógrafos, que tinham uma visão diferenciada dos problemas geográficos que vinham sendo discutidos no Brasil. Talvez isto tenha ocorrido pelo fato de que, nas décadas de cinqüenta e sessenta, a Associação dos Geógrafos Brasileiros e a Geografia brasileira tiveram influência muito grande de geógrafos franceses.

Ao longo deste processo percebe-se a grande importância da Associação dos Geógrafos Brasileiros, como uma associação que reúne os pesquisadores/geógrafos de todo o Brasil, a qual tem procurado estar voltada para a divulgação da Geografia, através de eventos ligados à mesma e das revistas e dos boletins publicados e a importância do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e das Universidades, como instituições governamentais, na produção do saber geográfico.

De acordo com MAMIGONIAN (1991), os Congressos e Encontros promovidos pela Associação dos Geógrafos Brasileiros foram sempre momento onde os geógrafos pudessem apresentar os resultados de suas pesquisas, sendo que estes eram mais produtivos e democráticos que os cursos de Geografia existentes nas Universidades e realizavam os treinamentos de pesquisa e os debates que eram escassos nos cursos, sendo que atualmente os Congressos e Encontros destinam-se, principalmente, aos iniciantes, ou seja, graduandos e recém-graduados.

A Geografia e a Geografia Física, no Brasil, vêm sendo discutidas com significativa importância ao longo dos Encontros, Congressos e Simpósios de nível nacional, com maior ênfase a partir da década de setenta, conforme pode ser verificado nos Anais e/ou Cadernos de Resumos e Contribuições Científicas destes eventos, os quais registram trabalhos em diferentes linhas de abordagem.

Até o final da década de setenta, os principais eventos de nível nacional, que reuniam os geógrafos, foram os Congressos Brasileiros de Geógrafos e Encontros Nacionais de Geógrafos. A partir da década de oitenta, além destes, começaram a serem realizados outros eventos que tratam a Geografia por áreas, sendo que a Geografia Física ficou representada por dois grandes e importantes eventos: os Simpósios de Geografia Física Aplicada e os Encontros Nacionais de Estudos Sobre o Meio Ambiente.

ANDRADE (1989), relata, ainda, que a partir da década de oitenta, quando a crise do capitalismo atingiu a fundo o Brasil, a corrente chamada crítica ou radical ganhou espaço e passou a ser discutida no ambiente universitário e nas associações profissionais, enquanto a corrente teórico-quantitativista perdeu terreno, partindo para uma posição cada vez mais tecnocrática ou para uma posição ligada à valorização da percepção. Nesta década, os geógrafos, de acordo com suas posições teóricas e filosóficas, procuraram caminhos e explicações para a realidade que estava em mudança rápida e contínua.

CHRISTOFOLETTI (1985), relata que a realização dos Simpósios de Geografia Física Aplicada criou oportunidade para que a comunidade de pesquisados brasileiros dedicados aos estudos da Geografia Física pudesse se reunir e debater assuntos ligados à área. Houve uma necessidade de reunir os especialistas e os interessados em Geografia Física para avaliar o desenvolvimento ocorrido nesse setor e as pesquisas realizadas nas várias instituições brasileiras e traçar algo para orientar e entrosar os projetos de pesquisa a curto e médio prazo. Outro fato foi de que, após a regulamentação da Profissão de Geógrafo, através da Lei nº 6.664/79, os profissionais da área de Geografia Física ainda não tinham tido oportunidade para se reunir, debater e definir o modo de ação mais consentâneo para com a realidade brasileira.

Os objetivos básicos delineados para os Simpósios foram: a) avaliar o estado atual do ensino e da pesquisa em Geografia Física, considerando o que se desenvolve no país; b) elaborar o quadro de ação dos geógrafos, no tocante ao estudo do meio ambiente físico, em função da lei sobre a profissão de geógrafos; c) traçar orientações que visam concatenar e coordenar as atividades de ensino e as pesquisas nas diversas Universidades e Instituições brasileiras; d) divulgar, através de publicação específica ou de número especial de um periódico geográfico, os trabalhos e as ponderações resultantes desse conclave.

Os Encontros Nacionais de Estudos Sobre o Meio Ambiente tinham como objetivos: propiciar uma forma interdisciplinar de debates e comunicações científicas, visando a integração e o avanço das ciências ligadas ao meio ambiente; e contribuir, através do melhor conhecimento da realidade ambiental, na definição de políticas e ações relativas ao meio ambiente.

Estes eventos tornaram-se fundamentais para que pudessem ser discutidos e divulgados os resultados das pesquisas na área de Geografia Física, produzidos no Brasil, por serem eventos de nível nacional. Com a realização destes eventos a Geografia Física e os geógrafos/pesquisadores estão conquistando um espaço maior e divulgando os seus progressos científicos, o que pode ser evidenciado com a periodicidade em que os eventos ocorrem e o número de trabalhos apresentados, como poderá ser visto no decorrer desta pesquisa, na qual será feita uma quantificação utilizando-se os Anais e/ou Cadernos de Resumos e Contribuições Científicas dos eventos.

Referências bibliográficas

ANDRADE, Manuel Correia de. O pensamento geográfico e a realidade brasileira. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. 54, p. 5-28, junho 1977.


________. Caminhos e descaminhos da geografia. Campinas: Papirus, 1989.


________. Uma geografia para o século XXI. Campinas: Papirus, 1994a.


________. Trajetória e compromissos da geografia brasileira. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, 5., 1994, Curitiba. Anais... Curitiba: AGB, 1994b. p. iii-viii.


CHRISTOFOLETTI, Antônio. Simpósio de geografia física aplicada. Boletim de Geografia Teorética, Rio Claro, v. 15, n. 29-30, p. 9-28, 1985.


CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Papirus, 1986.


GEIGER, Pedro Pinchas. Um olhar sobre a geografia no Brasil: do estado novo à nova república. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, 5., 1994, Curitiba. Anais... Curitiba: AGB, 1994. p. ix-xviii.


MAMIGONIAN, Armen. A AGB e a produção geográfica brasileira: avanços e recuos. Revista Terra Livre, São Paulo, n. 8, p. 157-62, 1991.