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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

Morfologia do Complexo de Anomalias Geoidais do Leste Brasileiro

 



 

Charles R. C. Ferreira ferreira@igeo.uff.br



Universidade Federal Fluminense

CEG - Instituto de Geociências - Departamento de Geologia

 

 


 

Palavras-Chave: Geomorfologia, Margem Continental, Hotspot

Eixo 3: Aplicação da geografia à pesquisa

Sub-eixo 3.1: Perspectivas inter e transdisciplinar




 

1 INTRODUÇÃO

Na Margem Continental Leste do Brasil, existe um alargamento anormal da Plataforma Continental caracterizado pela larga plataforma de Abrolhos, por  bancos montes submarinos e cadeias de montes submarinos que constituem a expressão topográfica da Província Magmática de Abrolhos e que aparentemente se relacionam com uma extensa anomalia do campo gravimétrico, o Complexo das Anomalias Geoidais Leste Brasileiro (Pessanha, 2000).

O objetivo da presente pesquisa de iniciação científica é fazer uma análise das províncias fisiográficas desta região, para uma posterior correlação com o Complexo de Anomalias Geoidais Leste Brasileiro. 

Inicialmente, foram realizadas a consulta bibliográfica e a elaboração de mapas e perfil preliminares. Os dados levantados puderam corroborar a hipótese da existência de uma anomalia térmica que originou o CAGLB.

Na segunda etapa da pesquisa, foi realizada a comparação morfológica entre o CAGLB com uma outra ocorrência de feição tectônica semelhante no oceano global. O hotspot escolhido para a  comparação foi o de Society, localizado no Oceano Pacífico Sul. Essa comparação tem o objetivo de encontrar características geomorfológicas comuns entre as duas regiões que pudessem ser atribuídas aos efeitos de uma pluma de manto. Adicionalmente, este estudo irá contribuir para a definição da natureza das anomalias batimétrica e gravimétrica na margem continental leste brasileira.

 

2 METODOLOGIA

Esta pesquisa compreendeu atividades de consulta bibliográfica e de elaboração e interpretação de cartas batimétricas e gravimétricas.

O estudo bibliográfico teve como objetivo o aprendizado dos conceitos básicos, a caracterização, a nomenclatura e a classificação e feições associadas a anomalias térmicas da litosfera e, em particular, do hotspot de Society.

A elaboração de cartas batimétrica e gravimétrica, com dados derivados de altimetria de satélite (Sandwell et al., 1996), teve como finalidade uma maior compreensão das características morfológicas do Hotspot de Society, que foram descritas no estudo bibliográfico.

Com base no mapeamento, foram feitas discussões com o orientador da pesquisa sobre as características comuns entre o CAGLB e o hotspot de Society.

 

3 hotspots em regiões oceânicas

O levantamento bibliográfico e o mapeamento digital puderam levantar as seguintes considerações sobre os hotspots:

A maior parte da atividade vulcânica marinha está confinada nas margens das placas litosféricas. Porém existem algumas regiões de atividade vulcânica anômala que não se localizam nestas zonas e sim nas partes centrais das placas.

Crough (1983), sugeriu que os alinhamentos vulcânicos, os montes submarinos e as cadeias de montes submarinos foram formados na crosta oceânica por meio de um fluxo vertical ascendente de plumas de manto que se originam nas camadas inferiores da Terra, entre o manto inferior e o núcleo externo.  Essa fonte de magma é denominada de Pluma. Na superfície a pluma se constitui em um Hotspot.

A formação dos hotspots acontece quando uma placa listoférica passa sobre uma pluma. O fluxo da pluma provoca uma deformação local na topografia da placa litosférica. Esse incremento resulta na formação de uma intumescência que possui a forma de um domo. O tamanho do domo é proporcional à intensidade do fluxo das plumas.

Os hotspots possuem uma distribuição irregular sobre as áreas oceânicas. Alguns ocorrem próximos das cordilheiras oceânicas, como Santa Helena, enquanto outros ocorrem próximo ao centro das placas, como o de Tristão da Cunha. Uma importante correlação existe entre a localização do hotspot e as anomalias geoidais. Como a anomalia geoidal possui uma grande extensão, pode-se supor que ela seja formada em grandes profundidades. Isso confirma a teoria que os hotspots são causados por plumas mantélicas oriundas do manto inferior.

De acordo com Monneraeu & Cazenave (1990), a altura e a extensão geográfica da intumescência e da anomalia geoidal variam de acordo com cada hotspot. As pesquisas indicam um incremento na topografia  da intumescência de acordo com a idade da placa litosférica onde está situada.

Geralmente, elas possuem uma altura que varia de 1500-200m em placas jovens e de 300-500m em placas com mais de 100 milhões de anos. A altura na anomalia geoidal também varia de acordo com a idade da placa. A altura varia de próximo a zero em zonas próximas as cordilheiras e chega a 6-8m sobre placas antigas. A extensão lateral das intumescências varia de 1000 a 1500 km.

 

4 Comparação entre o CAGLB e o Hotspot de Society

O mapeamento batimétrico e gravimétrico da região do CAGLB revela a existência de uma intumescência localizada entre as latitudes de 10°S e 23°S e as longitudes de 28ºW e 40° W com as seguintes características :

·          Forma grosseiramente dômica circular ;

·          Extensão média de 1000 km;

·          Amplitude (desnível topográfico) em torno de 500 m.

Ao redor desta anomalia se localizam as feições da Província Magmática de Abrolhos, distribuídos na seguinte forma:

·         Ao norte, os Montes submarinos da Bahia;

·         Ao sul, a Cadeia Vitória-Trindade

·         A oeste, as plataformas de Abrolhos e Royal-Charlotte.

Os mesmos procedimentos que foram utilizados para obter as características morfológicas sobre o CAGLB também foram aplicados para analisar o hotspot de Society, que se localiza entre as latitudes de 17°S e 19°S e as longitudes de 149°W e 152° W.

Por meio do levantamento do estudo da bibliografia e das cartas batimétrica e gravimétrica, foram obtidos os seguintes resultados :

·         Possui uma idade de 76 milhões de anos;

·         Forma circular da intumescência;

·         Extensão média de 1000km;

·         Amplitude de 1100;

·         A principal feição morfológica é o início de uma crista assimétrica (não possui atividade magmática e tectônica) existente ao nordeste  do  hotspot de Society.

Por meio da comparação morfológica e da consulta bibliográfica, podemos notar que as duas anomalias possuem características semelhantes em relação à extensão e a amplitude. Entretanto, não foi encontrada pelo mapa gravimétrico a intumescência no qual o hotspot de Society se baseia. Uma hipótese que pode explicar esse fenômeno pode estar relacionada com a estrutura geológica da placa litosférica onde esse hotspot se localiza. Esse mesmo controle estrutural pode ter sido o responsável pela atividade magmática periférica no CAGLB.

 

5 CONCLUSÃO

A comparação morfológica realizada por meio do estudo bibliográfico e pelos mapas batimétricos e gravimétricos com o hotspot de Society contribuiu na hipótese da existência uma anomalia térmica do manto responsável pela formação do CAGLB.  Entretanto, não foi encontrada pelo mapa gravimétrico a intumescência no qual o hotspot de Society se baseia. A citada anomalia só foi percebida por meio do perfil batimétrico

 

6 Agradecimentos

Meus mais sinceros votos de agradecimento ao meu orientador, o professor Dr. Jorge Palma que tanto me ajudou e apoiou no período da minha pesquisa; ao CNPq por ter me concedido a bolsa de iniciação científica e, especialmente, aos professores e alunos do Departamento de Geologia , dos quais tive o prazer de conviver nestes anos.

 

7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CROUGHT, S. T. , 1983.  Hotspots swells.  Ann. Rev. Earth Planet. Sci., No 11, pp. 165-93.

 

DUNCAN, R. A.; M. A. RICHARDS, 1991. Hotspots, mantle plumes, flood basalts, and true polar wander.  Reviews of Geophysics, No 29, pp .31-50.

 

MONNEREAU, M.; A CAZENAVE, 1990.  Depth and geoid anomalies over oceanic hotspot swells: A global  survey.  Journal of  Geophysical Research, Vol. 95, nº B10, pp. 15.429-15438..

 

PESSANHA, I., 2000. Complexo de Anomalias Geoidais Leste Brasileiro. Projeto de Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Fluminense.

 

SANDWELL, D. T.; W. H. F. SMITH e M. M. YALE, 1996. Marine Gravity from Satellite Altimetry. Disponível em http://topex.uscd.edu/marine_grav/mar_grav.html

 

STEIN, C. e S, STEIN, 1993. Constraints on Pacific Midplates Swells From Global Depth Age an Heat Flow-Age models. Geophysical Monography, No 77, pp. 53-76