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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

A GEOMORFOLOGIA COMO BASE PARA AVALIAÇÃO DE POTENCIAIS TURÍSTICOS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

 



 

Márcio Bezerra da Silva;
Telma Mendes da Silva;
Hevelyn da Silva Monteiro.




 

Palavras-chave: Turismo; Relevo; Planejamento.

Eixo 3 - Aplicação da Geografia Física a Pesquisa

Sub-Eixo 3.1 - Gestão e Planejamento Ambiental




 

1 - INTRODUÇÃO

O Turismo é uma atividade que vem crescendo em larga escala em todo mundo, e quando observado pelo prisma econômico, somente as indústrias pertencentes ao setor petrolífero e bélico superam o capital gerado por ele[i]. Além disso, o Turismo é uma atividade que congrega diversos aspectos, tanto os de ordem física quanto os de ordem humana. Sendo assim, esta temática conduz ao próprio âmago da Geografia, pois entender as complexas relações entre natureza e sociedade, condicionando as mais diversas organizações do espaço, constituiu-se num dos objetivos inerentes à nossa ciência. Logo, é notório que a demanda da atividade turística abarca elementos tanto naturais quanto culturais, e é nessa conjugação que o turista tende a procurar paisagens atrativas e/ou dotadas de belezas cênicas para delas poder desfrutar. Neste contexto o Estado do Rio de Janeiro, com seus contrastes geomorfológicos, apresenta um grande potencial para o Turismo, traduzido por sua extensa faixa litorânea atrelada ao complexo conjunto de maciços e serras. De modo a amenizar a degradação dos recursos naturais e para que se faça uma utilização adequada dos mesmos, acreditamos que é necessário um maior conhecimento da base físico-territorial do Estado.

O levantamento de como vem sendo implementada a atividade turística pelas prefeituras municipais, ONGs e demais setores governamentais e não-governamentais no Estado, em conjunto com a realização de perfis de relevo e MDTs, que procuraram demonstrar a diversidade morfológica apresentada pelas cartas morfoestruturais realizadas por SILVA (2002), constituíram-se nas etapas de trabalho efetuadas e que possibilitaram o reconhecimento preliminar de recortes espaciais potencialmente favoráveis ao desenvolvimento das atividades turísticas, bem como subsidiar áreas que devam ter uso restrito.

 


 

2 – O ENFOQUE GEOGRÁFICO DO TURISMO

O Turismo representa um uso particular de tempo desocupado e uma forma particular de recreação; mas não inclui todos os usos de tempo desocupados nem todas as formas de recreação. Inclui muita viagem, mas não toda a viagem. Então, conceitualmente, turismo é distinguido em particular, por um lado, de conceitos relacionados ao lazer e recreação, e de viagem e migração por outro[ii].

É importante ressaltar que o enfoque geográfico sobre a temática do Turismo é bem recente em nossa Ciência embora esse fenômeno, em sua essência, seja uma atividade que abrange tanto dimensões naturais (o meio físico) quanto humanas (as relações sócio-culturais). Portanto, desses pólos categoricamente contraditórios, vemos emergir um novo desafio, tarefa das mais árduas mas, ao mesmo tempo, instigante, consistindo em abdicar da visão de mundo que considera sociedade e natureza mutuamente excludente e caminhar rumo a um conhecimento da complexidade que se manifesta na realidade. É preciso considerar, também, que jamais a natureza em seu estado “natural” (aquela que foi pouco modificada pelo homem) diminuiu sua relevância, ocorrendo justamente o inverso. Na verdade, esses recantos valorizaram-se e tornaram-se ainda mais importantes. A visão apropriativa da natureza continua e intensifica-se e é através da atividade turística que se reflete esta perspectiva de forma bem concreta.

O Turismo, indubitavelmente, se reveste de efeitos positivos e negativos. Cada vez mais tem adquirido grande importância, tanto no que se refere à esfera econômica quanto a possíveis degradações do patrimônio natural e cultural. Esta prática veio a tomar consistência a partir da década de 1960, período em que se desenvolveu o turismo de massa tanto nos países centrais como, posteriormente, nos países periféricos, onde um turismo individual, monoestacional, restrito espaço-temporalmente, ou seja, realizado durante o período de férias do indivíduo; sacramentado em pequenos deslocamentos seletos a mínimas parcelas da população que são atraídas por espaços “intocados” e que dispõem de capital suficiente para tal; forte desigualdade social referente a população das zonas receptoras, na verdade um turismo de contemplação do espaço. Neste momento assistimos uma verdadeira passagem em direção a um turismo pluriestacional, diversificado espaço-temporalmente, isto é, não se prende somente a um determinado período do ano, podendo ser realizado num fim de semana — onde elegeu-se o automóvel e o avião como símbolos de viagem — atraídos por espaços turistificados[iii], com relativo grau de homogeneidade sócio-espacial em algumas áreas receptoras. O Turismo, em suma, torna-se um ávido consumidor de espaços[iv].

A perspectiva de preencher o tempo livre com atividades que privilegiem o indivíduo acaba por fortalecer a imperiosa condição de expandir e diversificar as formas de aplicar o capital para revertê-lo em lucro, ao mesmo tempo que se satisfaz os anseios adquiridos por uma população que busca novas maneiras de aproveitar o tempo livre que tende, cada vez mais, a se ampliar. Essa perspectiva se fundamenta em dois aspectos:

   a)          O Setor Terciário da economia, cujo os serviços se sofisticam cada vez mais, tenderá a crescer continuamente alavancado pelo avanço da informática, da ciência e da tecnologia. Aliado a isso, o desenvolvimento alcançado, especialmente pelos países centrais, definirá novas desigualdades regionais de acesso condizente a prática do Turismo, e por meio delas se estabelecerão novos fluxos impulsionando o hábito de viajar a título de recreação. Assim, a medida em que há diversificação das atividades, são criadas novas necessidades de ócio, porque para esse meio técnico-científico-informacional[v], as regiões funcionam como peças de uma mesma engrenagem compondo a máquina global.

   b)         Os movimentos sociais da classe trabalhadora obtiveram diversas conquistas ao longo de sua trajetória de reinvidicações, expressas no aumento de suas remunerações e na diminuição de sua jornada de trabalho, o que lhe possibilitou elevar seu padrão de vida e conseguir um maior tempo livre diário, semanal e anual, que é expropriado pela sociedade de consumo em massa, criando-se novas necessidades refletidas diretamente na diversificação e multiplicação das atividades destinadas ao ócio e ao lazer. Formando-se o contexto que promove a Cultura do Consumismo. Isso dirige nossa atenção para a produção de necessidades e desejos e para a mobilização dessas fantasias, da política de distração (lazer) como partes de um impulso para manter-nos num mercado de consumo, com uma demanda capaz de conservar a lucratividade da produção capitalista[vi].

Forma-se, assim, a demanda com tendência a eleger a viagem como “remédio” para o stress criado em função da vida cotidiana intensa de atividades e compromissos principalmente nos médios e grandes centros urbanos. A Civilização do Lazer em um sentido mais amplo e, por conseqüência, o turismo de massa em um sentido mais restrito[vii], sendo um produto a se firmar nesse novo século, haja visto o apelo dado ao descanso e as vitórias trabalhistas pertencentes a uma conjuntura que HARVEY denomina como Pós-Modernidade[viii].

O enfoque geográfico do Turismo ainda carece de aprofundamento em sua base teórica-metodológica contudo, detém uma temática centrada em conceitos elementares da ciência geográfica, tais como Espaço, Lugar e Paisagem. O Turismo abrange três aspectos elementares em relação aos indivíduos:

a)           Espaços de Dispersão (núcleos emissores): respondem pela formação dessa demanda, que em sua grande maioria é recrutada nas metrópoles e nas cidades grandes e médias onde a necessidade imperiosa de viajar é fabricada, sendo incorporada ao rol das necessidades básicas do homem; a cidade é alardeada como o monstro causador de estresse. Assim, surge a indústria do lazer e do turismo, que elege a viagem como a única forma de livrar-se das neuroses urbanas, do cotidiano constrangedor das cidades, como se o trabalho fosse sempre massacrante e a viagem funcionasse como garantia do bem-estar[ix]. Viajar é conhecer novas áreas, perceber as coisas simples que nos cercam e que só reparamos ao mudarmos de lugar por esse prisma podemos afirmar que surge o homo turisticus ou homo viajor[x].

b)          Demanda: desloca-se através dos fluxos, que são a rede de transportes, de capital e de informação.

c)           Espaços de Recepção (núcleos receptores): onde a demanda se aloja para desfrutar das benésses oferecidas pela mudança de ambiente. É nestes que se produzem os espaços turísticos.

O Espaço turístico, em muitos casos, resulta da captação do imaginário coletivo na tentativa de resposta a um anseio ou, da identificação a um dado lugar. O espaço criado é muitas vezes reforçado pela mídia, que gera e alimenta o processo fantasioso, onde apontar a potência dessa força na moldagem da cultura como modo total de vida não é cair num determinismo tecnológico simplório do tipo “a Mídia gerou o pós-modernismo”, porque ela é um produto do capitalismo avançado e é um dos vários fatores que vão influenciar na produção de imaginários, desejos, descoberta de lugares, troca de experiências segundo realidades diferentes. É a promoção da publicidade que se torna a arte oficial do capitalismo[xi] e, particularmente, pode-se afirmar que a elevação do padrão cultural e econômico da população em geral faz nascer o desejo de conhecer e descobrir novas localidades, o que juntamente com as ações da comunicação em massa (mídia) vão estimular a viagem e os possíveis benefícios inseridos nessa prática.

De uma forma simplória, pode-se atribuir a publicidade um carácter de refletora estilizada da mentalidade coletiva por que ela não só "convida" a viajar ou resgata sistematicamente sonhos e os converte em ação mas, por se utilizar de uma linguagem e de mídias específicas, difunde uma imagem de um espaço, de um modo de vida, de um padrão de comportamento e de hábitos de consumo os quais convém imitar. O espaço turístico preenche-se de uma rede de significados e possui elementos concretos tais como oferta turística, demanda, serviços, infra-estrutura, além de componentes considerados abstratos. Denominam-se assim porque são difíceis de serem avaliados, tais como a fluidez do capital financeiro ou a influência da mídia na composição do imaginário turístico, porém, não podem deixar de ser considerados pois, a impregnação da cultura social pelas imagens geográficas difusas impostas pelo mass media é historicamente um fenômeno novo, o que nos coloca em posição de passividade, contemplação estática e reflexão[xii]. Além disso, em algum grau, estas atitudes demonstram como o imaginário de um determinado lugar está sendo percebido pelas pessoas. Em outras palavras, o espaço turístico é composto por essa conjugação de fatores abstratos que são contextualizados em um determinado momento histórico e ao aspecto visível, concreto, a paisagem, que materializa um certo modo de conceber e valorizar a natureza em uma dada sociedade. Sendo assim, a ideologia do Turismo faz da Geografia uma das formas de consumo de massa onde multidões cada vez mais numerosas vêm sendo tomadas por uma verdadeira ânsia; faminta por paisagens que apresentem fontes de emoção estáticas mais ou menos codificadas[xiii].

Desenvolver o enfoque geográfico do Turismo é construir interpretações, levantar questões, revelar problemas, desenhar perspectivas e edificar cenários, na verdade, compreender o processo dinâmico das formas incorporadas às paisagens.

 

2.1 A PAISAGEM ENQUANTO ATRATIVO TURÍSTICO

A paisagem é um conceito-chave considerado de fundamental importância para a Geografia, pois, na realidade, a paisagem geográfica apresenta simultaneamente uma dimensão morfológica, ou seja, um conjunto de formas criadas pela natureza e pelo homem, e uma dimensão funcional entre suas diversas partes. A paisagem também apresenta uma dimensão histórica, porque na medida em que ocorre em certa área da superfície terrestre demonstra um carácter espacial. Entretanto, a paisagem é portadora de significados atribuídos pelos valores da sociedade e/ou cultura em que se insere[xiv], constituindo-se na expressão fisionômica do espaço, além de poder ser correlacionada ao Turismo, onde este conceito faz-nos lembrar que a Geografia está em toda parte, onde as diferentes paisagens, em seus múltiplos aspectos, despertam as mais variadas reações. Isso nos permite apreender os elementos que configuram a composição de cenários que impliquem na construção de um motivador pessoal ao impulsionar o turista a se deslocar. O nosso intuito é discutir a importância da paisagem na construção dessa imagem, na criação de uma verdadeira “necessidade” de viajar, ou seja, de criar um simbolismo, “o imaginário de sedução”, de modo a atrair os turistas e, desde já,  garantir seu retorno[xv].  Portanto, relacionar as idéias de motivação, de frações de espaço a serem apreciados, a lugares onde os turistas encontrem satisfação em desfrutá-los, é a imagem que a mídia, via propaganda, procura difundir. Ou seja, esses signos são reforçados pela publicidade, tornando-se imperioso a veiculação e inculcação da “necessidade”, do hábito de viajar, respaldado na alegação de benésses adquiridas por quem pratica tal deslocamento.  

Dentre as diversas definições de paisagem, a maioria das conceituações atribuem o sentido de contemplação, ou seja, partem do pressuposto que a paisagem só existiria a partir do momento que alguém a observasse. Nessa perspectiva o sujeito é o ator imprescindível, porque suas atitudes e seus valores correspondem a análise dessa paisagem, ou seja, a presença de belezas naturais componentes de um ambiente influenciam na criação, na reformulação e no uso que esse indivíduo faz desses espaços turísticos, justamente pela percepção do lugar onde se encontra. Sendo assim é muito comum definir-se paisagem como o quadro abrangido pelo campo visual do observador.

Desse modo, é preciso estar atento às restrições que por ventura possam ocorrer quando limitamos nossa percepção valorizando apenas um elemento componente da paisagem, uma vez que, estando estes elementos tão bem interconectados, torna-se tarefa das mais complexas dissociá-los. A relação entre os aspectos físicos e os culturais são a chave para se entender este conceito da Geografia, e diversos autores vão respaldar este tipo de conceituação afirmando que existem dois tipos de paisagem: uma dita natural[xvi] as quais definem-se por não terem sido alteradas pelo esforço humano; e uma artificial, que de uma maneira simplória, é aquela que fora modificada pela ação do homem. Sendo assim, se no passado existiam paisagens naturais, hoje se um lugar não é fisicamente tocado pelo homem, todavia, ele é objeto de preocupações e de intenções políticas e econômicas, logo, a medida em que o homem se defronta com a natureza, há entre os dois uma relação cultural, o que também inclui relações de ordem política, técnica, econômica (...) assim compreende-se que a paisagem é a marca do homem sobre a natureza[xvii].

A Paisagem constituí-se em tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança, portanto, pode ser definida como o domínio do visível. A dimensão da paisagem é a percepção que chega aos sentidos, ela reflete um processo seletivo de apreensão, porque se a realidade é apenas uma, cada pessoa a vê de forma diferenciada (...) dessa forma, a percepção não é um conhecimento que depende de sua interpretação, e que tanto mais será válida quanto mais limitarmos a aparência como verdadeiro. A paisagem torna-se então um conjunto heterogêneo de formas naturais e artificiais[xviii]. Advém disto a preocupação de se considerar as óticas naturais e sociais simultaneamente, quando se quer apreender o Turismo, uma vez que visa-se adquirir a capacidade de abarcar a totalidade que o espaço representa.

O que precisa ficar muito claro é que a compreensão da introdução do fenômeno turístico no seio deste conceito é baseado na representação de paisagens, onde hoje elas representam uma inesgotável fonte de inspiração, não somente para pintores, mas sim para um grande número de pessoas. Estas, por sua vez, invadem os filmes, revistas, jornais, cartazes, fotografias, estimulando e atraindo a atenção para estes cenários, configurando-se todo um condicionamento cultural, toda uma impregnação que incita a conhecer e achar vislumbrante belas paisagens, às quais não se prestava nenhuma atenção antes[xix].

Faz-se mais uma vez necessário considerar as relações construídas entre natureza e sociedade, uma vez que a paisagem interessa ao turista quando esta suscita a vontade, a necessidade de se consumir esses espaços, por meio da ação de viajar[xx]. Este ímpeto está intimamente associado a interpretação de lugar, correspondendo a menor fração do espaço e cuja a especialidade dele, nesse tipo de percepção, retrata a valorização específica que cada indivíduo confere a uma restrita parcela do espaço, assim, a paisagem que o turista procura é uma espécie de identificação ou complementação, uma possiblidade da natureza oferecer um efeito positivo sobre quem pratica a referida atividade.

 

3. O RELEVO COMO PROPOSTA DE ZONEAMENTO TURÍSTICO.

A especificidade da Geografia ao trabalhar a temática do Turismo consiste em desmistificar a idéia de um meio-ambiente fragmentado, como só sendo válido para uma vertente natural dissociada do social, ou vice-versa, como se sociedade e natureza fossem duas ordens estanques. O planejamento desta atividade é pauta em diversos setores governamentais e não-governamentais, no objetivo claro de dinamizar e impulsionar o Turismo como uma fonte geradora de capital e emprego. Muitos esforços vem sendo gastos para alcançar essa meta, priorizando a utilização de áreas dotadas de belezas cênicas onde o planejamento da atividade visa minimizar os impactos ambientais e a conseqüente degradação de paisagens[xxi], porém a falta de subsídios para realizar gestões que racionalizem com eficácia e bom senso o uso dessas localidades ainda é um grave problema a ser sanado. Sendo assim, a busca por propostas adequadas as diferentes especificidades é tarefa a ser trabalhada.

O que encontramos no Estado do Rio de Janeiro são zoneamentos que a princípio não levam em consideração a diversidade morfológica existente, uma vez que o relevo em si é um recurso que atrai bastante a atenção dos visitantes. Neste caso, os zoneamentos preliminarmente analisados refletem essa falta de preocupação em ressaltar como o patrimônio natural de certas áreas do estado é dotado de latente potencial e não são alvos, ao nosso ver, de planejamento para tal fim. Apresentamos dois tipos de zoneamento já executados. O primeiro, é oriundo da CODETUR[xxii], onde o critério adotado apresenta uma falta de uniformidade, existindo uma mistura de aspectos históricos, administrativos, econômicos, geográficos e geomorfológicos, como pode ser observado na figura 1.

 

 

As regiões apresentadas se dividem em: Costa Verde, Agulhas Negras, Vale do Ciclo do Café, Costa do Sol, Região Serrana, Costa Doce e Noroeste Fluminense e Cidade Maravilhosa, além de vários municípios que não se enquadraram em nenhum destes. Este órgão governamental é responsável por este recorte, onde é possível visualizar essa falta de uniformidade. Costa Verde, Agulhas Negras e Região Serrana apontam os aspectos físicos que lhe renderam o nome; Costa Doce e Noroeste Fluminense apresentam um “slogan”, associando sua faixa litorânea ao contexto administrativo, constituindo-se numa das Regiões de Governo do Estado[xxiii], além do viés histórico-econômico, reportando à produção de açúcar, que apesar de decadente, ainda hoje encontra-se entre as 5 maiores do Brasil, atribuição semelhante dada ao Vale do Ciclo do Café; Rio de Janeiro - Cidade Maravilhosa, como uma verdadeira referência a cidade reconhecida internacionalmente por suas praias, muitas vezes secundarizando outros aspectos morfológicos presentes nela.

Outra proposta vem do IVT[xxiv], organizado pela própria UFRJ, que visa promover o desenvolvimento da interdisciplinaridade e do estudo do Turismo no Estado. A divisão deste baseia-se no PDES[xxv] e apresentou as seguintes regiões: Costa Verde, Região Serrana A, Região Serrana B, Região Metroplitana, Costa do Sol, Serramar e Norte, como pode ser observado na figura 2.

 

 

Neste, voltamos a encontrar denominações conflitantes em seus critérios onde, região Metropolitana e Norte surgem com critérios administrativos e as regiões restantes tem um maioer apego aos critérios físicos, entretanto, não conseguem traduzir de forma detalhada a diversidade geomorfológica do nosso Estado uma vez que vinculam-se a formas generalistas de tratar a paisagem. 

 

A nossa proposta baseia-se nas cartas morfoestruturais produzido por SILVA (2002) para o Estado do Rio de Janeiro, como é mostrado na Figura 3.

 

 

Na posse de um melhor detalhamento das unidades de relevo identificados para o Rio de Janeiro procura-se vislumbrar um zoneamento turístico que abarque de fato a diversidade geomorfológica presente no Estado do Rio de Janeiro.

É muito comum, em se tratando de atividade turística, se criar uma imagem em torno de uma única modalidade onde, por exemplo, região dos Lagos, Costa Verde, e parte do próprio município do Rio – praias da zona sul Copacabana, Ipanema, e outras mundialmente reconhecidas – a propaganda é intensificada em torno do modelo sol e praia, como se somente a faixa litorânea fosse merecedora de visitação. Muitas vezes não são ressaltadas outras localidades que apresentam modalidades alternativas de Turismo tais como agroturismo, ecoturismo, turismo de aventura, escalada, dentre outras.

Dessa forma, as belas paisagens encontradas nesses espaços não são inseridas em uma gama de opções disponíveis ao turista, pois é a diversidade de categorias que lhe permite desfrutar dos efeitos positivos condicionados pela prática desta atividade. Acredita-se que a partir das características morfológicas reconhecidas, somadas a demais características físicas e histórico-culturais, é possível à elaboração de uma proposta de  Zoneamento Turístico que reflita melhor os verdadeiros atrativos turísticos regionais e as reais necessidades de manejo de uso e utilização dos recursos naturais.

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Consideramos, portanto, que há a necessidade de se realizar uma proposta de zoneamento que realmente atenda a um mecanismo de  gestão calcada na racionalização da atividade Turística. Neste sentido, o relevo apresenta-se como notável recurso turístico, uma vez que em um Estado como o Rio de Janeiro, que apresenta uma grande diversidade morfológica, esta característica destaca-se entre outras a serem consideradas, revelando-se como um recurso mal explorado na prática de zoneamentos de áreas com uma diversidade de potencialidades turísticas. Além do fato, que medidas inadequadas de exploração dos recursos naturais podem gerar um estado de degradação ambiental irreverssível, ou simplesmente, acentuar processos naturais de evolução das feições morfológicos, como os processos de erosão superficial e/ou movimentos gravitacionais de massa.

Dessa forma, ao se considerar as unidades de relevo como uma primeira aproximação para uma proposta de zoneamento acredita-se que se esteja buscando uma forma de amenizar a carência de bases que possibilitem visualizar a verdadeira dimensão do espaço envolvido pelo Turismo em uma dada região, principalmente ao se tratar de um Estado tão rico em diversidades morfológicas como o Rio de Janeiro.

 

 

NOTAS

 

[i] RODRIGUES, (2001:17)

[ii] COSTA, (2002:30)

[iii] Segundo BARROS, (2002:36) turistificação de espaços é o processo de mudanças precipitado sobre um dado lugar visando adequá-lo a tornar-se um continente de atividade turística.

[iv] SOLEIRO, (1994:21)

[v] Expressão geográfica para globalização cunhada por Santos, (1985). Espaço e Método. Ed. Nobel. SP. 88p

[vi] Harvey (1989:64)

[vii] Rodrigues, (2001:38)

[viii] Segundo Harvey (1989:15) O fenômeno da pós-modernidade é muito complexo, exigindo uma gama de percepções e análises no campo da mídia (radio, tv e internet), na arte, na cultura, no contexto histórico-geográfico, além de articulações entre espaço e tempo. Entretanto, estas discussões não compõem o objetivo deste trabalho.

[ix] RODRIGUES, (1996:24)

[x] Rodrigues, (2001:26)

[xi] Harvey, (1989:65)

[xii] LACOSTE, (2002:35)

[xiii] LACOSTE, (2002:34)

[xiv] CORRÊA & ROSENDHAL  (1998:11)

[xv] Segundo RODRIGUES (2001:26), o Mito do eterno retorno, refere-se às imagens e símbolos formados pelos anseios individuais, refletindo na construção de um cenário natural e/ou cultural (paisagem) que atrai o turista e contribue para que ele sinta a “necessidade” de retornar a um lugar anteriormente visitado em outra temporada.

[xvi] Segundo SANTOS, (1988:65), as paisagens naturais, são aquelas áreas onde não houve apropriação pela humanidade. Elas praticamente hoje inexistem, e associam-se a idéia de primeira natureza.

[xvii] SANTOS, (1988:64).

[xviii] SANTOS, (1988:62).

[xix] LACOSTE, (2002:31).

[xx] RODRIGUES, (2001:48).

[xxi] ALMEIDA, (2001:62)

[xxii] Compania de Turismo do Estado do Rio de Janeiro

[xxiii] Divisão político administrativa segundo o Centro de Documentação e Dados do Rio de Janeiro - CIDE

[xxiv] Instituto Virtual de Turismo

[xxv] Plano de Desenvolvimento Econômico e Social para o estado do Rio de Janeiro – 1983.

 

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALMEIDA, M. G. (2001). “Algumas Inquietações sobre Ambiente e Turismo”. In.: MENEZES, A.V. et al. (Org.). Geografia, 2001. Sergipe: NPGEO/UFS.  p.51-64.

 

BARROS, N.C.C. (2002). Manual de Geografia do Turismo: Meio ambiente, Cultura e Paisagens. Recife. Ed. Universitária da UFPE. 108p.

 

CORRÊA, R. L. & ROSENDHAL, Z. (1998). “Apresentando Leituras sobre Paisagem, Tempo e Cultura”.  In.: CORRÊA, R. L.; ROSENDHAL, Z. (Orgs.). Paisagem, Tempo e Cultura. Rio de Janeiro. Ed. UERJ. Pp 7-11 

 

COSTA, V. C. (2002). “Turismo, Ecoturismo e Qualidade de Vida: Um Esboço Teórico-Conceitual”. In: Análise do Potencial Turístico das Regiões Administrativas (RAs) de Campo Grande e Guaratiba - RJ. Dissertação de Mestrado. Depto. Geografia – IGEO/UFRJ. p. 27-39

 

HARVEY, D. (1989). “A passagem da Modernidade para a Pós-Modernidade na Cultura Contemporânea”. In.: A Condição Pós-Moderna. São Paulo. Ed.Loyola. p.7-69

 

LACOSTE, I.(2002). A Geografia serve em primeiro lugar para fazer a Guerra.  São Paulo. Ed. Papirus. 6ª edição. 215 p.

 

RODRIGUES, A. A. B. (1996). Desafios para os Estudiosos do Turismo. In.: RODRIGUES A. A. B. (Org.). Turismo e Geografia: Reflexões Teóricas e Enfoques Regionais. São Paulo. Ed. Hucitec. p.17-32

 

RODRIGUES, A.A.B. (2001). Turismo e Espaço: Rumo a um Conhecimento TransdisciplinarSão Paulo. Ed. Hucitec. 158p.

 

SOLEIRO, J.C. (1994). Aproximacion a La Geografia del Turismo. Madrid, Ed. Sintesis. 215p.

 

SANTOS,M. (1985). Espaço e Método. São Paulo, Ed. Nobel. 88p.

 

SANTOS, M. (1988). Paisagem e Espaço. In: Metamorfoses do Espaço Habitado. São Paulo. Ed. Hucitec. p.61- 74

 

SILVA, T. M. (2002). A Estruturação Geomorfológica do Planalto Atlântico no Estado do Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Depto. de Geografia – IGEO/UFRJ. 265p