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E3-3.1T259

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 


CLIMA DOS CAMPOS GERAIS: LEVANTAMENTO DE ALGUMAS CARACTERÍSTICAS COMO PARTE DE UM PROJETO DE CARACTERIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO NATURAL.

 

 

 

Prof. Ms. Gilson Campos Ferreira da Cruz

Universidade Estadual de Ponta Grossa – PR

 

 

 

Palavras chave: campos gerais, clima, elementos climáticos.

Eixo: 3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo: 3.1 - Perspectivas inter e transdisciplinar






1 - INTRODUÇÃO

O trabalho consiste numa contribuição para os projetos de pesquisa, Caracterização do Patrimônio Natural dos Campos Gerais e Plano Sul, de caráter inter e transdisciplinar. A pesquisa consistiu num primeiro momento no levantamento bibliográfico de dados sobre o clima dos Campos Gerais (FIGURA 1), para que se pudesse caracterizar e gerar cartogramas, compreendendo cinco elementos de importância para o clima e para outras áreas do projeto como, botânica, zoologia, áreas de risco etc

 

2 - METODOLOGIA

A caracterização do clima dos Campos Gerais e a elaboração dos mapas climáticos de temperatura, precipitação, umidade relativa, insolação e direção dos ventos teve como base as Cartas Climáticas do Estado do Paraná, 1994 e 2000 (em CD-ROM) produzidas pelo IAPAR - Instituto Agronômico do Paraná. Tais cartas resultam do acervo de informações disponibilizadas por diferentes instituições, a destacar: estações meteorológicas do IAPAR, SUDERHSA, DNAEE E CLIMERH.

Com sobreposição do mapa base da região dos Campos Gerais adotada neste projeto, contendo a delimitação dos municípios extraída do mapa base de municípios do Estado do Paraná, disponível no CD-ROM de Cartas Climáticas do Estado do Paraná, IAPAR (2000), sobre os mapas de temperatura, precipitação e umidade relativa, foi realizado o desenho e organização dos mapas de temperatura, precipitação e umidade relativa dos Campos Gerais.

O mapa de insolação da região foi produzido a partir do mapa de Insolação do Estado do Paraná disponível nas Cartas Climáticas do Estado do Paraná, IAPAR (1994). A base para o mapa de Insolação foi obtida a partir do mapa do Estado do Paraná, o qual foi corrigido, para posteriormente ser feita a sobreposição da base dos Campos Gerais com os limites dos municípios, tornando possível o desenho e organização do mapa com a representação da insolação nos Campos Gerais.

 

 

Para a produção do mapa de Direção dos Ventos dos Campos Gerais, foi utilizado o mapa de Direção dos Ventos do Estado do Paraná disponível no site do IAPAR, o qual foi corrigido para posteriormente ser feita a sobreposição da base dos Campos Gerais com o limite dos municípios, para a produção do desenho e organização final.

A produção do texto final teve por base a interpretação dos mapas, material disponível na internet, nos sites de algumas prefeituras e na bibliografia pesquisada.

 

3 - DESENVOLVIMENTO

Em função de que a ocupação do território paranaense deu-se em diferentes momentos históricos, sendo que as áreas mais antigas em termos de ocupação estão no Litoral e no Primeiro Planalto e as mais recentes no norte, oeste e noroeste do Estado, em partes do Segundo e do Terceiro Planaltos, assim como em conseqüência do pequeno desenvolvimento de pesquisas, constata-se que os maiores períodos de observações meteorológicas ocorreram no Litoral e no Primeiro Planalto. Com isto os dados climáticos no Estado não são uniformes. Apesar disso, atualmente o clima tem sido classificado com períodos cada vez maiores de observações, utilizando-se de imagens de satélites e recursos de informática cada vez mais modernos. Pode-se dizer que o clima no Estado do Paraná, assim como na região dos Campos Gerais, encontra-se bem caracterizado.

O clima na região dos Campos Gerais apresenta algumas variações com relação aos elementos climáticos, os quais sofrem influências das características naturais e da localização, como no caso das variações de temperatura, índices de precipitação, número de horas de insolação, umidade relativa do ar e direção dos ventos.

MAACK (1981) escreveu que, adotando-se a classificação de W. Köppen, que está baseada principalmente na temperatura e na precipitação, consegue-se melhor delimitação dos tipos de clima e que em resumo no Paraná teríamos os seguintes:

Af(t): zona tropical marginal de transição, como mata pluvial-tropical e faixas de mangrove, sem geadas noturnas;

Cfa(b): zona tropical marginal, região alta da mata pluvial-tropical e subtropical; em ritmos de alguns anos de clima seco no inverno e periodicamente Cwa (clima quente temperado, zona tropical matemática solar: culturas tropicais, raras geadas noturnas, 2 a 3 em 10 anos);

Cfa: zona subtropical úmida quente; mata Pluvial e acima de 500 m de altitude, mata de Araucárias, geadas noturnas (0 a 3 geadas/ano);

Cfb: zona temperada sempre úmida, mais de 5 geadas noturnas/ano.

De acordo com esta delimitação de MAACK (1981), na região dos Campos Gerais seria observada a ocorrência dos climas Cfa, Cfb, e Cfa(b).

Analisando os dados existentes sobre a região, devemos destacar que segundo o IAPAR (2000), é possível identificar dois climas para o Estado, dentro da classificação de Köppen:

Cfa é o clima subtropical com temperatura média no mês mais frio inferior a 18º C (mesotérmico) e temperatura média no mês mais quente acima de 22º C, com verões quentes, geadas pouco freqüentes e tendência de concentração das chuvas nos meses de verão, contudo sem estação seca definida;

Cfb que corresponde ao clima temperado propriamente dito com temperatura média no mês mais frio abaixo de 18ºC (mesotérmico), com verões frescos, temperatura média no mês mais quente abaixo de 22ºC e sem estação seca definida.

Os climas para os Campos Gerais, adaptado do IAPAR (2000), poder ser visto no final do trabalho.(FIGURA 7)

Os dois tipos de clima são encontrados na região dos Campos Gerais.

Segundo a classificação de Strahler o clima da região é o Subtropical.

O clima dos Campos Gerais, assim como o do Paraná de maneira geral, está relacionado com alguns mecanismos importantes, dentre os quais podemos destacar:

a) infiltração das massas de ar frio, principalmente, durante o inverno;

b) ação dos ventos marítimos úmidos influenciados pelo Anticiclone do Atlântico Sul, que provocam chuvas orográficas na Serra do Mar, mas que podem avançar e provocar chuvas nos planaltos interiores;

c) variações na posição do Equador Térmico e do Anticiclone do Atlântico Sul, que no verão posicionam-se ao sul e interferem na dinâmica climática do estado e dos Campos Gerais alterando, significativamente, as condições das precipitações, temperaturas, umidade relativa e dos ventos.

Nos últimos anos tem-se observado que o fenômeno “El Nino” tem provocado alterações no clima do Estado do Paraná, assim como em outras regiões, o que tem sido destacado por jornais e revistas. Da mesma forma que o Estado, também os Campos Gerais experimentam tais alterações climáticas.

Os aspectos mais relevantes dos dados meteorológicas dos Campos Gerais (temperatura, precipitação, umidade relativa, insolação, ventos) serão abordados a seguir.

 

3.1 Temperatura

As variações de temperatura ocorrem principalmente em função da variação de latitudes da região, que tem uma extensão maior no sentido norte e sul, sendo que do sul da região para o norte as temperaturas variam na Média

Anual de 17 a 18º C no extremo sul para 21 a 22º C no extremo norte (FIGURA 2). Porém, é possível observar médias de 17 a 18º C nas áreas mais elevadas da Escarpa Devoniana, em Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva e Sengés, cidades localizadas no norte da região. As médias de 20 a 21º C e 21 a 22º C podem se encontradas no centro-leste da região, nos municípios de Castro, Ponta Grossa e Campo Largo, onde se encontram as nascentes do Rio Ribeira, constituindo uma área do interior por onde avança o clima quente do Litoral. Na maior parte da região dos Campos Gerais predominam as médias anuais entre 18 e 19º C.

As variações de temperatura também estão relacionadas com características do relevo, como a presença de vales (rios Ribeira e Tibagi), assim como com o deslocamento das Massas de Ar Frio e dos Ventos Marítimos Úmidos.

 

3.2 Precipitação

As escarpas que separam os três planaltos paranaenses, assim como a Serra do Mar, também, funcionam como bloqueio orográfico para os ventos marítimos úmidos de SE, NE e E, como alísio desviado pela Serra do Mar. Desta forma os índices de precipitações são maiores nas escarpas do que nos planaltos, a tal ponto, que na Escarpa Devoniana, chove de 100 a 300 mm anuais a mais do que no Primeiro Planalto, que a antecede.

A Precipitação Média Anual dos Campos Gerais encontra-se entre 1.200 e 1.800 mm. Utilizando-se intervalos de 200 mm, tem-se três áreas com variações de precipitação (FIGURA 3). Na maior parte da região os índices pluviométricos situam-se entre 1.400 e 1.600 mm, sendo que os índices mais baixos, entre 1.200 e 1.400 mm, são encontrados no centro-oeste da região, no oeste de Ponta Grossa, parte de Ipiranga e Teixeira Soares e no município de Imbituva, além do nordeste de Sengés. As médias anuais mais elevadas, entre 1.600 e 1.800 mm, são encontradas no sul de Ponta Grossa, oeste de Palmeira, Porto Amazonas e extremo norte da Lapa e extremo oeste de Balsa Nova, além do sudoeste de Castro.

 

 

Figura 2 - Temperatura Média Anual dos Campos Gerais

(clique na figura)

 

3.3 Umidade Relativa

Em conseqüência da influência oceânica no clima do Paraná e também da transpiração dos componentes das matas pluviais, observa-se predomínio de umidade relativa elevada no estado. Nos Campos Gerais distingue-se apenas duas áreas com diferentes condições de umidade relativa, quando utilizam-se intervalos de 5% (FIGURA 4). Na maior parte da região a umidade relativa anual permanece entre 75 e 80%, o que ocorre do norte da Lapa para o norte da região, do centro de Campo Largo para leste e do extremo leste de Castro para oeste. Uma parte menor da região apresenta umidade relativa entre 80 e 85%, abrangendo os municípios de Campo do Tenente, Rio Negro, a maior parte da Lapa, de Balsa Nova, de Campo Largo e pequena parte do extremo leste de Castro.

 

3.4 Insolação

A variação na distribuição do número de horas de insolação está, principalmente, relacionada com as diferenças de latitude observadas do norte ao sul dos Campos Gerais, que leva a uma diferença na duração do período diurno, porém existem outros fatores exercendo influência nesta distribuição, como no caso da nebulosidade. Em algumas regiões a insolação máxima, possível, não é atingida, em função da presença de barreiras do relevo a Leste ou Oeste ou, ainda, devido à presença de nuvens.

Considerando intervalos de 200 h, a região dos Campos Gerais apresenta três faixas distintas de número de horas anuais de insolação (FIGURA 4). No norte da região está a faixa com maior número de horas de insolação, que vai de 2.200 a 2.400 horas, as áreas centrais da região encontram-se na faixa de 2.000 a 2.200 horas de insolação e a porção sul da região e pequena parte do leste se encontram na faixa de 1.800 a 2.000 horas de insolação.

3.5 Ventos

A partir de uma análise dos ventos no Paraná, pode-se interpretar a dinâmica dos Campos Gerais. A migração de ciclones condutores de chuva com ventos norte e noroeste sobre o Paraná tem origem na região limítrofe da Bolívia e Mato Grosso, onde se forma uma região de baixa pressão em conseqüência do deslocamento da faixa de convergência intertropical para o sul durante o verão formando centro da massa de ar equatorial na região.

 

 

Figura 3 - Precipitação Média Anual dos Campos Gerais

(clique na figura)

 

 

 

Figura 4 - Umidade Relativa Média Anual dos Campos Gerais

(clique na figura)

 

 

Figura 5 - Insolação Total Anual dos Campos Gerais

 

Segundo CRUZ (1999), com a aproximação do Sol em relação ao Trópico de Capricórnio, para sua posição mais ao sul, o que ocorre durante o verão e a chegada das massas Tropicais Marítimas, a média da pressão atmosférica baixa, culminando com o ponto mínimo em janeiro e a aproximação das massas subtropicais de pressão alta do anticiclone do Atlântico Sul, com ventos fortes vindos do leste; o que resulta na destacada dominância, quase que durante todo o ano, desses ventos, aos quais devido a conformação do relevo, Serra do Mar, Escarpa Devoniana, Serra Geral e vales das principais bacias hidrográficas, podem em algumas regiões sofrer uma deflexão ora com tendência para o quadrante norte, ora para o quadrante sul, que pode ser observado em março, no final da estação, em função dos ventos predominantes dos quadrantes sul e sudeste, ao mesmo tempo em que ocorre a entrada de massas de ar frio descendente, proveniente do Sul.

No inverno, a entrada da massa de ar frio faz deslocar a Frente Polar, o que faz predominar os ventos do quadrante sul (sul e sudeste) e a circulação é marcadamente modificada por ventos moderados a fortes rajadas, vindas do mesmo quadrante, rondando para o oeste ou mesmo girando para leste, dependendo das rotas assumidas pelo Centro de Alta Pressão. Mesmo assim a sua freqüência em termos de percentual de horas totais do ano não afeta a dominância da circulação geral, de leste. No período quente do ano - verão - a formação de chuvas convectivas, esparsas e localizadas, pode provocar a formação de ventos de direções variadas, momentâneas, que às vezes assumem intensidades capazes de causar danos locais.

A massa de ar estacionária presente no continente pode se aquecer, provocando mudanças nos ventos de E para NE, como resultado de sua força e resistência a entrada de outras massas, o que pode ser observado, também, na nossa região em determinadas épocas do ano.

Quando não ocorre mudança de ventos, formam-se nuvens do tipo cúmulos-nimbos, com chuvas hibernais, com muitos raios, trovões e ventos.

Com a entrada dos ventos tropicais marítimos no verão, predominam ventos do quadrante norte, trazendo chuvas para o Estado do Paraná. Quando sua direção muda para oeste, ocorrem chuvas persistentes de oeste. Porém, com o aparecimento do vento sul, registra-se a aproximação dos anticiclones frios, a chuva para em 24 horas e dois dias depois ocorrem dias ensolarados, com grande interferência no clima dos Campos Gerais.

A direção predominante dos ventos nos Campos Gerais foi obtida a partir do mapa do Paraná de direção dos ventos, a qual para a região está baseada nos dados registrados por três estações meteorológicas do IAPAR localizadas em Telêmaco Borba, Ponta Grossa e Lapa (FIGURA 6), o que permite extrapolar os resultados para toda a região.

Foram organizadas três rosas-dos-ventos, com as diferentes direções dos ventos e com destaque para a direção predominante. Em Telêmaco Borba e região o vento de sudeste é predominante, sendo que os ventos de sul e leste representam a segunda e a terceira direção de ventos com maior ocorrência. No caso de Ponta Grossa e região, a direção predominante dos ventos é nordeste, sendo que a segunda e terceira direção com maior número de horas ou porcentagem são os ventos de noroeste e de leste. Já na Lapa e região são observadas duas direções predominantes dos ventos, pois tanto os ventos de nordeste, como os ventos de leste são predominantes, sendo que uma terceira direção destaca-se, que diz respeito aos ventos de norte.

 

 

Figura 6 - Direção dos Ventos dos Campos Gerais: freqüência média anual

(clique na figura)

 

 

Figura 7 - Adaptação da classificaçãoclimática de Koppen para os Campos Gerais

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CRUZ, G.C.F. da C. Impactos Ambientais em Itaiacoca Ponta Grossa – Paraná. 1999. 110 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

 

IAPAR - INSTITUTO AGRONÔMICO DO PARANÁ. 1994. Cartas Climáticas do Estado do Paraná. Londrina, IAPAR Ed., 45 p.

 

IAPAR - INSTITUTO AGRONÔMICO DO PARANÁ. 2000. Cartas climáticas do Estado do Paraná. Londrina: IAPAR, 1 CD-ROM. Versão 1.0.

 

IAPAR - INSTITUTO AGRONÔMICO DO PARANÁ. Apresenta mapas climáticos do Estado do Paraná. Disponível em: <http://www.pr.gov.br/iapar/sma/Rosa_dos_ventos.htm>. Acesso em: 02 de out. de 2002.

 

MAACK, R. Geografia física do Estado do Paraná. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Ed., 1981. 442 p.

 

WAGNER, C.S. et al. 1989. Velocidade e Direção Predominante dos Ventos no Estado do Paraná. Londrina: IAPAR Ed., 1989. n. 26, Boletim Técnico. 55 p.