Voltar à Página da AGB-Nacional


                                                                                            

   

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

A CONTRIBUIÇÃO DA GEOGRAFIA NA IMPLANTAÇÃO

DE SISTEMAS DE GESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL

 

 

Vivianne Barbosa Canosa Miguez

 

Marta Foeppel Ribeiro

 

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro





 

 Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.1: Perspectivas inter e transdisciplinar







 

I - Introdução

Ao longo dos séculos, a humanidade foi conquistando espaços, isto quase sempre às custas da degradação ambiental, de tal forma que as nações até hoje estão à procura do ponto de equilíbrio entre o desenvolvimento e as práticas ambientais conservacionistas e preservacionistas (TAUK-TORNISIELO, 1995).

A partir da década de 70, a questão ambiental tornou-se uma preocupação mundial. A grande maioria das nações do mundo reconhecem a emergência dos problemas ambientais globais. A destruição da camada de ozônio, acidentes nucleares, alterações climáticas, perda de fertilidade do solo, desertificação, armazenamento e transporte de resíduos perigosos, identificação de indústrias altamente poluentes, comprometimento dos recursos hídricos, poluição atmosférica, possível pressão populacional sobre os recursos naturais, perda de biodiversidade, são questões a serem resolvidas por cada uma das nações do mundo, pois afetam o planeta como um todo. Esses desequilíbrios ambientais manifestos no planeta têm como causas a pressão que as sociedades industriais exercem sobre o meio ambiente. Os processos produtivos e as formas de organização sociais são mais responsáveis pelas devastações dos recursos naturais do que mesmo as grandes catástrofes naturais ocorridas ao longo da existência do planeta Terra (MUNHOZ, 1992).

Assim, o objetivo principal deste trabalho é analisar, do ponto de vista geográfico, como ocorre a implantação de um Sistema de Gestão Ambiental em empresas cujas atividades sejam potencialmente poluidoras.

O desenvolvimento desse estudo baseou-se no interesse em discutir e avaliar a contribuição da Geografia na implantação de Sistemas de Gestão Ambiental, visto a importância deste assunto no novo contexto mundial e a carência de referências bibliográficas que tratem desta temática. Dentro desta perspectiva, optou-se também por tecer algumas considerações acerca da inserção do geógrafo no mercado de trabalho direcionado a Gestão Ambiental.

 

II - Metodologia

Por se tratar de um estudo de caráter teórico – analítico, a principal metodologia utilizada para análise do assunto foi a consulta de diversa bibliografia, por meio de levantamentos realizados em bibliotecas setoriais como a da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a da Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA) e a da Petrobrás (Petróleo Brasileiro S.A.), e também por meio de buscas na internet. Além disso, para se ter um melhor entendimento sobre como as empresas brasileiras tratam a questão da gestão ambiental, buscou-se dados atualizados sobre as empresas no país que possuem certificação ISO 14000 em fontes como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Fundação Centro de Informações e Dados do Estado do Rio de Janeiro (CIDE), Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO) e em algumas empresas de consultoria ambiental como a Bureau Veritas e Fênix Ambiental, além de depoimentos de profissionais da área que trabalham ou trabalharam nessas empresas.

Os dados e as informações obtidos nas bibliotecas setoriais foram organizados em fichários e agrupados por área temática. Já aqueles oriundos da empresa de consultoria ambiental, Fênix Ambiental, estavam em meio digital, no formato de planilha eletrônica do Excel. Neste aplicativo os dados foram processados de modo a se obter informações relevantes para este estudo, como por exemplo, o total de empresas no país que possui a certificação ISO 14000, agrupadas pelas macro-regiões do país e também pelos setores industriais a que pertencem.

Os depoimentos auxiliaram a obtenção do conhecimento em três direções: reunião de conceitos e idéias que não fazem parte do escopo da Geografia, indicações sobre bibliografia e informações a respeito do mercado de trabalho do geógrafo.

 

III – A questão ambiental na ótica da economia capitalista

A tendência do mundo capitalista ocidental em relacionar economia e meio ambiente tem afetado o comportamento de diversas atividades econômicas que cada vez mais reconhecem a necessidade de aderir ao controle ambiental pois, se até agora atitudes não muito conscientes contra recursos ambientais por parte das empresas eram premiadas com ganhos em competitividade, a nova realidade mundial de mercado pune cada vez mais severamente aqueles que não tiverem a consciência de que a preservação do meio ambiente é uma questão fundamental na sociedade moderna. A adesão a essa nova filosofia pressupõe alterar a gestão tradicional das empresas incorporando no processo a variável ambiental, do que resulta o surgimento de um novo modelo de administração nas organizações.

 

IV – A certificação ISO 14000 e o significado de sua implementação no Brasil

O crescimento da preocupação com o meio ambiente não no meio acadêmico, mas também na sociedade como um todo, vem incentivando, ao longo do tempo, atitudes e posturas diferenciadas em prol da preservação. Algumas radicais, outras até românticas, vão aos poucos cedendo espaço para abordagens mais racionais, objetivas e sistêmicas dos problemas causados pela poluição e pelos impactos das atividades humanas sobre o ambiente (MAIMON, 1996; VALLE, 1995 e MOURA, 2000).

Os autores acima citados ressaltam que muitas organizações têm efetuado “análisesouauditorias” ambientais a fim de avaliar seu desempenho ambiental. Esse comportamento se insere no contexto de uma legislação cada vez mais exigente, do desenvolvimento de políticas econômicas, de outras medidas destinadas a estimular a proteção ao meio ambiente e de uma crescente preocupação das partes interessadas em relação às questões ambientais e ao desenvolvimento sustentável.

MAIMON (1996) ressalta ainda que, com o intuito de uniformizar as ações que deveriam ser tomadas sob essa nova ótica de relação com o meio ambiente, a ISO – International Organization for Standardization (Organização Internacional para a Normalização) – decidiu criar um sistema de normas[1] a série ISO 14000, para tratar basicamente da gestão ambiental, equilibrando a proteção ambiental e a prevenção de poluição com as necessidades sócioeconômicas. De forma complementar a essas normas, tem-se um conjunto de normas técnicas ambientais tratando especificamente da qualidade do ar, da água, do solo e dos efeitos acústicos. Estas normas técnicas são específicas para cada país, e no caso do Brasil, são elaboradas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

A normalização ambiental surgiu pela necessidade de criar-se modelos padronizados para que os erros cometidos no passado, notadamente nos países desenvolvidos, não fossem repetidos pelos países subdesenvolvidos, em cujo o grupo encontra-se o Brasil. Está sendo utilizada também para equilibrar as negociações comerciais, onde a competitividade e a busca de mercados são cada vez maiores. Essas negociações têm gerado barreiras técnicas, ou seja, barreiras não tarifárias. Entretanto, na norma ISO 14.001 está descrito que as normas ISO, assim como outras normas internacionais, não foram concebidas para criar barreiras comerciais "não-tarifárias", nem para ampliar ou alterar as obrigações legais de uma organização. A ISO está estabelecendo documentos que sejam abrangentes para atender às necessidades presentes e futuras, com base no modelo de desenvolvimento sustentável.

A norma ISO 14001 estabelece o sistema de gestão ambiental da organização e, assim

avalia as conseqüências ambientais das atividades, produtos e serviços da organização; atende à demanda da sociedade; define políticas e objetivos baseados em indicadores ambientais definidos pela organização, os quais podem retratar necessidades desde a redução de emissões de poluentes até a utilização racional dos recursos naturais; implicam na redução de custos, na prestação de serviços e em prevenção; é aplicada às atividades com potencial de efeito no meio ambiente; é aplicável à organização como um todo.

Ressalta-se, contudo, que nem as normas ISO 9000 nem aquelas relativas à ISO 14000 são padrões de produto, isto é, asseguram que um produto seja melhor do que outro. O padrão de manejo do sistema nessas famílias de normas estabelece requerimentos para direcionar a organização para o que ela deva fazer para manejar processos que influenciam a qualidade (ISO 9000) ou processos que influenciam o impacto das atividades da organização no meio ambiente (ISO 14000). A natureza do trabalho desenvolvido na empresa e as suas especificidades em termos de demandas determinam os padrões relevantes do produto que devam ser considerados no contexto das normas ISO .

A adoção e implementação, de forma sistemática, de um conjunto de técnicas de gestão ambiental pode contribuir para a obtenção de resultados ótimos para todas as partes interessadas. Contudo, é importante ressaltar que a adoção desta Norma não garantirá, por si , resultados ambientais ótimos. Para atingir os objetivos ambientais, convém que o sistema de gestão ambiental estimule as organizações a considerarem a implementação da melhor tecnologia disponível, quando apropriado e economicamente exeqüível. Além disso, o sucesso do sistema depende do comprometimento de todos os níveis e funções, especialmente da alta administração. Um sistema deste tipo permite a uma organização estabelecer e avaliar a eficácia dos procedimentos destinados a definir uma política e objetivos ambientais, atingir a conformidade com eles e demonstrá-los a terceiros.

 

4.1 – Por que a ISO 14000?

As normas ISO 14000 – Gestão Ambiental, foram inicialmente elaboradas visando ao manejo ambiental, isto é, ao que a organização faz para minimizar os efeitos nocivos ao ambiente causados pelas suas atividades.

Assim sendo, essas normas fomentam a prevenção de processos de contaminações ambientais, uma vez que orientam a organização quanto à sua estrutura, forma de operação e de levantamento, armazenamento, recuperação e disponibilização de dados e resultados (sempre atentando para as necessidades futuras e imediatas de mercado e, conseqüentemente, a satisfação do cliente), entre outras orientações, inserindo a organização no contexto ambiental.

Tal como as normas ISO 9000, as normas ISO 14000 também facultam a implementação prática de seus critérios. Entretanto, devem refletir o pretendido no contexto de Planificação Ambiental, que inclui planos dirigidos a tomadas de decisões que favoreçam a prevenção ou mitigação de impactos ambientais de caráter compartimental e inter-compartimental, tais como, contaminações de solo, água, ar, flora e fauna, além de processos escolhidos como significativos no contexto ambiental.

 

4.2 – O que significa implementar a ISO 14000 em uma empresa?

 

A ISO 14000 fornece ferramentas e determina um padrão para se estabelecer um Sistema de Gestão Ambiental[2]. Além de ser uma norma internacional que tem por objetivo "prover a organização dos elementos de um Sistema de Gestão Ambiental eficaz, passível de integração com outros requisitos da gestão, de forma a auxiliá-la a alcançar seus objetivos ambientais e econômicos" (NBR ISO 14001, 1996, p.2).

A ISO 14001 é um documento que especifica requisitos mandatários, ou seja, que devem ser cumpridos e, desta forma, permite que as organizações possam ser avaliadas por uma terceira parte e receber ou não um certificado de conformidade com a norma.

Em termos empresariais, deve-se lembrar que a empresa deve, antes de tudo, atender às necessidades de seus consumidores, pois esta é a finalidade principal, sendo vital para que ela possa sobreviver. O lucro, ao contrário do que muitos pensam não é, ou ao menos não deveria ser, a finalidade da empresa, e sim um resultado do seu trabalho, sendo na realidade uma medida de sua eficiência: a empresa que estiver atendendo bem aquilo que os seus clientes esperam conseguem vender mais, consegue melhores preços e, portanto, tem lucro.

E quais são as necessidades dos clientes da empresa? São os bens ou serviços que ela produz, de que a sociedade necessita a todo tempo, para atender a uma qualidade de vida que o rendimento desta sociedade permita. E, para que se faça a escolha de um dado bem ou serviço, existem três aspectos que podem ser considerados independentemente daquilo que se esteja comprando, seja em uma feira de verduras e frutas, em uma loja de automóveis, supermercado, joalheria, hotel, serviços (cursos, tratamento em um hospital, pacote turístico). Esses três aspectos são representados pela sigla SPC:

·        S – Satisfação da pessoa que está comprando o bem ou serviço, ou seja, se ele agrada, atende à finalidade pretendida, se é durável, resistente, confortável, entre outros, cumprindo aquilo que se costuma associar com o termoqualidade”;

·        P – Preço, isto é, se o preço está proporcional à qualidade apresentada, se há a disponibilidade financeira para pagar aquele preço solicitado, se o preço é melhor do que aquele apresentado por um outro concorrente para o mesmo produto ou um similar;

·        C – Condições de entrega, ou seja, se o produto existe nas quantidades de que se esteja precisando, se o prazo é adequado às necessidades, e outros questionamentos.

Esses são, tradicionalmente, os três aspectos que, instintivamente e naturalmente, qualquer pessoa analisa ao fazer uma compra, e que compõem o conceito de qualidade daquele bem ou produto. Entretanto, existem produtos que o consumidor não procura para comprar e que lhe são impostos pelas empresas, à margem do processo de comercialização: são os poluentes, resíduos de várias espécies, odor, ruído, itens que às vezes além de incomodar e piorar a qualidade de vida, causam-lhes imensos prejuízos (por exemplo, problemas respiratórios que obrigam-no a realizar despesas com médicos, remédios, hospitais, e outros). E, hoje, cada vez mais as pessoas têm consciência dessa quarta variável, o Meio Ambiente, que está conduzindo a um novo relacionamento dos consumidores com os produtores, com apoio ou boicotes, pressões junto ao governo para endurecer leis, atuação de ONGs e órgãos comunitários, acionistas, comunidade internacional, entre outros. Nesse contexto, verifica-se que a proteção ambiental passou a ser uma necessidade das pessoas e clientes da empresa e que, para sobreviver, as empresas estão se estruturando para atender melhor esse aspecto, criando áreas específicas para atuar interna e externamente neste trabalho.

Segundo Winter (1987), existem cinco razões principais pelas quais um gerente empresarial responsável deveria aplicar o princípio da gestão ambiental em sua empresa:

·        Sem empresas orientadas para o ambiente, não poderá existir uma economia orientada para o ambiente – e sem esta última, não se poderá esperar para a sociedade uma vida com o mínimo de qualidade;

·        Sem empresas orientadas para o ambiente, não poderá existir consenso entre o público e a comunidade empresarial – e sem consenso entre ambos não poderá existir livre economia de mercado;

·        Sem gestão ambiental da empresa, esta perderá oportunidades no mercado em rápido crescimento e aumentará o risco de sua responsabilidade por danos ambientais, traduzida em enormes somas de dinheiro, pondo desta forma em perigo seu futuro e os postos de trabalho dela dependentes;

·        Sem gestão ambiental da empresa, os conselhos de administração, os diretores executivos, os chefes de departamento e outros membros do pessoal verão aumentada sua responsabilidade em face de danos ambientais, pondo assim em perigo seu emprego e carreira profissional;

·        Sem gestão ambiental da empresa, serão potencialmente desaproveitadas muitas oportunidades de redução de custos.

No entanto, a decisão sobre a necessidade ou não de implementação de um sistema de gerenciamento ambiental deve ser feita analisando-se, se isto vai atender a uma “necessidade dos seus clientes” (os seus consumidores) e se esse sistema irá colaborar de modo importante para o cumprimento da legislação. Se a resposta a um desses questionamentos for positiva, a implementação deverá ser feita, cumprindo-se, basicamente três grandes conjuntos de atividades:

·        Análise da situação atual da empresa. Verificaronde se está” no momento, no tocante ao desempenho atual da empresa quanto aos seus produtos, serviços prestados e sistemas de produção;

·        Estabelecimento de metas. Estudar as possibilidades físicas, materiais, recursos disponíveis e interesses da empresa expressos em sua política para definironde se quer chegar”;

·        Estabelecimento de métodos. A palavra método tem sua origem grega que significa “caminho para se alcançar a meta”. Ou seja, o estabelecimento de métodos vai definircomo chegar”.

A implementação e operação de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) é, na realidade, a aplicação de conceitos e técnicas de Administração, particularizados para os assuntos de meio ambiente. Existem, dessa forma, várias técnicas possíveis e que levam a resultados semelhantes. No entanto, opta-se por considerar a ferramenta mais importante e que poderá resumir toda a implementação do processo do SGA, o ciclo PDCA, também conhecido como Ciclo de Deming, composto por quatro grandes passos: Plan (Planejar), Do (Realizar), Check (Verificar), e Act (Atuar para corrigir), e então recomeçar um novo ciclo. Esse ciclo deve ser precedido por uma atividade de “Estabelecimento da Política Ambiental” da empresa.

 

V - A situação das empresas no Brasil em relação às questões ambientais

Quando se trata da questão ambiental não no Brasil, mas nas economias capitalistas como um todo, o empresário imediatamente pensa em custo adicional. Dessa maneira, passam despercebidas oportunidades de negócios ou de redução de custos. Sendo o meio ambiente um potencial de recursos ociosos ou mal aproveitados, sua inclusão no horizonte de negócios pode resultar em atividades que proporcionem lucro ou pelo menos se paguem com a redução dos gastos em energia, água ou de outros recursos naturais. Reciclar resíduos, por exemplo, significa transformá-los em produtos com valor agregado, e conservar energia significa reduzir custos de produção.

Segundo ALMEIDA et al (2000), todas essas atividades mencionadas se autofinanciam em termos macroeconômicos, pelo menos em parte, pela economia de recursos proporcionada. Precisa-se traduzir as oportunidades em propostas concretas em nível microeconômico. Numa economia capitalista, como o Brasil, que se caracteriza, ainda no limiar do século XXI, por elevado desperdício de recursos energéticos, e que desconhece as oportunidades de negócios na área ambiental, surge mais que convenientemente a iniciativa de difundir os princípios da gestão ambiental. Essa integração da responsabilidade ambiental à estrutura organizacional da empresa é um fenômeno relativamente recente e, por isso, assume distintas formas e funções no organograma de cada empresa.

Ao se avaliar a situação das empresas no Brasil, verifica-se que um grande número de empresas está demonstrando preocupações e investindo em seu desempenho ambiental. Muitas destas são filiais de transnacionais e estão seguindo diretrizes vindas do exterior para que elas se adequem a padrões corporativos, sobretudo com interesse em preservar o nome da companhia e resguardá-la de problemas. Algumas empresas estão procurando atingir um melhor desempenho por uma necessidade expressa por seus clientes, sobretudo de produtos de exploração (caso do papel e celulose, minério, e outros), outras, por trabalharem com alimentos, que representa um setor de forte penetração popular, reconhecem que haveria fortes perdas geradas pelo desgaste da marca.

No Brasil algumas mudanças são visíveis no comportamento empresarial de setores de maior impacto sobre o meio ambiente, como os químicos, de papel e celulose, siderúrgico e de mineração, entre outros. Mas a imensa maioria das empresas ainda restringe sua responsabilidade ambiental ao atendimento à legislação de controle da poluição da água, do ar e do solo, e no caso de novos empreendimentos ou instalações, seguem exigências da Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) (ALMEIDA et al, 2000, p.10)

Os especialistas em questões ambientais das empresas classificam esse comportamento da maioria das empresas brasileiras comoreativo”. Isto é, a empresa busca a maximização de lucros, no curto prazo, ao mesmo tempo em que é compelida a dar respostas às exigências do mercado e à regulamentação legal. Nesse modelo reativo, a empresa vivencia permanente contradição entre responsabilidade ambiental e lucro. O reativo contrapõe-se ao comportamento ético ambiental da empresa, onde a responsabilidade integra-se à sua estrutura organizacional. A ética ambiental passa a fazer parte da missão da empresa e o meio ambiente é visto como oportunidades de negócios (ALMEIDA et al, 2000, p.11).

Segundo dados fornecidos pela empresa de consultoria e treinamento, Fênix Ambiental, com relação a dezembro de 2001 (Tabela 1), tem-se até então 326 empresas com certificado ISO 14000 no Brasil. Sendo a maior concentração na Região Sudeste, com o estado de São Paulo apresentando o maior índice, 144 empresas.

 

Tabela 1 – Total de Empresas com Certificação por Região / Estado

 

REGIÃO

ESTADOS

TOTAL

%

NORTE

 

29

8,88

 

AMAZONAS

25

7,66

 

PARÁ

4

1,22

 

 

 

 

NORDESTE

 

31

9,49

 

ALAGOAS

2

0,61

 

BAHIA

15

4,6

 

CEARÁ

5

1,53

 

PERNAMBUCO

6

1,84

 

RIO GRANDE DO NORTE

1

0,3

 

SERGIPE

2

0,61

 

 

 

 

CENTRO-OESTE

 

3

0,91

 

BRASÍLIA

1

0,3

 

GOIÁS

2

0,61

 

 

 

 

SUDESTE

 

206

63,17

 

ESPÍRITO SANTO

4

1,22

 

MINAS GERAIS

42

12,88

 

RIO DE JANEIRO

16

4,9

 

SÃO PAULO

144

44,17

 

 

 

 

SUL

 

57

17,47

 

PARANÁ

17

5,21

 

RIO GRANDE DO SUL

25

7,66

 

SANTA CATARINA

15

4,6

Fonte: Fênix Ambiental empresa de certificação, dados referentes a dezembro de 2001

 

No caso da região Norte, por exemplo, onde aparecem dois estados, o do Amazonas possui uma boa justificativa para ser citado, a alta concentração de fábricas de equipamentos eletrônicos em Manaus que exportam bastante, e então surge também uma pressão internacional para a questão do meio ambiente.

Avaliando as demais regiões observa-se que a participação da região Norte está bem próxima do número total da região Nordeste, o que confirma a pressão ambiental exercida nessa região. a região CentroOeste por ser tipicamente agropecuária apresenta os índices mais baixos, com apenas 3 (três) empresas certificadas no país. Há que se ressaltar que existem análises que consideram o total de empresas separado do total de certificados ISO 14000 emitidos, isto é, uma empresa pode ter mais de um certificado. No Ceará, por exemplo, a empresa de fabrico de fios de algodão Vicunha Nordeste S.A. possui três unidades de produção certificadas. Na análise adotada neste estudo cada uma dessas unidades constará como uma empresa pois defende-se a idéia de que cada unidade retrata uma realidade e que por a certificação poder ser feita em apenas um setor da empresa não significa que a empresa em si é certificada. As regiões Sul e Sudeste apresentam, respectivamente, os maiores valores, 57 e 206 empresas. Um aspecto interessante é que não se percebe o predomínio de um setor específico, as empresas são bem diversificadas, mas um setor unânime a quase todas as regiões é o setor petroquímico devido ao alto risco ambiental que essa atividade representa.

 

VI - A inserção do geógrafo no processo de certificação ambiental no Brasil

 

Em função de uma legislação ambiental mais exigente, a gestão ambiental, incluindo a sua implantação, os processos de certificação, a elaboração de estudos de impacto ambiental e a obtenção de licenças perante órgãos fiscalizadores como o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), está criando um novo mercado de trabalho. Empresas públicas e privadas que desempenhem atividades de alto risco para o meio ambiente estão sendo cada vez mais cobradas para adoção de uma política de minimização de seus impactos. E para a elaboração deste trabalho é necessário uma equipe, de preferência, constituída por profissionais que tenham formação acadêmica relacionada as ciências naturais como a Biologia, a Oceanografia, a Geologia e a Geografia, entre outros. No caso específico, será abordado como o geógrafo pode se inserir e conquistar seu espaço nesse disputado mercado de trabalho.

Atualmente, com a oferta de cursos dos diversos níveis de pós-graduação em Meio Ambiente, além de cursos sobre ISO 14000 e gestão ambiental, o geógrafo pode se tornar altamente qualificado para participar e coordenar equipes multidisciplinares voltadas para a implantação de sistemas de gestão ambiental. Adquirindo os requisitos técnicos necessários, o geógrafo estará habilitado a exercer funções diversificadas ao longo do processo de estudo, planejamento e implementação de um SGA.

O papel do geógrafo na implementação de Sistemas de Gestão Ambiental em empresas, com base nas diretrizes das normas da série ISO 14000 irá variar de acordo com o domínio de conceitos e métodos de outras áreas do conhecimento científico. Por exemplo, na primeira etapa do ciclo PDCA, a do Planejamento, um dos itens é a Elaboração do Plano de Implementação do SGA que é constituído por quatro etapas: levantamento dos aspectos e impactos ambientais, verificação dos requisitos legais e outros requisitos, caracterização dos objetivos e metas, e, elaboração do plano de ação e programa de gestão ambiental. Na primeira etapa, levantamento de aspectos e impactos e também na fase do diagnóstico, que precede a elaboração do SGA (esta etapa se constitui basicamente de uma avaliação de impacto ambiental da empresa ao longo de todo o tempo de sua atuação), o geógrafo pode ser delegado para estas atividades, visto que são atividades que envolvem elementos usuais na prática geográfica, como: estudo detalhado do meio ambiente impactado e a utilização de um instrumental cartográfico. para atuar na segunda etapa do ciclo PDCA, a da Implementação e Operacionalização, conhecimentos mais específicos sobre as atividades da empresa, além de noções acerca de requisitos legais e corporativos se tornam necessários para o profissional que for designado a gerenciar esta etapa.

Outro fato que chama a atenção para este novo mercado de trabalho é que nos últimos dois anos (2001 e 2002) houve alguns concursos públicos para o IBGE, Petrobras, IBAMA para cargos relacionados à área ambiental. A procura tem aumentado tanto que até já surgiram cursos preparatórios para quaisquer profissionais que desejem tentar uma vaga nesta área, pois há previsão de novos concursos e a tendência é o mercado crescer. Por isso há de se enfatizar a importância do geógrafo ter consciência da sua capacidade e de conquistar seu espaço neste mercado.

 

 

NOTAS

 

[1] As normas padronizam peças, materiais, e também procedimentos gerenciais, estes últimos colaborando para fixar a comunicação entre clientes e fornecedores, sobretudo quando as relações comerciais envolvem o comércio internacional.

[2] Utilizou-se aqui a definição adotada pela NBR ISO 14000, que entende Sistema de Gestão Ambiental como “a parte do sistema de gestão global que inclui estrutura organizacional, atividades de planejamento, responsabilidades, práticas, procedimentos, processos e recursos para desenvolver, implementar, atingir, analisar criticamente e manter a política ambiental” (p.4).

 

 

Bibliografia

 

ALMEIDA, Josimar Ribeiro de; CAVALCANTI, Yara e MELLO, Cláudia dos Santos. Gestão Ambiental: Planejamento, Avaliação, Implantação, Operação e Verificação. 1. ed. Rio de Janeiro: THEX, 2000. 259 p.

 

MAIMON, Dalia. Passaporte Verde: gerência ambiental e competitividade. 1. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1996. 120 p.

 

MOURA, Luiz Antonio Abdalla de. Qualidade e Gestão Ambiental: sugestões para implantação das normas ISO 14000 nas empresas. 2. ed. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2000. 256 p.

 

MUNHOZ, Tânia. Prefácio. Planejamento e Políticas Públicas, Brasília, n.7, p. 1-4. Junho 1992.

 

NBR ISO 14001, Sistemas de Gestão Ambiental –Especificações e diretrizes para uso. 1 ed. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. 72 p.

 

TAUK-TORNISIELO, Sâmia Maria; GOBBI, Nivar; FORESTI, Celina; LIMA, Solange Terezinha (Orgs.). Análise Ambiental: estratégias e ações. 1. ed. Rio Claro: T.A.Queiroz Editor / UNESP, 1995. 381 p.

 

VALLE, Cyro Eyer do. Qualidade Ambiental: como ser competitivo protegendo o meio ambiente (como se preparar para as Normas ISO 14000). 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1995. 135 p.