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X SIMPSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FSICA APLICADA




ATERROS SANITRIOS: SOLUO RELATIVA.

 

 

Prof. Dr. Manuel Rolando Berros

 

 

Dept. Planejamento Territorial e Geoprocessamento




 

Palavras Chave: Resduos Slidos, Aterros Sanitrios, Consumismo
 Eixo: 3 Aplicao da Geografia Fsica Pesquisa.

Sub-eixo: 3.2 Propostas tericas e metodolgicas







Produo de Resduos Slidos

Desde 1927, data em que se conta com informaes quantitativas e qualitativas mais ou menos confiveis sobre resduos slidos no Brasil, como as fornecidas por Luz (1969), pode se apreciar o aumento constante na gerao de lixo urbano, no volume da massa de resduos (diminuio do peso especfico) e transformaes na composio dos elementos constitutivos. As alteraes registradas, evidentemente, decorrem da espetacular dinmica dos setores produtivos de matrias e energia, dos importantes avanos na mecanizao da indstria e pela modernizao do setor tercirio e do aparato distributivo, todos eles caracterizados pela modernizao e aplicao de novas tcnicas capazes de disponibilizar bens e servios mais diversificados, de melhor qualidade e abundantes.

Ao mesmo tempo, a populao aumentava expressivamente e melhorava de forma sensvel suas caractersticas qualitativas as que, decerto, influenciaram a produo de resduos slidos. Os 34,5 milhes de brasileiros de 1927 (FIBGE, 1986), quase se quintuplicaram em 2003. Por sua vez, as peculiaridades e preferncias dos consumidores se complexizaram na medida em que os indicadores econmicos, culturais, comportamentais, sociais e outros tambm evoluam significativamente. Todos essas condicionantes exerceram importantes papeis no aumento da tipologia e quantidades de resduos slidos despejados dos centros urbanos.

Se continuamos tomando o ano 1927 como data de referncia para essa anlise, poder perceber-se na tabela 1, a seguir, que das principais cidades, somente uma o Rio de Janeiro- ultrapassava o milho de habitantes e, entre as restantes, unicamente So Paulo congregava mais de 500.000 almas. Salvo o Rio, as cidades includas na tabela poderiam ser consideradas dentro da categoria de cidades de porte mdio. Nos dias presentes, 17 aglomeraes urbanas concentram mais de um milho de habitantes cada uma, e outras dez renem mais de 500.000 e menos de um milho de habitantes.

Para o objetivo do presente paper interessam as entidades urbanas localizadas nas estreitas faixas litorneas, bem como as aglomeraes conectadas ao oceano por sistemas lacustres e/ou fluviais (Porto Alegre, Manaus e Belm) e quelas muito prximas ao litoral e que exibem algumas caractersticas similares s primeiras cidades (So Paulo, Curitiba). Entre as 17 maiores aglomeraes urbanas, 11 entram na categoria de cidades litorneas, congregando importante proporo de populao.

 

 

A disposio final para dos resduos no espao peri-urbano das cidades de 1927, na tabela anterior, no deve ter-se constitudo num problema de dimenses maiores, ainda que nesse tempo mais de algum conflito ambiental ou de impacto de vizinhana, seguramente preocupou s autoridades. No obstante, considerando a composio dos resduos da poca e a farta disponibilidade de espao para lixes, supomos que os impactos eram menores e relativamente simples de sanear. Com efeito, de acordo com informaes da Secretaria do Meio Ambiente, (So Paulo, Edo., 1998), com dados do perodo entre 1927 e 1976, a frao de matria orgnica do lixo diminuiu de 82,5% para 62,7%, uma reduo 24% (boli [2002], apud Limpurb-SP [2000], indica que tal valor diminuiu ainda mais: 48,2%, em 2000), ao passo que os metais aumentaram 140%, os vidros 85% o os plsticos, inexistentes em 1927, somavam 5% do lixo paulista. boli, j citada, afirma que os plsticos em 2000 totalizavam 16,9%). Os resduos orgnicos apresentam inconvenientes durante o perodo de decomposio, que se estende por alguns meses, transformando-se em outras matrias inertes, tornando mais brando o problema de poluio e os de demanda de espao para a disposio de novos resduos, pelo menos no mdio e longo prazos. Os restantes componentes da massa de lixo so mais estveis ante a decomposio; eles apareciam em 1927, em propores muito pequenas, ou no existiam, como os plsticos. O que se observa hoje a abundncia de elementos mais estveis ante a degradao, tomando dcadas para se degradar, e com eles se multiplicaram os problemas. O carter perene do novo lixo, alm dos plsticos, com 16,9%, como se indicou antes, agrega as embalagens longa vida, isopor, pilhas e baterias que so elemento muitssimo mais estveis que os antigos restos, materiais que respondem por graves conflitos nos mdio e longo prazos porque permanecem inalterados e de forma indefinida nos locais de depositao final, vedando as possibilidades de reaproveitamento desses stios, limitando a expanso da malha urbana, criando conflitos com os moradores vizinhos e meio ambiente e colocando pesados desafios para as autoridades municipais no sentido de remediar tais locais, erradic-los e procurar outros novos.

 

 

Carncia de Espao para Aterros

Na data em referncia, ano 1927, praticamente todas as cidades selecionadas dispunham de reas circunurbanas abundantes para o seu crescimento horizontal e para dispor o equipamento auxiliar necessrio para atender as demandas de espao extra-urbano espaos para cemitrios, estaes de tratamento de gua, armazns e depsitos de atividades secundrias e tercirias locais para a disposio de resduos slidos- as que preferem a periferia para se instalar, As reas urbanas contavam com espaos praticamente ilimitados para a expanso; eram fazendas de cultivos e pastagens, stios, bosques e mata nativa, terrenos no utilizados, reas de vegetao rala, etc., que nessa poca no estavam sob proteo ambiental porque o problema ainda no existia; de modo que as reas peri-urbanas, e seus diversos ecossistemas, no representavam obstculos demanda de novos espaos. Agrega-se o fato de que, fazem mais de sete dcadas, a rede urbana nacional apresentava baixa densidade, as cidades situavam-se distantes umas das outras. De modo que elas no apresentavam conflitos entre si por espao, expandindo-se mais ou menos livremente, sem impedimentos de invadir o territrio de outra. As aglomeraes urbanas s comeam a processar-se no incio da segunda metade do sculo passado e com elas surgem os conflitos pela demanda de espao requeridos pela acelerada expanso urbana.

A cidade de So Paulo, que em 1933 ultrapassou o milho de habitantes, no registrava maiores inconvenientes para a expanso territorial, ainda que finalizando a dcada de 1940, com a construo do Tramway da Cantareira, ...a cidade chegou a ocupar trechos ao p da Serra da Cantareira e continuava a formar um bloco parte dentro do organismo urbano, separado deste pela vrzea do rio Tiet. (Ogata, 1983), porm, a cidade ainda contava com espao para crescer. Contudo, as reas peri-urbanas para instalar equipamentos vo sendo mais escassas. Os locais para a destinao dos resduos slidos tambm comeam a enfrentar limitaes, devem ser instalados mais distantes das reas centrais e j no to fcil encontr-los. Ogata, anteriormente citada, demonstra como, desde 1800, os lixes de So Paulo, que sempre se localizaram na periferia, foram sendo afastados do centro, na medida em que eram engolidos pela expanso urbana, s vezes com resultados negativos, uma vez que tais depsitos de lixo no so aptos para a construo civil, especialmente residencial, salvo para certos usos de tipo institucional, sempre e quando sejam tomadas as medidas preventivas de rigor.

A carncia de espaos para a implementao de aterros tornou-se um desafio mltiplo para as administraes municipais. Atualmente em muitas grandes cidades, num raio de 20 km. do setor central, simplesmente no existem mais reas com vocao para receber o produto do metabolismo das cidades, como Wolman (1972) denomina ao lixo. As barreiras naturais impostas pelas estruturas fsicas, as reas protegidas por algum atributo fsico especial e a legislao que disciplina o uso do espao, obrigam a municpios e a particulares a retirar seus resduos e disp-los em locais situados a mais de 25 km. da cidade, com o encarecimento do servio de coleta e limpeza pblica que os contribuintes se mostram reticentes em pagar. Alm disso, os terrenos com condies para implantar aterros registraram uma valorizao elevada devido ao aumento da demanda dessas reas; aos tradicionais equipamentos que devem situar-se fora do permetro urbano, agregam-se a difuso de novos cultivos de alto valor agregado, de instalaes industriais, a proliferao de clubes de campo, de chcaras e segundas residncias dos citadinos, etc.

J no mais se observam situaes como antigamente, em que alguns donos de terras, fazendeiros, ofereciam gratuitamente stios prefeitura para depositar lixo. Para eles, ceder terrenos era vantajoso pois obtinham restos para alimentar porcos e outros animais e retiravam material orgnico ainda no decomposto- para adubar lavouras (Lpez, Vidal e Pereira, 1975). Noutras oportunidades, donos de prdios agrcolas recebiam lixo urbano para aterrar depresses e nivelar terrenos. Ambas as prticas hoje so consideradas altamente atentatrias contra os sistemas ambientais, contra a biota e contra o prprio homem, esto terminantemente proibidas.

Em diversas cidades freqente constatar que o desenvolvimento horizontal desordenado e o desrespeito do Plano Diretor do municpio (ou mesmo a sua inexistncia), faz com que o crecimento da planta urbana seja efetuado desordenadamente, crescendo de fora anrquica, espalhando-se em direo do aterro ou lixo, deixando, s vezes, espaos vazios no interior da cidade, pela descontinuidade das reas ocupadas. Uma vez instalada a populao nessas reas no contempladas para a expanso urbana, os indivduos comeam a reclamar e a reivindicar a interdio e erradicao do aterro que ainda no cumpria a vida til, obrigando prefeitura a procurar outra rea para instalar um novo aterro.

 

O Problema dos Resduos Slidos no Litoral

Desde que Cabral aportou no Brasil, a populao procurou reas litorneas para se assentar. Durante os perodos colonial e imperial, os principais centros urbanos se localizaram junto ao mar ou muito prximos linha costeira, como a situao de So Paulo e Curitiba includas nesse conjunto por apresentar algumas caractersticas das cidades litorais, porque recebem diversas influncias dele e por desenvolver certas funes similares das cidades porturia. Com o transcorrer do tempo, gradativamente foram sendo incorporados espaos interiores, na medida que novos recursos naturais apareciam e se exploravam comercialmente, com a derivada instalao de novas entidades urbanas, agora distanciadas do oceano.

Contemporaneamente, apesar de registrar-se todo um processo de interiorizao das atividades produtivas e de diversos servios, originando o aparecimento de diversas cidades algumas na categoria de metrpoles, como Braslia-, ainda assim, 35,5% da populao nacional continua congregando-se em cidades litorneas, ou prximas ao oceano, com mais de 200.000 habitantes. Se considerarmos a populao urbana geral do Brasil, teremos que 43,7 % dela se concentra em cidades com populao de mais de 200.000 habitantes e situadas em reas costeiras. uma cifra muito expressiva de concentrao espacial de populao, tomando em considerao as dimenses continentais do pas com imensos espaos mediterrneos por ocupar.

So 60.235.556 habitantes (Abril Ed., 2002) reunidos em entidades urbanas localizados junto ao mar, valor que deve ser superior em, aproximadamente 7% se so contempladas as cidades com menos de 200.000 habitantes. Agora em termos de produo de resduos slidos, tomando em considerao unicamente os 60,23 milhes de indivduos, teremos uma quantidade imensa de lixo gerado no interior dessas cidades e que se, acumuladas em lapsos de tempo maiores (meses, anos), totalizaro montantes incrivelmente elevados, fato inquietante para as autoridades e para a opinio pblica esclarecida. A preocupao deriva nem tanto com o manejo da coleta e transporte dos resduos, que em termos gerais no Brasil, poderia ser considerada satisfatria. O problema emerge na disposio final nas cidades litorneas.

Onde e como dispor tantos resduos slidos, tendo presente que nas reas costeiras h falta de espao para a disposio final? Na tabela 2 foram lanados dados de populao, desagregados em trs categorias de cidades, conforme o tamanho, a produo per cpita diria para cada grupo urbano e a gerao diria e mensal de lixo para cada agrupamento. A anlise mais detalhada dessa informao evidencia a gravidade das dificuldades que enfrentam, e continuaro encarando, as cidades do litoral se no forem tomadas medidas urgentes e profundas para reverter a atual situao e sanear problemas futuros maiores. A impossibilidade de contar com reas para implantar aterros sanitrios pode levar ao colapso a algumas cidades, ao se acumular o lixo nas vias pblicas e originar protestos da populao e incmodos ambientais

 

 

No por acaso que na maioria das cidades, o estado em que se apresentam os locais de diposio final dos resduos , no mnimo, lastimosa, seno catastrfica. Somente algumas dispem de sistemas convenientes para dispor seus resduos e, ainda assim, no cobrem integralmente as cidades, permanecendo margem da destinao adequada e segura uma significativa parte dos resduos que so dispostos simplesmente em lixes e locais no autorizados (so jogados aleatoriamente nas beiras de vias pblicas, terrenos vazios, lanados em corpos de gua e outras formas ilegais).

Totalizam 63,4 mil toneladas dirias de resduos slidos, ou 1,9 milho de toneladas mensais as que forosamente devem ser retiradas todos os dias das residncias das cidades do nosso litoral, montante que necessita ser acondicionado periodicamente em locais que no representem agravos nem para a sade humana e animal nem para a qualidade ambiental. As recomendaes anteriores geralmente no so cumpridas, observando-se marcada tendncia a se agravar em virtude da falta e encarecimento cada vez mais acentuado de reas com condies favorveis para o acondicionamento final dos resduos slidos urbanos.

Salientamos que a produo per cpita anotada na tabela 2, inclui somente o lixo retirado das residncias, comrcio, administrao pblica e similares atravs dos caminhes do servio de coleta pblica municipal, terceirizado ou diretamente administrado pela prefeitura. Aqui no so includos os resduos de outra ndole, como os da varrio, poda e capinao pblicas, nem os de responsabilidade dos prprios produtores resduos da sade e da indstria- que so coletados de forma separada e dispostos em locais especiais, conforme suas especificidades. Se fossem includas essas duas ltimas tipologias de resduos, seguramente a produo urbana dobraria. Alm do mais, o lixo industrial e da sade tambm requerem de espao para serem, no mnimo, aterrados com segurana, sendo que as disposies legais ordenam que eles sejam tratados diferencialmente e tratados com procedimentos especializados conforme suas particularidades.

Possivelmente para alguns leitores os indicadores de produo de lixo antes anotados, expressos em toneladas sejam pouco compreensveis. Na prxima tabela 3, inclumos a gerao de resduos slidos para as mesmas cidades litorneas, agora estipulados de acordo com os pesos especficos aparente e real e desagregados, do mesmo modo, por categorias de cidades.

 

 

Seguindo Orth, Rocha e Ruocco (1976), Peso especfico aparente o peso referido aos resduos nas condies em que ele se apresenta (sic) inicialmente pronto para ser coletado (...) antes de serem coletados pelo veculo que ento os compactam de formas diferentes. Com a diminuio da produo dos restos orgnicos, que se contam entre os de maior pesado e que em So Paulo caram para 48,2% do total (boli, 2002) e com ou aumento na gerao de resduos leves (plsticos, papel e papelo e alumnio), o peso especfico aparente tem se reduzido notavelmente, ocupando o lixo cada vez mais volume, em funo da reduo do seu peso. Baseando-nos nos autores citados, atribumos ao peso especfico aparente 170 kg por metro cbico e ao real 1/12 do aparente, j compactado.

A partir dos pesos especficos da tabela anterior, possvel estabelecer o volume fsico que eles ocupariam. Antes de serem coletados e prensados no caminho recoletor, ocupariam o no desprezvel volume de 373.176,4 m3. Mas , tendo presente o esmagamento realizado  no veculo coletor, estimado na duodcima parte (1/12) do peso especfico aparente, teramos que seria gerado por dia, portanto, uma massa de lixo que totalizaria 31.098 m3, monte que ocuparia um espao de 3.144 m de comprimento por igual valor de largura e de altura. Se convertermos essas montantes para a gerao mensal, expressos em quilmetros, teremos nada menos que um volume equivalente a 94,32 km de largura multiplicado pelo mesmo valor do comprimento e da largura. Evidentemente que essa figura corresponderia ao caso hipottico de que se pudesse reunir num s lugar todos os resduos slidos das cidades do litoral consideradas.

 

Onde Dispor o Lixo das Cidades Litorais?

Realmente a quantidade de resduos oriundos das nossas cidades costeiras impressionante, ao mesmo tempo, alarmante, pelo menos para quem o gerencia. A continuar depositando-se o lixo, no melhor das casos, em aterros sanitrios (o que nem sempre acontece), em prazos variveis, porm reduzidos, literalmente no existiro mais reas adequadas para o seu confinamento definitivo.

As cidades do litoral brasileiro foram fundadas ou surgiram instaladas nas estreitas faixas de terra paralelas linha da costa ou de outros corpos maiores de gua que penetram para o interior (Belm e Manaus sobre o rio Amazonas). Do ponto de vista geolgico e do relevo, so alongadas plancies de sedimentao marinha, fluvial ou continental, formadas por materiais transportadosque sedimentaram sobre o embassamento cristalino submergido. Apresentam severas restries para a construo de aterros porque o nvel do lenol fretico aparece muito superficialmente, inclusive pode inundar amplas reas em episdios de preamar, inviabilizando a instalao dessas estruturas, ainda que sejam realizadas obras civis de acondicionamento. Locais com vocao para receber aterros, haveria que procur-los nos setores mais elevados, recheados com sedimentos do macio cristalino, ou Serra do Mar pelo menos onde ela est presente, ou distante das calhas dos rcursos fluviais. A disponibilidade dessas plancies muito escassa pois sobre elas se espalham as cidades e j quase no restam mais. Geralmente as plancies so pequenas e bloqueadas por outras estruturas fsicas limitantes da continuidade (rios, esturios, baias, dunas, morros e cordes montanhosos, etc).

Em direo W, afastando-se do oceano (pelo menos do Rio Grande do Norte at o norte do Porto Alegre), se eleva o embasamento cristalino, representado pela Serra do Mar, com marcados gradientes de inclinao e escarpas quase verticais, com rochas metamrficas e granitos muito duros que impedem qualquer tentativa de instalar aterros nessas estruturas de relevo. No entanto, no tm sido impedimento para a proliferao de favelas, mantidas em p, pelo menos durante o perodo seco; durante a estao chuvosa e sem a sustentao vegetal, o solo satura e as construes despencam com trgicas conseqncias. Como produto dos falhamentos tercirios, aparecem as elevaes cristalinas isoladas, interrompendo a extenso das plancies litorneas com morros e outeiros ou submergindo no mar e aflorando como ilhas. Ditos relevos colocam limitaes similares s da Serra do Mar para instalar aterros e ocupao de estruturas urbanas.

Quanto pedologia, existe uma variedade aprecivel na tipologia de solos; grosso modo se destacam cinco tipos representativos na maioria dos aplainamentos em que se desenvolvem as cidades e suscetveis de se ocupar com outros equipamentos urbanos. Eles so: a) podzol hidromrfico; b) glei pouco hmico, ou tabatinga; c) mangue, ainda que autores no o considerem como tipo de solo; d) aluvies, que podem ser argilosos e no-argilosos e e) solos de encostas nas formas de latossol vermelho amarelo e litossol (Berros, 1998). Nas cidades fluviais interiores os solos contm materiais de sedimentao fluvial. Todas as tipologias pedolgicas mostram restries para dispor aterros ...mesmo que a rea seja aparentemente segura dos pontos de vista da vulnerabilidade geolgica e/ou ambiental (SMA-CETESB, 1995), pois o material sedimentar no demonstra estabilidade para aterros. Existem possibilidades de instal-los nos solos aluvionais no-argilosos situados ao p da escarpa da Serra.

A rede de drenagem se constitui noutra severa barreira para a ocupao do espao. Baias, lagos, complexos estuarinos, canais, rios, largos, igaraps e outros corpos de gua que se internam pelas plancies baixas formam um complicado sistema que dificulta ou barra a expanso urbana e a busca de locais para aterros. Os interflvios so estreitos, no permitem cumprir com as distncias mnimas previstas em lei para construir locais de confinamento de lixo, agravados pelo nvel fretico demasiado superficial, passvel de ser poludo.

Referente cobertura vegetal, que alterna espaos exuberantes e variados em espcies vegetais (Mata Atlntica), com reas de plantas ralas, pobres e escassas (vegetao de restinga), reas em grande medida protegidas por diversas figuras de proteo legal. Assim, a instalao de estruturas urbanas esto impedidas de ocupar a floresta atlntica, no domnio da Serra; as restingas, a vegetao de vrzeas e os jundues dunrios, nas plancies de sedimentao; os mangues e vegetao dos brejos de gua doce e outras formaes que felizmente so preservadas e indisponveis para a ocupao humana.

Obviamente o Oceano Atlntico e os demais grandes corpos de gua so parte dos empecilhos intransponveis, dos obstaculizadores na expanso urbana porque ainda estamos longe de incorporar reas ocupadas pelo mar. Outras barreiras difceis de transpor so formadas pelos limites polticos municipais e estaduais. Em muitos casos, ante a apremiante carncia de espaos para instalar aterros, precisa-se de hbil e certeira articulao poltica para que um municpio sem reas disponveis e muito urbanizado, consiga, atravs de negociao, uma autorizao para levar seus resduos para um segundo municpio com espaos livres. Hoje, as modalidades mais usuais consistem em fazer uso do aterro de um outro municpio, -mediante pagamento pelo servio- ou alugar terrenos para esse efeito em municpios prximos.

Aos municpios sem disponibilidade para instalar equipamentos peri-urbanos se agregaro outros, provocando problemas complicados para as prefeituras. So diversos os municpios que j esgotaram seu espao, devendo transportar seus restos para distncias considerveis, em aterros extra-municipais que respeitem as disposies ambientais. Porm, no so casos isolados os municpios que optam pela via ilegal, jogando os resduos slidos das suas cidades em lixes, s vezes dentro do permetro urbano ou lanando-os em rios, lagos e mar ou mesmo invadindo reas de proteo ambiental, sem nenhuma procupao pela qualidade de vida dos indivduos e, menos ainda, sem nenhum respeito pelos direitos dos sistemas ambientais.

 

O que Fazer com os Resduos Slidos?

Em nvel mundial, os pases mais adiantados no manejo dos resduos, podem ser classificados em dois tipos: a) os que aplicam a via tecnolgica e b) os adeptos do conservacionismo. Os primeiros, representados pelos EUA, aplicam toda a tcnica disponvel para gestionar os resduos e logo proceder ao aterramento. Contam com grandes veculos compactadores, estaes de transbordo, se valem de vias frreas, navios, contineres, sofisticados aterros (landfills) especializados para diversos tipos de resduos, sofisticadas tcnicas de escavao, de monitoramento de percolados e gases, etc, que a potente economia permite disponibilizar. Prticas de coleta seletiva, reaproveitamento e conservao de materiais so mnimas.

De outro lado, os pases inclinados conservao a maioria das naes da Europa Ocidental-, so mais prticos. Os aterros sanitrios so somente para colocar rejeitos inteis. Eles avanaram bastante na reciclagem, na produo de composto orgnico, -com aproveitamento do gs; boa parte do lixo incinerado com recuperao de energia para gerar termo-eletricidade; recuperam e reutilizam objetos resgatados do lixo e demonstram preocupao por no agredir o ambiente. Inclusive, a Unio Europia estabeleceu em 1989 a Estratgia Comunitria para a Gesto dos Resduos, visando a preveno, reciclagem, eliminao segura e a remediao, com a ativa participao social, (Esplugues, 1992)

Contudo, nenhum dos dois grupos de naes abordou uma questo vital: a de controlar a gerao de resduos via regulao do consumo de bens e servios.

Para a realidade das cidades que estamos tratando, nas quais se concentram mais de 60 milhes de habitantes, isto 35,5% dos brasileiros, nem a via tecnolgica nem a conservacionista resolvero integralmente, nas prximas dcadas, o desafio de administrar seu resduos urbanos. As duas vias so impraticveis no nosso meio; o uso de tecnologia, que alm de ser dispendiosa, refora os aterros, e a segunda, que igualmente implica vultosos investimentos, requer de forte participao cidad, apoiada numa ampla conscincia social, muito difcil de conseguir. notrio que essa ltima alternativa se aproxima mais ao ambiental e socialmente correto, talvez algum dia chegaremos a algo parecido, respeitando nossas diferenas.

Solues prticas aparecero em diversos municpios do litoral para resolver questes emergenciais, amenizando um problema muito mais profundo como a falta de espao, falta insolvel em se tratando de uma varivel fsica ptrea.

Num artigo recente, (Berros, 2003), analisamos a produo de resduos, colocando-os dentro da concepo sistmica. O lixo um produto final, um output no processo de produo e consumo de matrias. Pensamos que todas as medidas que se tomem para administrar a sada do sistema o lixo- tero resultados relativos no sendo solucionado o problema integralmente. Essencial intervir na outra ponta do sistema, na entrada, nos inputs, ou seja o consumismo exacerbado de objetos e a maneira de consumir, que implica a reciclagem.

Consumir tornou-se numa verdadeira febre no mundo capitalista. No entanto mister destacar que nem toda a humanidade entrou nessa psicose de consumo (Berros, 1999). O consumo desnecessrio e suprfluo necessita ser reorientado pois conduz produo de mais resduos tambm dispensveis. Toda atividade humana obrigatoriamente origina restos. Mas, se a essa produo natural se agrega outra com possibilidades de ser controlada, esta ltima teria que ser administrada com viso diferente. Devemos procurar frmulas para reaprender a consumir e a alterar nossos hbitos (Alphandry, Bitoun e Dupont, 1992), passando a economia de fluxo, onde os objetos circulam rapidamente, para ser substitudos por outros mais novos, quando no so descartveis, e para uma economia de estoque, em que os objetos tenham vida til prolongada.

Mudar de hbitos de consumo implica transformaes profundas no aparato produtivo, na ordenao poltica e na estruturao social das comunidades, tarefa assaz difcil, talvez realizvel num futuro distante (Berros, 1999), mas obrigatrio de realizar, caso contrrio, a sustentabilidade do Planeta ser ameaada.

As transformaes precisam emergir da sociedade, dos indivduos cientes das suas responsabilidades ante o resto da humanidade e o meio ambiente. Mudar os padres de consumo envolve rever o conceito e contedo de necessidades. Nesse sentido, Br, (1997) levanta uma srie de interrogantes ainda no dilucidadas:

...qu se entiende por necesidades?; quin las determina y en base a qu?; quines son los sujetos de dichas necesidades: cmo actuan las diferencias de riqueza, cultura, gnero, etnia, nivel de desarrollo y mbito geopoltico?; cmo se mide la capacidad de las futuras generaciones?; con qu horizonte temporal trabajamos?; hemos de suponer invariable el ritmo y los objetivos de innovacin tcnica y desarrollo cientfico, o qu factor multiplicador o de cambio de orientacin debemos suponerle?; cmo determinar las necesidades de esas futuras generaciones cuya proyeccin temporal desconocemos?; hemos de entender una invariabilidad de todos los parmetros que definen las necesidades actuales supuesto que sepamos cules son- y proyectarlas sin cambios hacia el futuro ...

 

Realmente o desafio projeta-se enorme; modificar a atual ordenao poltica, social e econmica, implica revolucionar integralmente a totalidade da vida das comunidades, tarefa que parece irrealizvel, pois ningum, nem Marx, se imaginou como funcionaria uma economia em que os produtores e os consumidores, mercado e agentes econmicos atuassem visando satisfazer determinado nvel de necessidades para todos os indivduos. De no ser possvel materializar essa provocao, os recursos naturais se esgotaro ou se alteraro tornando-os inteis para o aproveitamento. As perspectivas ante a questo dos resduos slidos no se perfila alentadora, ainda mais nas entidades urbanas localizadas em reas litorneas. A carncia de espao exibe restries drsticas, as limitaes fsicas so intransponveis, o espao no pode ser multiplicado q partir do nada. Frente a esta espcie de determinismo, ou melhor, ante esse condicionante geogrfico resta adaptar-se realidade. A alternativa mais efetiva a da racionalizao do consumo, auxiliada por prticas de reciclagem, reutilizao e reaproveitamento dos resduos slidos, objetivando a vida til dos necessrios aterros sanitrios, encaminhando para eles, somente os rejeitos. A implementao de aterros, com altos custos de implantao e funcionamento, se justificaria uma vez que o sistema de limpeza pblica contaria com outras receitas, permitindo arcar com os altos custos dos aterros, principalmente para os 60 milhes de brasileiros que se localizam nas cidades de mais de 200.00 habitantes nas reas litorneas. Ante a falta de espao, precisa-se conservar os poucos ainda disponveis.

 

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