Voltar à Página da AGB-Nacional


 

 

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 



FISIOLOGIA DA PAISAGEM E GEOSSISTEMAS: CONTRIBUIÇÕES METODOLÓGICAS INTEGRADORAS DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO

 

 

 

 

Marcos Wellausen Dias de Freitas
Graduação em Geografia/UFF, bolsista IC/CNPq – marimbus@estadao.com.br

Sandra Baptista da Cunha
Professora Adjunta do Dept°. de Geografia/UFF, pesquisadora do CNPq
sandracunha@openlink.com.br






Palavras-chave: Geossistemas, Paisagem, Metodologia Geográfica.

Eixo 3: Aplicação da geografia à pesquisa

Sub-eixo: 3.2 Propostas teóricas e metodológicas: consolidação e avanços







INTRODUÇÃO

 

Este trabalho procura traçar uma metodologia geográfica de cunho integrador ou holístico, capaz de ser aplicada à realidade brasileira, em especial a da bacia hidrográfica do rio São João-RJ, área de pesquisa. Para tal, realizou-se um estudo sobre questões ligadas a um pensamento integrador em temas como geossistemas e paisagem, em sua evolução nas diferentes escolas e correntes do pensamento geográfico, com especial enfoque nas colaborações da escola geográfica brasileira.

A evolução das concepções nas diversas escolas geográficas corresponde diretamente às influências de concepções oriundas de outras disciplinas científicas e também do ambiente sócio-histórico em que estavam inseridas. Outro detalhe é que muitas idéias de autores considerados fora de época, parecem extremamente atuais e importantes para serem resgatadas no debate atual a respeito da questão ambiental.

 

CONTRIBUIÇÕES DA GEOGRAFIA TRADICIONAL

 

A Geografia Tradicional nasce com os naturalistas e viajantes do século XIX, se desenvolve com as sociedades geográficas européias, as explorações militares, experiências de viagem e as necessidades de colonização do expansionismo europeu. Além deste aspecto prático, a Geografia Tradicional teve seu desenvolvimento relacionado com o seu surgimento como disciplina universitária.

Este período se caracteriza pela metodologia de cunho positivista, influenciada diretamente por “[...] alguns princípios de ordem geral como o uniformitarismo, a teoria evolucionista, os métodos descritivos, comparativos e as generalizações empíricas [...]” (RODRIGUES, 2001, p.71). A base do conhecimento era a observação, a comparação e a busca de síntese através de leis gerais, buscando relações entre os elementos da paisagem, o que rendeu diversas correntes e interpretações dentro das escolas nacionais. Outra fonte fundamental deste pensamento geográfico é a Filosofia Natural alemã do século XIX, onde o geógrafo estava intimamente ligado ao Zeitgeist (espírito do tempo), concepção de origem romântica e baseada numa “visão cosmológica” da natureza, como sublinha Monteiro (2001 a, p.2).

 

CONTRIBUIÇÕES DA GEOGRAFIA DO PÓS-GUERRA

 

A Geografia sofreu uma grande transformação após o fim da 2ª Guerra Mundial e a nova conjuntura mundial caracterizada por um mundo bipolar em competição (EUA x URSS). A Geografia muda de papel e “[...] viu-se lançada a um comprometimento com o planejamento territorial, passando-se a discutir, para ela, a adequação adjetiva de aplicada ou aplicável” (MONTEIRO, 20001 a, p.9).

Uma das principais escolas dessa renovação é a escola teorético-quantitativa que foi influenciada diretamente pela Teoria Geral dos Sistemas e pela Cibernética, com o exemplo de Chorley (1971). Tais autores buscam uma abordagem geomorfológica relacionada com as idéias de sistema, fluxos de matéria e de energia, e de equilíbrio dinâmico (ou steady state, concepção original de Hack).

A escola da Ecologia da Paisagem evolui principalmente na França e na Alemanha (onde passa a ser chamada de geoecologia) por autores como Bertrand, Tricart, Dansereau (este canadense) e outros que buscavam as relações entre os elementos da paisagem sob uma perspectiva ecológica.

Na Geografia russa, Sochava (1978), influenciado por geógrafos como Vernadsky, criou a concepção de geossistema em 1963, tendo como base o estudo das paisagens siberianas na estação experimental de Irkoutsk (ROUGERIE e BEROUTCHACHVILI, 1991, p.59). Os geossistemas apresentam uma hierarquia estrutural que vai do nível planetário, ao regional e ao nível topológico, estando divididos entre geômeros (que apresentam uma estrutura homogênea) e geócoros (apresentando estruturas diferenciadas) em relação de interdependência.

 

CONTRIBUIÇÕES DA GEOGRAFIA BRASILEIRA

 

O estudo integrado do meio ambiente no Brasil tem diferentes contribuições como as de Christofoletti, Ab’Saber e Monteiro que buscam adequar teorias e influências do exterior à análise da realidade geográfica brasileira. Outras contribuições vem de Casseti (1991), mesclando a análise geomorfológica e o marxismo, e de Cunha e Guerra (2000) que salientam a importância da bacia hidrográfica como elemento básico para uma análise ambiental de cunho holístico.

Christofoletti (1979) foi um dos principais divulgadores da geografia teorético-quantitativa, sendo fundamental o seu papel na difusão nos estudos e análises de cunho cibernético e sistêmico, além da preocupação com a modelização. O estudo e a classificação dos diversos sistemas são realizados através de bases teóricas como mecanismo de retroalimentação, a noção de equilíbrio e de estabilidade, o conceito de readaptação, acompanhadas de noções matemáticas.

Ab’Saber (1969) desenvolve uma metodologia aos estudos geomorfológicos sobre o Quaternário composta de três partes integradas: a compartimentação topográfica, a estrutura superficial e a fisiologia da paisagem. A fisiologia da paisagem, parte fundamental da pesquisa que pressupõe as duas primeiras, procura desenvolver um entendimento da funcionalidade ou organização da paisagem através do conhecimento do “[...] papel de cada elemento do quadro ambiental, no processo de funcionamento da paisagem – como os fluxos de energia e matéria que fazem funcionar dinamicamente a paisagem” (ROSS, 2000, p.39).

Monteiro (2001 b) analisa a busca da noção de geossistemas como um conceito integrador na Geografia, o de geossistemas, sendo sua contribuição fundamental para a utilização desta metodologia no Brasil, pois procurou a classificação de geossistemas da realidade brasileira. Para tal, critica as propostas de classificação de Bertrand e Sochava, pois estas se baseavam nas realidades nacionais daqueles pesquisadores, onde Bertrand valorizou os aspectos taxonômicos do relevo e Sochava procurou nas formações biogeográficas as chaves de classificação dos geossistemas (MONTEIRO, 2001 b, p.47). Preferiu adaptar a concepção de hólon de Koestler nos estudos geossistêmicos, preferindo caracterizar as unidades geossistêmicas como estruturas intermediárias ou subsistemas na ordem hierárquica, conceito de cunho holístico e complexo. (MONTEIRO, 2001 b, p.43)

Quanto ao aspecto destas novas contribuições de cunho interdisciplinar da ciência recente preocupada com o estudo da complexidade, Monteiro deixa claro que: “Os progressos atuais na análise dos sistemas altamente complexos, a teoria do caos, e outros avanços serão, com certeza, poderosos meios de aprimoramentos e avanços na formulação teórica dos geossistemas” (MONTEIRO, 2001 b, p.102).

Em relação à metodologia científica dos geossistemas, Monteiro se posiciona favoravelmente ao anarquismo metodológico de Feyerabend (1989) em relação ao posicionamento da ciência normal e dos paradigmas de Kuhn (1989) no debate epistemológico recente.

 

CONCLUSÃO

 

Como vimos, a Geografia apresenta desde a sua fundação como disciplina as características de um pensamento integrador, apesar do positivismo como método principal desta corrente. A busca por um pensamento integrador e complexo passa pela utilização do anarquismo metodológico de Feyerabend, como defende Monteiro, onde nenhuma metodologia ou forma de pensamento pode ser desprezada pelo pesquisador, a fim de que o mesmo apreenda o seu objeto de estudo em suas características complexa e holística.

A Geografia Física tem na noção de geossistemas uma concepção extremamente apropriada ao debate atual sobre a complexidade, sistemas e o caos, debate que não se restringe ao domínio científico, mas que pode e deve ultrapassar os domínios da ciência para combiná-la com os domínios filosóficos, culturais e artísticos (entre os quais um dos principais é questão da ética que se impõe a qualquer pesquisador envolvido com a questão ambiental) que possibilitam uma cooperação frutuosa ao debate sobre complexidade e a aplicabilidade da ciência no planejamento e gestão ambientais. (FREITAS e CUNHA, 2002)

As complexas relações entre a sociedade e a natureza podem ter, portanto, uma grande compreensão sob o olhar geossistêmico de cunho integrador que não assuma uma posição determinista ou reducionista. A noção de geossistema no sentido aberto proposto por Monteiro permite a integração entre diversas escolas e correntes da Geografia, de outras ciências e de outros domínios além da ciência em strictu sensu, sendo o seu uso o mais adequado ao entendimento da paisagem da bacia hidrográfica do rio São João-RJ, devido à complexidade de suas características ambientais e das transformações antrópicas realizadas em sua ocupação histórica. O uso de tal concepção de geossistemas e de fisiologia da paisagem permite uma avaliação de cunho integrador das condições ambientais da área em questão, podendo ser uma importante contribuição ao planejamento e à gestão ambientais de características ecológica, complexa, ética e sustentável.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

AB’SABER, Aziz Nacib. Um conceito de geomorfologia a serviço das pesquisas sobre o Quaternário. Geomorfologia, São Paulo, IGEO-USP, n.18, 1969, 23p.

 

CASSETI, Valter. Ambiente e apropriação do relevo. São Paulo, Contexto, 1991.

 

CHORLEY, Richard J. A Geomorfologia e a teoria dos sistemas gerais. Notícia Geomorfológica, Campinas, v.11, n.21, 1971, p.3-22.

 

CHRISTOFOLETTI, Antonio. Análise de sistemas em Geografia. São Paulo, Hucitec/Edusp, 1979, 106p.

 

CUNHA, Sandra Baptista da; GUERRA, Antonio José Teixeira. Degradação ambiental. In: GUERRA, A .J.T.; CUNHA, S.B. (orgs.). Geomorfologia e meio ambiente. 3ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p. 337-379.

 

FEYERABEND, Paul. Contra o método: esboço de uma teoria anárquica da teoria do conhecimento. 3ª ed., Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1989, 488p.

 

FREITAS, Marcos Wellausen Dias de; CUNHA, Sandra Baptista da. A Geomorfologia, os estudos da complexidade e o desenvolvimento sustentável. Anais VII Encontro do Instituto de Geociências, Niterói, Instituto de Geociências/UFF, 2002, p.257-266.

 

MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo. William Morris Davis e a teoria geográfica. Revista Brasileira de Geomorfologia, UGB, v.2, n.1, 2001 a, p.1-20.

_______. Geossistemas: a história de uma procura. São Paulo, Contexto, 2001 b, 125p.

 

RODRIGUES, Cleide. A teoria geossistêmica e sua contribuição aos estudos geográficos e ambientais. Revista do Departamento de Geografia, São Paulo, Dept° de Geografia/USP, n.14, 2001, p.69-77.

 

ROSS, Jurandyr Luciano Sanches. Geomorfologia: ambiente e planejamento. 5ªed., São Paulo, Contexto, 2000, 84p.

 

ROUGERIE, Gabriel; BEROUTCHACHVILI, Nicolas. Géosystèmes et paysages: bilan et méthodes. Paris, Armand Colin, 1991, 302p.

 

SOCHAVA, Viktor, B. Por uma teoria de classificação de geossistemas de vida terrestre. Biogeografia, São Paulo, IGEO-USP, n.14, 1978, 25p.