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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA



 

ANÁLISE DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO E LEITURA DA PAISAGEM

 

 

 

Prof. Dr. Luiz Fernando Mazzini Fontoura (tchenando@aol.com)

Prof. Dr. Roberto Verdum (verdum@ufrgs.br)

Bolsista de IC Camila Thomaz da Silveira (camilathomaz@hotmail.com)

Departamento de Geografia – IG/UFRGS

Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural – UFRGS

Programa de Pós-graduação em Geografia – IG - UFRGS

 

 

 

Palavras chave: Geografia, paisagem e sistema de produção

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.2: Propostas teóricas e metodológicas


 

Introdução

 

Os geógrafos, na busca de aprofundar o conhecimento nos estudos que tratam da relação sociedade-natureza, operam conceitos capazes de representar a complexidade dessa relação. Neste sentido, este artigo, procura enfatizar o caráter complexo da realidade observada, pelo uso de dois conceitos-chave: paisagem e sistemas de produção.

O primeiro conceito, amplamente operado pelos geógrafos, é caracterizado pela conjugação de potenciais naturais, tais como: morfologia, vegetação, solo, litologia e hidrografia, sendo que, analisada essa conjugação de potenciais, percebe-se que a paisagem pode ser compartimentada. Além disso, considera-se fundamental nesse conceito a necessidade de se analisar esses potenciais naturais como sendo modificados pelas ações da(s) sociedade(s) humana(s), que conformam a paisagem ao longo de suas histórias.

O segundo conceito, relacionado a exploração agrícola, permite analisar a combinação da quantidade de força de trabalho e outros meios de produção colocados em prática por um agricultor para realizar seus objetivos. Nesta perspectiva, analisa-se as transformações que são realizadas nos compartimentos da paisagem, pela adoção de determinados sistemas de produção que sofrem transformações sucessivas ao longo da história.

Assim, com essa abordagem metodológica, procura-se analisar as relações existentes entre os compartimentos da paisagem e os sistemas de produção adotados, tendo como estudo de caso o município de São Lourenço do Sul (RS), que integra um conjunto de municípios que estão sendo estudados pelo grupo de pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS, na tentativa de estabelecer um estudo interdisciplinar, tendo como enfoque o desenvolvimento rural. 

 

Leitura da paisagem

 

Os recortes possíveis na paisagem representam diferentes pontos de vista do observador que, tanto pode se aproximar, aumentando a escala e proceder detalhamentos no nível da parcela, assim como se distanciar e proceder recortes relacionados as grandes estruturas da paisagem, diminuindo a escala de observação. Entre estes dois recortes pode-se distinguir o terroir (compartimento), onde aparecem os diversos componentes da paisagem: as condições do meio, as coberturas vegetais, os dispositivos mais ou menos perenes que marcam a ocupação do território e as marcas das práticas agrícolas que diferenciam os grandes sistemas agrários desenvolvidos, DEFFONTAINES (1998).

Inicialmente, quando propomos mostrar os dados estruturais do Planalto Sul Rio-grandense e da Planície Costeira no Rio Grande do Sul podemos distinguir, uma distribuição espacial em diferentes estratos, que são: o substrato, o manto de intemperismo, o solo e a cobertura vegetal. A distribuição de cada potencial (pedo-geológico, morfológico e florístico) que compõe a estrutura do meio é complexa. É importante mostrar que esta distribuição não é o resultado de uma simples superposição dos potenciais, mas a síntese das características e dos inibidores de cada componente do meio.

Por exemplo, na paisagem atual do Planalto Sul-riograndense e da Planície Costeira no Rio Grande do Sul, observa-se que o potencial climático é capaz de permitir um climax para o desenvolvimento natural de florestas. No entanto, hoje, visualiza-se uma paisagem e uma dinâmica que não necessariamente correspondem à ação direta do clima. Isto já nos leva a interrogar sobre a possibilidade da existência de outros inibidores potenciais capazes de contribuir no desequilíbrio observado, assim como possíveis intervenções provocadas pela sucessão de sociedades humanas na história de ocupação desta paisagem.

As paisagens, tanto do Planalto Sul-riograndense como da Planície Costeira, apresentam características originais e que se manifestam em escalas variadas de observação. Como vimos, os recortes possíveis na paisagem representam diferentes pontos de vista do observador que, ao se distanciar ou aproximar pode realizar recortes relacionados aos grandes compartimentos da paisagem.

Ao analisar o setor de estudo, percebe-se que a conjunção dos componentes (pedo-geológico, morfológico eflorístico) permite distinguir, inicialmente, três recortes na paisagem:

 

  • terroir dos campos da Planície Costeira entrecortados pelos vales aluviais;

  • terroir dos rebordos florestados do Planalto, caracterizados pelos domos e as cristas;

  • terroir dos campos do topo do Planalto, de colinas e de morros testemunhos, entrecortados por valões e vales aluviais.

 

Além dessa possibilidade de definir recortes pela conjunção dos componentes da paisagem é fundamental analisar as fases de ocupação do território. Isso nos permite avaliar a pressão que os modelos de exploração agrícola exercem sobre a paisagem na trajetória de sua conformação.

Atualmente, observa-se a degradação das terras que nos levam não somente a avaliar os inibidores e as fragilidades da paisagem, mas também a examinar a pressão dos modelos de exploração agrícola exercida sobre a mesma. Assim, evidencia-se a importância de se poder avaliar essa pressão associada aos diferentes sistemas de produção, assim como as diferentes fases de ocupação do território.

 

Sistemas de Produção

 

Segundo PILLOT (1986), o conceito de sistema de produção se aplica a uma escala de exploração agrícola ou ao conjunto família – exploração. A sua observação permite, numa combinação em que se busca a coerência, avaliar a quantidade de força de trabalho e outros meios de produção colocados em prática por um agricultor para realizar seus objetivos. Já numa escala de vila ou região, deve ser utilizado o conceito de sistema agrário, definido como um conjunto de relações que se estabelecem entre as explorações e o espaço que utilizam.

Em outras palavras, o sistema de produção permite avaliar os agentes que interferem na tomada de decisões do produtor em nível de unidade de produção, como por exemplo: utilização força de trabalho, objetos de trabalho, tipo de cultivo. Enquanto que o sistema agrário permite avaliar os agentes externos que influenciam as unidades de produção.

Para VISSAC (INRA, 1979) apud MAZOYER (1987), o sistema agrário é a expressão espacial da associação de produção e técnicas colocadas em prática por uma sociedade para satisfazer suas necessidades. Exprime em particular a interação entre um sistema bio-ecológico representado pelo meio natural e um sistema sócio-cultural, através de práticas oriundas particularmente da aquisição técnica ou acumulação do conhecimento.

Para MAZOYER, um sistema agrário é antes de tudo um modo de exploração de um meio historicamente constituído e durável, um sistema de forças de produção adaptado às condições e necessidades sociais do momento. Um modo de exploração de um meio que é um produto específico do trabalho agrícola utilizando uma combinação apropriada de meios de produção inertes e vivos para explorar e reproduzir um meio cultivado que sofreu transformações sucessivas a partir do meio original ao longo da história.

Com estes conceitos, o sistema de produção e sistema agrário, pretendemos avaliar neste estudo, as estratégias utilizadas pelos produtores na tentativa de reproduzirem-se enquanto tal. O procedimento analítico será o de territorializar as variáveis essenciais propostas por MAZOYER, tais como:

 

  • meio cultivado: como era originalmente e as transformações histórica adquiridas;

  • instrumentos de produção – objetos de trabalho;

  • artificialização do meio: o que poderia ser melhor explorado com o processo de modernização e as novas formas de inserção no mercado (pós- moderno);

  • divisão social do trabalho; diferentes estágios da agricultura , artesanato, industrialização e reprodução de objetos de trabalho;

  • excedente agrícola: necessidade dos produtores agrícolas e necessidade  de outros grupos sociais.

  • Relações de troca entre ramos associados, ou seja, relações de propriedade e de força de trabalho que regem a repartição dos produtos do trabalho, bens de produção e consumo: é a troca entre os sistemas (concorrência – monopólio);

·Conjunto de idéias e instituições que asseguram a reprodução social.

 

MAZOYER salienta ainda, que deve se levar em consideração ao longo da evolução histórica, a situação da burguesia agrária no poder central, a política agrária praticada, a localização das explorações agrícolas em relação aos centros industriais e aos mercados consumidores, as estratégias de desenvolvimento que tendem a reforçar as desigualdades das explorações entre as regiões, as trocas em grande escala graças a infra-estrutura de transportes e conservação que conduzem para a especialização de culturas dentro de uma nova ordem da divisão internacional do trabalho.

Para se fazer a leitura da paisagem e daí se trabalhar com a sociedade territorializada, nos fundamentaremos nos estudos sobre pequenas regiões desenvolvidos por CHRISTOFINI (1985) e DEFFONTAINES & PETIT (1985). Destes dois últimos, utilizaremos o que eles chamam de indicadores visuais, ou seja:

 

  1. a ocupação do solo: vegetação e edificações;

  2. as práticas: modos de intervenções produtivas atuais (vistas pelo observador, traços de intervenções do passado);

  3. o meio: meio físico e suas características;

  4. as estruturas : parcelamento e edificações;

  5. as relações , disposição dos objetos relacionados;

  6. apropriação: modo de propriedade do solo e edificações.

 

Estas características podem ser vistas na paisagem, e no sentido de buscar semelhanças nas unidades de produção para identificação de sistemas de produção.

Sobre o ponto de vista do espaço – paisagem, os autores ainda sugerem:

 

  1. O espaço é visto como suporte da atividade agrícola e lugar onde se desenvolvem as práticas que variam dentro do tempo e do espaço;

  2. O espaço é visto como suporte (base) de coações diversas que encontra a atividade agrícola. É o caso dos fatores do meio (fatores topográficos, hidráulicos, climáticos) em geral, e das estruturas agrárias, particularmente a configuração do parcelamento e das edificações;

  3. O espaço visto como um quadro de relações. Disposição dos objetos quando ligados uns aos outros, particularmente àqueles que distam (estão separados) mais os efeitos da vizinhança ou contigüidade ou isolamento. Efeitos característicos de cada objeto e a sua relação escalar (ou intra e inter-regional);

  4. Enfim, o espaço é visto como uma rede econômica e social que resulta em modos de apropriação.

Assim, a paisagem pode ser vista do ponto de vista do espaço da interação do suporte de atividades, suporte de coações, quadro de relações e objetos e apropriações, e observados a partir dos indicadores visuais como a ocupação, as práticas, o meio, as estruturas, as relações com as cercanias e as formas de apropriações.

 

São Lourenço do Sul: resultados do método

 

Aplicando a metodologia que incorpora a compartimentação da paisagem e a caracterização dos sistemas de produção em São Lourenço  do Sul/RS, tem-se como situação de síntese, os resultados seguintes:

 

  1. Na Planície as principais atividades estão relacionadas à pecuária de corte, lavoura de arroz e turismo. A atividade arrozeira é desenvolvida em empresa rural, com exigência de profissionalização e encontra-se em expansão para municípios vizinhos. Há infra-estrutura para todas as etapas da produção e comercialização, através da Cooperativa de beneficiamento do arroz. A atividade de pecuária de corte é considerada secundária.  

  2. Em relação ao Planalto, três divisões morfológicas nos auxiliam no reconhecimento da diversificação dos sistemas agrícolas. Da Planície em direção ao topo do Planalto (na divisa com o município de Canguçu) pode-se diferenciar os compartimentos de colinas, colinas/domos e domos/platô. 

  • No Compartimento de Colinas, com vales mais amplos,  a produção é diversificada (milho, soja, gado leiteiro...) aparecendo algumas propriedades que se destacam na infra-estrutura e no potencial produtivo em contraposição a propriedades em abandono.

  • No Compartimento Colinas/Domos, estreitamento dos vales e elevação do relevo, observa-se a construção de novas estruturas para a produção do fumo (estufas, galpões,...), assim como a presença de casas construídas recentemente (2ª e 3ª fases de ocupação). Mais acima, em direção a Canguçu, observa-se a presença de casario mais antigo (1ª fase de ocupação-germânica), em que a infra-estrutura para a produção do fumo se destaca também. Pelos relatos, de cada três produtores, um está sendo incorporado na produção do fumo, havendo redução na bacia leiteira e na suinocultura. Nesse compartimento há a existência de remanescentes florestais, certamente devido a morfologia que dificulta a expansão das atividades agrícolas e, talvez pela retração da área produtiva. 

  • No Compartimento Domos/Platô, vales mais estreitos em transição com área de platô na divisa com Canguçu, observou-se em campo que, a presença de solos mais rasos e pedregosos induzem a uma alteração da estrutura fundiária, onde a pecuária extensiva reaparece. Destaca-se que a baixa restrição ao uso dos recursos naturais se contrapõe a alta pressão antrópica (lavouras-pecuária e mineração). 

 

Considerações finais

 

A compartimentação da paisagem em recortes, realizados a partir da conjugação de determinados componentes (pedo-geológico, morfológico e florístico), resulta numa primeira aproximação para definir diferenças estruturais. Essa compartimentação, não necessariamente determina o desenvolvimento de sistemas de produção.

No entanto, pode-se verificar a existência de diferenciações entre os compartimentos da paisagem e as formas de estabelecimento desses sistemas. Verifica-se ainda que, a pressão agrícola exercida por esses sistemas acompanha a diversidade do processo histórico, identificando a persistência das heranças nas práticas agrícolas e a intensificação de novas que se estabelecem.

As marcas desses processos produtivos, relacionados às práticas agrícolas, e as ações provocadas pelos fenômenos naturais, geram processos morfogenéticos conformadores da paisagem, podendo ser distinguidos na sua dinâmica e intensidade. A compreensão desta complexidade desperta para a urgência de se repensar as formas de inserção das diversas atividades de grupos sociais, assim como, da necessidade crescente de aprimoramento metodológico e técnico para se poder avaliar as potencialidades e restrições da paisagem em relação a essas atividades.

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