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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

GÊNESE E CARACTERÍSTICAS DO VENTO NORTE REGIONAL E

EM SANTA MARIA, RS

 


 

Maria da Graça Barros Sartori magracas@base.ufsm.br
UFSM -
Santa Maria - RS

 



 

Palavras-chave: Vento Norte; fatores genéticos; fatores geoambientais.

Eixo: 3.- Aplicação da Geografia Física / Pesquisa

Sub-eixo 3.2: Propostas teóricas e metodológicas: consolidação e avanços




 

INTRODUÇÃO

Vento Norte, na escala regional, é um dos dois tipos de vento que maior impacto provoca sobre os seres vivos no território gaúcho e toma características locais em Santa Maria, tornando-a conhecida em todo Estado, devido a intensidade que assume face de certos condicionantes geoambientais na escala local.

É conhecido e mencionado desde o início da ocupação do território sul-rio-grandense e identificado pelos primeiros viajantes europeus que fizeram excursões de reconhecimento da terra do Brasil colonial, especialmente durante o século XIX, como Arsène Isabelle e Augusto de Saint-Hilaire, que narraram detalhes minuciosos do ambiente ao longo dos seus trajetos. Entre os dias 25 de fevereiro e 1º de março de 1834, Isabelle (1949) descreve a região de Santa Maria em que se encontrava, chamando atenção para as condições atmosféricas e relevo, identificando-se a situação pré-frontal que enfrentaram, com o forte vento norte, de poucas horas de duração, e temperaturas muito altas. Porém, foi Machado (1950) que apresenta as primeiras explicações à origem do Vento Norte regional, chamando  atenção para a particular violência que ele assumia em Santa Maria. Com Sartori (1979, 1981, 1984, 2000), é que foram buscadas maiores explicações sobre a origem do Vento Norte regional e, mais especificamente, sobre as causas do Vento Norte em Santa Maria.

Assim, neste trabalho, buscou-se explicar a gênese e o mecanismo de formação do Vento Norte em Santa Maria, cujos componentes geoambientais são de suma importância na sua definição e na intensidade que assume na escala local, fazendo parte da vivência dos santamarienses.

 

METODOLOGIA

A fim de facilitar a análise da gênese e mecanismo do Vento Norte, foi montado o fluxograma da Figura 1, que explicita a metodologia adotada ao mesmo tempo que representa uma tentativa de estruturação das articulações das escalas de abordagem climática e seus respectivos condicionantes ambientais. Assim, verifica-se que o Vento Norte em Santa Maria deve ser explicado através de dois grupos de fatores: os genéticos, que correspondem às escalas zonal e regional, e os de integração geoambiental, definidos na escala local.

 

 

 

Figura 1 – Fluxograma  metodológico para o estudo da origem do Vento Norte regional e dos condicionantes geoambientais, que o intensificam em Santa Maria.

 

Nas escalas zonal e regional, a análise baseou-se na interpretação da circulação atmosférica  pela organização dos sistemas e subsistemas da América do Sul, mediante análise de cartas sinóticas e imagens do satélite GOES 8. Na escala local, foram usados dados diários da Estação Meteorológica de Santa Maria para realizar a “análise rítmica” e definir os tipos de tempo caracterizados pelos fluxos do quadrante norte. Com dados diários de direção e velocidade do vento dos três horários oficiais de observação, para o período de 1989 a 1997, e de ventanias associadas ao Vento Norte, para o período de 1987 a 1999, foi determinada a freqüência desse vento ao longo do ano, especialmente no outono/inverno/primavera.

Para integração geoambiental a nível local e urbano, foram considerados principalmente o relevo (tipo e disposição) e a cidade de Santa Maria (posição, sítio urbano, dimensão e estrutura), avaliados através de cartas topográficas de escalas médias e grandes, para permitir as inferências sobre a intensificação do fluxo e a individualização do Vento Norte local.

 

AS EXPLICAÇÕES GENÉTICAS E OS CONDICIONANTES GEOAMBIENTAIS

O mecanismo de formação do Vento Norte típico, a nível zonal, depende das condições normais da circulação regional, pois há necessidade de que os sistemas e subsistemas atmosféricos da América do Sul estejam organizados, de modo a permitir frontogêneses bem desenvolvidas e gradientes de pressão eficazes. Qualquer fato que ocorra na interface atmosfera/superfície terrestre, pode repercutir substancialmente na organização desses sistemas e, por conseguinte, na circulação regional habitual. É o caso dos eventos “El Niño” e “La Niña”, como os que aconteceram de meados de 1997 a meados de 1999, cuja extensa área de anomalias positivas (superiores a 4,0°C)  sobre o Pacífico Equatorial Leste  desorganizaram o posicionamento e a atividade dos centros de ação zonais, dificultando, na escala regional, a definição dos típicos episódios de Vento Norte no Sul do Brasil, em especial em Santa Maria.

A freqüência do Vento Norte e de ventanias a ele associadas no período de 1989 a 1999, pode ser verificada nos Quadros 1, 2 e 3 , salientando-se, porém, que esse Vento na região de Santa Maria tem, de fato, tanto direção N como NW, razão pela qual as duas direções foram computadas na sua identificação e freqüência, em todas as suas manifestações pré-frontais.

Nos 81 meses correspondendo ao outono, inverno e primavera dos 9 anos do período, épocas em que o Vento Norte típico normalmente tem maior participação e intensidade, sempre houveram registros de ventos de norte ou noroeste. Como se verifica no Quadro 1, o número de ocorrências de Vento Norte por mês no período 1989-1997 é maior especialmente nos meses de inverno (Junho/julho/agosto).

 

Quadro 1 – Número de ocorrências mensais de Vento Norte, em Santa Maria, no período 1989-1987.

 

 

1989

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

Total

Janeiro

9

9

5

7

13

3

4

6

6

62

Fevereiro

6

6

9

11

7

7

5

7

8

66

Março

6

7

5

8

4

7

6

5

3

51

Abril

7

8

4

9

9

5

7

6

10

65

Maio

7

7

12

5

9

6

3

4

5

58

Junho

4

3

10

14

5

8

6

8

12

70

Julho

7

5

11

7

6

9

13

7

12

77

Agosto

13

4

7

7

7

6

6

6

9

66

Setembro

1

7

3

2

5

11

8

5

5

47

Outubro

4

3

9

9

6

4

4

5

7

51

Novembro

2

11

5

2

7

9

6

5

2

49

Dezembro

3

5

3

3

3

7

5

11

9

49

 

O Quadro 2  apresenta o número de ventanias associadas ao Vento Norte em Santa Maria no período 1989-1999, cujas intensidades das rajadas foram, na maioria, superiores a 20 m/seg. Embora tenham sido observadas ocorrências de ventanias em todos os meses do período, constatou-se que o maior número delas também aconteceram justamente nos meses de junho/julho/agosto.

Embora submetido aos efeitos do El Niño, no ano de 1997 aconteceram 23 eventos de Vento Norte, a maioria deles não muito bem definidos, e que estão apresentados no Quadro 3. Destes, 9 se destacaram e foi escolhido o 13º (16 a 19 de agosto) para análise da circulação atmosférica regional, correspondendo àquele em que o Vento registrou as maiores intensidades, com rajadas de 27 a 30,4 m/seg. (91 a 104 Km/h) em, pelo menos, três dias consecutivos, atendendo a um dos parâmetros indispensáveis a sua caracterização. Nesse evento, a intensidade do Vento Norte foi manchete nos jornais de circulação local/ regional (A Razão) e estadual/ nacional (Zero Hora), especialmente pelos danos materiais provocados.

Quadro 2 – Ventanias associadas ao Vento Norte,  em Santa Maria, com intensidades maiores que 17 m/seg. (maioria superiores a 20m/seg.) np período 1989-1999.

 

 

Baseando-se na classificação de Sartori (1981) entre os dias 13 e 15 de agosto de 1997, que antecederam o episódio, dominou o Tempo Anticiclônico Polar em Tropicalização em todo RS. Com o processo de tropicalização e a permanência do APA sobre as latitudes  tropicais, ocorre a dissipação da FPR, a partir do dia 16, provocando a sua fusão com o ATA e fazendo com que a Massa Tropical Atlântica (MTA) passe a dominar a maior parte do Brasil, do Nordeste ao Rio Grande do Sul, entre os dias 16 e 19 de agosto, este último pela manhã. Com a interiorização do fluxo tropical, a MTA adquire características mais continentais, com predomínio do vento de direção norte moderado sobre a região de estudo. Durante este período de quatro (4) dias, a FPA, em frontogênese, permanece entre o Estuário do Prata e Uruguai, mantendo o território rio-grandense  em situação pré-frontal. As imagens de satélite e carta sinótica mais representativa do período (Figura 2) mostra o domínio da Massa Tropical Atlântica Continentalizada (MTAc) nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com intensificação do processo de frontogênese, ampliando-se a Baixa do Chaco, que abrange, pelo menos, o Paraguai, Uruguai e oeste Rio Grande do Sul. Esse quadro sinótico é responsável pelos fortes ventos do quadrante norte, que assolaram o Estado entre os dias 16 e 19 de agosto.

Quadro 3 – Episódios de Vento Norte em situações pré-frontais e as rajadas de maior intensidade, no outono/inverno/primavera de 1997.

 

 

Evento

 

 

Rajadas de maior intensidade

Episódios com Vento Norte

 em pré-frontais

 

Dia

metros/ seg.

 

 

 

6 de março de 1997

23 de março de 1998

 

 

2 e 3 de abril de 1997

24 de abril de 1997

19 de maio

28,2

16 e 17 de maio de 1995

19 a 21 de maio de 1997

 

 

 

13 de junho

15 de junho

21 de junho

22 de junho

 

25,5

22,4

20,9

20,2

7 e 8 de junho de 1997

 

13 a 15 de junho de 1997

 

21 a 23 de junho de 1997

10º

 

11º

13 de julho

 

31 de julho

19,6

 

20,0

13 e 14 de julho de 1997

 

25 a 31 de julho de 1997

12º

 

13º

 

 

14º

 

16 de agosto

17 de agosto

18 de agosto

19 de agosto

 

27,0

27,2

30,4

28,0

7 de agosto de 1997

 

 

16 a 19 de agosto de 1997

 

30 e 31 de agosto de 1997

15º

16º

17º

 

8 de setembro

 

23,6

4 de setembro de 1997

7 e 8 de setembro de 1997

14 e 15 de setembro / 1997

18º

19º

20º

21º

 

10 de outubro

 

27 de outubro

 

23,6

 

20,0

5 e 6 de outubro de 1997

9 a 12 de outubro de 1997

22 e 23 de outubro de 1997

29 de outubro de 1997

22º

23º

 

 

9 de novembro de 1997

23 de novembro de 1997

Fonte: Estação Meteorológica de Santa Maria.

 

As respostas locais de Santa Maria a essa organização dos sistemas atmosféricos evidenciam condições de desconforto ambiental,  provocado pelas pressões atmosféricas muito baixas (991,5 hPa no dia 19), baixíssima umidade relativa nos dois horários (35% e 32%), temperaturas elevadas (mínimas de 17°,4 C e máximas de 33°,6 C), com céu parcialmente nublado passando a encoberto, e, o elemento mais importante, Vento Norte de moderados a fortes ( ventania), com rajadas que atingiram 109 Km/h. O tipo de tempo que dominou entre o dia 16 até a manhã de 19 foi o Tempo Anticiclônico Tropical Continentalizado. O episódio analisado termina com a chegada da FPA ao Rio Grande do Sul na tarde do dia 19, proporcionando Tempo Frontal de Sudoeste de Atuação Moderada, e no dia 20 o domínio da Massa Polar Atlântica, determinando o Tempo Anticiclõnico Polar Marítimo Figura 3)

 

 

 

Figura 2 – Carta sinótica do dia 18 de agosto de 1997 (12:00 Z)

 

 

 

Figura 3 – Carta sinótica do dia 20 de agosto de 1997 (12:00 Z)

 

Assim, na escala regional e sob condições de circulação normal, o Vento está associado predominantemente aos domínios das massas de ar Polar Velha ( tropicalizada ou aquecida) e Tropical Atlântica continentalizada, principalmente no outono/inverno/primavera, época do ano em que há maior atividade do Anticiclone Polar Atlântico (APA) e do Anticiclone Tropical Atlântico (ATA), com fortes gradientes térmicos latitudinais e interiorização dos fluxos das referidas massas de ar, a exemplo do episódio analisado, em função da circulação anti-horária das altas pressões do Hemisfério Sul. Os centros de ação mais ativos, expandindo-se em direção às superfícies menos quentes dos continentes, e o aumento dos gradientes térmicos devido à época do ano, provocam, por sua vez, fortes gradientes barométricos latitudinais, que repercutem em intensas frontogêneses e aprofundamento da Baixa do Chaco, fato que pode ser observado na carta sinótica do dia 18 analisada,  referente ao período de 8 a 20 de agosto de 1997.

As condições de circulação regional são responsáveis pelo aumento da velocidade do vento, como se uma força muito poderosa “sugasse” o fluxo de ar em direção ao sul. Essa força é representada pelas pressões muito baixas da faixa de descontinuidade frontal (FPA) e da própria Depressão do Chaco que se amplia, sempre que as frontogêneses venham a desenvolver-se bem. É como se caracterizam algumas situações pré-frontais no Rio Grande do Sul, com grande aquecimento e vento norte forte, a exemplo do episódio analisado (Figura 2).

Os estados de tempo nas situações pré-frontais, com participação efetiva do Vento Norte regional, foram descritos em detalhe por Sartori (1981, 1993, 2000), especialmente ao serem  propostos  três exemplos de sucessões típicas do tempo no inverno do Rio Grande do Sul, que podem ser estendidas para o outono e a primavera.

No primeiro exemplo, a autora descreve o que considera ser o avanço normal e característico de uma Frente Polar Atlântica sobre o Estado, com posterior domínio das massas polares, marítima ou continental, que acabam se tropicalizando antes da chegada de nova frente fria. Esse mecanismo de circulação resulta em uma seqüência habitual de tipos de tempo, associado às condições máximas de abastecimento de ar polar, no extremo sul do Oceano Pacífico, definido por fluxos polares do tipo “contínuo e dominante”, segundo designações dadas por Monteiro (1969: 54).

A fase pré-frontal desse  exemplo, com duração de 1 a 3 dias, caracteriza-se pelo aquecimento, com temperaturas máximas superiores a 20°C e mínimas em elevação, declínio acentuado da umidade relativa das 15 horas (< 50 %), pressão atmosférica em declínio contínuo e gradativo, ventos do quadrante norte (N ou NW) de velocidades variáveis, refletindo a atração exercida pelas baixas pressões da descontinuidade frontal sobre os fluxos de ar da massa dominante (polar ou tropical), aumento gradativo da nebulosidade até o céu tornar-se totalmente encoberto com nuvens Sc, Ns e Cb, indicando a aproximação da frente. Podem também ocorrer precipitações pré-frontais, provocadas por linhas de instabilidades de noroeste ou calhas induzidas.

Este estado atmosférico reflete um quadro sinótico em que o centro do APA, já enfraquecido pelo aquecimento basal, posiciona-se no oceano ou sobre o litoral brasileiro, do Paraná ao sul da Bahia, tendo a sua dianteira uma FPA em dissipação na latitude do Nordeste. O ATA encontra-se deslocado para próximo da África. Entretanto, pode acontecer a dissipação total da frente acarretando a fusão do APA e do ATA, o que determina o domínio da massa tropical no centro-sul do Brasil que, ao se interiorizar, ganha características mais continentais (Massa Tropical Atlântica continentalizada – ATAc).

No segundo exemplo, destaca-se o encadeamento de vários tipos de tempo que ocorrem no inverno sul-rio-grandense com duração de, no máximo, de dois dias, resultante da participação alternada de domínios de massas polares e tropicais e das correntes perturbadas de Sul (FPA) e de Oeste (IT). Os tipos de fluxos polares utilizados para explicar esse caso são o “fraco”, o “interrompido” ou o “alternado, segundo características definidas por Monteiro (op.cit.), que originam “frentes indecisas” com desenvolvimento de ciclones frontais no eixo da FPA, indicativo do equilíbrio de forças entre os sistemas extratropicais e os intertropicais.

Mesmo assim, a fase pré-frontal desse exemplo é dominada pelo ATA, com seu centro sobre a região Sudeste e Oceano Altântico, e a FPA posicionada sobre o Uruguai. A região fica, então, sob o domínio da MTAc , que provoca abaixamento das pressões, ressecamento acentuado (UR das 9:00 h. < 60%  e das 15:00 h. < 50%), aumento das temperaturas mínimas (> 15°C) e das máximas (> 30°C), ventos quentes do quadrante norte, de moderados a fortes, com possibilidade de formação de calhas induzidas e Instabilidades de noroeste (IT).

O destaque do terceiro exemplo reside no fato de que podem ocorrer frontogêneses sobre a Patagônia, que provocam situações pré-frontais bem definidas no Rio Grande do Sul, apesar dos Anticiclones Polares serem pouco profundos em função de condições mínimas de abastecimento de ar polar. As fracas frontogêneses e seus desvios para o Oceano Atlântico permitem a rápida dissipação da FPA, favorecendo o domínio de massas tropicais nas fases pré-frontais. As conseqüências são dias ensolarados e de temperaturas elevadas, de duração prolongada, resultando em períodos de estiagem, que podem se prolongar por mais de um mês, já que as chuvas frontais não acontecem. As quatro fases típicas da sucessão habitual não acontecem, já que a fase frontal é insipiente (chuvas fracas e isoladas), o domínio polar é de  duração muito curta (1 dia) e a fase transicional é a de maior duração. 

Assim, a fase pré frontal desse terceiro exemplo caracteriza-se pelo domínio da MTA ou  da MTAc (fusão do APA e do ATA) no Sul e Sudeste do Brasil, com a FPA próximo ao Estuário do Prata (Argentina), com ventos do quadrante norte de fracos a moderados, temperaturas altas (19° a 35°C), céu limpo e ressecamento gradativo do ar (UR de 40% a 55%).

A expansão das massas de ar Polar Velha ou Tropical Atlântica pelo interior do continente, nas latitudes tropicais e subtropicais, lhes imprimem características continentais, tornando-as, além de mais quentes, menos úmidas ou mesmo secas. A associação entre a maior velocidade do vento, a alta temperatura e o ar mais seco gera o Vento Norte regional, causando desconforto ou mal-estar para a maioria da população, ou conforto e bem-estar para algumas pessoas, conforme já relatado.

Não obstante, esse vento ganha características ainda mais específicas na região central do Estado, especialmente em Santa Maria, em função de alguns condicionantes geoambientais locais, representados pelo relevo e pela presença da cidade.

Por isso, é na escala local que se busca, através de uma real integração geoambiental, a explicação para o famoso Vento Norte de Santa Maria, que tem em todo o quadrante norte da cidade a presença do rebordo escarpado do Planalto da Bacia do Paraná (Figura 4). Este fato é importante porque, quando ventos regionais sopram sobre uma topografia escarpada, podem desenvolver pequenas correntes em forma de redemoinhos, que são levadas pelo vento, quando sua velocidade é maior que 30 Km/hora, como é o caso do Vento Norte. Nas vertentes a sotavento, o vento que desce espalha-se rapidamente encosta abaixo, produzindo fortes correntes descendentes, com muita turbulência.

A situação da cidade no sopé da encosta do Planalto, a faz sofrer os efeitos da formação de pequenas células de baixa pressão de caráter local, provocadas pelo grande aquecimento das fases pré-frontais já mencionadas. Este efeito acelera os fluxos de N e NW, que descem a serra. Como são quentes, com a descida sofre o “efeito Föhn”, pela compressão adiabática.

Assim, relevo o planaltino, com topo a mais de 500 metros de altitude e rebordo (Serra Geral) que se estende no sentido E-W, condiciona o comportamento do vento, em função de sua disposição perpendicular em relação ao Vento Norte regional e devido, também, ao desnível altimétrico de cerca de 400 metros em relação a altitude média da depressão periférica a nível local (100 m). O vento norte pré-frontal, fluindo sobre o topo do Planalto, desde as regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, desce a escarpa (Figura 4), sofre compressão e, em conseqüência, se aquece segundo o gradiente adiabático seco (1°C/100m), resseca ( por evaporação) e aumenta ainda mais sua velocidade com a descida, por efeito da gravidade. Sob essas condições, o vento norte local resultante ganha características ainda mais específicas, pois torna-se mais forte, intensificando-se também os efeitos produzidos sobre a disposição e comportamento, sobre a sensação de conforto ou desconforto ambiental, de bem-estar ou mal-estar da população santamariense, muitos deles manifestando-se através de reações psico-fisiológicas específicas.

Por sua vez, a área urbana está localizada no sopé do rebordo (Figura 4). Sua dimensão de cidade de porte médio e sua correspondente estrutura física, caracterizada por significativo crescimento vertical e adensamento horizontal das edificações e por arruamento pavimentados em sua maioria, são fatos suficientes para geração de um clima urbano, salientando-se, principalmente, a ilha de calor, a ventilação urbana específica e a diminuição da umidade relativa.

           

 

 

 

Figura 4 – O Vento Norte regional, as alterações de fluxo por influência do relevo e a localização da mancha urbana de Santa Maria.

 

A formação da ilha térmica urbana, cujo efeito em Santa Maria foi constatado por SARTORI (1979, 1986), acentua o abaixamento da pressão atmosférica, já baixa pelas condições regionais pré-frontais, intensificando ainda mais o gradiente barométrico intraurbano, o que repercute em maior velocidade do vento norte local. Aliando-se a isso, há o traçado das ruas de direção NNW-SSE , que permite o fácil acesso dos fluxos regional e local ao interior da cidade, canalizando-os ao longo dos “urban canyons” que se formam em algumas ruas da área central, auxiliando no aumento da sua velocidade, apesar do vento, em geral, reduzir gradativamente sua velocidade nos baixos níveis, pelo efeito de fricção com a superfície serrilhada da cidade.

O fluxo de ar é modificado pelo efeito do atrito e as alterações “são mais pronunciadas quando as velocidades do vento são de moderadas a fortes”, gerando turbulências mecanicamente induzidas, que se estendem até a camada-limite (urban canopy layer) da área edificada. É o caso do Vento Norte que é o vento mais quente e de maior velocidade em Santa Maria (escala local).

A presença da cidade é, dessa forma, fator geoambiental de destaque no condicionamento do Vento Norte a nível local e urbano, que certamente cria mesoclimas e microclimas diferenciados no seu interior, dependendo da orientação das ruas em relação ao vento, da existência dos “urban canyons”, do adensamento das edificações, da forma/tamanho/espaçamento dos edifícios. Estes elementos geourbanos, ao mesmo tempo que canalizam o fluxo de ar aumentando sua velocidade em meso e microescala ao longo das “gargantas”, geram redemoinhos e turbilhões no interior da cidade, que se formam, comumente, entre as filas de altos edifícios, com correntes ascendentes nas faces à barlavento e correntes descendentes nas faces à sotavento. O resultado é o desconforto das pessoas que circulam pelas ruas ou mesmo dos moradores de edifícios ou casas mais baixas vizinhas.

Com esses condicionantes, a cidade provavelmente intensifica os efeitos psico-fisiológicos provocados pelo já impetuoso Vento Norte local, comprometendo ainda mais as percepções de conforto ou desconforto e de bem-estar ou mal-estar da população urbana, dependendo, é claro, da tempo-sensitividade de cada indivíduo.

Deve-se salientar, em complemento, que o Vento Norte forte na escala urbana também causa incômodo e desconforto aos moradores dos edifícios mais altos, pelo barulho provocado pelo trepidar das janelas e pelo “assovio”, que se origina quando o vento pressiona e força entrada ao longo das frestas das janelas ao ser barrado na sua trajetória, especialmente naquelas voltadas para o norte. As sacadas à barlavento também favorecem a formação de pequenos redemoinhos (turbilhões), que aumentam a possibilidade do incômodo ruído  vir a ocorrer. O assobio e o sacudir das janelas dificulta, e até mesmo impede, o descanso e o sono noturnos dos que residem nos edifícios mais altos, deixando-os cansados e mal-humorados no dia seguinte, o que lhes causa mal-estar físico, conforme muitos comentários que se tem ouvido na convivência do dia a dia da cidade. Como a velocidade do vento aumenta com a altitude, no nível dos andares mais elevados desses edifícios poucos obstáculos (ou mesmo nenhum) impedem ou diminuem o efeito de pressão exercido pelo ar contra eles, fluindo mais livremente e provocando maiores transtornos.

Em Santa Maria, os edifícios com maior número de pavimentos estão mais concentrados justamente nas áreas mais altas do sítio urbano, que  correspondem ao núcleo original da cidade. A orientação das ruas (NNW-SSE), a topografia mais elevada da área central, o maior adensamento das edificações, a pavimentação asfáltica, a ilha de calor, os “urban canyons” com os prédios mais elevados fazem com que o centro e o norte da cidade sofram mais os excessos do Vento Norte. Junto à superfície urbana, a intensificação acontece pela canalização do fluxo nas “gargantas”, nos níveis mais altos, até os limites da “urban canopy layer”, pela maior velocidade do vento local e regional, que flui mais livremente sobre a estrutura física e irregular da cidade.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelo descrito, fruto de estudos e observações também realizadas pela autora ao longo dos últimos 20 anos, confirmados no período de 9 anos e no episódio analisado e que serviram de base temporal para definição da gênese do Vento Norte, constata-se que seu mecanismo de formação, essencialmente associado às situações pré-frontais no RS, é diferente daqueles que originam outros ventos catabáticos como Föhn, Chinoock e Santa Ana. Comparando-os com a gênese e características do Vento Norte na escala local, especialmente, verifica-se, porém, fatos tanto semelhantes quanto diferentes.

 

As diferenças entre eles dizem respeito, principalmente, aos seguintes fatos:

=> Vento Norte  não cruza formações montanhas;

=>não há, então, ascensão orográfica à barlavento da serra , pois o relevo regional é de planalto;

=> não há expansão adiabática à barlavento e, com isso, não acontece formação do “paredão föhn”, com nuvens de chuva;

=> também não se forma o “chinoock arch”;

=> não se pôde constatar se uma Alta Pressão superior permanece sobre a serra, como no Vento Santa Ana;

=>no inverno, o chinoock tem efeitos benéficos, por derreter a neve e libertar as pastagens para o gado faminto; o Vento Norte resseca a vegetação e desidrata a pele.

 

As semelhanças podem ser resumidas em cinco constatações:

=>não estão restritos à estação fria, podendo acontecer em qualquer época do ano;

=>a norte, noroeste e nordeste as pressões são mais altas e a massa é quente;

=> à sotavento (sul) há pressão baixa;

=> ar descendente, na vertente a sotavento, sofre compressão adiabática, aquece, resseca e aumenta de velocidade;

=>há nebulosidade, mas de natureza pré-frontal e não por ascensão do ar à barlavento;

=> efeitos psico-fisiológicos do Vento Norte são mais parecidos com os do Föhn, devido ao calor excessivo, secura do ar, velocidade e rajadas do vento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ISABELLE, A..Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul (1830-1834). Rio de Janeiro: Editora Zelio Valverde S.A., 1949.

 

MACHADO, F.P.. Contribuição ao clima do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: IBGE, 1950.

 

MONTEIRO, C.A.F..A Frente Polar Atlântica e as chuvas de inverno na fachada sul-oriental do Brasil. São Paulo: Instituto de Geografia /USP, 1969. Série Teses e Monografias nº 1.

 

SARTORI, M.G.B.. O clima de Santa Maria: do regional ao urbano. Dissertação de Mestrado.  São Paulo: Departamento de Geografia/FFLCH/USP, 1979.

 

SARTORI, M.G.B.. A circulação atmosférica regional e as famílias de tipos de tempo identificadas na região central do Rio Grande do Sul. Santa Maria, Ciência e Natura, 3:101-110, 1981.

 

SARTORI, M.G.B.. Considerações sobre a ventilação nas cidades e sua importância no planejamento urbano. Ciência e Natura, 6: 59-74, 1984.

 

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