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E3-3.2T313

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

ANÁLISE SISTÊMICA DE TERRITORIO TURÍSTICO COM APOIO DE GEOTECNOLOGIAS: estudo de caso da Costa Brava em Balneário Camboriú – SC

 

 

Francisco Antonio dos Anjos anjos@bc.univali.br 1

Romero Simi  romeropesquisa@terra.com.br 2



 

 

1 Professor-pesquisador do Curso de Arquitetura e Urbanismo – CE BC – UNIVALI

Geógrafo. Doutorando em Gestão Ambiental - CTC-UFSC.

2 Estudante do Curso de Arquitetura e Urbanismo – CE BC – UNIVALI

Bolsista de Iniciação Científica.



 

 

Palavras-chaves: Sistêmica, Território, Turismo.

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa 

Sub-eixo 3.2:  Propostas teóricas e metodológicas

 




 




 

INTRODUÇÃO

A análise territorial deve buscar a compreensão da complexidade que envolve os diversos elementos que compõe o espaço urbano para uma coerência no planejamento e ordenamento do território junto à comunidade envolvida. A teoria de sistemas fornece uma base teórico-metodológica que propicia ao pesquisador entender um todo de forma integrada, a partir das relações e inter-relações dos elementos que compõem o sistema estudado.

A área de estudo localiza-se no município de Balneário Camboriú SC, entre as coordenadas geodésicas 26º 59 26 latitude Sul, e 48º 38 05  longitude Oeste, possui uma área total de 46,4 Km². A área analisada é a região Costa Brava que se localiza a leste do município - formada por seis praias: Laranjeiras, Taquarinhas, Taquaras, Pinho, Estaleiro e Estaleirinho - sendo considerado principal patrimônio ecológico de Balneário Camboriú, por abranger uma área significativa de preservação natural.

O processo de ocupação e transformação do espaço da região Costa Brava se encontra em fase de transição incentivada pela forte intervenção pública no local, com a implantação da rodovia Inter-praias. Está transformação ocorre de forma acelerada, ocasionada pela facilitação do acesso ao local, juntamente com a fase de expansão do turismo.

Para desenvolver a pesquisa se utilizou o geoprocessamento e sensoriamento remoto como ferramentas no auxilio do processo de compreensão da ocupação territorial. Partindo de uma análise sistêmica, buscou-se compreender o território turístico e sua formação, observando e agregando os seus elementos naturais e sociais, com apoio da geotecnologia.

O foco principal da pesquisa foi desenvolver uma metodologia de análise do espaço urbano, buscando uma forma de compreender a cidade de forma sistêmica, isto é, nas suas relações, inter-relações e integração de todos os setores e serviços que dão vida, continuidade e movimento ao sistema de produção.

 

TEORIA SISTÊMICA

Capra (1982), define sistêmica com uma nova maneira de leitura dos acontecimentos, fatos, realidade, ciência, isto é, o mundo como um todo. O sistema é o todo integrado cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores. A análise não é concentrada nos elementos ou substancias básicas. A visão sistêmica enfatiza os princípios básicos de organização e sua complexidade.

Tradicionalmente, os diagnósticos ou intervenções - tanto físicas quanto sociais, culturais e econômicas - e os problemas urbanos são analisados na sua redução e não em sua integração, conexões, interconexões, flutuações e fluxos. No entanto, no espaço urbano, os problemas não são isolados no sentido de problema único, mas são inter-relacionados em diversos fatores: sociais, culturais, econômicos e políticos.

A sistêmica enfatiza um processo denominado de transação que se constitui como “uma interação simultânea e mutuamente interdependente entre componentes múltiplos” (CAPRA, 1982, p. 260). No processo de análise cartesiana, as propriedades de um sistema são desconsideradas a partir do momento em que se analisam unicamente os elementos isolados e independentes. Portanto, a análise do sistema deverá ser feita sempre considerando o todo. Essa totalidade é formada por componentes múltiplos conectados e inter-relacionados possibilitando uma visão completa do espaço.

Os organismos vivos seguem modelos cíclicos de fluxo de informações, chamados de “laços de realimentação - feed-back loops”(CAPRA, 1982). Na cidade, os modelos cíclicos de fluxos de informações, chamados de laços de realimentação, podem ser descritos, em pequeno, médio e grande porte independendo da escala cidade. O sistema urbano possui características complexas, independentes da escala da cidade ou da situação distintas. No planejamento territorial busca-se a sustentabilidade, exige-se a formulação teórica de um sistema, na qual analisam-se todos os componentes que o envolvem. Este modelo complexo de análise, transcende a forma da análise cartesiana, visualizando o espaço urbano como um sistema de relações, correlações, inter-relações e trocas constantes de energia. A compreensão do espaço urbano pode ser o reflexo da compreensão de um ecossistema urbano, como na percepção de Franco (2000) que classifica o espaço urbano como um ecossistema heterotrófico nas relações de entrada e saída de energia, auxiliando na visualização dos processos de produção, crescimento e dissipação física pelo território.

Capra (1982) entende que ecossistema equilibrado como aquele que “animais e plantas convivem numa combinação de competição e mutua dependência” (CAPRA, 1982, p. 273). Deve-se analisar o meio ambiente em que o homem vive, entendendo que a competição e a interdependência influenciam nas atividades diárias, como trabalho, que geram fundos para suprir as necessidades e uma perspectiva na melhoria da qualidade de vida. Os homens buscam melhores posições na hierarquia do poder para suas realizações. Sempre há alguém que gera atividades, aqueles que a fornecem ou os que consomem. Estas atividades geram algo que realimentam outros componentes dentro deste ambiente urbano.

Na aplicação da teoria de sistemas, na relação aos conceitos de dissipação e crescimento territorial, entende-se que o funcionamento dos fixos e fluxos internos são mais controlados por relações dinâmicas do que por estruturas rígidas mecânicas. Estas relações dinâmicas dão origem a várias propriedades e características que podem ser observadas como aspectos diferentes do mesmo principio dinâmico que deu origem à auto-organização. Um organismo vivo é um sistema auto-organizador, podendo dizer que há ordem, em forma de estruturas e funções são estabelecidas pelo próprio sistema.

Os dois principais fenômenos dinâmicos da auto-organização são a auto-renovação a capacidade dos sistemas vivos de renovar e reciclar continuamente seus componentes, sem deixar de manter a integridade de sua estrutura global e a autotranscendência a capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução (CAPRA, 1982, p. 263).

Todo sistema vivo possui um padrão de desenvolvimento que é classificado como auto-organizador, constituído pela dinâmica não linear que segue em desenvolvimento com a capacidade de criar novos elementos sem alterar sua identidade física ou estrutura global.

               

Capra coloca este processo em quatro fases de compreensão:

 

 

Os Seres vivos nos Pontos de Vista

Forma

O padrão da organização é o de uma rede auto-geradora.

Matéria

A estrutura material de um sistema vivo é uma estrutura dissipativa, ou seja, um sistema aberto que se conserva distante do equilíbrio.

Processo

Os sistemas vivos são sistemas cognitivos no qual o processo de cognição está intimamente ligado ao padrão de autopoiese.

Significado

Resultado da consciência reflexiva que surge a partir de uma rede de conexões e relações que envolvem o sistema.

QUADRO 01: Categorias da Análise Sistêmica (CAPRA, 2002, p. 84)

 

Na aplicação destas categorias apresentadas por Capra (2002) em análise territorial, pode-se considerar a matéria sendo como território, sempre em crescimento e em dissipação, mantendo-se distante do equilíbrio. Os processos se configuram como as atuações e as produções sobre o território e o espaço urbano, sempre ligado com o padrão de crescimento. A forma segue organizada de acordo com padrões de crescimento imposto pela rede do sistema, e cresce em desequilíbrio. Este desequilíbrio gera a competição entre os elementos que compõe o espaço urbano, fomentando a produção do espaço, dando forma de território. O desequilíbrio na forma se apresenta como espaço heterogênio, formado por diversos componentes de produção diferentes, gerando a competitividade entre estes componentes. O equilíbrio do sistema se constitui como um espaço homogêneo, uma situação estática de produção, dissipação e crescimento do sistema. Santos (1996) afirma que o espaço é heterogênio, reforçando a idéia de que a forma segue distante do equilíbrio. A forma é sustentada por uma rede de relações que se denomina de processo, formando a matéria. A relação entre todos os componentes da origem ao significado. O significado, uma quarta dimensão em que o social se apresenta no espaço, surge através de uma rede de relações e correlações do sistema em que a consciência reflexiva expressa um significado através dos diversos componentes que fomentam o sistema. O significado é um resultado das relações entre: matéria, forma e processo assimilado pelo observador.

 

A ANÁLISE DO ESPAÇO URBANO

O espaço urbano é composto por um conjunto de usos da terra, que por sua vez definem áreas, como centro de cidades, concentrações de comércios, serviços e gestão pública, áreas industriais e residenciais. Pode-se compreender estes elementos como fixos, gerando fluxos pelo espaço urbano relacionados diretamente através das redes. A produção do espaço urbano de acordo com Correa (1995) é simultaneamente fragmentado e articulado. Os fragmentos são dependentes um dos outros mantendo relações espaciais. As manifestações de articulações se apresentam em forma de fluxos, como de veículos e pessoas associadas a operações de carga e descarga de mercadorias, e ainda pode se manifestar em outras formas, envolvendo circulações e decisões de investimentos de capital no espaço urbano (CORREA, 1995).

A produção do espaço pode ser relacionada com a complexidade de ações de agentes sociais que levam a um constante processo de reorganização espacial, que se faz via incorporação de novas áreas ao espaço urbano, densificação do uso do solo, deteriorização de áreas, renovação urbanas, recolocação diferenciada da infra-estrutura e mudança, coercitiva ou não, do conteúdo social econômico de determinadas áreas da cidade (CORREA, 1995).

Os agentes sociais podem ser citados como sendo os proprietários de meio de produção, sobretudo os grandes industriais, os proprietários fundiários, os promotores imobiliários, o estado e os grupos sociais excluídos.

A produção do espaço também pode ser vista como um processo de auto-renovação, que é um aspecto essencial dos sistemas auto-organizadores. Este processo pode ser observado, por exemplo, na periferia urbana, que pode dar lugar a novos empreendimentos, modificando lugares de uma cidade que durante anos permaneceram em estado de desvalorização imobiliária. Com a dissipação da cidade, o centro se torna mais próximo destes longínquos lugares. Assim, pode-se dizer que a valorização e a especulação imobiliária começa a atingir o local. Um novo processo se inicia, o de “morte” desta paisagem suburbana ou periférica e começa a dar lugar para projetos, planos e planejamento de revitalização destas áreas, processo que dará nova “vida” ao local: “A morte, portanto, não é o oposto da vida, mas um aspecto essencial dela” (CAPRA, 1982, p. 276).

O processo de “vida” e “morte” pode criar processos contraditórios, que seguem em continuidade ao ciclo de crescimento urbano, onde pessoas que ali residiam irão a novos lugares construindo suas casas dando inicio a uma nova área ocupada que, muitas vezes não se agrega à cidade, gerando um processo de dissipação do espaço urbano.

O surgimento espontâneo é um dos processos que ocorrem também no espaço urbano, através de conexões internas e externas, relações que podem transformar completamente ou parcialmente o espaço, através da espontaneidade e auto-organização. No decorrer do tempo, os agentes produtores do espaço, relacionado com processos globais, intervém sob fixos e fluxos a modo de fomentar o capitalismo que o sustenta, e a espontaneidade surge na decorrência da criatividade coletiva da organização espacial. Este tipo de crescimento e dissipação ocorre também em setores individuais, e que pode afetar o todo.

Neste sentido, a visão sistêmica do objeto a ser estudado acaba garantindo o rigor necessário à análise do espaço individual no contexto global. Nesta direção Beaujeu-Garnier (1980) afirma que a metodologia sistêmica obriga a formalização rigorosa do raciocínio, possuindo um caráter interdisciplinar dos acontecimentos. Desta forma, a ligação entre o turismo e os habitantes locais, por exemplo, não se dá apenas entre espaços urbano e o turismo, mas também nas relações e inter-relações sociais no ambiente cultural.

A questão que se coloca é de como construir um planejamento sistêmico, envolvendo as entradas e saídas de energia deste sistema. Compreender as trocas de energia passa pela previsão das atuações deste planejamento no presente de forma abstrata, e no futuro por probabilidades de uma dinâmica não linear, assim como as expectativas de como se manterá este sistema. Como prever algo que cresce em desequilíbrio sujeito à espontaneidade das produções que fomentam o capitalismo, e processos que podem se inverter a qualquer momento. Por mais que o planejamento seja minucioso, cria-se uma ação abstrata do presente que em funcionamento vital é alimentado por diversos fatores tanto locais quanto globais. As ocorrências ou intervenções de fatores que envolverão o ordenamento e planejamento no futuro são diversas, algumas podem dar continuidade ao sistema imposto, e outras, distorcendo o atual sistema criando um outro. No entanto, a ação de planejamento deve compreender todas essas variáveis, e a partir, de uma análise integrada da situação real, indicar propostas de otimização do sistema.

 

USO DAS GEOTECNOLOGIAS NA ANÁLISE DO ESPAÇO DA COSTA BRAVA

A experiência do uso de geotecnologias vem sendo explorada em diversas áreas para diversos usos, que estão ligados ao estudo de territórios, espaço urbano, se apresentando como ferramentas que auxiliam na gestão territorial. O geoprocessamento e o sensoriamento remoto são ferramentas que visualizam e processam dados e imagens possibilitando uma saída de dados através de cartas temáticas. A visualização destes dados permite novas formulações e diretrizes para propostas de zoneamento e plano diretor, por exemplo.

Nesta pesquisa utilizou-se do sistema SPRING - Sistema de PRocessamento de INformações Georreferenciadas, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, consistindo sistema em que se processa e visualiza os dados trabalhados no ambiente SPRING.

As imagens de satélite Landsat – 05 e 07 foram processadas em um banco auxiliar, georreferenciadas com obtenção de pontos de controle apoiado na base cartográfica e nas vias de circulação da base digital vetorial da malha urbana na escala 1:2.000. As imagens foram introduzidas no banco de dados principal, com a finalidade de verificar as alterações ocorridas no decorrer do tempo. Foi feita uma avaliação temporal da área em questão, utilizando-se imagens sucessivas a partir de 1985.

Efetuados os processamentos das imagens, realizou-se um trabalho de interpretação visual a fim de mapear e tabular o desmatamento na região da Costa Brava. De acordo com dados aproximados, a Costa Brava possui uma área de 1.324 ha, com 15,5 ha de praia e 24,5 ha de costões rochosos. A interpretação visual permitiu a digitalização manual diretamente na tela dos polígonos das áreas desmatadas, e com isso, a criação de mapas temáticos de desmatamento.

Os resultados obtidos indicaram uma redução do desmatamento da região. Através da imagem Landsat 05 de 1985, detectou-se como resultado de desmatamento, uma área aproximada de 200 ha, além de uma área de 22,3 ha de vegetação que se encontrava em processo de regeneração.

No ano de 1993, após o período de 8 anos, foi observada regeneração da cobertura vegetal, com a área desmatada totalizando 115,5 ha e com vegetação em estado de regeneração numa área de 4,2 ha.

Na última avaliação da região, datada do ano de 2001, mantendo também 8 anos de intervalo da última avaliação, a área de desmatamento reduziu para 56,7 ha de desmatamento  enquanto a área em regeneração totalizou 7.3 ha.

Na criação de outros mapas temáticos foi necessário inserir e processar outros dados vetoriais no banco de dados, como as vias de circulação, o uso e a ocupação do solo, a altimetria e a hidrografia. Os dados altimétricos e hidrográficos, particularmente, foram essências nas montagens das cartas de Áreas de Preservação Permanente - APPs. Com a altimetria da área contendo os dados vetoriais em curvas de nível, pode-se desenvolver um modelo numérico do terreno - MNT. No SPRING um MNT é criado na forma de uma grade de pontos regulares e irregulares. A criação de um modelo numérico de terreno corresponde a uma nova maneira de enfocar o problema da elaboração e implantação de projetos. Obtêm-se visão em perspectiva, no caso, visualização em três dimensões, auxiliando na compreensão e interpretação das alterações no território.

A partir deste modelo, foi gerada uma grade que permite a análise da declividade para efeito de ocupação urbana, que de acordo com o estabelecido pela Lei Federal 6 766 é permitida abaixo de 30% ou 16,5º de declividade. Esta declividade acima de 30% ou 16,5º, define a geomorfologia da área com a indicação dos morros existentes possibilitando a identificação de seu terço superior, que se configuram como APPs de topo de morro. Os polígonos de delimitação foram vetorizados diretamente na tela. Também foram identificadas e mapeadas as APPs com declividade acima de 45º ou 100% e ainda as áreas de manejo sustentado com intervalo entre 25º a 45º de declividade, todas definidas em função da Lei 4771/65 do Código Florestal. Através desta delimitação, chegou-se a um mapa de declividade da área, e a determinação das APPs (Figura 01).


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Figura - 01 Mapa de declividade acima de 16,5º ou 30%, delimitando zonas de APPs Topo de morro.

 

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Figura 02 - Fatiamento dos rios, delimitando zonas de APPs referentes a faixa de 30m

 

Também foram geradas fatiamentos nos intervalos desejados e perspectivas tridimensionais. Isto foi feito, a partir dos dados hidrográficos, onde foram introduzidos os dados vetoriais da rede de drenagem e processados através das funções mapa de distância e fatiamento, obtendo-se as APPs referentes à faixa de 30m ao longo dos rios e 50m em torno das nascentes de acordo com o Código Florestal (Figura 02).

Após todo estas processos, observou-se claramente a transformação da paisagem, permitindo visualizar a regeneração da mata nativa, desmatamento de novas áreas e a evolução da ocupação desordenada do território. O cruzamento destes dados demonstrou através de cartas temáticas e cartas imagens, a forma da ocupação territorial e como ocupá-lo de acordo com as leis vigentes. O resulta final foi uma carta temática das possíveis áreas a se urbanizar (Figura 03).

 

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Figura 03 : Carta de Áreas Urbanizáveis na região da Costa Brava

 

A COMPREENSÃO DO TERRRITORIO TURISTICO DA COSTA BRAVA

No sistema urbano e turístico Costa Brava a rodovia Inter-praias, implantada em 1999, se apresenta como um elemento significativo deste sistema. A rodovia tem um papel de auxilio na dissipação territorial municipal e turística de Balneário Camboriú. A dissipação física se dá no aumento significativo de ocupação e diversificação dos usos do solo local. A região Costa Brava possui umas das localizações privilegiadas, que é favorecida pela rodovia, ligando Itapema à Balneário Camboriú, que se constitui em pólos turísticos desenvolvidos. Essa rodovia possibilita as conexões de fluxos de produção de espaço urbano entre os dois municípios, incluindo pessoas que residem no local e exercem atividades em outras regiões, ou pessoas vizinhas que exercem atividades na Costa Brava.

O turismo se dissipou a partir de uma venda da imagem da Costa Brava pelo município de Balneário Camboriú, marcado pelo turismo ecológico. A Costa Brava exerce a função de diversificação do produto turístico. Com esta observação, pode considerar que a matéria, sendo estruturas dissipativas em sistema aberto, é o território da região Costa Brava. Assim, entende-se que a Costa Brava pode ser considerado um sistema aberto que recebe constantemente fluxos de energia que influenciam em diversas áreas, funções e produções. Os fluxos influenciam na dissipação territorial da Costa Brava, possui laços interdependentes de realimentação. Estes laços se originam de diversos elementos internos ou externos e alteram significativamente o sistema. Desta forma, o turista, as intervenções do poder público, as construções em áreas ilegais ou legais são laços percebidos de acordo com a análise e objetivo desejado.

A forma consiste em um sistema auto-organizador. A região foi reorganizada, com a intervenção do poder publico ao construir a rodovia Interpraias (laços interdependentes de realimentação), que proporcionam alterações e uma nova organização cultural e espacial.

O processo, sistema de cognição ligado ao padrão de crescimento, teve forte influência do poder público, através da intervenção direta na ampliação dos acessos ao espaço, proporcionando o desenvolvimento de uma nova produção espacial. Com o aumento da implantação de fixos e fluxos, que se constituem em novos laços interdependentes de realimentação, formou-se um novo território.

O significado surge através de uma rede de conexões do espaço urbano; A paisagem da Costa Brava tornou-se um produto a ser vendido, tanto como uma imagem, quanto um produto de uso comum voltado ao lazer, isto é, a paisagem se torna o próprio produto destaque do turismo ecológico. Desta forma, se consolida a dissipação e o complexo turístico de Balneário Camboriú que vem a ser vendido no mercado como mais um dos produtos turísticos oferecidos ao turismo.

A questão do produto turismo está ligada diretamente com os elementos que compõem o espaço. Com esta percepção de turismo ligado ao espaço urbano, pode-se afirmar que, um ponto negativo para os residentes afeta também a imagem do produto turístico. Na área de estudo, por exemplo, pode-se perceber que saneamento básico na região Costa Brava, é quase inexistentes, acarretando em diversos problemas para o meio ecológico, que é o principal produto da Costa Brava.  A falta de infra-estrutura alimenta uma teia de problemas que afetam todo sistema. Diagnosticado pela Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina – FATMA, demonstrou que na região os níveis de coliformes fecais no lençol freático se encontram em índices elevados. A contaminação das praias torna-se um problema tanto para os turistas, quanto para os que residentes, pois não há água encanada na região. A água contaminada pode gerar outros problemas como o de saúde pública, que exigira ação direta dos agentes públicos, que terão de dar assistência médica à população, exigindo novos gastos para sanar a questão da saúde. As relações entre infra-estrutura urbana para os residentes e para os turistas, também se da em forma de redes, que por sua vez alteram o significado. Essas alterações indicam uma nova dinâmica espacial.

Demonstrou-se acima como pode ser afetadas a imagem de uma região com a Costa Brava, tendo suas praias contaminadas, impróprias ao banho de mar, traz prejuízos para os setores econômicos, alimentados pelo turismo. Em conseqüência, tais situações geram aumento nos índices de desemprego, acarretando diversos outros problemas sociais para a região.

Ainda, apresentando situações levantadas na pesquisa, o aumento da criminalidade local foi também um item indicado pela população como um problema que precisa ser enfrentado urgentemente. A falta de um posto policial, em funcionamento somente na alta temporada, demonstra uma preocupação com a imagem da região para o turista exemplifica uma visão simplista de resolver o problema. O problema com o saneamento básico reforça a percepção da população residente de que as intervenções do poder público ocorrem em benefícios do turismo, apenas em épocas que a demanda turística aumenta, questões de exclusão social.

Por outro lado, situações como a falta de salva vidas nas praias que causam insegurança aos usuários como os equipamentos para as diversões turísticas, comprometem a percepção positiva da praia pelos turistas. Ainda em relação à imagem positiva da região, os equipamentos, como o teleférico, também são utilizados na propaganda da venda do produto Costa Brava. Este equipamento faz a ligação entre a Barra Sul e a praia de Laranjeiras, e mantém um grande número de restaurantes, empregando moradores da região.

Um sistema de produção e dissipação territorial em que as relações de produção  turística com o espaço urbano fomentam a rede produção espacial. Interesses surgem por parte dos moradores, empresários e turistas, na implementação de uma melhor qualidade de territorial, tornando-se mútuo a partir de intervenções que beneficiem a qualidade de vida no ambiente. Um estudo de relações em que se pode direcionar um planejamento ou ordenamento do território.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Beaujeu-Garnier (1980) afirma que o ambiente urbano é espaço produzido, resultado a relação do meio físico com a ação humana, participando do surgimento ao desenvolvimento dos espaços, oferecendo um quadro permanentemente dinâmico. Neste ambiente, o sistema urbano capta suas entradas e para ele envia suas saídas. Esta compreensão dinâmica do urbano pode ser complementada com Santos (1996) quando discuti os fixos e os fluxos, e por Capra (2002) na visão de processo, forma, matéria e significado das questões sociais.

Desta forma, entende-se que a intervenção do homem no espaço é tão marcante e bela quanto destruidora. Cuidados devem ser tomados com as implantações e ampliações de novas áreas. Analise interdisciplinar do território é uma forma de compreender e construir um espaço significativamente harmonioso com as relações e inter-relações que compõe o espaço urbano.

O planejamento territorial preventivo é necessário, para a busca de um desenvolvimento regional sustentável. As inovações urbanas contribuem para dissipação, crescimento e novas dinâmicas para o sistema. No entanto, as inovações devem sempre estar seguido de um planejamento preventivo, pois a prevenção também pode ser compreendida como ação para desenvolvimento. Para a região da Costa Brava, por exemplo, é necessário que se implemente um planejamento para melhoria das condições ambientais, relacionadas com a poluição dos rios, lençol freático, mar, dos conceitos sociais referente a empregabilidade e habitabilidade e das condições econômicas como a melhoria da qualidade de vida da população. Este será um ponto importante para o desenvolvimento do espaço, tanto para o desenvolvimento local sustentável, quanto para o desenvolvimento do turismo.

Em suma, a análise do problema urbano sob a visão sistêmica, torna-se uma teia de coisas, que se estende não apenas a escala municipal, mas se dissipa em escalas estadual e nacional. A aplicabilidade desta visão do todo, pode ser percebida a partir de um sistema local, em pequena escala, que tende a se conectar a outros sistemas que poderão nos mostrar o todo, e conseqüentemente, auxiliará na resolução dos macros problemas urbanos, garantindo um desenvolvimento local.

 

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