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E3-3.3T007

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

Análise Geomorfológica no Estudo das Alterações Ambientais Urbanas: Morfogênese do Relevo na Bacia hidrográfica da Barragem  Mãe d'água - rs

 

 

Nina Simone Vilaverde Moura-Fujimoto nina.fujimoto@ufrgs.br
 

 

 

Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Palavras-chave: morfogênese, ambiente urbano, alterações ambientais.
Eixo 3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental



 

1.Introdução

 

Este trabalho consiste em uma análise ambiental urbana que busca apreender os efeitos e respostas do ambiente decorrentes do processo de urbanização. A análise ambiental urbana em um contexto mais amplo engloba várias etapas: o conhecimento do histórico da área, seu desenvolvimento, a dinâmica da natureza e da sociedade.

O presente trabalho tem como objetivo principal analisar as alterações ambientais decorrentes da urbanização através da leitura geomorfológica em uma sub-bacia pertencente a bacia hidrográfica do Arroio Dilúvio situada na Região Metropolitana de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul (Figura 1). Para tanto, fez-se necessário conhecer e dimensionar as alterações nas formas de relevo, nos processos morfogenéticos e nos materiais de cobertura superficial decorrentes das intervenções urbanas.

A análise geomorfológica consiste na identificação e mapeamento dos compartimentos de relevo determinados por fatores naturais, originado por processos climáticos passados e atuais, quando a morfologia encontrava-se praticamente em situação original. As formas de relevo criadas ou induzidas pela atividade humana foram reconhecidas no período em que passa a ser significativa as intervenções urbanas na área de estudo. Neste sentido, a avaliação geomorfológica inclui em sua análise uma abordagem histórica das formas de relevo, do material de cobertura superficial e dos processos geomorfológicos, pois revelam as dimensões das alterações ambientais no espaço urbano.

2. Procedimentos Metodológicos e Operacionais

Para realizar este estudo fez-se necessário uma revisão bibliográfica sobre a evolução geológica da área do contexto regional; uma análise geomorfológica e uma caracterização, coletas e testemunhagens de materiais de cobertura superficial para posterior análise em laboratório (FUJIMOTO, 2001).

A análise da evolução geológica esteve centrada em compreender os grandes eventos evolutivos regionais e suas conseqüências nas características litológicas e estruturais na área de estudo. A análise geomorfológica consiste na identificação e mapeamento das formas de relevo, baseado no aspecto fisionômico das formas de relevo, no seu significado morfogenético e nas influências estruturais e esculturais (ROSS, 1992). As formas de relevo decorrentes das intervenções urbanas foram classificadas em formas criadas ou construídas pelas atividades humanas e em formas induzidas pelas atividades humanas, baseada em LIMA (1983) e DOUGLAS (1990). Essa novas formas de relevo em áreas urbanas são formas de processos atuais geradas através da acumulação de detritos urbanos ou da remoção de materiais, ou ainda, envolvem os processos de extração e de deposição simultaneamente.

A caracterização do material de cobertura superficial foi realizada a partir da caracterização do manto de alteração (sondagens realizados Departamento Nacional de Obras e Saneamento -DNOS por ocasião da construção da Barragem Mãe d’Água no ano de 1957), das análises de testemunhos e do material coletado em campo em áreas predeterminadas, obtendo-se valores de granulometria, umidade do solo, limite de liquidez, limite de plasticidade, índice de plasticidade e índice de consistência. Também foram feitas medições em campo com o aparelho denominado Penetrômetro de Bolso, que serve para medir a resistência à penetração do solo.

 

3. Caracterização Geológica e Geomorfológica

 

Em termos regionais, a área de estudo situa-se no atual Planalto Uruguaio Sul-Rio-Grandense, representados por morros e colinas que formam uma faixa alongada de direção NE-SW predominantemente. Esses morros e colinas são formados por rochas graníticas geradas durante estágios de evolução de um cinturão orogênico, conhecido como Cinturão Dom Feliciano que reflete a atividade do Ciclo Brasiliano no sul do Brasil. O granito Viamão e o granito Santana são os tipos de rochas graníticas, geradas durante a formação do cinturão, que sustentam as formas de relevo da área de estudo, segundo PHILIP (1998).

O Granito Viamão está representado na área de estudo por um relevo em padrões de colinas com vales entalhados. Apresenta uma série de características, sobretudo texturais e estruturais, as quais condicionaram a formação do relevo e caracterizam este granito como um rocha com grandes facilidades para a percolação de águas e, consequentemente, propício à intensificação dos processos de intemperismo e de entalhamento fluvial.

O Granito Santana constitui o padrão em morros na área de estudo e possui uma forma alongada de direção NE-SW, sendo controlado por uma zona de cisalhamento dúctil de direção NE-SW. Sendo este granito mais novo que o Granito Viamão, sofreu menos todas as tensões tectônicas que caracterizam a formação do cinturão orogênico.

O Planalto Uruguaio Sul-Rio-Grandense destaca-se pelos caracteres tectônicos e litológicos de sua formação e por seus diferentes graus de dissecação. Na área de estudo, o Planalto está representado por Unidades Morfológicas ou Padrões de Formas Semelhantes representados que são:

A). Padrão de Formas em Morros com Topos Convexos: esse padrão é formado por morros de topos estreitos convexizados e vertentes com segmentos predominantemente retilíneos e elementos côncavos com declividades médias entre 30-40% e 20-30%, respectivamente. As altitudes vão desde 80-100m em média até o ponto máximo cotado em 293m. O Padrão em Morros é constituído por sedimentos procedentes dos granitos, em geral alterados com pequena cobertura de material arenoso, transicionando para um material tipicamente saibroso.

No Padrão de Formas em Morros observam-se cicatrizes de mineração que apresentam a rocha exposta e rupturas de declive por corte na rocha e, superfícies planas criadas pela ocupação urbana através do uso essencialmente residencial. Essas superfícies planas são criadas por remanejamento dos materiais superficiais, limitadas ou não por degraus de cortes, por rupturas de declive e por rampas de aterros.

As alterações antrópicas sobre as formas de relevo proporcionam, em linhas gerais, uma diminuição do escoamento superficial difuso, do escoamento subsuperficial e da infiltração e, intensificação do escoamento superficial concentrado. O material remanejado pelas alterações antrópicas é transportado, de forma intensa, para outras unidades de vertentes até atingir o fundo dos vales.

B). Padrão de Formas em Colinas de Topos Convexos e Colinas de Topos Planos e Amplos: esse padrão é formado por um conjunto de colinas de topos convexizados e topos planos e amplos com vales bem fechados (em V) com altitudes médias predominantes entre 50-80m e declividades médias nas classes de 10-20% e 20-30%. As unidades de vertentes representadas pelas colinas demonstram uma variedade de formas geométricas, de altitudes e declividades. As unidades identificadas são: retilíneas, côncavas e convexas. É constituído por sedimentos procedentes dos granitos, muito alterado, representado por um material tipicamente saibroso.

Em praticamente todo o Padrão de Formas em Colinas encontram-se superfícies planas criadas pela ocupação urbana através das moradias e do sistema viário. As superfícies planas são limitadas ou não por degraus de cortes, por rupturas de declive e por rampas de aterros. Ocorre a instalação de pequenos sulcos erosivos no arruamento após eventos chuvosos, principalmente quando o arruamento acompanha o declive da vertente. As mudanças na geometria das vertentes provocam alterações na disposição dos materiais superficiais, expondo-os aos impactos da chuva. O material remanejado é posteriormente transportado para outras unidades de vertente atingindo o fundo dos vales.

Os fundos de vale podem ser abertos ou fechados (em V) e ocupam as áreas marginais aos arroios e algumas nascentes, com pouco desenvolvimento lateral e muito longitudinalmente. O material superficial é predominantemente arenoso. Existe a ocorrência de material grosseiro proveniente das vertentes, cujas características o identificam como material tecnogênico. São sedimentos grosseiros com presença de cascalhos, vidros, plásticos, tecidos, borrachas, entre outros.

Os cortes, os aterros, as canalizações de águas que surgem em ambientes urbanos redirecionam os fluxos hídricos existentes e criam novos padrões de drenagem. Essas alterações proporcionam, por um lado, uma diminuição do escoamento superficial difuso, do escoamento subsuperficial e da infiltração e, por outro, uma intensificação do escoamento superficial, pois não permitem a infiltração da água no solo e criam verdadeiros leitos pluviais nas ruas durante eventos chuvosos.

C). Padrão em Formas de Áreas Planas: esse padrão compreende uma série de áreas planas perfeitamente individualizadas e dispostas, predominantemente, ao longo dos cursos d’água com altitudes médias predominantes entre 55m a 65m com declividades muito baixas. A configuração marcante é apresentar áreas planas em forma de alvéolos dispostos nos setores alto, médio e baixo dos cursos d’água. Os alvéolos caracterizam-se por apresentarem formas alongadas, sendo que secundariamente possuem forma semi-circular. É constituído predominantemente de sedimentos areno-síltico-argilosos decorrentes das influências dos processos por movimentos de massa e fluviais na sua formação.

O Padrão em Formas de Áreas Plana são setores que possuem tendência à infiltração d’água e espessamento do solo. No entanto a ocupação destas formas ocorre através de pequenos cortes e/ou aterros na morfologia original, da impermeabilização decorrente da compactação, da edificação e da pavimentação das superfícies, acentuando-se o escoamento superficial, pois a impermeabilização não permite a infiltração da água no solo.

Em geral as margens dos cursos d’água que entalham os alvéolos planos encontram-se sem cobertura vegetal e com alterações em sua morfologia original em função das intervenções por moradias. Nesse caso, surgem processos erosivos por solapamento nas margens dos cursos d’água e bancos de deposição de material tecnogênico nas áreas mais baixas no fundo dos vales, onde observa-se a instalação de moradias sobre os depósitos tecnogênicos.

Em muitas formas de relevo em áreas planas, as intervenções antrópicas estão relacionadas às implantações de aterros e às construções de canalizações e/ou valas, pois a área encontra-se associada a períodos de inundação e situa-se dentro do nível de água máximo, onde o lençol freático é praticamente aflorante. O processo de ocupação altera o nível do terreno, elevando acima do nível natural das inundações, e modifica o fluxo hídrico através da construção das canalizações e/ou valas para a drenagem das águas acumuladas.

D). Padrão em Formas de Planícies Tecnogênicas: esse padrão estende-se ao longo do arroio Mãe d’Água com altitudes inferiores a 50m e forma uma extensa área plana representada por uma bacia de inundação ao longo do referido arroio, onde foi construída a barragem Mãe D’Água. No Padrão em Formas de Planícies a ação antrópica alterou a dinâmica geomorfológica a partir da construção da barragem em 1957 e, posteriormente, pelo aumento da ocupação urbana.

Após a construção da referida barragem, duas novas formas de relevo, distintas na sua formação, passam a compor praticamente todo o padrão em planície, são elas: Formas em Planície Flúvio-Lacustre Tecnogênica e Forma em Planície Fluvial Tecnogênica.

As Planícies Tecnogênicas ocupam uma ampla área plana ao redor do lago da Barragem Mãe d’Água, formada por um intenso processo de colmatação e se estendem ao longo do arroio no qual foi construída a barragem Mãe d’Água, proporcionando uma elevação no nível topográfico. A deposição de sedimentos é resultado, em um primeiro momento, da sedimentação lagunar e fluvial, e, mais recentemente, de sedimentos provenientes das vertentes transportados pelos processos fluviais. Esses materiais geralmente estão relacionados aos episódios chuvosos mais críticos, compreendendo materiais grosseiros, geralmente associados ou provenientes das atividades antrópicas, como cascalhos e pequenos seixos, tijolos, plásticos, papéis e vidros, ou seja, reconhecido como depósito tecnogênico.

Nas formas em Planícies ocorre a formação de cone de dejeção tecnogênico. Esse cone encontra-se localizados junto aos arroios no instante em que estes deságuam no compartimento de planície, proporcionando um aumento no nível topográfico. Esses cones indicam o grande aporte de material proveniente das vertentes por atuação dos processos fluviais.

 

3.1. Formas dos Processos Atuais ou Morfologia Antropogênica

 

Na área de estudo foram observadas várias intervenções antrópicas sobre as formas de relevo. O primeiro nível de intervenção está na esfera da cobertura vegetal e uso da terra, através da retirada da cobertura vegetal. O segundo nível de intervenção ocorre através da criação de nova morfologia, ligada à mineração e ao meio urbano. Nesta fase são elaborados grandes cortes e/ou aterros no terreno para a instalação do sistema viário e posterior instalação das construções. Durante a instalação das construções, os materiais superficiais são modificados através de uma nova distribuição, de uma nova estruturação dos depósitos e de uma modificação na resistência dos agregados.

De acordo com PELOGGIA (1998), a ação humana sobre a natureza tem conseqüências em três níveis: na modificação do relevo, na alteração da dinâmica geomorfológica e na criação de depósitos correlativos comparáveis aos quaternários (os depósitos tecnogênicos) devido a um conjunto de ações denominada tecnogênese.

As modificações no relevo proporcionam o surgimento de formas de relevo tecnogênicas decorrentes de processos criados ou induzidos pela atividade humana que correspondem essencialmente ao sexto taxon, segundo a classificação proposta por ROSS (1992). Esse taxon engloba as formas menores produzidas pelos processos morfogenéticos atuais e quase sempre induzido pela ação humana como os sulcos erosivos, os cones de dejeção tecnogênicos e as cicatrizes de solapamento; ou as pequenas formas do relevo que se desenvolvem por interferência antrópica ao longo das vertentes como os cortes e os aterros. No entanto é possível verificar as conseqüências da ação humana no quarto taxon, isto é, nas formas de relevo individualizadas dentro de uma unidade morfológica ou padrão de forma semelhante. Este é o caso das Formas em Planícies Flúvio-Lacustres Tecnogênicas e das Formas em Planícies Fluviais Tecnogênicas inseridas no Padrão de Formas em Planícies.

A modificação do relevo promove a criação, indução, intensificação ou modificação do comportamento nos processos geomorfológicos (PELOGGIA, 1998). De acordo com a tipologia e o estágio de alteração, pode-se descrever algumas atividades antrópicas que geram novos padrões de comportamento morfodinâmico:

1. A eliminação da cobertura vegetal e as modificações através de cortes e/ou aterros elaborados para a execução dos arruamentos e moradias acabam por modificar a geometria das vertentes, aumentando a declividade e expondo o material anteriormente protegido da ação direta dos agentes climáticos.

2. Os arruamentos, mesmo respeitando a topografia, acabam cortando e direcionando os fluxos hídricos, gerando padrões de drenagem não existentes. As ruas transformam-se em verdadeiros leitos pluviais durante os eventos chuvosos, canalizando e direcionando os fluxos para setores que anteriormente possuíam um sistema de drenagem diferente.

3. A impermeabilização modifica o fluxo da água, tanto na superfície como em profundidade. As superfícies impermeabilizadas não permitem a infiltração da água no solo, assim como a circulação de ar e água.

4. As canalizações de águas pluviais existentes nas moradias acabam por mudar a direção do fluxo natural das águas das chuvas ou das águas servidas. Ao mesmo tempo, as canalizações diminuem o escoamento superficial difuso, deixando dessa forma de transportar parte dos materiais localizados abaixo da canalização e redirecionando os materiais coletados acima das canalizações.

5. Os aterros recobrem a vegetação original e os materiais de cobertura superficial de formação natural, criando áreas de descontinuidades entre materiais heterogêneos, além de elevarem altimetricamente a superfície original, alterando sua declividade.

A criação de depósitos correlativos representados pelos depósitos tecnogênicos representam o terceiro nível de conseqüências da ação humana sobre o meio natural. Esses depósitos representam um ciclo de erosividades sobre massa erodível, e cujos sedimentos são depositados representando as condições hidrológicas do transporte e da área fonte(ABSABER, 1990 in: PELOGGIA, 1998). Os depósitos tecnogênicos são correlativos aos processos relacionados às formas humanas de apropriação do relevo, e sua época de existência caracteriza um tempo geológico.

Segundo OLIVEIRA (1994) Quinário ou Tecnógeno é o período em que a atividade humana passa a ser qualitativamente diferenciada da atividade biológica na modelagem da Biosfera, desencadeando processos (tecnogênicos) cujas intensidades superam em muito os processos naturais. Para que se identifique o estabelecimento do período Quinário ou Tecnogênico é necessário o reconhecimento do momento em que ocorre a intensificação dos processos erosivos e a formação dos depósitos tecnogênicos correlativos.

O fato marcante que identifica o estabelecimento do Quinário ou Tecnógeno na área de estudo é o aumento populacional através do processo migratório na região metropolitana de Porto Alegre, nas décadas de 70 e 80, provocando uma aceleração no processo de urbanização. A ocupação muitas vezes desordenada rompe a dinâmica geomorfológica natural e passa a intensificar os processos erosivos e deposicionais.

 

4. Análise Morfogenética da Área de Estudo e seu Entorno

 

Na análise morfogenética da área de estudo é necessário identificar as feições morfológicas e elucidar os processos geomorfológicos responsáveis pela sua gênese, tentando estabelecer uma morfocronologia relativa. Para ser entendida a geração do relevo na área de estudo, é preciso buscar explicações na tectônica antiga que gerou os dois tipos de rochas graníticas que sustentam os padrões de formas de relevo e nos processos geomorfológicos que definiram a evolução do relevo. Nesse sentido, para um adequado entendimento dos processos geradores do relevo, é necessário estender-se além dos limites da área de estudo, a fim de avaliar outros elementos do quadro geomorfológico regional.

Os padrões de relevo que compõem a sub-bacia hidrográfica pertencem ao Planalto Uruguaio Sul-riograndense que é formado por rochas graníticas geradas durante estágios evolutivos do Cinturão Dom Feliciano. O Granito Viamão e o Granito Santana são os dois tipos de rochas graníticas, geradas durante a formação do cinturão, que sustentam as formas de relevo na área de estudo.

O Granito Viamão está representado na área de estudo por um relevo em padrões de colinas com vales entalhados. Este granito formou-se após a segunda colisão continental, durante a evolução final do Cinturão Dom Feliciano, que foi marcado pelo desenvolvimento de grandes falhas transcorrentes por volta de 650 milhões de anos atrás. O Granito Viamão apresenta uma série de características, sobretudo texturais e estruturais, as quais condicionaram a formação do relevo. A textura porfirítica, as estruturas fortemente foliadas, as zonas de cisalhamento dúcteis caracterizadas por faixas miloníticas, as zonas de cisalhamento rúpteis e ainda os freqüentes enclaves caracterizam este granito como um rocha com grandes facilidades para a percolação de águas e, conseqüentemente, propício à intensificação dos processos de intemperismo e de entalhamento fluvial.

Nesse sentido, pode-se compreender a diferenciação entre as formas de relevo com altitudes e declividades moderadas sob um manto de alteração extremamente profundo encontradas no Granito Viamão e as formas de relevo com altitudes e declividades elevadas sob um manto de alteração pouco desenvolvido encontradas no Granito Santana.

O Granito Santana foi formado após o desenvolvimento de grandes falhas transcorrentes que proporcionaram a formação do Granito Viamão. Esse granito formou-se quando passaram a predominar os esforços extensionais, originando novas falhas e reativando as antigas e, durante essa reativação, alojaram-se ao longo das suturas magmas graníticos mais novos, como o Granito Santana, a cerca de 550 milhões de anos atrás. Esse corpo granítico constitui o padrão em morros na área de estudo e possui uma forma alongada de direção NE-SW, sendo controlado por uma zona de cisalhamento dúctil de direção NE-SW. Sendo este granito mais novo que o Granito Viamão, sofreu menos todas as tensões tectônicas que caracterizam a formação do cinturão orogênico. No geral, o Granito Santana apresenta uma foliação tectônica com pouca intensidade de deformação e com disposição subparalela à foliação magmática.

O Granito Santana apresenta-se com um textura mais homogênea e uma foliação tectônica de pouca intensidade. Somente nos bordos, em contato com o Granito Viamão, a foliação é mais forte chegando a apresentar rochas miloníticas. Nesse contato, observa-se uma semelhança nas formas de relevo e nas características do material de cobertura superficial, pois as baixas vertentes dos morros interdigitam com o padrão de colinas adjacente. Por vezes a delimitação entre os padrões de morros e de colinas tornou-se de difícil definição. Isso demonstra que os processos que atuaram na formação do relevo encontraram condições litológicas parecidas, resultando em um quadro morfológico muito semelhante.

O Padrão em Formas de Morros com topos convexos e vertentes com segmentos predominantemente retilíneos e elementos côncavos possui solos extremamente rasos com freqüentes afloramentos rochosos e campos de matacões. Isso ocorre devido à existência de uma estrutura físico-química de desagregação e decomposição desenvolvendo formas esferoidais nos matacões e nos afloramentos rochosos. Estas evidências podem refletir as característica do Granito Santana, pois, sendo essa uma rocha mais homogênea oferece menor densidade de linhas de fraqueza para o ataque químico da água. Desse modo, segundo ROSS (1998), a ação da água se faz através das fraturas verticais e horizontais que ocorrem na massa da rocha que está mais próxima da superfície, e a variação na densidade de fraturas define a concentração de matacões expostos na superfície, pois tratam-se de resíduos das atividades morfogenéticas de ambiente climáticos úmidos, onde prevalece os processos esculturais de natureza química promovidos pelas águas. Nas áreas mais fraturadas, localizadas nas bordas dos morros, observa-se maior ação dos processos de intemperismo, proporcionando um manto de alteração mais profundo e formas de relevo mais baixas.

A formação dos elementos côncavos nos morros está relacionada à instalação da rede de drenagem a partir de condicionantes lito-estruturais e morfológicos da massa granítica, retrabalhando os sedimentos e propiciando uma configuração em anfiteatro para esses setores. A deposição inicial do material dedrítico deve ter sido decorrente de processos gravitacionais de transporte de material sob condições de clima mais seco, conforme descreve BIGARELLA & ANDRADE (1964) apud JOST (1971). Contudo formas com elementos côncavos associadas a ambientes climáticos úmidos favorecem à concentração de umidade e, conseqüentemente, aceleram os processos pedogenéticos, alterando os sedimentos depositados sob condições climáticas pretéritas. Nesse sentido, os processos dominantes atualmente nesses compartimentos de relevo estão associados à infiltração d’água, escoamento concentrado, intemperismo químico e pedogênese.

A rede de drenagem está condicionada às linhas de fraqueza que dominam as massas graníticas. Os topos planos e convexos do Padrão em Formas de Colinas estão dispostos paralelamente e sugerem uma continuidade, configurando-se como grandes patamares elevados com altitudes médias semelhantes, entre 70-80m. Os vales entalharam a partir dos condicionantes estruturais deixando remanescentes de uma antiga superfície, representada pelos interflúvios.

O Padrão em Formas de Áreas Planas está representado por formas em alvéolos que ocorrem em praticamente todos os canais fluviais e estão distribuídos nos setores de alto, médio e baixo curso relacionados às zonas de cisalhamento frágeis de direção NE-SW e de direção NO-SE, basicamente quando ocorre a confluência das mesmas. Os alvéolos caracterizam-se por apresentarem formas alongadas, concordantes com as direções de fraqueza, sendo que secundariamente possuem forma semicircular.

Os alvéolos surgem nas confluências fluviais que coincidem com as confluências de fraqueza tectônica da rocha granítica. Estes locais contribuem para a formação desses alvéolos a partir de um alargamento do vales por questões estruturais e, posteriormente pela deposição de sedimentos coluvionares e aluvionares provenientes das vertentes a montante do alargamento do vale, até o ponto de estrangulamento a jusante e ainda, possivelmente, por uma alteração química de maior intensidade em função de ser uma zona de maior fraqueza.

O entalhamento fluvial representado pelo Padrão em Forma de Planícies segue a orientação tectônica preferencial das rochas graníticas representadas na área. Esse padrão estende-se ao longo do arroio Mãe d’Água e forma uma extensa área plana representada por uma bacia de inundação ao longo do referido arroio, onde foi construída a barragem Mãe d’Água. Essa bacia de acumulação representa o ponto terminal da sub-bacia hidrográfica em estudo, a qual se ligará com a bacia hidrográfica do arroio Dilúvio.

Os sedimentos da bacia de acumulação são predominantemente de granulação fina (silte e argila) provenientes de carga suspensa em períodos de transbordamento, estando intercalados por depósitos mais grosseiros, típicos de eventos pluviométricos mais intensos. A deposição em planícies de inundação ou em bacias de inundação ocorre em ambiente de energia muito baixa, e, em geral, as taxas de sedimentação também são baixas, segundo SUGUIO & BIGARELLA (1990).

A construção da Barragem Mãe d’Água em 1963 e, posteriormente, o aumento da ocupação urbana nas décadas de 70 e 80 na sub-bacia hidrográfica proporcionaram uma transformação nos processos de deposição junto à bacia de inundação, cuja intensidade de deposição passa a superar em muito a dos processos naturais.

A deposição acelerada promove um intenso processo de colmatação junto ao lago da barragem e um aumento no nível topográfico da planície. O material depositado é tipicamente tecnogênico, sendo constituído de detritos urbanos juntamente com um material terroso. Esse material é resultante de um intenso processo de ocupação, onde os cortes e /ou aterros para a construção de superfícies planas para a edificação promovem o remanejamento dos materiais das vertentes, sendo transportado por processos fluviais ao longo das unidades de vertentes, até atingir os fundos dos vales por ocasião, principalmente, dos eventos chuvosos.

As modificações no relevo proporcionaram o surgimento de novas formas de relevo criadas ou induzidas pelas atividades humanas de dimensões variadas; alteraram a dinâmica geomorfológica e criaram os depósitos tecnogênicos. Os depósitos tecnogênicos são correlativos aos processos relacionados às formas humanas de apropriação do relevo, e sua época de existência caracteriza um tempo geológico reconhecido como Quinário ou Tecnógeno (OLIVEIRA, 1990).

Por fim, entende-se que a análise morfogenética da sub-bacia hidrográfica considera fatos indicadores para uma interpretação da morfogênese da área de estudo. São fatos que possibilitam traçar uma seqüência morfocronológica, porém sem que se tenha clareza da importância de atuação de cada processo morfogenético na esculturação das formas de relevo. Todos as questões levantadas merecem consideração e uma avaliação futura mais detalhada.

 

5. Considerações Finais

 

Com base no trabalho desenvolvido entende-se que a análise geomorfológica concebida permitiu aprender alguns dos principais efeitos e respostas do ambiente decorrentes do processo de urbanização na área de estudo. A ação antropogenética vem alterando a dinâmica natural da área de estudo, contribuindo na intensificação dos processos de vertentes, dos fluviais, de escoamento concentrado e de assoreamento.

Com isso, pode-se afirmar que, em linhas gerais, as alterações ambientais na área de estudo correspondem basicamente a modificações muito significativas na morfologia original e na dinâmica dos processos geomorfológicos, de forma a intensificar suas potencialidades naturais. Porém não trouxe a essa bacia hidrográfica quadros severos de degradação ambiental associados a riscos de natureza geológica, geomorfológica e hidrológica que coloquem em risco a vida da população. No entanto a intensificação dos processos de erosão e deposição provocaram a criação de novas formas de relevo associadas aos depósitos tecnogênicos. Esses fatos, associados aos ambientes de ocupação inadequada, promovem o surgimento de áreas com elevado comprometimento da qualidade ambiental.

Para esse estudo geomorfológico fez-se necessário o reconhecimento tanto quanto possível de três diferentes fases que são: (1) antes da expansão urbana; (2) imediatamente antes e durante os processos que impulsionaram a ocupação urbana (3) depois do crescimento urbano. O reconhecimento das condições ambientais onde predominam os processos naturais originais e, em seguida, a identificação histórica do momento de ruptura das direções processuais naturais foram fundamentais para avaliar o grau de alteração dos processos antrópicos em relação aos processos originais. Para tanto, foi necessária a recuperação de informações sobre as características naturais das formas, processos e materiais para correlacioná-las às informações obtidas sobre as interferências humanas diretas e derivadas, incluindo os materiais tecnogênicos.

 

6. Agradecimentos

 

Este trabalho teve o apoio do CNPq e do PICDT/CAPES, como parte da Tese de Doutoramento da autora. Ao Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do sul, pelo apoio na concretização deste projeto.

 

 

7. Referências Bibliográficas:

 

DOUGLAS, I. (1983) The Urban Environment. London, Edward Arnold, 229 p.

 

FUJIMOTO, N.S.V.M. (2001) Análise Ambiental Urbana na Área Metropolitana de Porto Alegre-Rs: Sub-bacia Hidrográfica do Arroio Dilúvio. São Paulo: Tese de Doutoramento. Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e CiênciasHumanas, Universidade de São Paulo, 235p.

 

JOST, H. (1971) O Quaternário da Planície Costeira do Rio Grande do Sul I – Região Norte. São Paulo: Anais do XXV Congresso Brasileiro de Geologia (vol.1), 53-62 p.

 

LIMA, C. R. de (1990) Urbanização e Intervenções no Meio Físico na Borda da Bacia Sedimentar de São Paulo: uma abordagem geomorfológica. Dissertação de Mestrado, Departamento de Geografia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 70p.

 

OLIVEIRA, A.M. S. (1994) Depósitos Tecnogênicos e Assoreamento de Reservatórios. Exemplos do Reservatório de Capivara, Rio Paranapanema, SP/RJ. Tese de Doutoramento, Departamento de Geografia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (vol. 1), 211 p.

 

PELOGGIA, A. (1998) O Homem e o Ambiente Geológico: geologia, sociedade e ocupação urbana no Município de São Paulo. São Paulo: Editora Xamã, 271 p.

 

PHILIP, R.P. (1998) A Evolução Geológica e Tectônica do Batólito Pelotas, RS. Tese de Doutorado. Instituto de Geociências, Universidade de São Paulo, 371 p.

 

ROSS, J.L.S. (1998) Superfícies de Erosão ou Erosão Química nos Processos de Esculturação dos Planaltos do Leste Paulista. Florianópolis: GEOSUL (14)27, 688-691 p.

 

ROSS, J.L.S.(1992) O Registro Cartográfico dos Fatos Geomorfológicos e a Questão da Taxonomia do Relevo. Revista do Departamento de Geografia 6, FFLCH/USP, São Paulo, 17-29 p.

 

SUGUIO, K. & BIGARELLA, J.J. (1990) Ambientes Fluviais. Florianópolis: Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, 183 p.