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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

ESTUDO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS CAUSADOS PELO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO NO BAIRRO BELVEDERE III

BELO HORIZONTE - MG

 

 

S. J. M. MOREIRA simiranda@aol.com;
 A. G. GUIMARÃES;
A. D. DINIZ.

 

Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH
Departamento de Ciências Biológicas, Ambientais e da Saúde
Curso de Geografia e Análise Ambiental – MG.

 


 

Palavras-chave: Expansão urbana; impacto ambiental; urbanização.

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Gestão e Planejamento Ambiental





 

1.0.  INTRODUÇÃO

 

Ao longo dos anos o ser humano vem transformando o espaço natural na busca pela satisfação das suas necessidades, bem como para lhe garantir uma melhor qualidade de vida. Analisando o contexto histórico de desenvolvimento das cidades, percebe-se que à medida que o homem desenvolvia suas atividades, configuravam-se os centros urbanos, que supriam a demanda por serviços da população. Seguindo as tendências econômicas da globalização, o processo industrial impulsionou uma rápida expansão urbana nas cidades, resultando num processo de ocupação, muitas vezes, desordenado. Essas ações resultaram numa intensa degradação do meio ambiente urbano e o surgimento de vários problemas ambientais nas cidades como a contaminação dos recursos hídricos e do solo, erosão acelerada, movimentos de massa, assoreamento de rios e córregos e a degradação da vegetação.

A expansão urbana, principalmente nos grandes centros urbanos, passa a ser um fator impactante ao meio, visto que, na maioria das vezes, o crescimento desordenado das cidades foge aos planejamentos dos órgãos competentes tornando áreas impróprias para ocupação em áreas construídas. Como exemplo disso pode-se citar a ocupação de algumas encostas e regiões tombadas pelo patrimônio histórico, natural e cultural.

Em Belo Horizonte pode-se observar que a ocupação no entorno da Serra do Curral, considerada como cartão postal da cidade, cresce em ritmo acelerado. A especulação imobiliária chega em áreas anteriormente destinadas ao tombamento histórico como, por exemplo, o bairro Belvedere III, localizado na região Centro-Sul. Cada vez mais edificações são construídas neste bairro e, além das grandes moradias, outras construções surgiram para atender à demanda da comunidade como centros comerciais (BH Shopping), clínicas médicas, hospitais e faculdades.

Analisando o processo de urbanização de Belo Horizonte verifica-se que a gestão pública da cidade pendeu muito mais para o desenvolvimento econômico e a modernização do que para a preservação e conservação do seu patrimônio natural e cultural. O loteamento do bairro Belvedere III teve sua aprovação alheia à legislação urbanística do município. Por ser uma área de grande importância para o meio ambiente da RMBH, o parcelamento do solo aprovado encontra-se irregular, no qual previa o uso somente para residência unifamiliares, e que, deliberadamente, seguiu a um modelo de ocupação vertical, atendendo única e exclusivamente aos interesses meramente econômicos e especulativos. 

Além do impacto visual causado na paisagem no entorno da Serra do Curral, outro fato que merece atenção é a impermeabilização do solo, numa região cuja ocupação se deu, justamente, na faixa de ocorrência de um dos principais domínios hidrogeológicos de Belo Horizonte e que condicionalmente afetará a contribuição de aqüíferos que abastecem bacias como a do Córrego Cercadinho, importante manancial de abastecimento para a cidade.

Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar o aumento e a direção da mancha urbana no bairro Belvedere III, bem como levantar os possíveis impactos ambientais e as alterações causadas pelo uso e ocupação do solo na região.

 

2.0. ABORDAGEM METODOLÓGICA

2.1 – ÁREA DE ESTUDO:

 

A área estudada localiza-se na região centro-sul de Belo Horizonte-MG. Está situada na base da Serra do Curral, dista cerca de 5 Km do centro da capital, e faz fronteira com o município de Nova Lima. As principais vias de acesso se dão pela Av. Raja Gabaglia, Av. Nossa Senhora do Carmo ou pela Br-040 (sentido BH/RJ) e ainda pela rodovia que liga Nova Lima a Belo Horizonte (Figura 01).

No que diz respeito aos recursos hídricos, o município de Belo Horizonte possui duas bacias hidrográficas principais: a bacia do ribeirão Arrudas e a bacia do ribeirão do Onça. Ambas sub-bacias da margem esquerda do Rio das Velhas. O bairro Belvedere III está inserido na bacia do Córrego do Cercadinho, principal afluente da margem direita do Ribeirão Arrudas.

Em sua porção montante, o curso d’água está instalado em rochas da Formação Gandarela, constituídas predominantemente por dolomitos, filitos dolomíticos e itabiritos dolomíticos. Tais rochas são pouco resistentes ao intemperismo, dando origem a áreas deprimidas e aplainadas, como a ocupada pelo bairro Belvedere, onde ocorre uma espessa cobertura laterítica de idade cenozóica (recentemente na história geológica) em torno de 1.100 metros de altitude. Processos de carstificação podem ter sido responsáveis por tais feições, cujo principal indício é a depressão natural conhecida como Lagoa Seca e o preenchimento das depressões por depósitos superficiais (DOM, 2002).

 

 

A Lagoa Seca é constituída por terreno alagadiço e de alta relevância para a proteção dos recursos hídricos, notadamente para recarga do aqüífero, amortização do fluxo pluvial e, por conseqüência, para regularização do fluxo hidrológico do córrego do Cercadinho, enquadrado como Classe Especial pelo Copam (SMMAS, 2001).

 

2.2. METODOLOGIA

 

A primeira etapa para o desenvolvimento do trabalho foi a realização de um levantamento bibliográfico. Esta fase foi o ponto de partida para execução dessa pesquisa e se prolongou durante todas as outras etapas. A partir do levantamento bibliográfico foram realizadas visitas a diversos órgãos para obtenção do material cartográfico para a realização do mapeamento da área estudada e a checagem de dados em campo.  No IGA foi adquirida a cópia do Mapeamento Geológico da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Folha SE-23-Z-C-VI-3, escala 1: 50.000 (IGA, 1982).

No IBGE foi adquirida a cópia da Carta Topográfica de Belo Horizonte, SE-23-Z-C-VI-3 escala 1:50.000, – Belo Horizonte, IBGE, ano: 1979 que auxiliou no reconhecimento da área em campo e na fotointerpretação. Na CEMIG foram coletadas as informações referentes à caracterização climatológica da região.

Em seguida buscou-se o levantamento aerofotográfico junto a PRODABEL, para realização da fotointerpretação. O acervo adquirido corresponde aos anos de 1989 e 1994, na escala 1:8.000. Para a análise e confronto de informações referentes aos anos de 1989 e 1999 tornou-se necessário a montagem de um mosaico de imagens extraídas do ano de 1999 do site http://www.belohorizonte.com.br. Essas imagens permitem a visualização do município de Belo Horizonte em diferentes escalas: de 1:1.000 até 1: 100.000.

Devido a área que cobrem, as imagens referentes ao ano de 1999 da região do bairro Belvedere III foram capturadas na escala aproximada de 1: 5.000, o que facilitou a montagem do mosaico com uma resolução espacial relativamente boa para observação do espaço urbano. Definida a escala foram capturadas 50 (cinqüenta) imagens no formato JPG, scaneadas e transferidas para formato digital.

 Para a realização da fotointerpretação foi escolhida, como área a ser mapeada, a bacia do Alto Córrego Cercadinho, visto que o bairro Belvedere III está inserido nesta bacia. A razão da seleção da bacia do Alto Cercadinho foi em decorrência da necessidade de avaliação dos impactos ambientais no sistema (bacia hidrográfica) e não apenas em nível local (Bairro Belvedere III), uma vez que se um ponto da bacia sofre impactos ou intervenções, todos os outros podem ser afetados de alguma forma.

De posse dos mapas topográfico e geológico foi realizada a fotointerpretação, onde foram delimitadas as unidades ambientais de estudo em função da formação vegetal e dos aspectos litológicos e geomorfológicos da bacia. A mancha urbana foi delimitada levando-se em consideração com o grau de intensidade da ocupação. Após a fotointerpretação procedeu-se ao trabalho de campo para a checagem e atualização das informações obtidas através das fotografias aéreas.

Como resultado, obteve-se o mapeamento das unidades ambientais e áreas urbanas da alta bacia do Córrego Cercadinho dos anos de 1989 e 1999. Nesta etapa foi utilizado o software MapInfo para o processamento digital. Após o mapeamento foi possível chegar a discussão dos resultados e cumprimento do objetivo proposto.

 

3.0. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Com base na abordagem metodológica adotada, foram obtidos resultados como se segue:

 

3.1. CARACTERÍSTICAS E EVOLUÇÃO URBANA DAS UNIDADES AMBIENTAIS  MAPEADAS

 

Sobre a base das fotografias aéreas do ano de 1989, e com a atualização de dados para o ano de 1999, a área de estudo foi compartimentada em unidades ambientais, de acordo com as características da litologia, geomorfologia e vegetação, e em áreas urbanas, de acordo com a intensidade da ocupação (Figuras 02 e 03), assim denominadas:

  • UNIDADE AMBIENTAL 1 (UA1) – Formação Cauê: ocorre na porção inferior e parte superior do mapa, situada à margem direita do Córrego Cercadinho, possuindo um relevo montanhoso, constituído por cristas assimétricas, formado por itabiritos e couraças ferruginosas. Ocorrem nesta formação a vegetação de campo cerrado e as seguintes classes de solos: Neossolos Litólicos (Litossolos), Neossolos Regolíticos (Regossolos) e Cambissolos (BUENO E SOUZA 2002; DINIZ et al, 2003).

Nesta área foi identificada, em 1989, a presença de edificações isoladas, sendo uma delas o Hospital Biocor, e uma pequena voçoroca junto à encosta da BR 040, sentido BH/RIO. Em 1999, a área construída do Hospital Biocor aumentou consideravelmente. Existem outras edificações no local e a voçoroca ainda está ativa, porém na sua proximidade, existem áreas em construção.

  • UNIDADE AMBIENTAL 2 (UA2) – Formação Gandarela: localizada entre as Unidades Ambientais 1 e 3, é constituída por um conjunto de vertentes convexas com vales abertos (BUENO E SOUZA, 2002; DINIZ et al, 2003). Essas vertentes encontram-se em um nível altimétrico inferior às cristas assimétricas da Formação Cauê, denotando uma área deprimida paralela e de mesma direção das cristas. Seu relevo é mais suavizado, oposto ao anterior, devido aos dolomitos e filitos dolomíticos da Formação Gandarela, pouco resistentes ao intemperismo. Segundo BUENO E SOUZA (2002) e DINIZ et al, (2003) esta característica litológica e geomorfológica possibilitou o desenvolvimento de solos do tipo Latossolos e a vegetação predominante é o campo cerrado.

Nesta área foram identificadas, em 1989, as edificações isoladas referentes ao BH Shopping e a COPASA. Atualmente a vegetação foi retirada para dar lugar às edificações do bairro Belvedere III.

 

  • UNIDADE AMBIENTAL 3 (UA3) – Formação Cercadinho: localizada na porção superior do mapa e à esquerda da Unidade Ambiental 2 (UA2). Está associada a uma faixa de subserras, com linhas de cristas aproximadamente paralelas à crista da Serra do Curral constituídas de quartzito intercalado com patamares suavizados de filito. As classes de solos relacionadas a essas cristas assimétricas são os Neossolos Litólicos (Litossolos), Neossolos Regolíticos (Regossolos) e Cambissolos (BUENO E SOUZA 2002; DINIZ et al, 2003). A vegetação predominante é o campo rupestre.

Na porção inferior desta área e no contato com a Unidade Ambiental 2 (UA2) verifica-se a presença de uma voçoroca, formada, provavelmente, por processos naturais e que atualmente está colonizada. Devido ao relevo de cristas, parte desta unidade não foi, ainda, alvo da expansão urbana.

  • UNIDADE AMBIENTAL 4 (UA4): Mata Ciliar - faixa de transição entre os domínios da Formação Gandarela (dolomitos e filitos dolomíticos) e Formação Cercadinho (quartzito), composta por vales com vegetação de maior porte, predominando a mata ciliar. Localizada dentro da Reserva do Cercadinho, de propriedade da COPASA, a área continua preservada e monitorada pela empresa.

  • ÁREA URBANA 1 (AU1): Ausência de ocupação urbana. Observa-se que no ano de 1989 a área de ocupação urbana ausente refere-se a Unidade Ambiental 1 (UA1), parte inferior da Unidade Ambiental 2 (UA2) e grande parte da Unidade Ambiental 3 (UA3). Verifica-se, portanto, a ausência de impactos nestas unidades. No entanto, na atualização dos dados para o ano de 1999, somente a porção inferior da Unidade Ambiental 2 (UA2) e porção inferior da Unidade Ambiental 3 (UA3) encontravam-se sem ocupação urbana.

  • ÁREA URBANA 2 (AU2): Ocupação urbana baixa. Em 1989 esta classificação estava relacionada à porção superior da Unidade Ambiental 2 (UA2) e parte da porção superior da Unidade Ambiental 3 (UA3). Em 1999, somente a Unidade Ambiental 3 (UA3) persistia com ocupação urbana baixa.

  • ÁREA URBANA 3 (AU3): Ocupação Urbana Média: no ano de 1989 a Área Urbana 3 (AU3) estava inserida na porção superior da Unidade Ambiental 2 (UA2). Na década seguinte a Área Urbana 3 (AU3) se estendeu por quase toda a Unidade Ambiental 2 (UA2) e ainda para as porções superiores da Unidade Ambiental 1 (UA1) e Unidade Ambiental 3 (UA3). Esta alteração ocorreu em virtude da expansão urbana na região sul de Belo Horizonte, em especial, pelas construções das edificações do bairro Belvedere III.

  • ÁREA URBANA 4 (AU4): Ocupação urbana moderada a forte: esta área está inserida na parte superior da Unidade Ambiental 2 (UA2). Observa-se que a ocupação urbana nesta área não sofreu alterações, visto que se refere ao bairro Belvedere I, cujas residências foram edificadas anteriormente ao loteamento do Belvedere III.

 

3.2. URBANIZAÇÃO E OS IMPACTOS NAS UNIDADES AMBIENTAIS

 

O ambiente analisado, bairro Belvedere III, configura-se como um bom exemplo do processo de mudança, no que diz respeito a atuação dos agentes sociais na transformação do espaço urbano, e na indiferença perante a garantia do direito da população à preservação de seu patrimônio natural e cultural. A legislação municipal mostrou-se frágil e ineficiente para fazer cumprir o zoneamento a que se destinaria o bairro, cuja aprovação do loteamento se efetiva numa época que ainda não existia, em Belo Horizonte, um Plano Diretor. Apesar da obrigatoriedade pela Constituição Federal de 1988 da elaboração de Plano Diretor para cidades com mais de vinte mil habitantes, somente em 27 de agosto de 1996 (oito anos depois), é aprovado o Plano Diretor e a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (Lei nº 7166/96). Somente nesta nova legislação, que passa a ter um caráter mais restritivo, o bairro Belvedere é classificado como Zona de Proteção (ZP).

No entanto, mesmo com a existência de Leis de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, isto não foi o suficiente para embargar os interesses dos empreendedores imobiliários, que ganharam ainda o respaldo do poder judiciário. No embate do direito público e o privado, prevaleceu o lado meramente econômico, que se apropriou da legislação urbanística, alterando o zoneamento de acordo com suas necessidades especulativas.

Nesse contexto, verifica-se que a expansão urbana de Belo Horizonte foge ao limite proposto pela Comissão Formadora da Capital, seguindo em direção à zona sul, e conseqüentemente mostrando forte tendência em direcionar-se para a zona de fronteira com a cidade de Nova Lima. Logo, o crescimento urbano em decorrência da implantação do bairro Belvedere III que se dá dentro da bacia do Córrego Cercadinho faz com que surjam problemas ambientais que ameaçam a sustentabilidade das suas nascentes.

Além dos impactos citados por outros autores, como a ocupação em uma importante faixa de domínio hidrogeológico (SILVA, 1994); a verticalização sobre a zona de formação cársticas (SANTOS, 2001); a redução da área verde destinada à preservação vegetal (SMMAS, 2001); foram constatados outros que ameaçam lesar o meio ambiente e que se constituem em:

  • Destruição da vegetação local: a área pertencente à UA2 mapeada conforme a figura 02, mostra o desmatamento total de áreas verdes (campo cerrado) para construção das edificações. Nas UA1 e UA3 também foram identificadas áreas desmatadas para a construção de edificações, confirmando a dinâmica da expansão urbana ao longo da bacia do Córrego Cercadinho.

  • Aterro e terraplanagem: os empreendimentos demandam aterros e terraplanagem que descaracterizam a paisagem. Esta ação acarreta ainda, no transporte de sedimentos para o sistema de drenagem pluvial local.

  • Lesão ao patrimônio natural e cultural: a verticalização do bairro causou violenta obstrução à visualização da Serra do Curral.

Cabe salientar que o bairro Belvedere III é classificado como ADE - áreas de diretrizes especiais. De acordo com a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do solo nº 7.166/96, ADEs são áreas que, por suas características, exigem a implementação de políticas específicas, permanentes ou não, podendo demandar parâmetros urbanísticos, fiscais e de funcionamento de atividades diferenciados, que se sobrepõem aos do zoneamento e sobre eles preponderam. De acordo com o Art. 89 desta lei a ADE do Belvedere III é a área em que somente é permitido o uso residencial.

  • Emissão de efluentes na rede de drenagem pluvial: são lançados pelo sistema viário local, óleos e graxas que são conduzidos para a Lagoa Seca. No bairro alguns postos de combustível possuem um sistema de filtragem que separa os sólidos da água. No entanto, no levantamento e verificação das informações em campo, verificou-se a emissão de efluentes oriundos de produtos químicos (sabão/detergentes) sendo lançados na lagoa.

Tudo que é lançado no sistema de drenagem pluvial vai diretamente para a lagoa e posteriormente para o Córrego Cercadinho. Além da água de chuva, todo efluente que escoa para a Lagoa Seca infiltra e abastece o sistema de aqüífero, contaminando as águas subterrâneas. Existem vários dutos que deságuam na Lagoa, inclusive um referente ao BH Shopping.

Este impacto pode ser confirmado pelos estudos realizados SMMAS (2001), no período de estiagem, os técnicos verificaram, in loco, o lançamento de águas residuárias na Lagoa Seca, que é drenada para o vale do Cercadinho através de canalização pluvial, que atravessa a rodovia BR-356. Desta forma, foi comprovado que as águas residuárias contaminadas atingem o manancial de captação superficial que é operado pela COPASA. Cabe salientar que a qualidade dessa água é monitorada periodicamente pelos técnicos da empresa. Em algumas amostragens foi constatada a presença de óleos e graxas e de substâncias tensoativas utilizadas na composição de produtos de limpeza – detergentes e outros.

A Lagoa Seca, além de receber a água pluvial oriunda do bairro, e do BH Shopping, e ter sua área reduzida em virtude do zoneamento aplicado ao bairro, e por ser considerada como Zona de Proteção Ambiental, em conformidade com a legislação urbanística, jamais poderia ter sido alvo de parcelamento, conforme pode ser verificado no artigo 16 § VI, cap. III, da Lei 7.166/96.

·        A impermeabilização do solo: a edificação dos lotes contidos no Belvedere III ocasionou uma intensa impermeabilização dos terrenos, comprometendo a manutenção da recarga dos aquíferos que abastecem a bacia hidrográfica do Córrego Cercadinho.

Este impacto acarreta em grande prejuízo para o meio ambiente, tendo em vista que o bairro Belvedere III consolidou-se na área pertencente à Unidade Ambiental 2, conforme figura nº 03. Toda a vegetação da Unidade Ambiental 2 foi retirada e o solo impermeabilizado, restando apenas a área remanescente da Lagoa Seca. Deste modo, a impermeabilização do solo inviabiliza a infiltração de água da chuva, quebrando o ciclo natural de recarga dos aqüíferos e o abastecimento da bacia hidrográfica do Córrego Cercadinho.

Além destes impactos existem outros fatores que colaboram para o surgimento de problemas na região, como o estreitamento das vias, o aumento do tráfego de veículos em função do crescimento substancial do comércio local, além do já existente, como Shopping Center, e o Belvedere Mall.

Mediante o exposto, evidencia-se que a verticalização do bairro Belvedere III, além da suplantação visual de parte da Serra do Curral, serve, além de tudo, como referência para se antever possíveis impactos negativos que poderiam ser provocados pela continuidade da ocupação em terrenos desocupados ao longo da bacia do Cercadinho.

É importante também ressaltar, a fragilidade deste ambiente diante da ausência de um licenciamento corretivo para a região que trate de questões como a instalação adequada da rede de galeria de águas pluviais, a preservação e conservação da mata ciliar, o controle da emissão de resíduos tóxicos e a conservação da Lagoa Seca, que funciona como um ponto de equilíbrio para a manutenção da bacia. Caso venha ocorrer a impermeabilização total da lagoa, isto afetará diretamente a condição de recarga dos aqüíferos, aumentará a velocidade de escoamento e, por conseqüência, sujeitará todas edificações e o sistema viário local à inundação.

 

4.0. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O espaço urbano, ao longo do tempo, tem sido destinado a cumprir funções específicas que variam segundo as necessidades das organizações sociais em cada época. Nessa trajetória, o meio ambiente passou a ser dominado e manipulado sem restrições, prevalecendo interesses antagônicos que vão da sua preservação à ocupação imobiliária.

Atualmente muitas cidades do mundo vivem problemas ambientais. No município de Belo Horizonte a ocupação urbana de áreas sensíveis a degradação é uma ameaça constante e a devastação do ambiente de forma geral por atividades humanas tem crescido sensivelmente. Apesar da cidade contar com instrumentos como o Plano Diretor e as Leis de Parcelamento, Uso e Ocupação, como diretrizes básicas que possibilitem a adoção de um desenvolvimento sustentável, na realidade o que se vê é uma nítida falta de postura e desrespeito ao cumprimento dos parâmetros legais e à população que preza pela proteção ao seu patrimônio natural e cultural.

Neste caso, o poder econômico envolvido pelos grandes empreendimentos foi  o responsável pelos conseqüentes impactos no Belvedere III. Como não foi possível conter a ocupação urbana de acordo com o zoneamento proposto, torna-se, portanto, necessário à adoção de medidas mitigadoras que visem amenizar e inibir futuros impactos ambientais na região. Deste modo, conclui-se com este estudo a importância da inserção da questão ambiental em todos os segmentos da sociedade, para que se façam cumprir as políticas de proteção ao meio ambiente, e também da implantação, pelos órgãos competentes, de medidas que visem o controle e a fiscalização de atividades que porventura acarretem prejuízos ao espaço urbano.

 

 

 

 

5.0. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BELO HORIZONTE. Lei 7.166 - 27 agosto de 1996 – Estabelece normas e condições para parcelamento, ocupação e uso do solo urbano no Município de Belo Horizonte. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Disponível em <http//:pbh.gov.br/> - Acesso em 12/05/02.

 

BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Mapa da Regional Centro Sul e das regiões administrativas, 1998. (Mapa regional escala 1: 60.000). Disponível no site <http://www.pbh.gov.br/mapas/mapaindx.htm> Acesso em 07.04.03.

 

BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Processamento de dados de Belo Horizonte – PRODABEL. Fotografias aéreas anos 1989 e 1994. (escala 1: 8.000).

 

BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Saneamento Urbano – SMMAS. Avaliação das condições hídricas da bacia do córrego do Cercadinho a montante do trecho enquadrado como Classe Especial, 2001. 37p. (Relatório).

 

BUENO, G.T.; SOUZA, J. B. Morfogênese da alta bacia do Córrego do Cercadinho, Serra do Curral, Belo Horizonte – Resultados Preliminares. In: IV SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOMORFOLOGIA. 2002, MARANHÃO. Anais vol. 1. Núcleo de Pesquisas Ambientais-UFMA. 2002. p. 19 e 20.

 

DIÁRIO OFICIAL DO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE – DOM. Belo Horizonte: CDPCM/BH. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. vol. VIII nº 47, julho. 2002. Edição Especial.

 

DINIZ, ALISSON DUARTE; SOUZA, JORGE BATISTA; BUENO, GUILHERME TAITSON; FIGUEIREDO, MÚCIO DO AMARAL. Mapeamento Geomorfológico da Bacia do Córrego Cercadinho e a Relação entre Solos e Relevo. In: Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, 2003, Ribeirão Preto, SP. UNESP, 2003.

 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEPGRAFIA E ESTATÍSTICA, Belo Horizonte. Belo Horizonte, 1979. (Carta Topográfica de Belo Horizonte, SE-23-Z-C-VI-3 escala 1:50.000).

 

INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS APLICADAS – IGA, Belo Horizonte. Belo Horizonte, 1982. (Mapa Geológico da região Metropolitana de Belo Horizonte. Folha SE-23-Z-C-VI-3, escala 1: 50.000).

 

SANTOS, Lídia Maria. O meio natural em Belo Horizonte: caracterização e análise de potencial para uso e ocupação preservacionista. Belo Horizonte, IGC/UFMG, 2001. (Dissertação, Mestrado em Geografia). 

 

SILVA, A. B. Estudo hidrogeológico do município de Belo Horizonte. In: CONGRESSO BRASILEIRO SOBRE ÁGUA SUBTERRÂNEA,8, 1994, Recife. Anais...Recife: ABAS, 1994, p-481-490.