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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 

MAPEAMENTO DAS CARTAS DE VULNERABILIDADE DA BACIA

DO RIO CUBATÃOZINHO/PR

 



 

Claudinei Taborda da Silveira, Mestrando DGEO, UFPR, claudineits@ig.com.br

Alberto Pio Fiori, Professor DEGEO, UFPR, fiori@ufpr.br

Chisato Oka-Fiori, Professor DEGEOG, UFPR, chisato@ufpr.br

 




 

Palavras-chave: vulnerabilidade potencial, vulnerabilidade emergente e planejamento territorial

 Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos
 




Introdução

 

As tentativas de racionalização no uso dos recursos naturais, decorrentes pelo presente estágio de degradação causado pelo homem ao ambiente natural, faz com que seja necessário à formulação e aplicação de instrumentos auxiliares na gestão e no planejamento territorial. Essa aplicabilidade atualmente é facilitada, tanto pela difusão tecnológica e computacional, quanto pelo avanço de novas técnicas de análises espaciais. Nessa configuração, a aplicação dos Sistemas de Informações Geográficas SIG, nos estudos ambientais, constituí-se em uma valiosa ferramenta de apoio, possibilitando correlacionar aspectos físico-naturais e antrópicos da paisagem, através da elaboração de um modelo que objetiva representar (e aproximar-se de) o mundo real.

Assim, com o propósito de complementar e contribuir com estudos voltados a região da Serra do Mar paranaense, para fins de planejamento, o presente trabalho propõe a elaboração de Cartas Vulnerabilidade Potencial e Emergente, aplicadas à bacia hidrográfica do rio Cubatãozinho, localizado no município de Guaratuba, Paraná.

A Carta de Vulnerabilidade Potencial indica os graus de vulnerabilidade sob o ponto de vista dos processos morfogenéticos da paisagem, através da correlação das informações físico-naturais, apresentando a vulnerabilidade potencial natural da ação dos processos geomorfológicos, que são resultados a partir da correlação das informações de declividade do terreno, erosividade das chuvas e cobertura pedológica. A Carta de Vulnerabilidade Emergente correlaciona as informações resultantes da vulnerabilidade potencial com as informações de cobertura do solo, indicando os graus de vulnerabilidade das regiões conforme a proteção do solo, sob o ponto de vista dos desequilíbrios com a atuação antrópica. As cartas de vulnerabilidade apresentam resultados qualitativos,  expressos e representados por classes como: muito baixa, baixa, média, alta e muito alta vulnerabilidade.

 

Materiais e Métodos

 

A metodologia adotada para a elaboração das cartas de vulnerabilidade baseia-se nos fundamentos propostos inicialmente por Tricart (1977), e seguidos por Ross (1990 e 1994). Tricart compreende que, na natureza as trocas de energia e matéria se processam através de relações de equilíbrio dinâmico, geralmente entrando em desequilíbrio pela ação do homem. Buscando analisar de maneira integrada o ambiente, esse autor propõe o conceito de Unidades Ecodinâmicas, que avalia a dinâmica dos ecossistemas. Com base nesse conceito, visando aplicações ao Planejamento Ambiental, Ross (op.cit.) acrescenta novos critérios estabelecendo a Análise Empírica da Fragilidade dos Ambientes Naturais. Neste novo enfoque, propõe a elaboração da Carta de Vulnerabilidade Potencial, que relaciona os fatores naturais do território e a Carta de Vulnerabilidade Emergente que relaciona os resultados da Carta de Vulnerabilidade Potencial com as intervenções antrópicas.

Nesse trabalho a Carta de Vulnerabilidade Potencial foi elaborada com base nas informações de declividade, de erosividade e de pedologia. A Carta de Vulnerabilidade Emergente foi elaborada através do cruzamento das informações de vulnerabilidade potencial e da cobertura do solo (vegetação e usos antrópicos). Assim, o primeiro passo para execução do trabalho foi a confecção das cartas Clinográfica, de Erosividade, Pedológica e de Cobertura do Solo. Para estas foram definidas classes de representação qualitativa e atribuídos pesos. Os cruzamentos dos dados foram realizados em ambiente computacional em plataforma de SIG, no software Arcview, processando os dados no formato “grid”, com a resolução espacial do pixel de 30 metros, e armazenando-os em formato vetorial.

Os materiais utilizados para a elaboração das cartas de vulnerabilidade foram:

-        Cartas topográficas, digitais, escala 1:25000: MI 2858-1 NE, MI 2858-1 SE, MI 2858-2 NO e MI 2858-2 SO, (DSG, 1998-2001), concedidos pela SEMA;

-        Cartas de Vegetação, em meio digital, escala 1:50000, ano de 2002: MI 2858-1 e MI 2858-2, (SEMA & SENAGRO, 2001);

-        Mapa Compilado de Solos da APA de Guaratuba, escala 1:50000, ano de 1998, (SCHMIDLIN, 1998), base de dados concedidos pela SEMA ;

-        Informações pluviométricas e de erosividade, (COPEL, 2000), fonte dos dados Banco de Dados Hidrometeorológico, LACTEC/CHPAR, período de 1975 a 2000;

-        Softwares: Arcview 3.2, módulos Spatial Analyst e 3D Analyst.

 

Elaboração das Cartas Temáticas

 

As cartas temáticas se constituem no suporte deste trabalho, uma vez que a partir do cruzamento de seus resultados foram elaboradas as cartas de vulnerabilidade potencial e emergente. Estas cartas são: Clinográfica, de Erosividade, de Solos e de Cobertura do Solo.

 

Carta Clinográfica (figura 1)

Para a presente pesquisa, adotou-se a proposta de De Biasi (1977), que estabelece cinco classes de declividade:

-        < 5%, limite utilizado internacionalmente para uso urbano-industrial;

-        5 – 12%, essa classe define o limite máximo do emprego da mecanização na agricultura;

-        12 – 30%, essa classe tem o limite máximo de acordo com a legislação – Lei 6766/79 – que o define como o limite máximo para urbanização sem restrições;

-        30 – 47%, baseado no código florestal, que estabelece como limite máximo para o corte raso 25º (47%);

-        47%, conforme o artigo 10 do código florestal, que não permite o corte florestal em áreas com inclinação entre 25º a 45º (100%).

A carta clinográfica da bacia do rio Cubatãozinho (figura 1) foi gerada em meio computacional, através de modelagem digital do terreno, utilizando-se da base cartográfica digital 1:25000, com curvas de nível com eqüidistância altimétrica de 10 metros.

Do ponto de vista da vulnerabilidade potencial foram atribuídos valores às classes de declividade (tabela 1), sendo que para os terrenos com pequenas inclinações, entendidas como de menor grau de vulnerabilidade, foram atribuídos pesos menores, e os com declividades maiores, pesos mais elevados.

 

 

CLASSE DE DECLIVIDADE

GRAU DE VULNERABILIDADE

PESO

< 5%

Muito baixo

1

5 – 12%

Baixo

2

12 – 30%

Médio

3

30 – 47%

Alto

4

> 47%

Muito Alto

5

Tabela 1 – Grau de vulnerabilidade por classe de declividade

 

Figura 1 – carta clinográfica da bacia do rio Cubatãozinho

 

Carta de Erosividade (figura 2)

O clima é um fator bastante influente no ambiente natural, e seu fator de maior influência nas regiões tropicais é a pluviosidade. Em função da localização geográfica, a área de estudo recebe grande influencia pluviométrica, devido à sua proximidade com o oceano e à suas elevadas serras, que bloqueiam as entradas das massas de ar atlânticas, promovendo as chuvas orográficas. Assim sendo, o potencial erosivo das chuvas foi levado em consideração para a elaboração das cartas de vulnerabilidade, baseando-se em dados das estações pluviométricas da porção oriental paranaense, relativos a 52 postos de medição, irregularmente distribuídos, do período de 1975 a 2000, obtidos junto ao CHPAR. Com esses pontos foi realizado o processamento computacional, através do interpolador SPLINE – REGULAR. Esse método possibilita criar áreas de influência por índice de erosividade.

Os índices de erosividade das chuvas podem ser calculados através do coeficiente expresso pela fórmula: Elm = p2/ P

sendo:

                     Elm – índice de erosividade média mensal (mm);

                     p – precipitação média mensal (mm), e

                     P – precipitação média anual.

A partir do resultado do Elm (índice de erosividade médio mensal), aplica-se a fórmula: R = 6,886 (Elm)0,85 (BERTONI & LOMBARDI NETO, 1985).

 Após a interpolação dos pontos, contendo informações de erosividade (expresso em MJ/mm/ha/ano), as zonas, ou áreas de influência foram agrupadas em categorias, conforme proposto por Ross (1994), sendo: <250, de 250 a 500, de 500 a 750, 750 a 1000 e >1000. Porém, devido ao elevado índice pluviométrico na área de estudo, obteve-se a ocorrência de somente duas categorias, e sendo as classes as de maior índice de erosividade, receberam pesos maiores, de acordo com o grau de instabilidade natural que propiciam (tabela 2), variando da média instabilidade à muito alta instabilidade.

 

CLASSE DE EROSIVIDADE

GRAU DE VULNERABILIDADE

PESO

750 – 1000

Alto

4

>1000

Muito alto

5

Tabela 2 – Grau de vulnerabilidade por classe de erosividade

 

Figura 2 – Carta de erosividade da chuva da bacia do Rio Cubatãozinho

 

Carta de Solos (figura 3)

Para a definição dos graus de vulnerabilidade para as classes de solos foi levada em consideração sua susceptibilidade a erosão, uma vez que os mais susceptíveis receberam peso maior. As classes, que constam no mapa, variaram de médio grau de vulnerabilidade à muito alto, não ocorrendo na área de estudo solos de baixa e muito baixa vulnerabilidade. Os solos que compõe a bacia são: cambissolo álico e distrófico (Ca e Cd) com horizonte A moderado e proeminente – estes com média vulnerabilidade; podzólico vermelho-amarelo (PV) e cambissolos (Ca e Cd) com horizonte A do tipo turfosos e húmicos  – com alta vulnerabilidade; solos gley pouco húmico álico (HGP2) e litólicos álico (R) – com muito alta vulnerabilidade.

Os agrupamentos das classes de solos, bem como seu grau de vulnerabilidade, são apresentados na tabela 3.

 

CLASSES DE SOLOS

GRAU DE VULNERABILIDADE

PESO

cambissolos (Ca e Cd) com o horizonte A proeminente ou moderado

Médio

3

podzólico vermelho-amarelo(PV) e cambissolos (Ca e Cd) com horizonte A turfoso ou húmico

Alto

4

solos gley Pouco húmico álico (HGP2) e solos litólicos álico (R)

Muito Alto

5

Tabela 3 – Grau de vulnerabilidade por classe de solos

 

-Cambissolos - apesar do clima na região de estudo apresentar-se como grande agente intemperizante, principalmente pelos altos índices pluviométricos, a ocorrência de cambissolos é predominante na bacia, principalmente, associado ao relevo fortemente ondulado, que dificulta a infiltração e propicia maior escoamento superficial, também está vinculado a resistência do material de origem, cujo substrato geológico compõe-se de rochas cristalinas: granitos, migmatitos e gnaisses.

Conceitualmente, os cambissolos, na descrição de Vieira (1975), são constituídos por solos com horizonte B incipiente (horizonte câmbico), não hidromórficos, apresentando certo grau de desenvolvimento, porém não suficiente para decompor totalmente os minerais primários de fácil intemperização.

Conforme Prado (1993), os solos álicos significam ter o valor de saturação de alumínio superior a 50% no horizonte B e baixa a saturação por bases (Ca, K, Mg e Na). Os solos distróficos têm saturação de alumínio inferior a 50% e saturação de bases menor que 50%. Os termos álicos e distróficos são relativos ao horizonte diagnóstico de subsuperficie B ou, na sua ausência, o horizonte C.

Os solos álicos dessa porção são produtos da ação do clima, mais especificamente da água, que por hidratação transporta os elementos de cálcio (Ca++), magnésio (Mg++), potássio (K+) e sódio (Na+), resultando na acumulação relativa do alumínio (Al+++), ou saturação por alumínio (m) superior a 50%.

Na classe dos cambissolos álicos são identificados três tipos distintos de horizonte A: humico, moderado e proeminente. Para Prado (1993), o horizonte superficial (A) húmico possui cor escura, com teores de matéria orgânica médio/altos, geralmente até 1 metro de profundidade com valor de saturação de bases inferior a 50%; horizonte moderado apresenta teor relativamente baixo de matéria orgânica, quanto é de cor clara, ou quando aparece escuro tem horizonte pouco espesso, geralmente com menos de 25 cm; e horizonte proeminente refere-se ao horizonte superficial escuro, relativamente espesso e com teores médio/altos de matéria orgânica.

A classe dos cambissolos distróficos aparece nas porções fortemente onduladas, igualmente aos cambissolos álicos, porém situa-se nas encostas com maior inclinação do relevo, ou seja em encostas com maiores declividades dificultando ainda mais a infiltração, desse modo o transporte vertical das bases e a acumulação relativa de aluminio são menores, sendo a saturação de m>50%, porém a influencia da água ainda se dá por transporte químico horizontal, e isso resulta na saturação de bases menor que 50% (S>50).

-Glei Pouco Húmico Álico - são representados por deposição recente, mal drenado, muito fortemente ácido, pouco profundo e de textura argilosa predominantemente. Aparece na porção juzante da bacia, na planície aluvial. Caracteriza-se por apresentar condições hidromórficas, o que proporciona condições de redução de óxidos férricos no perfil. Dá-se em ambientes anaeróbicos de água estagnada e carregada de produtos orgânicos ácidos. Assim, nessas condições, os solos hidromórficos sofrem influência do lençol freático ou encharcamento resultante da má drenagem das águas pluviais. Conforme Vieira 1975, os compostos férricos se reduzem a ferrosos ou se oxidam a férrico conforme a oscilação do lençol freático, provocando o aparecimento de mosqueados amarelos avermelhados ou mesmo vermelhos, dentro do perfil.

-Podzólico Vermelho-Amarelo - aparecem na bacia em vertentes em declividades menos acentuadas. Conforme Bigarella (1996), os podzólicos vermelho-amarelos encontram-se em regiões de clima mais quente e mais húmido, ocorrendo nas regiões tropicais e subtropicais. Caracteriza-se por baixa acumulação de matéria orgânica na superfície, por um horizonte profundo de eluviação e por uma espessa zona iluviada na qual a oxidação e a hidrólise do ferro são responsáveis pelas colorações vermelha e amarela do solo. Possui horizontes bem diferenciados e espessura aproximada de 2,5 metros.

Para Vieira 1975, são solos bem desenvolvidos, bem drenados, ácidos e que possuem um horizonte A fraco sobre um horizonte argilítico, de baixa atividade. Tem fertilidade natural baixa/média e textura argilosa/média, e apresentam seqüência de horizontes do tipo A, B e C, cuja espessura não excede 200 cm, com pronunciada diferenciação textural entre os horizontes A e o B, e transição clara com os horizontes e horizonte B estruturado.

-Solos Litólicos Álicos - ou litossolos, são solos de desenvolvimento incompleto, localizados sobre rochas parcialmente intemperizadas, recobertas por fragmentos líticos que, segundo Bigarella et al.(1996), constituem evidências de ação erosiva suficientemente forte para impedir o desenvolvimento de perfis de solo. Na área de estudo estão associados a fortes inclinações do relevo. Aparecem com o horizonte A do tipo húmico, proeminente, turfoso e moderado, do tipo álico.

 

Figura 3 – Carta de solos da bacia do rio Cubatãozinho

 

Carta de Cobertura do Solo (figura 4)

As informações relativas à cobertura do solo, tanto quanto a usos antrópicos como a cobertura vegetal, constituem-se de elevada importância para a elaboração da Carta de Vulnerabilidade Emergente. Assim, a atuação da cobertura do solo no processo morfodinâmico da paisagem está diretamente ligado à sua capacidade de proteção, e para essa análise foram definidas classes, sendo: as áreas com cobertura florestal em estágio sucessional avançado e intermediário são as de muito alto grau de proteção dos solos; seguindo-se das áreas de formações pioneiras e refúgios montanos e altomontanos, com alto grau de proteção; e a cobertura florestal em estágio de sucessão inicial, sendo incluído na classe médio grau de proteção, encontrando-se em estágio de regeneração; quanto aos usos antrópicos de agropecuária e silvicultura, foram agrupados na classe de baixa proteção do solo, uma vez que proporcionam a homogeneização na cobertura dos solos, alterando a impermeabilização, o escoamento superficial das águas pluviais e os elementos químicos do solo.

 

CLASSES DOS DIFERENTES TIPOS DE COBERTURA DO SOLO

GRAU DE VULNERABILIDADE

PESO

Floresta primária, em estágio sucessional avançado e médio

Muito Alto

1

Áreas de formações pioneira e áreas de refúgios vegetacionais (montanos e altomontanos)

Alto

2

Sucessão vegetal em estágio inicial

Médio

3

Agricultura e pecuária

Baixo

4

Tabela 4 – Grau de vulnerabilidade por classe de cobertura do solo

 

Figura 4 – Carta de cobertura do solo da bacia do rio Cubatãozinho

  

 

Resultados

 

Os resultados obtidos, através da correlação das informações espaciais do ambiente físico e da cobertura do solo (figuras 1, 2, 3 e 4), da bacia do rio Cubatãozinho, resultaram no mapeamento das Cartas de Vulnerabilidade Potencial (figura 5) e Emergente (figura 6).

 

Figura 5 – Carta de vulnerabilidade potencial da bacia do rio Cubatãozinho

 

Carta de Vulnerabilidade Potencial (figura 5)

As delimitações destas unidades expressam o equilíbrio dinâmico natural da bacia do rio Cubatãozinho, preservado das atividades antrópicas. O grau de fragilidade predominante foi o de alta vulnerabilidade potencial, representando 54% da extensão da área total; a classe de média vulnerabilidade potencial foi, também, bastante representativa, sendo de 42,81% da área; e a outra classe, de modo menos representativo, que foi definida, é a de muito alta vulnerabilidade potencial, com 3,19%. O fato de não serem constatadas as classes de baixa e muito baixa vulnerabilidade potencial se deve aos altos índices pluviométricos, pelas elevadas inclinações topográficas do terreno e, por ser essa bacia constituída de solos muito susceptíveis a erosão e pouco desenvolvidos.

 

Figura 6 Carta de vulnerabilidade emergente da bacia do rio Cubatãozinho

 

Carta de Vulnerabilidade Emergente (figura 6)

Esta carta indica as alterações antrópicas do ambiente natural e seu estado de equilíbrio em relação à cobertura do solo. Seus resultados se dão através da relação da Carta de Vulnerabilidade Potencial com as informações da cobertura do solo. A classe predominante é a de médio grau de vulnerabilidade, com 65,10% da totalidade da área da bacia, uma vez que ocupa, predominantemente, as áreas com alto grau de vulnerabilidade potencial e com uma cobertura florestal bastante preservada, o que lhe confere um grau intermediário de equilíbrio, pois a vegetação existente atenua a ação morfodinâmica. A classe de baixa vulnerabilidade emergente aparece, em seguida, representando 30,41%, ocupando geralmente as áreas com médio grau de Instabilidade potencial, onde se encontram florestas preservadas. Nesses locais, a vegetação age como agente redutor da ação do intemperismo dos fatores naturais da paisagem, resultando na desaceleração dos processos morfodinâmicos. A classe de alta vulnerabilidade, representando os pontos de maior pressão antrópica atuante na bacia do Cubatãozinho, com 4,49%, localizados em áreas não favoráveis para uso intensivo.

 

Considerações Finais

 

As Cartas de Vulnerabilidade Potencial e Emergente constituem-se em uma valiosa ferramenta para estudos ambientais, uma vez que avaliam a dinâmica da paisagem por correlação de seus componentes físico-naturais, como conseqüência, permitem a representação da potencialidade natural do ambiente ante as interações, e suas relações antrópicas, indicando as regiões de desequilíbrio pelo grau de proteção do solo.

No presente trabalho, a Carta de Vulnerabilidade Potencial, correlaciona a declividade do terreno com os tipos de solo, que se constituem em um elemento de grande importância para avaliar a vulnerabilidade do ambiente, uma vez que é decorrente de inúmeros agentes como substrato geológico, clima, relevo, micro-organismos, etc, aplicados à escala temporal e a erosividade, uma vez que o clima é um fator bastante influente no ambiente natural. Dentro do clima, fator de maior influência para a bacia do rio Cubatãozinho é a pluviosidade, por apresentar altos índices pluviométricos em função de sua localização geográfica, proximidade com o oceano e elevadas serras que bloqueiam as entradas das massas de ar atlânticas, promovendo as chuvas orográficas.

Quanto às considerações referentes à Carta de Vulnerabilidade Potencial, as classes de alta e muito alta vulnerabilidade aparecem principalmente nas serras, morros e divisores d’água, uma vez que nesses locais os solos são rasos,e as declividades mais altas, o que dificulta a infiltração da água. O alto índice pluviométrico, do qual deriva-se o fator erosividade, também é de grande influencia nos resultados, principalmente por causa das serras. A classe de média vulnerabilidade potencial é a combinação de elementos de menor ação na morfodinâmica na paisagem, com estabilidade morfológica intermediária porém, ainda não isentos da ação da pluviosidade associada aos solos e a declividade.

A Carta de Vulnerabilidade Emergente é a correlação das informações de vulnerabilidade potencial com a Carta de Cobertura do Solo, tanto dos usos antrópicos, que alteram a dinâmica natural, promovendo a aceleração da ação morfodinâmica, como da cobertura vegetal, que representa um agente de equilíbrio da paisagem, uma vez que ao evitar o impacto direto das gotas de chuva contra o terreno, reduz a desagregação das partículas, impede a compactação do solo, preserva a capacidade de infiltração do solo, reduz o escoamento superficial e mantém a sobrevivência de organismos biológicos, e suas relações que, por sua vez, influem também na permeabilidade, aeração e porosidade do solo.

A Carta Vulnerabilidade Emergente mostra que a classe de médio grau é constituída de áreas com alto grau de vulnerabilidade potencial mas com uma cobertura florestal bastante preservada. Sendo assim, estas áreas apresentam um grau intermediário de equilíbrio, pois a vegetação existente atenua a ação morfodinâmica. Cabe a ressalva que se houver a extração da floresta estas áreas aumentarão o grau de vulnerabilidade emergente. A classe de baixa vulnerabilidade emergente ocupa geralmente as áreas com médio grau de vulnerabilidade potencial, mas com florestas preservadas. Nesses locais a vegetação age como agente redutor da ação do intemperismo dos fatores naturais da paisagem, resultando na desaceleração dos processos morfodinâmicos. A classe de alta vulnerabilidade emergente, representando os pontos de maior pressão antrópica atuante na bacia do rio Cubatãozinho, é a que requer mais atenção. O uso antrópico localiza-se em maior parte às margens dos eixos viários de acesso, onde há cultivos agrícolas, com o predomínio do cultivo da banana, em menor porção, arroz e gengibre. Esses cultivos, principalmente a banana, utilizam-se de complementos químicos, agrotóxicos e fertilizantes, que podem comprometer a qualidade da água e a contaminação do solo.

O método utilizado na elaboração das cartas de vulnerabilidade apresenta resultados interessantes e condizentes com a realidade, podendo ser utilizado para estudos de planejamento ambiental e demais trabalhos relativos à questão espacial e ambiental.

 

 

Referências Bibliográficas

 

Bertoni, J.; Lombardi Neto, F. – Conservação do solo. Piracicaba: Livroceres, 1985, p. 369.

 

Bigarella, J. J.; et al. Estrutura e Origem das Paisagens Tropicais e Subtropicais. Florianópolis : Editora da UFSC, v. 2, 1996.

 

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DSG - Diretoria de Serviço Geográfico. Cartas Topográficas Digitais. Porto Alegre : color. Escala: 1:25.000. Material cartográfico. 1998 - 2001.

 

Prado, H. - Manual de Classificação de Solos do Brasil. Jaboticabal : FUNEP, 1993.

 

Ross, J. L. S. - Geomorfologia Ambiente e Planejamento. São Paulo : Contexto, 1990.

 

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Schmidlin, D. - Utilização de Técnicas de Sensoriamento Remoto e Sistemas de Informações Geográficas para atualização e Geração do Mapa Compilado de Solos da APA de Guaratuba (PR). Curitiba, 1998. Dissertação (Mestrado em Agronomia -  Ciência do Solo) – Universidade Federal do Paraná.

 

SEMA - Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos; Senagro. Cartas de Vegetação. Curitiba : color. Escala 1:50.000. Material Cartográfico. 2001.

 

Tricart, J. - Ecodinâmica. Rio de Janeiro: FIBGE/SUPREN, 1977.

 

Vieira, L. S. - Manual da Ciência do Solo. São Paulo : Agronômica Ceres, 1975.