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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

MAPEAMENTO DAS FEIÇÕES GEOMORFOLÓGICAS DE DETALHE

DA BACIA DO RIO SERRA NEGRA / PR: ZONEAMENTO HIDROGEOMORFOLÓGICO

 

 
 

Camila Cunico/Bolsista PIBIC UFPR-CNPq/ milacunico@hotmail.com

Chisato Oka-Fiori/LABOFIS/DEGEOG/UFPR/ chisato@ufpr.br

 

 

 

Palavras-Chaves: mapeamento, zoneamento, hidrogeomorfológico.

 Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.4: Gestão e Planejamento Ambiental

 





 

 

1)INTRODUÇÃO

 

As áreas situadas na faixa litorânea, devido à fragilidade e complexidade de seu ecossistema, são propícias a ocorrência de impactos negativos em virtude da má utilização da natureza.

Dessa forma, torna-se necessário a elaboração de políticas que definam a utilização do espaço costeiro e que estejam vinculadas a projetos de desenvolvimento sustentável. Este fundamenta-se no conhecimento dos recursos naturais, humanos e econômicos disponíveis, assim como a adequada utilização dos mesmos.

A partir desses critérios, a análise geomorfológica é indispensável para o planejamento ambiental, pois fornece os subsídios para o gerenciamento costeiro, a utilização dos recursos naturais de forma coerente e a minimização dos impactos provocados no meio em razão da ocupação humana.

Nesta perspectiva, a presente pesquisa visa contribuir para o Mapeamento Geomorfológico, Hidrográfico e Clinográfico para o Macrozoneamento Costeiro do Estado do Paraná, que consiste em mapear as diversas áreas com características distintas ao longo da zona costeira.

A área de estudo deste trabalho é a bacia hidrográfica do rio Serra Negra, que está localizada na porção nordeste do litoral paranaense (Figura 1), no município de Guaraqueçaba.

 

Figura 1 – Mapa de Localização

 

2) MATERIAIS E MÉTODOS

 

Para a definição das zonas hidrogeomorfológicas da bacia do rio Serra Negra adotou-se a metodologia proposta por TRICART (1965) e SOARES & FIORI (1976).

A extração de informações referentes à rede de drenagem e as formas de relevo foram realizadas tendo por base fotografias aéreas pancromáticas, na escala 1:25.000, ano 1980, do Instituto de Terras e Cartografia – ITC, com o apoio das folhas topográficas do IBGE/DSG, na escala 1:50.000.

A rede de drenagem foi detalhada, considerando-se os canais de escoamento fluviais e pluviais e posteriormente a hierarquização dos mesmos, seguindo a proposta de CHRISTOFOLETTI (1980).

As feições geomorfológicas mapeadas foram:

-          Topos: classificados em alongados, arredondados, angulosos e assimétricos.

-          Vertentes: retilíneas, convexas, côncavas, côncava-convexas e convexa-côncavas.

-          Linhas de contato: abrupto e suave.

-          Compartimentação: serras, morros isolados, planaltos ondulados e planícies.

As informações adquiridas foram transferidas para o meio digital através da digitalização e armazenadas em ambiente SIG, com a utilização do software Arcview 3.2.

 

3) RESULTADOS

 

O primeiro resultado obtido após a coleta dos dados e transferência dos mesmos para o meio digital, foi a Carta de Rede de Drenagem da bacia do rio Serra Negra. Este mapeamento foi detalhado, considerando-se todos os canais de drenagem, ou seja, os fluviais e os pluviais. Totalizaram-se 1.633 canais de escoamento.

Com a hierarquização dos canais de drenagem, obteve-se a Carta de Hierarquização da bacia. Os canais variam da primeira à sexta ordem. O resultado de cada ordenamento segue na Tabela 1.

 

Tabela 1 – Número total de canais de drenagem por ordem da bacia do rio Serra Negra

 

Quanto às feições, que constituíram a Carta de Feições Geomorfológicas da bacia, identificou-se os tipos de vertentes, seguindo a classificação de CHRISTOFOLETTI (1974): Vertente Côncava, Convexa, Côncava-convexa, Convexa-côncava e Retilínea. Os topos foram classificados em alongados, angulosos, arredondados e assimétricos. Em relação aos contatos, abruptos ou suaves. A quantidade de vertentes e topos identificados conforme a respectiva classificação constam respectivamente nas Tabelas 2 e 3.

 

Tabela 2 – Classificação e quantidade de vertentes

 

Tabela 3 – Classificação e quantidade de topos

 

Para auxiliar na delimitação do zoneamento, proposta inicial da pesquisa, confeccionou-se ainda a Carta de Hipsometria e a de Microbacias do rio Serra Negra, a qual totalizou 24 microbacias.

Levando-se em consideração todos os resultados acima mostrados, foi elaborada a Carta de Zoneamento Hidrogeomorfológico (Figura 2) da bacia em questão.

 

4) ZONAS HIDROGEOMORFOLÓGICAS

 

A escarpa de falha da Serra do Mar com a serra marginal e as duas escarpas situadas no interior do estado, dividem o Paraná em cinco unidades de relevo.

O litoral paranaense é conformado por uma estreita faixa montanhosa que foi submetida a um sistema complexo de falhamento no terciário. Tal sistema deu origem às baías de Paranaguá e Guaratuba e, em decorrência a ingressão marinha. Mais tarde houve a formação de restingas, que retificaram a linha da costa.

O relevo litorâneo pode ser dividido em planícies litorâneas ou orla marinha e zona montanhosa litorânea ou orla da serra. A primeira delas é formada por sedimentos marinhos e terrestres recentes (Quaternário) e possui uma largura que varia entre 10 e 20 quilômetros, chegando a atingir, na área de Paranaguá, até 50 quilômetros. Suas altitudes não ultrapassam 20 metros; a segunda é constituída por rochas cristalinas, abrangendo morros isolados, cadeias de morros e as encostas da Serra do Mar (MAACK, 2002).

A região em questão situa-se na zona subtropical, estando entre as latitudes 24° 50’ e 25° 55’, não estando sujeita, portanto, a forte radiação solar, pois se localiza ao sul do Trópico de Capricórnio. O litoral é diretamente beneficiado pelo elevado grau de saturação de umidade do ar, bem como pela diminuição das oscilações anuais da temperatura.

Sobre os fatores estáticos de influência climática deve-se lembrar ainda o impacto das diferentes unidades de relevo presentes, uma vez que nas áreas de serra há reduções térmicas e ocorrência das chuvas orográficas.

Quanto aos fatores dinâmicos, evidencia-se a atuação, no inverno, das massas de ar Polar Atlântica e Tropical Atlântica; no verão, predominam a Tropical Atlântica e a Tropical Continental.

Com relação à vegetação, esta se caracteriza por ser o reflexo da interação de um conjunto de fatores naturais, dentre os quais, notadamente a altitude, clima e a formação pedológica. No Estado do Paraná, a cobertura vegetal configurava uma área de cerca de 80% do total do Estado, ao passo que no presente esta porcentagem foi reduzida a meros 4%,  dos  quais  uma  considerável  porcentagem  está  inserida  na  região  litorânea.

 

Figura 2 – Carta de Zoneamento Hidrogeomorfológico


Isto
justifica a enorme quantidade de Unidades de Preservação e Parques, existentes na região.

No litoral observa-se a presença das chamadas áreas das Formações Pioneiras, que correspondem a formações vegetais ainda em fase de sucessão, com ecossistemas dependentes de fatores ecológicos instáveis.

Grande parte desta região apresenta-se coberta pela Floresta Ombrófila Densa, que embora se localize em zona extratropical, desfalcada de algumas espécies típicas, tem características nitidamente tropicais, representando um prolongamento da faixa florestal que acompanha a costa brasileira (Figuras 3). A Serra do Mar funciona como um agente ascensional das massas de ar carregadas de umidade, o que justifica o fato de sua porção mais exuberante encontrar-se voltada para o oceano.

O Paraná apresenta três compartimentos geológicos: cristalino (Primeiro Compartimento); sedimentar (Segundo Compartimento); e basáltico (Terceiro Compartimento). A bacia do Serra Negra insere-se no Primeiro Compartimento, que se estende do litoral até a Escarpa Devoniana possuindo, além de sedimentos recentes, rochas cristalinas na maior parte da área, sendo estas muito antigas, datadas de 2 bilhões a 600 milhões de anos.

As zonas delimitadas na bacia do rio Serra Negra, levaram em consideração os fatores físicos acima citados.

A carta resultante desta pesquisa é a Carta de Zoneamento Hidrogeomorfológico da Bacia do Rio Serra Negra (Figura 2) e apresenta os seguintes compartimentos: Serras, Planaltos Ondulados, Morros Isolados e Planícies.

Na região de Serras, que representa o compartimento predominante na carta, situam-se os cursos superiores dos rios. Há o predomínio da erosão linear com aprofundamento longitudinal dos talvegues, e como conseqüência, formam-se os vales encaixados em forma de “V”, com bastante potencial energético.

As fortes inclinações, predominantes nas regiões de serras (Figura 4), dificultam a infiltração da água. As altitudes máximas chegam a 1.520 metros, e as mínimas, quando em contato com a planície, atingem 40 metros.

A modelagem das vertentes ocorre devido à erosão e ao transporte dos sedimentos. Esses por sua vez, depositam-se na área das planícies ou até mesmo na baía das Laranjeiras,  onde  deságua o rio Serra Negra.  O seu  estudo  indica  os  locais  com  maior

 

Figura 3 – Foto 1 – Vegetação encontrada na bacia do Rio Serra Negra/ fevereiro de 2003

Local: Morro Serra Verde Autor: LABOFIS

 

Figura 4 – Foto 2 – Compartimento de Serras da bacia do rio Serra Negra/ fevereiro de 2003

Local: Serra do Guaracui Autor: LABOFIS

 

atuação da morfodinâmica da superfície. Assim como os topos, as vertentes estão relacionadas à resistência dos materiais.

O compartimento de Planície possui relevo plano e suavemente ondulado. As altitudes variam de 0 a 40 metros. A planície mais significativa apresenta-se na porção jusante do rio Serra Negra (Figura 5).

Esta é uma planície aluvial, originária dos depósitos dos sedimentos transportados pelo fluxo da água. Apresenta rios com vale de fundo chato e canais meandrantes, com baixo potencial energético.  Localizados no interior da planície é possível delimitar morros isolados. Nestes encontram-se rochas do embasamento cristalino.

O compartimento de Planaltos Ondulados apresentam-se somente na porção norte da bacia e sua altitude varia de 660 a 720 metros. Apresentam relevo ondulado, topos arredondados e vertentes convexa-côncavas.

Os principais canais localizados nas microbacias do rio Serra Negra são: rio Açungui, Pederneiras, Engenho, Bananal, Formiga, Batalha, Braço do Macaco, Conceição de Cima, Farinha Seca e Guaipé.

Os padrões de drenagem identificados na área de estudo são do tipo Paralelo, que ocorre principalmente no compartimento de Serras; Arbóreo, verificado nos compartimentos de Serras; Contorcido, principalmente no compartimento de Planalto Ondulado e o Meândrico, encontrado no compartimento de Planícies.

Em relação à rede de drenagem, percebe-se que os cursos de ordem primária e secundária localizam-se principalmente nos compartimentos de Serras. O compartimento de planície é o que apresenta menor densidade de drenagem quando comparado aos demais.

É importante salientar que quanto maior a densidade de drenagem mais impermeáveis são os solos, levando a um predomínio de escoamento superficial sobre a infiltração.

A rede de drenagem é de fundamental importância para a compreensão da geomorfologia, uma vez que está ligada aos processos morfogenéticos de esculturação do relevo.

 

Figura 5 – Foto 3 – Planície de inundação do rio Serra Negra, utilizada para o cultivo de arroz/ fevereiro de 2003

Local: Rio Serra Negra Autor: LABOFIS

 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Quanto as zonas hidrogeomorfológicas, foram identificadas na área: Compartimento de Serras, Compartimento dos Planaltos Ondulados, Compartimentos de Morros Isolados e Compartimento de Planícies.

No Compartimento de Serras, as altitudes máximas chegam a 1.520 metros, onde escoam os cursos superiores dos canais de drenagem da bacia. Devido ao predomínio de declividades elevadas inclinação ocasiona o escoamento superficial e a erosão linear. Os vales mais freqüentes são em “V”, com presença de vertentes retilíneas e topos angulosos. Apresentam também grande densidade de drenagem, com predomínio de canais de primeira e segunda ordem. O padrão de drenagem mais comum é o paralelo e o arbóreo.

O Compartimento de Planícies possui relevo plano e suavemente ondulado, com altitudes médias de 20 a 40 metros. Aparecem mais significativamente na porção jusante do rio Serra Negra. É aluvial e apresenta baixo gradiente, o que justifica a presença de canais meandrantes.

No interior desta encontram-se os Morros Isolados, com altitudes que não ultrapassam 200 metros. Há o predomínio de topos arredondados, vertentes convexas e contato abrupto com a planície.

O Compartimento de Planaltos situa-se somente no norte da bacia, com altitudes médias de 660 a 720 metros. Apresentam relevo ondulado, topos arredondados e vertentes convexa-côncavas. O padrão de drenagem predominante é o contorcido.

Este trabalho, de zoneamento hidrogeomorfológico, fornece subsídios para o ordenamento e gestão da região litorânea, além de apoiar os estudos relacionados com a fragilidade e vulnerabilidade local.

 

 

6. REFERÊNCIAS

 

CRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. 2ª ed. São Paulo: Blucher, 1974.

 

MAACK, R. Geografia Física do Estado do Paraná. 3ª ed. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.

 

TRICART, J. Princípios e Métodos em Geomorfologia. Paris: Massom & Cie, 1965.

 

SOARES, P. C. & FIORI, A. P. Lógica e Sistemática na Análise e Interpretação de Fotografias Aéreas em Geologia. Not. Geomorfológica, Campinas, v. 16, n. 32, 1976.