Voltar à Página da AGB-Nacional


 

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

FRAGILIDADE AMBIENTAL DA BACIA DO RIO SERRA NEGRA - PR

 

 

Adriana de Fátima Penteado/Bolsista PIBIC-UFPR-CNPQ/ adripent@starmedia.com

Chisato Oka-Fiori/LABOFIS/DEGEOG/UFPR/ chisato@ufpr.br

Naldy Emerson Canali/LABOFIS/DEGEOG/ canali@qwnet.com.br

 

 

Palavra chave: ação antrópica, fragilidade, impacto ambiental.

 Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.3: Gestão e Planejamento Ambiental



 

 

  

INTRODUÇÃO

 

A preocupação de planejar racionalmente a ocupação e o uso do espaço costeiro é relativamente recente no Brasil. Os constantes problemas resultantes da interferência, direta e indireta, no balanço dos sedimentos costeiros e do avanço da urbanização sobre áreas que deveriam ser preservadas mostram que ainda é longo o caminho entre a intenção de preservar e a sua concretização.

O controle ambiental da Serra do Mar, da planície costeira, das águas estuarinas e oceânicas, torna-se incontestável considerando que se trata de uma região sujeita a uma dinâmica natural acelerada e onde os processos de ocupação do solo avançam rapidamente.

A presente pesquisa constituiu-se na análise da fragilidade ambiental da bacia hidrográfica do Serra Negra, localizada no litoral norte do estado do Paraná, no município de Guaraqueçaba, (Figura 1). É pertencente à Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, possuindo uma área aproximada de 47,65 km2.

Os fatores considerados  para  o estudo foram a declividade, o solo, a erosividade e o uso do solo. A partir da análise integrada desses fatores foi possível determinar a fragilidade da bacia frente à ação humana.

Encontra-se na área de estudo, como vegetação primitiva, a Floresta Ombrófila Densa Submontana predominantemente no início das encostas; a Floresta Ombrófila Densa Montana, predominantemente do meio das encostas, e Floresta Ombrófila Alto Montana, considerada como refúgio ecológico, e o manguezal, como formação pioneira, com influência fluvio-marinha.

 

 

MATERIAIS E MÉTODOS

 

Para a realização do trabalho foram utilizadas as seguintes folhas topográficas: Barra do Turvo MI 2827-4, Rio Turvo MI 2828-3, Rio Guaraú MI 2828-4, Serra da Virgem Maria MI 2843-2, Serra Negra MI 2844-1, Ariri MI 2844-2, confeccionadas pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1992. Para o auxílio na classificação da imagem, foram utilizadas Cartas de Vegetação, confeccionadas pela ENGEFOTO – Engenharia e Aerolevantamentos S.A, de 2001, todas na escala 1:50.000.  A imagem utilizada foi a Landsat 7: Bandas 5, 4, 3. – Cenas 220-77, 220-78, de 26/09/99. O mapa de solos do estado do Paraná, na escala 1:100.000 de 1989 foi compilado do IPARDES – Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, e após, a sua georreferenciação e a digitalização.  Para  a elaboração do mapa de erosividade, utilizou-se das informações pluviométricas e de erosividade do Banco de Dados Hidrometerológico do LACTEC/CHPAR – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento/Centro de Hidráulica e Hidrologia Prof. Parigot de Souza, período de 1975 a 2000).

Para a análise da fragilidade, seguiu-se a metodologia proposta por Ross (1994), que propõe a análise empírica de fragilidade para ambientes naturais e antropizados, cujos conhecimentos setorizados (solos, relevo, rochas, clima, flora, fauna, etc.), componentes de estrato geográfico que dão suporte a vida animal e do homem sejam avaliados de forma integrada, calcada sempre no princípio de que a natureza apresenta funcionalidade intrínseca entre seus componentes físicos e bióticos.  Esta metodologia está baseada no conceito de Unidades Ecodinâmicas de Tricart (1977), que visa avaliar a fragilidade a partir de dois aspectos: a potencial e a emergente. A Fragilidade Potencial compreende a integração dos elementos físico natural, como a geomorfologia, tipos de solo, declividade, geologia entre outros, enquanto a Fragilidade Emergente, compreende a análise integrada da fragilidade potencial do meio natural com o tipo de uso do solo.

Para a presente pesquisa foram levados em consideração os aspectos da declividade, tipos de solo, erosividade e tipos de uso.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

 

Para o presente estudo o enfoque utilizado foi o meio ambiente natural, este sendo constituído pelo solo, água, ar atmosférico, flora e fauna, devendo existir o equilíbrio dinâmico entre os seres vivos e o meio em que vivem. Para que o meio ambiente natural permaneça em equilíbrio, e como bem de uso comum, é necessário preservar e restaurar os ambientes ecológicos, promovendo o manejo de espécies e ecossistemas. O homem tem constatado que os recursos ambientais não são inesgotáveis, tornando-se incompreensível que as atividades econômicas desenvolvam-se de forma alheia a este fato.

Quanto à declividade, na ba bacia do rio Serra Negra predominam as classes de declividades elevadas que variam de 20 à > 47%. Estas áreas correspondem às classes de fragilidades que variam de Fragilidade Média a Muito Alta, com base na classificação do Ross (1990) (Figura 02).

Analisando-se o mapa de tipos de solo (Figura 03), foi possível verificar que na bacia encontra-se em maior quantidade o Cambissolo, encontrado nas três porções da bacia: inferior, média e superior. O afloramento rochoso encontra-se à noroeste da bacia. O Latossolo concentra-se principalmente na margem esquerda do rio Serra Negra, e desembocadura do rio Bananal. O Podzólico predomina na margem direita do rio Serra Negra e próximo as nascentes do rio Bananal. Os solos Hidromórficos são encontrados as margens do rio Serra Negra e nas margens e nascentes dos rios da parte superior da bacia.

Com base nas características de cada solo foi definida sua fragilidade (Fig. 04)

Em aspectos gerais os Podzólicos possuem uma diferença de textura entre o horizonte superficial e o horizonte diagnóstico B mais argiloso. Este aspecto propiciará o escoamento lateral da água, tornando o horizonte A instável em relação ao carreamento. Dessa forma este tipo de solo foi considerado com alta fragilidade ou susceptibilidade à erosão (erodibilidade).

Solos classificados como Latossolos apresentam uma boa profundidade do solum (A+B) e o horizonte diagnóstico B estruturalmente (disposição dos agregados) bem desenvolvido, o que lhe confere maior estabilidade frente aos processos erosivos.  São mais comumente encontrados em terrenos com pouca declividade. Este solo foi considerado como de fragilidade baixa.

Os solos Hidromórficos, desenvolvem-se em zonas saturadas pela água, próximos ao lençol freático, que em algumas épocas mais chuvosas do ano chega a aflorar. Podem possuir um horizonte A com camadas arenosas (aluviais) ou horizonte hístico e um horizonte B fortemente cimentado (alto teor de argila). Devido o contato constante com a água foi classificado como de fragilidade alta.

 

 

 

 

Os Cambissolos possuem horizonte B pouco desenvolvido, com materiais herdados da camada superior, pouco intemperizado. Característico de áreas com relevo muito movimentado, são mais comuns em locais com topografia acidentada. Na bacia estudada existem cinco especificidades de tipos de Cambissolo, sendo que para a determinação da fragilidade, além dos aspectos gerais, levou-se em consideração a associação com outros tipos de solo, textura dos horizontes e tipo de relevo encontrado. 

Quanto a erosividade, (Fig. 05) na bacia do rio Serra Negra predominam as classes que variam entre 700 a 750 e 750 a 900 Mj.mm/ha.h.ano, correspondendo às classes moderada a forte e forte, respectivamente, conforme a classificação de Ross (1994).

No mapa de uso e ocupação do solo foram identificados: a mata, a capoeira, a plantação de arroz, o reflorestamento e a agricultura com pecuária, os quais foram atribuídos os valores segundo o grau de proteção de Ross, 1994 (Quadro 1).

 

Graus de Proteção ( Ross, 1994)

Tipos de Uso (bacia do Serra Negra)

1. Muito Alta

Floresta Preservada

2. Médio

Capoeira (fase inicial e médio)

3. Muito Baixo

Agricultura de subsistência, arrozal e pecuária extensiva, reflorestamento

  Quadro 1. Graus de proteção da bacia do rio Serra Negra, adaptados de Ross, 1994.

 

Na bacia do rio Serra Negra, a maior antropização está concentrada ao longo dos rios Açungui, Bananal e Serra Negra, com presença de agricultura, pecuária e capoeiras. Na especificidade encontrada para cada rio nota-se ao longo do rio Bananal, próximo à PR 404, uma pequena área com reflorestamento de eucalipto. Subindo ao longo do rio Serra Negra encontra-se uma grande área com plantação de arroz. Como exemplo de agricultura tem-se plantação de banana às margens do rio Açungui. A presença de capoeiras, em estágio médio e inicial, estão mais concentrados na parte média e superior da bacia  (Figura 06).

 

 

 

FRAGILIDADE POTENCIAL E EMERGENTE DA BACIA DO RIO SERRA NEGRA

 

Na bacia hidrográfica do Serra Negra, fazendo-se uma análise do mapa de Fragilidade Potencial (Figura 07) pode-se verificar que este apresenta fragilidade mais acentuada para os locais onde encontra-se o Cambissolo e declividades mais elevadas. Este tipo de solo possui alta instabilidade devido às suas características, entre elas o fato de ter pouca incidência de matéria orgânica. Para o local onde consta como afloramento rochoso, não foi atribuído nenhum valor relativo a fragilidade, partindo-se do princípio que a rocha, a curto prazo, não inclui-se com os solos nos processos de erodibilidade. Desta maneira permaneceu para este local o cruzamento relativo à declividade e a erosividade.  

Fazendo-se uma comparação entre o mapa de Fragilidade Potencial (Figura 07), e o mapa de Fragilidade Emergente (Figura 08), verifica-se que houve diminuição da fragilidade (em aspectos gerais) da bacia, este fato deve-se ao fato da “pequena” ocupação, na maioria de locais preservados, porém com a continua ocupação os impactos ambientais tendem a tornar-se preocupantes.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A bacia estudada está em grande parte preservada, dessa forma, os impactos ainda não são tão expressivos, porém, com a continua ocupação os impactos ambientais tendem a tornar-se preocupantes.

O litoral paranaense possui a maior parcela de preservação da Floresta Atlântica. A fauna da região litorânea é caracterizada por extensos locais de florestas, tornando-se dessa maneira, um importante reduto faunístico. Dependendo do grau de alteração causado, ocorrerão mudanças nas populações existentes, podendo ocorrer o aumento ou desaparecimento de uma determinada espécie. Dessa maneira torna-se importante a tentativa de planejar de forma racional o meio ambiente, constatando as ocupações irregulares que vem ocorrendo na região litorânea, buscando assim um desenvolvimento sustentável.

 

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

ENGEFOTO – Engenharia e Aerolevantamentos S.A. Cartas de Vegetação, 2001.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cartas topográficas, 1992.

 

IPARDES – Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social. Mapa de Solos do Estado do Paraná, 1989.

 

LACTEC/CHPAR – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento/Centro de Hidráulica e Hidrologia Prof. Parigot de Souza. Dados hidrometeorológicos do litoral, período de 1975 a 2000).

 

ROSS, J. L. S. – Geomorfologia: ambiente e planejamento. São Paulo, Ed. Contexto, 1994.

 

TRICART, J. Ecodinâmica. Rio de Janeiro, IBGE, Diretoria Técnica, SUPREN,1977.