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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

A importância da aplicação de perfis geo-ambientais para interpretação do meio ambiente



 

 

LEVIGHIN, Susimara C. -  Unesp/IGCE-Rio Claro(SP)-Brasil

susilev@bol.com.br

 CAMARGO, José C.G.   -  Unesp/IGCE-Rio Claro(SP)-Brasil

jcgc@rc.unesp.br



 

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.3: Gestão e planejamento Ambiental




 

 

1- Introdução

 

A constante preocupação com a degradação ambiental tem levado ONG’s, órgãos governamentais, pesquisadores de diversas áreas a se mobilizarem na busca de meios eficazes para compreensão ambiental e estabelecimento de uma relação racional entre as atividades econômicas e a utilização dos recursos naturais.

Mas, a complexidade do tema leva Ross e De Prette (1998, p. 92) a considerarem:

 

[...] há muito, ainda a ser feito para se encontrar o limite entre o economicamente necessário, o legalmente permissível e o ecologicamente desejável. Posturas fechadas, pré-concebidas e fortemente articuladas por interesses exclusivamente partidários costumam levar a confrontos que geram grandes desgastes, acompanhados de prejuízos sociais e econômicos, sem resolver os problemas.

 

Os danos à natureza parecem estar envolvidos numa questão mais profunda, na qual a prioridade é a economia ditada pela lógica do capital, que envolve diversos interesses e compromete a efetivação de medidas que assegurem os recursos naturais para as futuras gerações. A demanda exagerada dos mesmos para a satisfação dos anseios do homem moderno provoca sérios desequilíbrios ecológicos e alteração da natureza.

No caso da ciência geográfica existe um grande esforço na busca de técnicas e novos procedimentos para se realizar uma interpretação integrada homem-natureza e fornecer diretrizes para um Planejamento territorial-ambiental. Esse objetivo pode ser alcançado se o geógrafo estiver atento e pronto para somar ao seu vasto arcabouço teórico-metodológico novas concepções para a abordagem ambiental.

Ross (2000, p.19) reflete sobre papel do geógrafo:

 

 “É óbvio, que não se pode ter a pretensão de que o profissional geógrafo seja o mais adequado no desenvolvimento dos estudos ambientais. Isso seria antes de mais nada infantilidade, porém deve-se ressaltar que a geografia, com sua vocação para as análises parciais e globais, sínteses e generalizações, tem papel marcantes nos estudos ambientais.”

 

A vocação para análise global e integrada da sociedade e seu meio ambiente e a visão holística desses elementos, capacita esse profissional para explicação dos fenômenos, propor soluções e realizar planejamentos ambientais.

Isso revela que o estudo do meio ambiente pelo geógrafo é bastante pertinente e um dos caminhos para ele chegar a uma interpretação síntese e global é através da utilização de trabalhos práticos que possam ser empregados para tentar solucionar os problemas de degradação ambiental e também contribuir para o desenvolvimento de meios racionais de utilização da natureza, buscando a preservação e conservação desses recursos.

Para melhor compreensão das técnicas ou modelos aplicados ao meio ambiente alguns trabalhos serviram como referência, como é o caso dos trabalhos de Troppmair (1971, 1990), Viadana, (1992) e Levighin (2002).

 

2-Objetivo

 

O presente estudo tem por objetivo apresentar a importância da aplicação de perfis geo-ambientais para interpretação de determinado espaço geográfico, aqui exemplificado através de sua utilização em algumas áreas do município de Rio Claro.

3-Procedimentos adotados

 

3.1- Revisão de trabalhos já realizados sobre perfis  geo-ambientais

 

Alguns pesquisadores utilizaram essa técnica obtendo resultados bastante satisfatórios, como é o caso do estudo de Troppmair (1971) que elaborou o Perfil Fitoecológico do Estado de Sergipe, aplicando-o em geobiocenoses terrestres cartografando elementos fisiográficos e biológicos tais como solos, rios, vegetação, precipitação pluvial, umidade e duração da seca. Outro perfil elaborado foi o Perfil Fitoecológico do Estado do Paraná por Troppmair(1990) no qual caracterizou as grandes unidades paisagísticas ou compartimentações geomorfológicas do Estado do Paraná, integrante da Região Sul e do Planalto meridional. Foram levantados os seguintes componentes: topografia, regiões geográficas, localidades, distância percorrida, vegetação original, uso atual do solo e a distribuição espacial aliada aos processos ecológicos. Com a referida técnica, foi possível uma interpretação conjunta dos perfis traçados no norte, centro e sul do Estado, possibilitando a vizualização e a compreensão das paisagens regionais.

Viadana (1992) em tese de doutorado intitulada Perfis ictiobiogeográficos da bacia do rio Corumbataí (SP) também utilizou a mesma técnica para compreensão da distribuição da ictiofauna e da variabilidade íctia horizontal, influenciada por fatores fisiográficos, físico-químicos, biológicos e pelas ações antrópicas nessa bacia hidrográfica. Foram cartografados alguns elementos tais como gradiente, extensão, largura, profundidade, padronagem, soleira, fundo, temperatura, pH, transparência, uso das margens, impactos e número de espécies de peixes.

Levighin (2002) em dissertação de mestrado intitulada A aplicação dos perfis geo-ambientais em setores da cidade de Rio Claro (SP) utilizou essa técnica para descrição e análise desse ecossistema, a fim de oferecer um diagnóstico e prognóstico da localidade pesquisada. O perfil foi composto pelos seguintes geo-elementos: topografia, geologia, solo, precipitação, uso e ocupação do solo, representados por transectos, que através da leitura horizontal possibilita se observar a distribuição espacial de cada elemento e com a leitura vertical pode-se realizar uma interpretação parcial e global desse espaço geográfico.

Esses trabalhos foram de grande importância e muito contribuíram para o desenvolvimento dessa técnica de análise que é uma ferramenta eficaz para se poder estudar o meio ambiente de maneira integrada, justapondo-se num mesmo gráfico elementos físicos naturais e elementos antrópicos.

 

3.2- Elaboração do Perfil Geo-Ambiental

 

Com base nesses trabalhos, foi desenvolvida a técnica de perfil geo-ambiental, aplicada em setor meridional do município de Rio Claro-SP (Fig 1).

 

 Figura1

 

Primeiramente foi traçada uma determinada distância no sentido transversal ao curso do rio, acompanhando as coordenadas UTM. A partir desse trajeto foi possível, a partir da variação da paisagem, a delimitação em zonas fisiográficas.

A escolha pela escala local possibilitou uma descrição e análise geo-ambiental mais detalhada da área estudada, apropriada para realização da síntese geográfica. Estabelecidas essas condições, foram levantados os materiais cartográficos composto por carta topográfica e geológica na escala de 1: 20.000 (COTTAS, 1983); carta pedológica de 1:100.000 (Quadrícula São Carlos SF.23-Y-A-I); dados de precipitação pluvial coletados do Atlas Climático de Rio Claro elaborado no Departamento de Geografia do IGCE da UNESP (Campus de Rio Claro). Em trabalho de campo foram levantados os dados de uso e ocupação do solo e registro fotográfico. Foi necessária uma adequação da escala da carta pedológica de 1:100.000 para escala de 1:20.000, resultando  na generalização das diferentes classes de solos. O uso e ocupação do solo serviram como parâmetro para se estabelecer as unidades fisiográficas.

As informações coletadas foram representadas em transectos para composição do perfil, nos quais foram tratados no Software AUTOCAD. Para cada geo-elemento pesquisado: topografia, geologia, solo, precipitação, uso e ocupação do solo foram elaborados transectos e distribuídos seqüencialmente, pois através da leitura horizontal permite se observar a distribuição espacial de cada um deles e com a leitura vertical pode-se realizar uma interpretação parcial e global desse espaço geográfico.

O perfil está localizado entre as coordenadas UTM de 233 a 241 e 7.514 a 7.515 no sentido W-E, envolvendo o setor meridional da cidade de Rio Claro e parte do município de Santa Gertrudes. A partir do trajeto percorrido foi possível delimitar três unidades fisiográficas, que são: a rural/urbana, urbana e reflorestamento/rural .

 
4- Interpretação do Perfil Geo-Ambiental

 

A área abrangida pelo perfil é ocupada predominantemente pelo cultivo da cana-de-açúcar e por atividade ceramista, sendo de menor expressão as manchas urbanas e de reflorestamentos.

 

4.1- A unidade fisiográfica rural/urbana

 

A primeira unidade fisiográfica observada foi a rural/urbana, assim denominada devido à presença de bairros periféricos entremeados pelo cultivo de cana-de-açúcar. A topografia deste setor é de 540 a 570 m de altitude, formada por terrenos levemente ondulados e drenados pelas bacias hidrográficas do rio Corumbataí e do Ribeirão Claro, apresentando um interflúvio suavemente convexo, no qual se localiza a periferia urbana.

A várzea do rio Corumbataí se apresenta ampla e coberta por sedimentos aluviais constituída por solos hidromorfos juntamente com o podzólico vermelho/amarelo assentados sobre a Formação Corumbataí e em direção ao divisor d’água com pequena ondulação e maior altitude encontra-se o latossolo vermelho-amarelo sobre a Formação Rio Claro. 

Ainda nessa unidade, encontra-se encaixada sobre a Formação Corumbataí, a bacia do Ribeirão Claro, com pequenos vales de fundo côncavo, entulhados por sedimentos aluviais recentes da Formação Rio Claro, Corumbataí e intrusivas básicas. Os solos que cobrem esses setores são respectivamente o latossolo vermelho-amarelo, o podzólico vermelho-amarelo e o latossolo roxo. Nesta área a precipitação pluvial média anual é de 1.420 a 1.500 mm, onde esses valores diferem de acordo com o uso e ocupação do solo, nos quais se observa o desmatamento ciliar para ocupação por pastos (Foto 1), construção de casas e cultivo de cana-

de-açúcar. A ausência de cobertura vegetal, a construção de casas e outros fatores altera a temperatura e precipitação pluvial gerando um microclima local.

 

Foto 1 - Várzea do Rio Corumbataí ocupada por pasto e desmatamento ciliar

 

 

Vale ressaltar que o espaço organizado pelo homem torna o ambiente frágil e suscetível a intensos impactos ambientais. Principalmente verificado nesse setor, com a presença de bairros sem pavimentação, desprovido de cobertura vegetal, que com a lixiviação dos solos arenosos e argilosos desencadeiam processos erosivos.

As planícies aluviais acabam recebendo grande quantidade do escoamento superficial proveniente das áreas mais elevadas, onde se depositam os sedimentos e pela ausência da mata ciliar acabam provocando o desbarrancamento das margens que causam alteração da dinâmica fluvial. Essa mudança no curso hídrico provoca a subida do nível da água durante a estação chuvosa, inundando as várzeas ocupadas por cultivos e por pastagens para o gado, inclusive colocando em risco o tratamento de esgoto da ETE local (Foto 2).

 

Foto 2 - Estação de tratamento de esgoto (ETE) instalada na periferia urbana do município de Rio Claro

 

O rompimento de emissários provocados por processos erosivos contamina o lençol freático e os mananciais hídricos superficiais prejudicando a disponibilidade de água potável; causando doenças na população e nos animais terrestres e aquáticos, inclusive levando-os à morte. Uma prática bastante freqüente pela prefeitura é a canalização dos cursos fluviais, como foi feito no córrego da Servidão para evitar os riscos de inundação.

No que concerne à expansão urbana dessa área, a especulação imobiliária e a instalação de núcleos habitacionais determinam a localização da moradia para a população de baixa renda concentrando-se em áreas periféricas e de encosta, se enquadrando na lógica da apropriação da terra como mercadoria, demonstrando uma vez mais a segregação espacial.

Além disso, essas áreas são consideradas de risco, pois podem sofrer movimentos de massa, ocasionando o desabamento das casas. Igualmente impactante é a presença de esgoto clandestino e lixo (Foto 3) que poluem os corpos de água superficial e subterrâneo.

 

Foto 3 - Lixo próximo ao curso fluvial do Corumbataí

 

Nesta unidade há também o cultivo de cana-de-açúcar (Foto 4), que ocupa boa parte da várzea do Ribeirão Claro e do seu afluente, o córrego São Joaquim. A cana-de-açúcar é uma planta que se adapta ao tipo de solo da região e ao clima tropical, pois necessita de um período de estação chuvosa para seu crescimento e um período de restrição hídrica e térmica para seu amadurecimento, justificando sua ampla produção nessa região (SANTOS,1984).

 

Foto 4 - Cultivo de cana-de-açúcar nas adjacências da cidade de Rio Claro

 

Esta atividade econômica foi largamente desenvolvida e praticamente direcionou a organização do espaço ao longo de vários séculos, primeiramente no Nordeste do país e depois no Sudeste; através da sua produção em engenhos e usinas, destinadas à exportação. A agroindústria canavieira veio a se consolidar por meio do processo de concentração da produção industrial no estado de São Paulo e teve uma ampliação ainda maior com a crise do petróleo na década de 1970, com a produção do álcool como alternativa de combustível.

Apesar da importância econômica que essa atividade representa para a região, Troppmair; Prochnow (1975, p.2), em estudo sobre o poluição hídrica no quadrilátero do açúcar constataram que:

A bacia de Piracicaba enfrenta hoje graves problemas de poluição ambiental, pois o rio que lhe dá o nome e alguns de seus afluentes apresentam-se, na maior parte do ano, na área de concentração de usinas açucareiras, espumantes, mal cheirosos, de coloração escura, com inúmeros detritos sobrenadantes, devido às toneladas de resíduos industriais e domésticos nelas lançados. Tal situação transforma as águas num meio hostil à vida dos peixes.

Essas usinas, portanto, geram profundos impactos nos cursos fluviais e a lavoura da cana-de-açúcar promove o desmatamento ciliar, polui os corpos d’água subterrâneos com a infiltração de agrotóxicos no lençol freático (Foto 5). Ainda observa-se com a queima de cana-de-açúcar para colheita, a alteração do solo e consequente empobrecimento de seus nutrientes, realizando-se a correção posterior através da adubação química.

 

Foto 5 - Desmatamento ciliar do Ribeirão Claro

 

A queimada da cana-de-açúcar também causa poluição atmosférica e a emissão de fuligens no ar ocasiona sérios problemas respiratórios para a população. Esses impactos poderiam ser amenizados se fosse realizada a adubação orgânica em substituição da química e a colheita fosse mecanizada.

Nessa unidade também foi observado o represamento do curso fluvial para instalação de um pequeno pesqueiro, servindo de alternativa de lazer para a comunidade da cidade e da região. Os impactos revelados nessa análise justificam o fato das águas do rio Corumbataí e Ribeirão Claro ficarem comprometidas para abastecimento da população urbana do município e principalmente para as cidades vizinhas, pois a intensificação das atividades açucareiras torna a água ainda mais poluída e barrenta. Portanto a interpretação desta primeira unidade do perfil permitiu a conjugação de diversos fatores, estabelecendo um conhecimento integrado das atividades econômicas aos problemas geo-ambientais que afetam a área propiciando uma visão global dos problemas de abastecimento urbano enfrentados por Rio Claro e região.

 

4.2- A unidade fisiográfica urbana

 

A segunda unidade fisiográfica delimitada foi a urbana com topografia de 570 m de altitude, com terrenos planos e ocupada por parte da bacia hidrográfica do Ribeirão Claro, que possui pequenos vales de fundo côncavo, cobertos por sedimentos aluviais da Formação Corumbataí e das intrusivas básicas, com a presença do latossolo roxo e o podzólico-vermelho amarelo.

No que tange a precipitação pluvial, o perfil indica uma curva entre 1.480 a 1.500 mm anuais, estando condicionada a atividade cerâmica, ao cultivo de cana-de-açúcar e pela ocupação urbana que provocam a formação de um microclima local. Verifica-se, portanto, que as diferenças de temperatura e precipitação pluvial entre as áreas centrais, periféricas urbanizadas e rurais adjacentes decorrem da variação do uso do solo e das funções específicas que nelas se desenvolvem.

Essa área envolve o município de Santa Gertrudes e apresenta intensa ocupação das várzeas, planura dos terrenos e impermeabilização do solo provocando em época das cheias, a formação de bolsões de água nos vales existentes na cidade. Como conseqüência, os grandes volumes de chuvas comprometem a qualidade da água da referida cidade e também regional, pois acabam carreando para os cursos hídricos sedimentos oriundos das atividades ceramistas, os agrotóxicos e resíduos químicos utilizados na lavoura de cana-de-açúcar.

A presença de argila nos solos das várzeas do Ribeirão Claro, constituído pelo podzólico vermelho-amarelo no Município de Santa Gertrudes, intensifica ainda mais as atividades ligadas a sua extração para produção de telhas, tijolos, pisos e revestimentos          (Foto 6). 

 

Foto 6 - Vista parcial do Município de Santa Gertrudes

 

Essa atividade econômica é de grande importância para região, composta pelos municípios de Rio Claro, Santa Gertrudes, Limeira, Araras e Cordeirópolis. No entanto, a mesma causa profundos impactos ambientais relacionados à alteração do solo, da flora e dos cursos hídricos. O que demanda medidas e técnicas para recuperação das áreas de extração de argila e consequente preservação dos mananciais. As lavras de argila muitas vezes são abandonadas e quando recuperadas se limitam à recomposição do solo e cultivo da cana-de-açúcar, mas os resultados são pouco significativos diante dos impactos causados. Portanto o uso do solo deve estar atrelado ao planejamento, com medidas preventivas para que se respeite às condições naturais de determinado espaço sem prejuízo ambiental e muito menos social.

Revela-se, portanto, que o meio físico e as ações antrópicas se inter-relacionam de forma contraditória, onde o homem apropria-se da natureza para satisfação de suas necessidades e por conseqüência a altera, prejudicando a si mesmo.

 

4.3-A unidade fisiográfica reflorestamento/rural

 

A terceira unidade fisiográfica observada foi a do reflorestamento/rural com topografia entre 580 e 600 m de altitude que se caracteriza por terrenos planos, com podzólico vermelho-amarelo da Formação Corumbataí.

Neste setor há um microclima condicionado pelo reflorestamento, atividade cerâmica e pela lavoura da cana-de-açúcar. Indicados pela curva da precipitação pluvial do perfil, os valores entre 1.460 a 1.480 mm mostram que os índices dessa unidade se diferenciam dos demais, devido à variação dos usos do solo e das condições naturais dessa localidade.

As áreas com cobertura vegetal, como a de reflorestamentos, são responsáveis por amplitudes térmicas menores, pois o seu interior age como estufa não permitindo que a radiação incida diretamente no solo, como ocorre em áreas sem vegetação. No caso da cana-de-açúcar, ainda que a mesma não permita que os raios solares incidam diretamente sobre o solo, essa cobertura vegetal não produz os mesmos efeitos na temperatura quanto às áreas reflorestadas e de mata nativa.

Quanto aos impactos provocados por essas coberturas vegetais, no setor de reflorestamento, estes são menos expressivos, sendo pertinente citar a pesquisa de Pereira (1994) sobre a influência de três diferentes coberturas vegetais sobre o processo erosivo. Foi constatado que os sítios de eucaliptos mais velhos mostram o mesmo comportamento que a mata nativa, ou seja, colaboram para que o solo tenha maior humificação e matéria orgânica, gerando estabilidade no mesmo e menor ocorrência de erosão. Já nos sítios de eucaliptos mais jovens, devido ao tipo de manejo e baixa taxa de matéria orgânica, há maior ocorrência dos processos erosivos.

A atividade cerâmica e o cultivo de cana-de-açúcar são importantes para vida econômica regional, mas os impactos ambientais são muito expressivos, pois comprometem a qualidade da água com a contaminação dos cursos hídricos pela percolação dos agrotóxicos e resíduos químicos da lavoura de cana-de-açúcar, somados ao carreamento de sedimentos oriundos da atividade cerâmica, também ocasionando a alteração edáfica e consequente mudança da flora.

Mais uma vez é importante ressaltar que a degradação da natureza ocorre em função das atividades econômicas realizadas sem o devido planejamento e pela ânsia de resultados lucrativos imediatos. Soma-se a isso a carência de pesquisas que trate sobre caminhos alternativos e técnicas para se fazer o uso racional desses recursos naturais, inclusive em relação à recuperação das áreas exploradas, que se estiverem vinculadas a princípios de preservação, não causarão danos futuros para homem e ao meio ambiente.

 

5-Considerações finais

 

Este trabalho teve por objetivo enfatizar a importância de perfis geo-ambientais para interpretação de um determinado espaço geográfico e ressaltar a sua relevância para o planejamento territorial-ambiental. Através da leitura do perfil é possível a análise integrada dos atributos da paisagem e dos seus condicionantes, permitindo apontar caminhos para amenizar problemas ambientais dessas áreas.

Na área analisada a ocupação das encostas e várzeas pela população local provoca a remoção da cobertura vegetal e os solos expostos sofrem processos erosivos, surgindo voçorocas, assoreamento dos rios e inundação das várzeas na época das cheias. Para amenizar essa alteração ambiental, a recomposição ciliar é bastante eficaz e o caminho de menor custo para recuperação dos recursos hídricos, obtendo-se os seguintes benefícios: garantia da vazão contínua da água ao longo do rio; filtro natural para o escoamento de agrotóxicos; constitui uma barreira para o carreamento dos sedimentos evitando seu assoreamento e protege a ictiofauna local.

A retirada da cobertura vegetal seja para a construção de casas ou para plantação de cana-de-açúcar, altera a temperatura, a precipitação e a velocidade dos ventos. Portanto é interessante que haja maior planejamento para evitar conseqüências negativas ao meio ambiente.  Os espaços arborizados ajudam a regular a temperatura local promovendo maior absorção das águas pluviais e tornam os ventos mais brandos. A queimada de cana-de-açúcar para colheita deve ser substituída pela mecanizada, evitando assim a poluição atmosférica que causa sérios problemas de saúde para a população. A fiscalização deve ser prevista no que se refere a essa questão e também para a deposição de lixo em áreas proibidas e lançamentos de efluentes industriais. Um serviço de denúncia deve estar disponível a fim de conseguir resultados eficazes e que contribua para a melhoria na qualidade de vida da população.

A atividade ceramista tem transformado profundamente a paisagem local, poluído os corpos de água superficial e subterrâneo, provocando a alteração edáfica e consequente mudança da flora. Para reverter a situação é necessário inovações tecnológicas para o setor de produção de pisos e revestimentos cerâmicos, maior controle pelas autoridades locais quanto às atividades de extração de argila, além de meios de recuperação eficientes para as cavas de argilas já utilizadas. Mais uma vez é importante ressaltar que a degradação da natureza e a extinção da flora e fauna local ocorrem em função das atividades econômicas realizadas sem o devido planejamento.

A questão ambiental, portanto, é uma responsabilidade de todos e o geógrafo como profissional atuante e que possui compreensão do espaço geográfico, deve auxiliar para recuperação e conservação do meio ambiente, podendo atuar no planejamento territorial-ambiental.

 

 

6- Referências bibliográficas

 

COTTAS, L. R. Estudos Geológico-Geotécnicos aplicados ao Planejamento Urbano de Rio Claro – SP. 1983. 171f. Tese (Doutorado em Geologia Geral e de Aplicação): Universidade de São Paulo, São Paulo, 1983.

 

LEVIGHIN, S. C. A aplicação dos perfis geo-ambientais em setores da cidade de Rio Claro (SP). 2002. 94f. Dissertação (Mestrado em Geografia) Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2002.

 

PEREIRA, L. A. Caracterização micromorfológica do processo erosivo em três diferentes coberturas vegetais - Rio Claro – SP. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ANÁLISE AMBIENTAL, 1., Rio Claro, 1994. Resumos... Rio Claro: UNESP, 1994. p.75-76.

 

ROSS, J. L. S. Geomorfologia: ambiente e planejamento. São Paulo: Contexto, 2000. 85 p.

 

ROSS, J. L. S; DEL PRETTE, M. E. Recursos hídricos e as bacias hidrográficas: âncoras do planejamento e gestão ambiental. Revista do Departamento de Geografia, São Paulo, n.12, p.89-121, 1998.

 

SANTOS, M. J. Z. Gênese das chuvas e variação quantitativa da pluviosidade em áreas canavieiras. Geografia, Rio Claro, v. 9, n. 17-18, p. 155-186, out. 1984.

 

TROPPMAIR, H. Perfil Ecológico e Fitogeográfico do Estado de Sergipe. Biogeografia, São Paulo, n. 2, p. 01-18, 1971.

 

______ Perfil Fitoecológico do Estado do Paraná. Boletim de Geografia, Maringá, v. 8, n. 1, p. 67-82, 1990.

 

TROPPMAIR, H.; PROCHNOW, M.C.R. Considerações sobre a poluição hídrica no Quadrilátero do açúcar (SP). Biogeografia, São Paulo, n.11, p.1-18, 1975.

 

VIADANA, A. G. Perfis Ictiobiogeográficos da Bacia do Rio Corumbataí – SP. 1992.               174 f. Tese (Doutorado em Geografia) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.