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E3-3.3T083

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

ECOTURISMO: O PLANEJAMENTO E A INTERAÇÃO ENTRE AS QUESTÕES AMBIENTAIS E ECONÔMICAS – O CASO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

 

 

Sueli Mauricio Leal Filha

 

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro






Palavras-chave: Ecoturismo - meio ambiente – gestão

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.3: Gestão e planejamento Ambiental





 

 

Introdução

 

O papel que o Estado do Rio de Janeiro cumpre no desenvolvimento das atividades turísticas no Brasil, nos remete a um estudo sobre o ecoturismo, onde percebe-se claramente que o desenvolvimento de tais atividades não são devidamente planejadas pelo poder público e iniciativa privada, no sentido de se aproveitar todo o potencial que o território fluminense oferece para o turismo.

Apesar de pequeno em suas dimensões territoriais, o Estado do Rio de Janeiro é bastante rico em belas paisagens naturais, o que nos conduz a necessidade de melhor planejar o incremento das atividades turísticas, que poderiam estar trazendo benefícios ainda maiores para o território, no que diz respeito à geração de recursos financeiros.

Essas belas e diversificadas paisagens naturais favorecem especialmente o desenvolvimento do que, em época recente, começou a ser chamado de Ecoturismo; a modalidade de turismo que mais cresce atualmente e que norteou a produção deste trabalho. A análise do crescimento e da participação da “indústria” do Ecoturismo, do seu grande potencial para a geração de benefícios de ordem social e financeira, bem como as situações de risco e os impactos no espaço provocados pelo manejo inadequado desta atividade, constituem os propósitos deste trabalho. Atenção especial foi destinada, também, a importância da Educação Ambiental como um dos principais instrumentos de viabilização do chamado “desenvolvimento sustentável” das atividades ecoturísticas, destacando-se ainda, o papel da participação local neste processo. Procura-se evidenciar, nesse sentido, que sem a devida valorização da Educação Ambiental junto a todos os agentes envolvidos com o Ecoturismo (sociedade, ecoturistas e organizadores) esta atividade tende a beneficiar a poucos e, até mesmo a acelerar a degradação de ambientes naturais e descaracterizar ou mesmo eliminar culturas e tradições nas áreas em que a mesma se desenvolve.

 

Os riscos da atividade ecoturística e os seus impactos no espaço

 

O grande crescimento da popularidade dos documentários televisivos sobre natureza e o aumento de interesse acerca das questões ligadas à conservação e ao meio-ambiente se transformaram, nas últimas décadas do século XX, em fatores fundamentais para o desenvolvimento do ecoturismo. As facilidades geradas pelo desenvolvimento dos meios  e vias de transporte, em especial no que tange as viagens aéreas, deram ao fenômeno uma dimensão global.

Os riscos crescem à medida que as atividades ecoturísticas passam a ser manejadas de maneira inadequada; quando a contemplação e o contato direto com a natureza se transformam num verdadeiro modismo e a partir do momento em que se aumentam as facilidades de deslocamento até os espaços de natureza ainda preservada, cada vez mais tratada como uma mercadoria, dentro de uma lógica capitalista.

Turistas descomprometidos com a preservação e mal orientados, ao circularem por um ambiente natural, principalmente quando em grande número e por  um longo período de tempo, produzem todo o tipo de problema, entre os quais é possível destacar:

-remoção de espécies da flora, como se as mesmas fossem um “souvenir”;

-descarga de inúmeros elementos estranhos ao ambiente, como todo o tipo de lixo sólido, inclusive aqueles que não são biodegradáveis;

-perturbação dos animais gerada pelo excesso de barulho (alguns animais também ficam sujeitos a uma série de doenças quando alimentados inadvertidamente pelos turistas);

-desapropriação dos povos nativos e destruição dos seus valores culturais.

Entretanto, políticas oficiais de caráter multidisciplinar podem ser desenvolvidas no sentido de planejar o incremento do ecoturismo e minimizar bastante esses riscos ou mesmo elimina-los. Para tanto, é necessário que os Estados e a iniciativa privada disponibilizem mais recursos para a formação de profissionais qualificados. Nesse sentido, a valorização da educação ambiental torna-se um instrumento de enorme poder para que o ecoturismo possa gerar um desenvolvimento sustentável.

Nota-se claramente, a “venda” de determinados produtos (paisagens naturais) à consumidores que muitas vezes, estão dispostos a pagar o preço que lhes é apresentado, para se embrenhar numa forma de lazer que combina descanso, conhecimento, natureza e qualidade de vida.

É portanto, a partir da intercessão de dois grupos específicos, que o ecoturismo vem se estruturando. Um deles é constituído pelos ambientalistas que pregam a necessidade de manejo mais racional dos recursos naturais, em função do crescimento do turismo de massa, que consideravam fontes potenciais de danos e devastação ao meio ambiente.

O outro grupo responsável pela estruturação do ecoturismo, compõe-se daqueles que buscam novos atrativos econômicos para um mercado em crescimento, ou seja, aqueles que vinculam-se a uma lógica de mercado, procurando consolidar lucros mediante uma clientela específica.

 

O ecoturismo como alternativa econômica: o caso do Rio de Janeiro

 

Para muitos países ou regiões que possuem amplos espaços naturais preservados, o ecoturismo se apresenta como uma excelente alternativa de movimentação de capitais e inclusão de pessoas no mercado de trabalho, de tal modo a possibilitar progresso sócio-econômico e a própria preservação sustentável do ambiente natural. No Brasil, por exemplo, existem várias regiões que se enquadram neste caso e que poderiam ser bastante beneficiadas com uma política oficial de fomento ao ecoturismo.

Nesse sentido, o Estado do Rio de Janeiro possui um grande potencial ecoturístico. Apesar da degradação ambiental atingir níveis alarmantes em algumas áreas do Estado, ainda resta uma extensão representativa de espaços com condições ambientais pouco alteradas pela ação antrópica, principalmente no interior de parques e reservas naturais.Em algumas áreas, as condições de relevo bastante acidentado, inibiram em parte a ocupação humana e acabaram possibilitando a preservação de um significativo trecho de vegetação nativa.

Há que se considerar também, a existência de algumas áreas que não integram parques ou reservas florestais, onde as condições naturais ainda estão razoavelmente preservadas. Nestas áreas o fomento sustentável ao ecoturismo poderia gerar condições necessárias a sua preservação, criando empregos para a população local que, muitas vezes sem perspectivas de renda, vêem na exploração inadequada os recursos naturais a única alternativa de sobrevivência.

Torna-se evidente que o ecoturismo encontra condições naturais bastante propícias para se desenvolver no Estado do Rio de Janeiro, de modo a gerar inúmeros benefícios sociais e econômicos. Entretanto, a falta de uma política mais efetiva de planejamento das atividades ecoturísticas vêm comprometendo sobremaneira o alcance desses benefícios. Na maioria das vezes, al ações de incremento do “consumo” das paisagens naturais no Estado, partem de uma despreparada iniciativa privada (agências de turismo e hotéis, entre outros), que assim contribui decisivamente com a degradação dessas paisagens e a expropriação dos povos nativos. Desta forma muitas paisagens naturais ficam sujeitas ao processo de turistificação, onde num primeiro momento há a “descoberta”  do lugar turístico seguida do “consumo” da paisagem turística pelos segmentos mais favorecidos da sociedade, a partir da divulgação do lugar turístico pela mídia e do estabelecimento de alguma infra-estrutura. Segue-se a isso, a massificação do lugar turístico, com acelerada degradação da paisagem natural e dos valores culturais do lugar. E por fim, há a estagnação do desenvolvimento turístico, com um possível “consumo” da paisagem natural degradada por parte dos segmentos menos favorecidos da sociedade.

Apesar das condições naturais favoráveis, as atividades ecoturísticas no Estado do Rio de Janeiro são bastante prejudicadas e manejadas inadequadamente pela falta de um melhor suporte do poder público, seja na esfera estadual ou municipal. Isso fica evidente, por exemplo, quando lembramos dos baixos investimentos oficiais em educação ambiental, tanto voltada para os ecoturistas, quanto para as populações residentes nas áreas de potencial ecoturístico. Verifica-se que muitos ecoturistas “consomem”  as paisagens naturais sem o menor preparo e respeito às condições ambientais e aos valores culturais locais, assim como grande parte da população que reside em lugar de potencial ecoturístico não possui, na  maioria das vezes, qualquer preparo e/ou orientação para se mobilizarem no sentido de atuar em prol da realização sustentável das práticas ecoturísticas.

 

Conclusões

 

É importante a constituição de novos paradigmas necessários à manutenção  da  relação do homem com o meio natural, pois percebe-se que o modelo de desenvolvimento que se instalou a parti da década de 50, cujo lema era o progresso a qualquer custo, não tem fundamento.

Mesmo que alguns continuem insistindo na idéia de que o desenvolvimento está acima de todas as coisas e que a poluição é o preço que se paga pelo progresso, a forma como ele se relaciona com a natureza terá que ser repensada.

Somente com a educação ambiental será possível restabelecer uma nova forma de relacionamento com a natureza e suas paisagens. É necessário olhar para elas com a consciência de que somos parte de tudo isso. O homem desenvolvimentista separou-se do contexto natural, colocando-se como senhor de todas as coisas e detentor da verdade e ditador de regras.

E por que envolver a população local? Parece pouco provável que práticas destrutivas, decorrentes do uso inadequado de recursos naturais, possam ser evitadas sem que se modifique a situação sócio-econômica das comunidades. A melhor maneira de fomentar a mudança é permitir que as comunidades contribuam para seu crescimento e desenvolvimento. No contexto do turismo, há uma grande chance de que a falta de participação resulte em impacto social e econômico negativo. A indústria do turismo, mediante um projeto sensível de modalidades ecoturísticas, pode dar uma contribuição positiva para a conservação e o intercâmbio entre culturas. Prover o ecoturista com uma experiência estimulante e acomodações confortáveis, de baixo impacto ecológico, pode ser meta realizável para o operador do ecoturismo. E, além disso, os beneficiários não são apenas o ecoturista e o operador do turismo ecológico, mas também a população local, quando devidamente inserida no processo.

 

 

Bibliografia:

 

Lindemberg, Kreg; Hawins, Donald E. Ecoturismo, um guia para planejamento e gestão. SP, ED. Senac, 1995.

 

Lima, Luiz Cruz (org). Da cidade ao campo: a diversidade do saber-fazer turístico. Fortaleza: UECE, 1998.

 

Souza, Camélia Anna Amaral – Ecoturismo e envolvimento comunitário. UFBA, Salvador – BA, 1998.

 

Gomes, Patrício Melo. (Eco)Turismo: uma (re)leitura dos discursos e práticas. IBAMA, Brasília-DF.