Voltar à Página da AGB-Nacional


 

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO APLICADOS AO ZONEAMENTO

 AMBIENTAL  DO PARQUE ESTADUAL DO IBITIPOCA E ARREDORES, MG

 

 

 

Geraldo César Rocha / UFJF / geraldo@ichl.ufjf.br

Sebastião de Oliveira Meneses / UFJF / somenez@ichl.ufjf.br

Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus

 

 

 

Palavras-chave: Zoneamento ambiental; Ibitipoca; Meio físico
Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

 

 

1.INTRODUÇÃO

 

Esta pesquisa mostra os resultados do projeto Cartografia e Geoprocessamento Aplicados ao Zoneamento Ambiental do Parque Estadual do Ibitipoca e Arredores, MG. O trabalho foi desenvolvido visando a caracterização, entendimento e inter-relacionamento dos fatores ambientais do meio físico, os quais, sendo variados e complexos, foram abordados e inseridos em sistemas digitais poderosos que  permitiram sua cartografia, cruzamento de informações e armazenamento em banco de dados. Enfatizou-se a abordagem cartográfica sobre riscos e fragilidade ambientais. A  escala adotada foi 1:50.000, em uma área total de 14.000 hectares. A abordagem ambiental sistêmica da área em estudo, incluindo a caracterização e mapeamento do meio biótico (flora e fauna), assim como do meio sócio-econômico, não foi objetivo dessa pesquisa. Sugere-se o desenvolvimento dessas pesquisas, pois só assim será possível se pensar em um Plano de Manejo para a área do parque em si, como também um Plano de Gestão Integrada dos Arredores do mesmo, visando o desenvolvimento sustentável daquela região, a qual já se encontra altamente impactada pelo turismo predador e ausência de  políticas comunitárias que levem em conta a extrema fragilidade ambiental daquela área.

 

2.METODOLOGIA

 

A metodologia adotada para a pesquisa envolveu duas frentes de trabalho:

 

1.A aquisição de dados em campo e laboratório (cartografia), associada à compilação de mapas pré-existentes;

2. O geoprocessamento dos dados e obtenção de seus produtos.

 

O mapeamento de solos seguiu as normas de LEMOS e SANTOS (1996),  EMBRAPA (1989, 1997) e MAIGNIEN (1969). Foram amostrados e descritos 85 perfis de solos, totalizando 260 amostras para análises físicas, químicas e mineralógicas. Os trabalhos de campo, as descrições morfológicas e ambientais, assim como a interpretação dos resultados das análises permitiram a confecção do mapa de solos da área.

Os mapas de direção e intensidade de lineamentos estruturais,  vegetação original, hidrografia e  dados básicos original , assim como o parâmetro declividade e a litologia já foram publicados, estando disponíveis  em ROCHA et all (2000) e RAGAZZI (1999).

No ítem 2 procedeu-se à entrada do plano de informação solos em formato Tif no sistema de informação geográfica SAGA (Sistema da Avalilação GeoAmbiental / UFRJ). Os arquivos foram convertidos via sistema para Raster e georreferenciados em UTM, com resolução de 5 metros por pixel. Em seguida procedeu-se à vetorização das feições, gerando-se as categorias do mapa (legenda). Em seguida, o mapa foi processado em programa gráfico para apresentação. Para todos os mapas, foram feitas as assinaturas ambientais e/ou planimetrias. Partiu-se então para as avaliações ambientais, sendo que para a área total de trabalho (parque e arredores) foram feitas as seguintes:

Fragilidade geológica, direção/intensidade de lineamentos estruturais, risco à queda de blocos rochosos, fragilidade do meio físico e fragilidade pedológica. Foram selecionadas as avaliações de risco à queda de blocos rochosos, e fragilidade do meio físico, para apresentação nesse trabalho.

Maiores detalhes sobre essa metodologia podem ser encontrados em XAVIER-DA-SILVA (1991).

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Foram confeccionados o cartograma simples de solos e cartogramas complexos (avaliações ambientais) de risco à queda de blocos rochosos e fragilidade do meio físico, com suas respectivas planimetrias e assinaturas ambientais. O conjunto desses cartogramas, com os demais já publicados, é o banco digital de dados físicos da região estudada. Em seguida serão mostrados e discutidos esses cartogramas que englobam o parque e seus arredores, e o que representam em termos de importância para o zoneamento ambiental da área.

  

OS AMBIENTES PEDOLÓGICOS DA REGIÃO

 3.1.Cartograma de Solos

 

O mapeamento dos solos da região de Ibitipoca revelou grande diversidade pedológica na área. Entretanto, devido à escala de trabalho adotada, 1:50.000, não foi possível definir unidades de mapeamento simples para todas as feições pedológicas mapeadas. Assim, seguindo os critérios da EMBRAPA (1989), optou-se por utilizar unidades de mapeamento simples quando a mesma correspondia à uma única unidade taxonômica, e unidades de mapeamento combinadas (complexos de solos) quando correspondiam a mais de uma unidade taxonômica. Além disso, utilizou-se também o artifício das inclusões de solos, quando em uma unidade simples incluiu-se ocorrência de um outro solo que não ultrapassasse 20% de sua ocorrência em área. Na figura 1 encontra-se o cartograma de solos, onde pode-se observar que para a área foram definidas 9 unidades de mapeamento.

 


Figura1 - Unidades Pedológicas do Parque Estadual do Ibitipoca e arredores, MG

 

O ZONEAMENTO AMBIENTAL DA REGIÃO COM BASE NO MEIO FÍSICO

 

A área total do estudo, englobando o Parque do Ibitipoca e seus Arredores, foi mapeada em termos de seus atributos ambientais físicos. Esse mapeamento, representado pela somatória de seus planos individuais de informação, constitui importante banco digital de dados da área, o qual está sendo e deverá ser usado para trabalhos relativos à avaliação e gestão ambiental daquela área.

Foram desenvolvidas avaliações ambientais com base nos cartogramas de litologia , declividade , lineamentos e solos.

Como mencionado, foram feitas duas avaliações ambientais complexas: Riscos à Queda de Blocos Rochosos, e Zoneamento da Fragilidade Ambiental do Meio Físico.

 

3.2.  Riscos à Queda de Blocos Rochosos

 

A figura 2 mostra  a árvore de decisão para a avaliação ambiental complexa relativa aos Riscos à Queda de Blocos Rochosos do Parque e Arredores.

Com sistema de pesos (0 –100%) para os cartogramas e de notas  ( 0 – 10 ) para categoria e/ou legenda, foi dado início ao cruzamento dos planos de informação, tornando possível assim o caráter avaliativo do estudo.

O primeiro cruzamento foi realizado entre os cartogramas  de Declividade e Litologia, sendo que cada plano de informação recebeu peso de 50 e as seguintes notas a cada categoria e/ou legenda: as notas mais altas foram aplicadas para as unidades litológicas mais frágeis às ações intempéricas e as notas menores para áreas com maior resistência  as ações intempéricas. As notas mais altas foram atribuídas às maiores declividades e as mais baixas às menores declividades. Como produto desta primeira fase obteve-se o cartograma digital intitulado de Potencial de Risco à Queda de Blocos Rochosos.

 

Figura 2 – Árvore de decisão para a avaliação de queda de blocos rochosos

 

A segunda combinação contou com os cartogramas de Potencial de Risco à Queda, que recebeu peso 30 e Intensidade de Estruturas Lineares, que recebeu peso 70. As notas das classes do cartograma de Potencial à Risco se mantiveram. Já no cartograma de Intensidade de Estruturas Lineares as maiores notas foram  aplicadas às maiores concentrações de lineamentos estruturais e as menores foram aplicadas às áreas com menores concentrações de lineamentos estruturais, que foram as seguintes:

Após o procedimento desta segunda combinação, o sistema forneceu o produto digital georreferenciado que foi intitulado de Avaliação Preliminar de Risco à Queda de Blocos, com 10 classes de intensidade de risco, que em um segundo momento foram agrupadas, gerando um terceiro cartograma, o Mapa de Risco à Queda de Blocos Rochosos do P.E.I e Arredores, mostrado na figura 3,  com cinco níveis  de risco (altíssimo, alto, médio, baixo e baixíssimo).



Figura 3 - Risco de Queda de Blocos Rochosos

 

Observa-se a significativa fragilidade da região frente à movimentação de blocos rochosos, a qual apresenta em torno de 45% de sua área situada dentro dos níveis de alto e altíssimo risco. Somando-se a isso o percentual  de 41% das área de médio risco, chega-se ao impressionante valor de 86% da área situada em níveis preocupantes de risco (altíssimo, alto e médio riscos). Sem dúvida as áreas mais favoráveis à queda de blocos (altíssimo risco) situam-se dentro do próprio parque, ao longo de sua escarpa a leste, assim como a sudeste da região trabalhada, todas áreas de altas declividades, litologia quartzítica fraturada e solos frágeis. Esse zoneamento torna-se indispensável para o traçado das trilhas dentro do parque, as quais, infelizmente encontram-se atualmente sobre as áreas de maior risco. Boa parte do parque, assim como ao sul e sudeste dele, encontram-se áreas de alto risco às quedas de blocos. É interessante lembrar que nessa área, especificamente à sudeste da região, encontra-se o vilarejo de Mogol, o qual encontra-se totalmente sob alto e altíssimo risco, fato que se constitui em significativo problema ambiental para aquela comunidade.

 

3.3.  Zoneamento da Fragilidade Ambiental do Meio Físico da Região

 

Este ítem trata do zoneamento ambiental do meio físico da área trabalhada. Esse zoneamento foi definido com base nos planos de informação (ou cartogramas) confeccionados para esse fim, lembrando que, como já explicado, não foi utilizado o cartograma de vegetação, o qual está ainda sendo vetorizado.  Na figura 4 mostra-se a árvore de decisão integral para se chegar a esse zoneamento, observando-se que o plano de vegetação está incluído.

Na figura 5 mostra-se o Zoneamento da Fragilidade Ambiental do Meio Físico no Parque e Arredores. Para a confecção deste mapa, como mostra a árvore de decisão, foram utilizados os cartogramas de litologia, intensidade de lineamentos, solos e declividade. Deve-se lembrar que mapas intermediários como potencial geotécnico, potencial erosivo, fragilidades geológica e pedológica, foram confeccionados a partir desses mapas já citados, como resultado desses. O mapa final desse processo é o de zoneamento da fragilidade ambiental já citado. O sistema de notas e pesos aferidos levou em conta as maiores notas para maior número de estruturas no cartograma de Intensidade de Lineamentos Estruturais; maiores notas para maiores declividades (cartograma de declividades);  notas mais altas para rochas gnaissicas, notas médias para rochas quartzíticas, e menores notas para rochas xistosas ( cartograma de litologia). Para o cartograma de solos, foram utilizadas as notas observadas na tabela abaixo:

 

Cartograma de Solos:

 

-Peso: 50%

 

Categorias

Notas

Neossolo Litólico

9

Complexo Neossolo Litólico + Afloramento de Rocha

8

Complexo Gleissolo + Neossolo Flúvico

2

Complexo Latossolo + Cambissolo substrato Gnaisse

3

Cambissolo substrato Quartzito

7

Neossolo Quartzarênico

10

Complexo Neossolo Litólico + Cambissolo substrato Gnaisse

6

Afloramento de  Rocha

2

 

 Figura 4 - Árvore de Decisão/Zoneamento da Fragilidade do Meio Físico no Parque Estadual do Ibitipoca e Arredores, MG.



Figura 5 - Zoneamento da Fragilidade Ambiental do Meio Físico no Parque Estadual do Ibitipoca e Arredores, MG

 

Olhando-se o mapa pode se observar que uma representativa parte do parque, assim como de áreas situadas a sul e sudeste do mesmo apresentam as maiores fragilidades (alta e altíssima). Somando-se as categorias de altíssima, alta e média fragilidade do meio físico, chega-se a 80% da área trabalhada, fato que mostra claramente o alto grau de fragilidade ambiental de significativa parte da área, e não só do parque. Assim, planos e ações de gestão ambiental que venham a ser definidos para a região devem levar em conta essa fragilidade, a qual está mapeada e georreferenciada, o que permite espacializar toda e qualquer proposta de desenvolvimento para a região. Menção especial deve ser dada aos três distritos da região, a saber: Moreiras, a noroeste, situado em área de baixíssima a média fragilidade; Conceição do Ibitipoca, a oeste, localizado na interface entre as maiores e menores fragilidades, torna-se local preocupante, pois é o caminho até o parque, onde tem surgido grande número de pousadas e uso do solo em sítios geralmente impróprios; e Mogol, a sudeste, situado em área de altíssima e alta fragilidade, fato que, aliado à grande vulnerabilidade daquela comunidade, aponta para necessidade de ações imediatas de proteção ambiental.

 

 

4. BIBLIOGRAFIA

 

CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais). Aerofotografias em escala 1:30.000. Rio de Janeiro. PROSPEC S.A. 1986.

 

EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Normas e Critérios para Levantamentos Pedológicos. Serviço Nacional de Levantamento e Conservação de Solos. Rio de Janeiro. 1989.

 

EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (IV Aproximação). Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Rio de Janeiro. 1997.

 

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Folhas Topográficas Lima Duarte e Bias Fortes. Carta do Brasil . Escala 1:50.000. 1976.

 

MAIGNIEN, R. Manuel de Prospection Pédologique. Documentations Techniques n.11. ORSTOM. Paris. 1969.

 

RAGAZZI, E. J. Avaliação Ambiental por Geoprocessamento dos parâmetros de estruturas geológicas lineares do Parque Estadual do Ibitipoca, MG. Juiz de Fora, UFJF/Depto de Geociências. Monografia de Bacharelado. 1999.

 

ROCHA, G.C. Vulnerabilidade Geológica em um Parque Florestal do Sudeste do Brasil. Revista Eird. San Jose, Costa Rica. v.3. p.26-29. 2001.

 

ROCHA, G.C.; RAGAZZI, E.J. & ZAIDAN, R.T. Avaliação Ambiental por Geoprocessamento na definição de Areas de Fragilidade Geológica do Parque Estadual do Ibitipoca, MG. Anais do VI Congresso Brasileiro de Defesa do Meio Ambiente. cd rom. 2000.

 

ROCHA, G.C.; ZAIDAN, R.T.; MACIEL, D.M.G. & RAGAZZI, J.E. Base Cartográfica Pedológica do Parque Estadual do Ibitipoca, MG. GISBRASIL 2001 – Expotrade, Curitiba, 14 a 18 de maio de 2001. Disponível na página www.fatorgis.com.br.

 

ROCHA, G.C.; ZAIDAN, R.T.; MACIEL, D.M.G. & RAGAZZI, J.E. Zoneamento e Fragilidade Ambiental do Meio Físico na Região Sudeste  do BRASIL. IN: Livro de Resumos da III Mostra e Seminário de Extensão da UFRRJ. Seropédica, RJ. UFRRJ. 2000. P 57.

 

XAVIER-DA-SILVA, J. Geoprocessamento para Análise Ambiental. Curso de Especialização em Geoprocessamento. CEGEOP/UFRJ. Rio de Janeiro.1999. Mídia CD.

 

XAVIER-DA-SILVA, J. Geoprocessamento para análise ambiental. Rio de Janeiro (s.n.). 2001. 228p.

 

ZAIDAN, R.T. Zoneamento de Areas com Necessidade de Proteção Ambiental no Parque Estadual do Ibitipoca, MG. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Instituto de Florestas. Dissertação de mestrado. 2002. 204p.