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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

 

ANÁLISE GEOAMBIENTAL DO MUNICÍPIO DE MARACANAÚ, CE

 

 

 

Lutiane Queiroz de Almeida.

Bolsista CAPES. Mestrado Acadêmico em Geografia – UECE

e-mail: lutianealmeida@bol.com.br / lutianealmeida@zipmail.com.br

Marcos José Nogueira de Souza.

Prof. Dr. Mestrado Acadêmico em Geografia – UECE

e-mail: mestgeo@uece.br

 

 

Palavras-chave: Geossistemas; Análise Geoambiental; Zoneamento Geoambiental.

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.3: Gestão e Planejamento Ambiental





 

 

 

Atualmente, mesmo com a crescente formação de uma consciência ambiental em nossa sociedade e a implementação de leis e normas cada vez mais amplas e rígidas, são necessárias uma persistente educação e produção científica, com a finalidade de difundir valores e posturas diante da problemática ambiental.

O crescimento desordenado das cidades e a quase inexistência de planejamento da ocupação, vêm causando inúmeras mudanças ambientais, ocasionando uma situação de colapso do equilíbrio dinâmico do ambiente, como nas situações de erosão dos solos, poluição e assoreamento dos canais fluviais, aumento do desconforto térmico, poluição atmosférica, entre outros.

Nesse contexto, a análise geoambiental tem importância fundamental no que tange às questões de uso dos recursos naturais, tendo em vista a possibilidade de uma visão sistêmica e integrativa dos componentes do ambiente, bem como de suas inter-relações.

Fazendo parte da Região Metropolitana de Fortaleza – RMF, Maracanaú localiza-se entre as coordenadas geográficas 3°37’32” lat. S e 38º 37’35” long. W, com limites municipais correspondendo ao Norte com Fortaleza e Caucaia; ao Sul e Leste com Pacatuba, e a Oeste com Maranguape. Etimologicamente, “Maracanaú” é uma expressão tupi que significa “lugar onde bebem as maracanãs”, referindo-se à lagoa de mesmo nome, na qual se iniciou o povoamento naquela região. As araras maracanãs eram aves típicas e abundantes do local. Possui população atual de 174.549 habitantes, dos quais 99,52% habitam a zona urbana. A área do município corresponde a 82 km² (há uma área de litígio entre os municípios de Maracanaú e Fortaleza, e algumas fontes determinam que a área daquele município é de 98 km²). Até 1983, Maracanaú era distrito do município de Maranguape, emancipando-se em 04 de julho de 1983, e hoje possui a quarta maior população e o segundo município em arrecadação de ICMS do Estado.

Historicamente, até as décadas de 1940 e 50, a ocupação urbana era muito incipiente, e somente no fim da década de 1960, ocorre um fato que mudará por completo a feição espacial de Maracanaú: a implantação do Distrito Industrial de Fortaleza – DIF. Entretanto, a instalação das industrias se deu efetivamente a partir da década de 1980.

Nas proximidades do DIF, foram construídos grandes conjuntos habitacionais, que totalizaram mais de 20.000 residências, ocasionando um salto no número de habitantes e, conseqüentemente, no processo de expansão urbana: de 37.844 habitantes em 1980, para 157.150 em 1991 (SANTOS, 1998). Conjuntamente ao DIF e aos conjuntos habitacionais, a instalação da CEASA (Central de Abastecimento do Ceará S/A) em 1971, contribuiu para o aumento do fluxo de pessoas, de mercadorias, de capital, mudando por completo a estrutura espacial e sócio-econômica do município.

Nesse contexto, Maracanaú passou a sofrer um crescimento acelerado, causando muitas mudanças em sua paisagem, por não possuir planejamento eficaz da ocupação urbana, compatível com as aspirações de sua população e com os processos geoecológicos. Durante e após a implantação do DIF, a destinação e o tratamento dos efluentes e resíduos sólidos industriais foram (e são) negligenciados e a poluição atmosférica atingiu em 1996, níveis acima dos padrões estabelecidos pelo CONAMA (CEARÁ, 1998).

Na construção dos grandes conjuntos habitacionais, Almeida e Rossen (1993), detectaram que, apesar do DIF ter sido projetado para receber indústrias de alto teor poluente, constava no projeto a instalação de grandes conjuntos habitacionais no entorno e principalmente a oeste do DIF. Nesse caso, não se levou em conta que os conjuntos se encontravam na direção para a qual sopram os ventos que transportam os poluentes das indústrias, expandindo odores, material particulado e gases tóxicos por toda a área em questão.

Apesar de terem sido construídos com razoável infra-estrutura (sistema de água e esgotos, ruas calçamentadas, energia elétrica, transporte, etc.) os conjuntos habitacionais não possuíam um modelo de ocupação adequado às características do sistema ambiental local, ocupando os leitos dos principais rios e lagoas do município.

O repentino crescimento econômico gerou uma valorização do espaço do município, dando margem à especulação imobiliária; ao desmatamento para a criação de loteamentos; à autoconstrução; à valorização do material para construção, tanto ocasionando a abertura de lavras clandestinas de areia das margens e dos leitos dos rios e de olarias, quanto aumentando o índice de erosão com avanço das ravinas e assoreamento dos canais fluviais.

Esse processo de redefinição sócio-espacial porque passa Maracanaú, tende a intensificar-se, tendo em vista a implementação de grandes projetos governamentais e privados, previsto para a Região Metropolitana de Fortaleza e para Maracanaú. A duplicação das rodovias estaduais (CE 065 e 060) que cortam o município; o Metrofor (Metrô de Fortaleza); o pátio externo de carga da ferrovia que integrará o interior do estado ao Complexo Portuário do Pecém (localizado à oeste da RMF); o Anel da Rodovia Central, que contornará os arredores do Centro da cidade, facilitando o seu acesso; e o Maracanaú Shopping Center, são projetos que trarão mais mudanças ao já dinâmico espaço urbano desta cidade.

Desse modo, o problema científico desta pesquisa consiste em organizar instrumentos teórico-metodológicos para a realização da análise geoambiental, que servirá de fundamento principal para a elaboração de um esboço de Zoneamento Geoambiental, importante instrumento para o planejamento territorial do município de Maracanaú.

Baseado no que foi exposto estabeleceu-se como objetivo principal da pesquisa, analisar as unidades geoambientais do município de Maracanaú, CE, visando um esboço de zoneamento geoambiental para fins de planejamento territorial. Como objetivos específicos, serão considerados os seguintes aspectos: caracterizar o ambiente com base na Teoria Geossistêmica; apresentar as condições ecodinâmicas e as vulnerabilidades das unidades identificadas; contextualizar os fatores históricos que justificaram a ocupação do espaço de Maracanaú; diagnosticar as condições sócioambientais, referentes aos padrões de ocupação do solo, legislação ambiental pertinente, impactos ambientais e estado atual do contexto geoambiental, dentre outros; propor um esboço de zoneamento geoambiental do município a partir de critérios geossistêmicos; formular diretrizes para o disciplinamento de uso e ocupação do solo, bem como ao uso sustentável do ambiente em Maracanaú.

No que respeita à metodologia, os principais referenciais teóricos da pesquisa serão a abordagem sistêmica e a visão holística, visto que sua aplicação possibilitará uma abordagem integrada dos processos sócio-econômicos e ecológicos na análise ambiental a nível geossistêmico, visto que tal problemática, por possuir caráter interdisciplinar, dispensa tratamentos setoriais.

O enfoque sistêmico destaca as relações de interdependência entre os componentes do ambiente, e o enfoque holístico ressalta a integração dos fatores e processos que formam o sistema ambiental (SILVA, 1987 apud SOUZA, 2000).

Os níveis da abordagem geossistêmica são divididos em três etapas: analítica: realização do diagnóstico geoambiental em função dos seus aspectos geoecológicos e socioeconômicos; sintética: caracterização dos sistemas de uso e ocupação do solo; dialética: confrontação das potencialidades e limitações das unidades ambientais, com as organizações estabelecidas pela sociedade e os problemas resultantes da ocupação e apropriação dos recursos naturais, em vista na realização de um esboço de zoneamento geoambiental (NIMER, 1986 e SILVA, 1987 apud SOUZA 2000).

Quanto aos procedimentos técnico-metodológicos, a abordagem sistêmica e a visão holística serão base para a linha teórico-metodológica a ser utilizada, tendo em vista que tais pressupostos são importantes por proporcionarem a realização de estudos ambientais integrados.

A análise geoambiental integrada se faz necessária no sentido de examinar, com detalhes, os principais atributos geoecológicos (geologia, geomorfologia, hidrologia, clima, solos e vegetação), conduzindo à delimitação e à caracterização das unidades geossistêmicas.

Para sintetizar as informações obtidas na análise geoambiental, propõe-se um esboço de zoneamento geoambiental, visando o ordenamento territorial, em face da capacidade de suporte das unidades homogêneas, estabelecidas conforme a análise integrada da paisagem (SEMA, 1988).

Para a determinação das unidades de paisagem (geossistemas/geofácies), utilizar-se-á como fator básico de integração os critérios geomorfológicos, tendo em vista seu grau de equilíbrio e a maior facilidade de identificação, delimitação e interpretação dos compartimentos de relevo e os processos do modelado, que condicionam a integração das unidades ambientais.

A Ecodinâmica das unidades de paisagem (geossistemas/geofácies), será determinada a partir das propostas de Tricart (1977) adaptados por Souza (SEPLAN, 1994).

 

Material e Sistemática Operacional - Etapas de trabalho

 

Trabalhos de escritório: a) Levantamentos Bibliográficos e Documentais e seleção e análise da cartografia básica e temática; b) Seleção e análise dos dados das imagens de sensoriamento remoto para elaboração dos estudos temáticos e composição do material geocartográfico básico e os derivados (mapas temáticos) em escala 1 : 50 000 (overlay’s); interpretação visual das imagens orbitais para confecção dos overlay’s temáticos e conversão dos overlay’s para digital através da vetorização; c) Análise conjunta da evolução e da estrutura de uso e ocupação do solo; d) Caracterização das Unidades Ambientais (Geossistemas): definição dos aspectos geológicos, geomorfológicos, hidro-climáticos, condições edáficas, biodiversidade e evolução geoambiental, bem como a compartimentação geoambiental; e) Zoneamento das Unidades Ambientais: elaboração de material geo-cartográfico ou mapeamento básico e temático em escala 1 : 50 000;

f) Formulação de diretrizes para o disciplinamento de uso e ocupação do solo, bem como ao uso sustentável do ambiente de Maracanaú.

Trabalhos de laboratório: análise das formações superficiais, pedológicas, qualidade da água, identificação de espécies vegetais; elaboração de mapeamento (básico e temático) no laboratório de informática;

Trabalhos de campo: após a interpretação preliminar dos produtos de sensoriamento remoto e a confecção dos overlay’s, serão traçados percursos para reconhecimento da verdade terrestre.

 

 

Referências Bibliográficas

 

-ALMEIDA, M. G.; ROSEN, T.J. Desenvolvimento urbano e a questão ambiental no Estado do Ceará. In: FÓRUM DA SOCIEDADE CIVIL CEARENSE SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Diagnóstico sócio-ambiental do Estado do Ceará: o olhar da sociedade civil. Fortaleza: BNB, 1993. cap. 5, p. 67-115.

 

-CEARÁ. Secretaria do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Maracanaú. Maracanaú – CE: SDU, 1998.

 

-FUNCEME. Diagnóstico geoambiental e de recursos naturais para definição de áreas semi-áridas no município de Maracanaú – CE. Fortaleza, 1993.

 

-SANTOS, R. S. A expansão urbana de Maracanaú: uma análise cartográfica – 1970 a 1998. Dissertação (Mestrado em Geografia), UECE, Fortaleza, 1998.

 

-SEMA. Caracterização e diretrizes gerais de uso da APA do Rio São Bartolomeu. DF. Brasília: v.1. 35p. 1988.

 

-SEPLAN. Projeto Áridas: grupo de trabalho 1, recursos naturais e meio ambiente. Fortaleza: v.2. 1994.

 

-SOUZA, Marcos J. N. de. Questões metodológicas da geografia física. Fortaleza: MAG-UECE, 2000. (apostila de curso, não publicada).

 

-TRICART, J. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE/SUPREN, 1977. 91p.