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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

O USO DO GEOPROCESSAMENTO NA ANÁLISE DA SITUAÇÃO AMBIENTAL DAS LAGOAS NO MUNICÍPIO DE FEIRA DE SANTANA

 

 

José S. C. Neto1 , Cléa Cardoso da Rocha2, Marjorie C. Nolasco3; Washington Franca-Rocha4

1 Graduando do curso Licenciatura em Geografia, bolsista Iniciação Científica - Programa de Bolsas de Iniciação Científica (PROBIC) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Área de Geociências, Depto. de Ciências Exatas (DEXA),  e-mail: jscneto@yahoo.com.br

2 Geógrafa pesquisadora UEFS/ CNPq/ FNMA. e-mail: cleageo@yahoo.com.br

3Profª. Titular - UEFS, DEXA, Área de Geociências. e-mail: mcn@uefs.br

4 Prof. Adjunto - UEFS, DEXA, Área de Geociências. e-mail: wrocha@uefs.br

 

 

Eixo: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo: Gestão e Planejamento Ambiental

 

Palavras- chaves: Geoprocessamento, lagoas, meio ambiente

 

 

1.INTRODUÇÃO

 

Tendo em vista a importância dos recursos hídricos para uma cidade, o estudo, o monitoramento, a revisão e uma constante atualização desses dados, faz-se necessário pela sua importância no planejamento urbano e proteção ambiental. As ferramentas da geotecnologia são ideais para estes objetivos, através de bancos de dados, Sistema de Informações Geográficas (SIG) e processamento de imagens, dentre outros, por  ultrapassarem as limitações tradicionais para identificar e monitorar as lagoas de forma constante, sistemática e rápida.

Feira de Santana dispõe de um cadastro feito há dez anos, com cerca de 48 lagoas, um retrato do período de 1992-1995. O objetivo da pesquisa aqui apresentada é refazer, atualizar e ampliar este cadastro tornando-o dinâmico, através das ferramentas de geotecnologia, superando as limitações impostas ao primeiro cadastramento.

Considerando a localização da cidade numa região tida como de transição, rica em espelhos d’água, marcada por características semi-áridas, os recursos hídricos tornam-se mais importantes ainda, exigindo conhecimento dos mesmos para que a preservação e uso mais racionais sejam possíveis.

 

1.2. ASPECTOS GERAIS

 

Situada acerca de 105 Km a noroeste de Salvador (Ba), Feira de Santana (figura 01) encontra-se numa região de transição entre o litoral e o semi-árido. Seu aparecimento deu-se em  função da presença de lagoas, no século XVIII, que tornavam a região uma excelente parada para as tropas que vindas do sertão traziam gado para as cidades de Cachoeira e Salvador.

A litologia do município é constituída por uma cobertura “de sedimentos clásticos continentais, inconsolidados, compreendendo essencialmente conglomerados, areias e argilas com espessura máxima de 70m e, abaixo dessa cobertura (ou aflorando em algumas áreas), embasamento cristalino composto por rochas gnáissicas pré-cambrianas” (ROCHA et al, 1995).

A expressiva quantidade de lagoas e  olhos d’água no município é função da sua geologia e das bacias dos rios Jacuípe, Pojuca e Subaé. A topografia da cidade, localizada num platô, no encontro do tabuleiro costeiro com o pediplano sertanejo, deve ser levada em consideração no que se refere à ocorrência das lagoas, por favorecer o afloramento do lençol freático.

 

Figura 01: Localização da área de estudos.

 

1.3. TRABALHOS ANTERIORES

 

O último trabalho realizado sobre as lagoas de Feira de Santana foi empreendido  por Rocha em 1995 (quadro 01) e publicado in FRANCA-ROCHA e NOLASCO,  1998. Este trabalho teve como base o trabalho “Estudos e Possibilidades Hidrogeológicas de Feira de Santana” (ANJOS e BASTOS, 1968) e constou de uma compilação e sistematização dos estudos anteriores sobre as feições hídricas do município de Feira de Santana para o Projeto Nascentes (FRANCA-ROCHA e NOLASCO em 1998), cadastrando 48 lagoas, 06 fontes, 03 rios e 11 riachos, funcionando como um banco de dados para atualizações.

 

 

Quadro 01: Resumo dos dados do cadastro anterior

Bacia

Hidrográfica

Zona

Lagoa

Riacho

Fonte

Rio Jacuípe

Rural

Penha

Capim

Formiga

Peixe

Calandro

Malhado

São José

Mungunzá

 

 

Quadro 01: Resumo dos dados do cadastro anterior-continuação

 

Bacia

Hidrográfica

Zona

Lagoa

Riacho

Fonte

Rio Jacuípe

Rural

 

Formiga

 

Urbana

Prato Raso

Grande

Principal

De Lili

Buraco Doce

Muchila

Valado

Milagres

Mato

Rio Pojuca

Rural

Jurema

Ovo da Ema

Pedra I

Salgada

Crespo

Da Nega

Camisa

Doce

Suja

Pirrixi

Seca

Cachorro

Vargem

Do Morro

Dos Patos

Escondida

Si 01

Si 02

Si 03

Si 04

Si 05

Grande ou Salgada II

Mundéu

Jacaré

Pedra II

Raposa

Registro ou Berreca

Bom Viver

 

 

Periurbana

Pindoba

Tabua

Peixe

 

 

Rio Subaé

Rural

Subaé

Marafunda

Santa Cruz

Si 06

Fazenda Queiroz

Mendes

Quindongo

Pau Santo

 

 

 Quadro 01: Resumo dos dados do cadastro anterior-continuação

 

Bacia

Hidrográfica

Zona

Lagoa

Riacho

Fonte

Rio Subaé

Rural

Borda da Mata

Brotas

Mango

 

 

Periurbana

Salgada III

 

 

Fonte: Rocha, 1995.

 

A metodologia empregada na construção do cadastro por ROCHA et al (1995) constou basicamente da análise de trabalhos anteriores, a saber: Estudo Morfodinâmico do Sítio Urbano de Feira de Santana (ALMEIDA, J. A. P., 1992), Avaliação Hidroquímica  e de impacto ambiental sobre as nascentes e lagoas de Feira de Santana- Bahia. Relatório de pesquisa (SANTOS, A. M. L. e BARBOSA, L. M., 1992), Estudos e Possibilidades Hidrogeológicas de Feira de Santana (ANJOS e BASTOS, 1968); e trabalho de campo, objetivando a verificação dos  dados, especialmente do último trabalho, bem como a atualização da   situação das lagoas.

Os estudos realizados por ROCHA et al (1995) constataram que as lagoas situadas no perímetro urbano, ao contrário daquelas da zona rural, sofreram mais com a evolução urbana, sendo os principais impactos relacionados à ocupação indevida do solo, especificamente de áreas de influência das lagoas e, até, das próprias lagoas, com o aterramento das mesmas.

Duas foram as principais dificuldades encontradas na realização desse cadastro: a localização, e o acesso às lagoas citadas por ANJOS e BASTOS.

 

2. METODOLOGIA

 

O presente trabalho está sendo desenvolvido basicamente em etapas concomitantes: de escritório e  campo.

1. O trabalho de escritório  corresponde:

1.1 escolhas e testes para definir as melhores ferramentas de geotecnologia para           aplicação na revisão e atualização do cadastro das lagoas de Feira de Santana;

1.2 estudo de trabalhos anteriores;

1.3 elaboração de mapas, bancos de dados, conversão de dados analógicos em digitais; Usando o software Microsoft Access, que permitiu o planilhamento dos dados do cadastro feito por Rocha et al (1995) e daqueles coletados em campo.

1.4           geoprocessamento, fase atual, envolve a análise das imagens processadas em função dos dados obtidos em campo, e sua interpretação. Utilizou-se  do software Arc View GIS 3.3, usando como base imagem Landsat7 ETM+ , cena 216 068, outubro de 2002, composição 453 RGB,  que permitiu espacializar as lagoas no município e ter  uma visão da situação das mesmas.

     2. As atividades de campo  visam:

2.1        georreferenciamento;

2.2        verificação, atualização e coleta  de dados;

2.3        documentação e  monitoramento das lagoas.

               

Foram desenvolvidos os itens 1.2 e 1.3, vinte e quatro lagoas do cadastro anterior foram revistas e digitalizadas, a ele acrescido uma dezena de novas lagoas.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

O cadastro anterior estudou 48 lagoas. Trinta e uma lagoas situadas na zona rural do município (64,5%), dezessete na zona urbana (35,5%). Algumas dessas lagoas podem apresentar regime intermitente sem espelho d’água e na maior parte do ano e, quando em estiagens prolongadas podem ficar até dois anos secas. A maior parte das lagoas encontram-se na zona rural, entretanto, com o avanço da malha urbana, algumas tornaram-se periurbanas, e outras localizadas no centro urbano desapareceram.

Em seu estudo Rocha constatou que as lagoas situadas na zona urbana eram mais degradadas, o que foi confirmado neste trabalho. Verificou-se que as lagoas situadas no perímetro urbano praticamente deixaram de existir tendo sido total ou parcialmente aterradas para a construção, tanto legal como ilegal, apontado para a ocupação desordenada do solo e o descaso do poder público. Na Lagoa Grande, situada a leste do centro comercial da cidade, a ocupação da área de influência da lagoa atinge cerca de 90%.  Pessoas vindas de outras cidades e Estados assentaram-se no entorno e nas próprias lagoas, especialmente aquelas de regime intermitente, desconhecendo a sua existência.

 Algumas lagoas, que no primeiro estudo estavam localizadas em zonas rurais do município e eram mais conservadas, foram degradadas em conseqüência da evolução urbana e passaram a apresentar os problemas detectados  naquelas que anteriormente eram urbanas. De acordo com o depoimento de alguns moradores que utilizam as águas dessas lagoas, elas têm apresentado diminuição no volume (nível) d’água, provavelmente provocado pelo uso de poços artesianos pelos aviários, que tem tido grande expansão nos últimos três anos. Este é um exemplo que ilustra como o crescimento da cidade influenciou lagoas que há oito anos atrás estavam em áreas totalmente rurais e eram pouco antropizadas.

Feira de Santana é a segunda maior cidade do Estado, com uma população com cerca de quinhentos mil habitantes,  mas apenas cerca de 30%  da população possui rede de esgoto. A maior parte da população que habita o entorno das lagoas, atingindo um percentual de quase 100% usam “fossas negras”, ou “sumidouros”, que são caixas de “depósitos” destinados aos dejetos da casa, contaminando o solo, o lençol freático e  lagoas. Ainda relacionado à contaminação das lagoas por esgoto doméstico, um outro dado obtido em campo com entrevistas com moradores, é o despejo clandestino de esgotos domésticos por caminhões “limpa-fossas”.

Verificou-se também que a atividade industrial é outro fator relevante de degradação das lagoas situadas no perímetro urbano, através do despejo clandestino de efluentes tanto diretamente no espelho d’água, quanto em sua área de influência. Estes dois fatores, esgotos e despejos industriais, causam em muitos casos eutrofização, e impossibilitam o desenvolvimento da fauna.

Em algumas lagoas a mineração de argila provocou danos que se estendem à área de influência das mesmas, constituindo novos e núcleos de acumulação de água, o que modifica sua forma. Na Lagoa Salgada foram localizadas cerca de 30 olarias artesanais em atividade, abastecendo o mercado local e de cidades vizinhas.

Outras lagoas foram afetadas pela mineração clandestina de areia em seu entorno, com reflexos similares a extração de argila, modificando o contorno e provocando a acumulação de água em novos núcleos, gerados pela exploração. A ação de pedreiras também causa expressivas modificações em algumas lagoas.

O uso das ferramentas da geotecnologia permitiu vislumbrar as modificações ocorridas nas lagoas desde o seu cadastramento feito por Rocha et al (1995); atualizar e ampliar o cadastro e a monitorar as lagoas no município.

 A atualização e revisão do último cadastro e as atividades de campo resultaram em um banco de dados no Sistema de Informações Geográficas (SIG). Estão sendo elaborados mapas temáticos contendo as lagoas do município e as suas modificações (figura 02)

 

Figura 02: Exemplo de mapa/imagem temático/(a) da cidade de Feira de Santana mostrando algumas lagoas que estão sendo estudadas.

 

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Assim como no cadastro anterior foi constatado que as lagoas situadas no perímetro urbano foram mais degradadas, sendo a evolução da malha urbana o principal condicionante dessa antropização.

A extração de argila e areias modificaram a área de influencia de algumas lagoas, constituindo novos núcleos de acúmulo de água e novos canais, ao retirar o substrato das mesmas, ou alterar levemente sua composição química. Um exemplo que pode ilustrar essa suposição é o teor de sais em determinada lagoa, conhecida pelo topônimo “Lagoa Salgada”, que segundo informações de moradores, possui uma área com  elevadíssimo grau de salinidade, e outra sem essa quantidade elevada de sais (parte da lagoa tem água salobra e outra doce, no mesmo corpo d’água, destaca-se que a água doce concentra-se na porção não utilizada pelas olarias).

Uma das modificações observadas ao longo dos últimos anos em função dessas alterações é a redução da vegetação popularmente denominada “taboa” nas lagoas mineradas.

O uso da geotecnologia mostrou-se eficiente na atualização e revisão do cadastro feito por Rocha, permitindo alcançar novos resultados, como a quantidade de lagoas no município que se mostrou bem maior do que o cadastrado em 1995. As ferramentas de geotecnologia também se apresentaram muito eficazes na análise ambiental das lagoas, permitindo uma comparação com os dados do cadastro anterior e um estudo  da evolução dos problemas apontados por Rocha, tais como o aterro e ocupação das lagoas; e uma projeção para estes e novos  problemas, como a exploração mineral e a ocupação por novos assentamentos. Uma outra vantagem no emprego de geotecnologias é a espacialização das lagoas do município, facilitando a localização e o acesso às mesmas e o seu monitoramento. 

A construção de bancos de dados e mapas dinâmicos mostraram-se eficientes para o monitoramento das lagoas, permitindo que a atualização seja feita em um curto espaço de tempo, e principalmente, como um relevante suporte para proteção ambiental e uso sustentável desses recursos hídricos, apesar de só se tornar efetivo se, utilizados pelo poder municipal para formular políticas governamentais; e pelas ONG´s, associações de moradores, ou ainda partidos de oposição como instrumentos de cobrança para cumprimento das leis municipais já existentes.

 

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALMEIDA, J. A. P. Estudo Morfodinâmico do Sítio Urbano de Feira de Santana- Ba. Dissertação de Mestrado/UFBA. 86p. Salvador, 1992.

 

ANJOS, N. F. R., BASTOS, C. A. M. Estudos Sobre as Possibilidades Hidrogeológicas de Feira de Santana. SUDENE. Recife, 1968.

 

FRANCA-ROCHA, W. J. S., NOLASCO, M. C. Projeto Nascentes: um olhar sobre Feira de Santana. UEFS. Feira de Santana, 1998.

 

ROCHA, C. C., SOUZA, G. B., BARBOSA, L. M., NOLASCO, M. C. Cadastramento das Feições das Águas Superficiais do Município de Feira de Santana. UEFS. Feira de Santana, 1997.

 

SANTOS, A. M. L. e BARBOSA, L. M. Avaliação Hidroquímica e de impacto ambiental sobre as nascentes e lagoas de Feira de Santana- Bahia. Relatório de Pesquisa. UEFS. Feira de Santana, 1992.