Voltar à Página da AGB-Nacional


 

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

TURISMO E UTILIZAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS EM MUNICÍPIOS MINEIROS DA SERRA DA MANTIQUEIRA.

 

 

Alexandre Carvalho de Andrade[1]

Mirna Lygia Vieira[2]

 

 

 

Palavras-chave: Turismo, Planejamento e Comunidade Local

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.3: Gestão e Planejamento Ambiental







 

 

Silberman (apud VIEIRA[3]) listou os recursos para fins turísticos, tendo como base para este estudo à busca dos atrativos turísticos valorizados pelas pessoas, os quais satisfazem a necessidade de se entrar em contato com paisagens únicas. A autora classifica esses recursos em culturais e naturais:

Os recursos culturais são os elementos que servem para caracterizar o modo de vida da comunidade, como as festas, arquitetura, museus, monumentos, termas, instrumentos de produção, história, vestimentas, alimentos, artesanato, folclore, costumes, jardins, templos, músicas, danças.

Os recursos naturais são constituídos pelos elementos da natureza, pouco descaracterizados por processos antrópicos. Entre eles estão montanhas, picos, vales, cachoeiras, florestas, campos, desertos, praias, ilhas, geleiras, lagos, rios, grutas, fauna, cavernas e rochas.

O aumento do fluxo turístico provoca modificações na paisagem, no modo de vida e na economia dos centros receptores, como aponta Langenbuch[4]:

Nas grandes cidades o fluxo turístico é alto e concentrado, porém a influência dos turistas geralmente é pequena, graças a grande população, já em pequenas cidades com expressivo contingente turístico a presença na paisagem é mais nítida graças às pousadas, áreas de lazer ou lojas de artesanato, além das casas de veraneio.

Apesar de trazer benefícios, como o aumento dos rendimentos e dos empregos, a falta de planejamento da atividade turística ocasiona diversos impactos negativos, como a poluição visual, a agressão ao meio natural, a marginalização da população local, culminando com a deterioração da imagem do lugar. Para Krippendorf[5], “o lucro rápido e passageiro é mais prejudicial ao meio ambiente e à população local que o lucro lento, porém eterno, a proliferação de construções desvaloriza o lugar”, trazendo malefícios aos moradores e a paisagem, diminuindo a atratividade da localidade junto aos turistas.

Para que o turismo auxilie no processo de desenvolvimento local e regional, resultando na conservação dos atrativos e na melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, o poder público, junto aos setores representativos da sociedade local, deve viabilizar o planejamento turístico. Segundo Becker[6]:

O turismo é híbrido, no sentido que ele é, ao mesmo tempo, um enorme potencial de desenvolvimento, e ao mesmo tempo, um enorme potencial de degradação do meio ambiente e mesmo social, na ausência de uma regulação adequada para o setor. Logo, uma política federal de turismo é extremamente importante neste sentido, porque seria necessário administrar conflitos, fomentar atividades, regenerar áreas degradadas e desenvolver usos alternativos.

O crescimento do turismo, se planejado e envolver a comunidade local, pode diversificar as atividades econômicas locais, agregando produtos típicos como artesanato, alimentos e vestimentas, proporcionando rendimentos e empregos a seus habitantes. A comunidade local, sendo beneficiada com o desenvolvimento do turismo em seu espaço, deve tomar consciência da necessidade de utilizar adequadamente dos recursos naturais e construídos existentes em seu território. Para Petrocchi[7]:

 

O planejamento turístico orienta as decisões para o desenvolvimento do turismo, o tipo de turismo que se quer promover, os mercados que serão atingidos, a posição nesses mercados, as metas a alcançar e as estratégias dos programas de ações. Além disso, deve converter recursos naturais em recursos turísticos, ordenando o território e melhorando as infra-estruturas, equipamentos, serviços, promoções e preservação do ambiente físico e urbano.

 

A melhoria da qualidade de vida de toda a população deve ser prioritária em uma localidade turística, tornando a paisagem mais aprazível aos turistas e mais saudável e harmoniosa a seus habitantes, como cita Yázigi[8], “a paisagem interessa antes a seus próprios habitantes e que só numa relação de estima deles com ela é que despertará o interesse de transeuntes, visitantes e turistas”. A boa relação da população com seu espaço vivido pode motivá-la a compreender a necessidade de conservar suas características naturais e construídas, evitando sua degradação. Segundo Silveira[9]:

 

Somente com a participação efetiva e democrática das comunidades locais, e também a execução do planejamento sustentável e da gestão territorial integrada, é que o turismo pode constituir-se numa valiosa ferramenta para ajudar no desenvolvimento regional e local.

 

Conhecer a opinião da comunidade local, sobre as mudanças que ocorrem em sua localidade, permite realizar uma forma de planejamento turístico que prioriza a qualidade de vida da comunidade e a organização adequada de seu espaço, ajudando na sua conservação, como cita Oliveira[10]:

 

Hoje em dia a sociedade cada vez mais busca a harmonia entre homem, natureza e tecnologia, e o geógrafo possui instrumentos para auxiliar na resolução dessa equação; por outro lado o senso comum deve ser valorizado, principalmente quando a resposta está sendo procurada localmente. As soluções encontradas por pessoas simples são muitas vezes as mais adequadas para suas necessidades; isso diz respeito particularmente ao planejamento urbano ou rural, como decidir como interferir num local sem conhecer as necessidades e interesses do usuário direto.

 

O planejamento turístico deve favorecer a comunidade local, que estando capacitada e conhecendo as potencialidades de seu território, pode utilizá-lo de forma adequada, aumentando seus rendimentos financeiros e valorizando a imagem de sua localidade. Para Dias[11]:

 

A chave para o desenvolvimento é a participação, a organização, a educação e o fortalecimento das pessoas. O desenvolvimento sustentado não é centrado na produção e sim nas pessoas; devendo ser apropriado não só aos recursos e ao meio ambiente, mas também a cultura, a historia e aos sistemas sociais do local onde ele ocorre; sendo eqüitativo e agradável.

 

Nos municípios mineiros situados na Serra da Mantiqueira, assim como em outras localidades, o crescimento da atividade turística deve ser planejado, para assim, valorizar e conservar as especificidades locais e beneficiar a comunidade local. A degradação da paisagem e da qualidade de vida dos habitantes denigre a imagem do centro receptor de turistas, resultando em prejuízos diversos.    

 

A Serra da Mantiqueira

 

Situada entre as coordenadas geográficas 22° 30’ a 23° 00’ de latitude Sul e 44° 30’ a 46° 00’ de longitude Oeste, a Serra da Mantiqueira abrange áreas dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, sendo constituída por terrenos de formação cristalina. Para Mendes Júnior[12]:

 

A Serra da Mantiqueira é um conjunto orográfico que se estende por Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Essa serra, juntamente com a depressão do Vale do Paraíba do Sul, teve origem no sistema de falhas ENE – WSW. Ambos participavam de um grande planalto cristalino; no Triássico sofreu processos de flexão e fraturamento que, após longo processo erosivo, resultou em maciços, pontos isolados e vales profundos. Na constituição geológica da Mantiqueira, predominam as rochas do complexo cristalino tais como gnaisses, xistos cristalinos, quartzitos e também intrusões de rochas eruptivas alcalinas, como as que formam o maciço de Itatiaia.

 

O relevo da Serra da Mantiqueira é caracterizado pela declividade e pela amplitude topográfica, resultando na presença de vales, montanhas e picos. Segundo Ross[13]:

 

A Serra da Mantiqueira está situada no domínio dos ‘Planaltos e Serras do Atlântico leste-sudeste’ em cinturões orogêneos, constituída por morros de topos convexos e vales profundos, definidos como mares de morros.

 

O planalto alcalino de Itatiaia constitui o trecho da Mantiqueira com os maiores picos da área de estudo. O ponto mais elevado é a Pedra da Mina, município de Passa Quatro, com 2.790 metros de altitude; havendo ainda os picos das Agulhas Negras (Itamonte) com 2.787 metros, dos Três Estados (Passa Quatro) com 2.665 metros e das Prateleiras (Itamonte) com 2.540 metros, entre outros. A amplitude topográfica é expressiva, exemplo disso são os 1.900 metros de diferença entre o cume da Pedra da Mina e a área urbana de Passa Quatro.

O planalto de Campos do Jordão, na área de estudo, abrange trechos dos municípios de Delfim Moreira, Piranguçu e Wenceslau Braz. Este trecho é considerado o corpo principal da Serra da Mantiqueira (MOREIRA, 1977[14]), apresentando menor declividade que em outras áreas, resultando em uma paisagem natural diferenciada. 

Em toda a Serra da Mantiqueira, o clima tropical de altitude do tipo Cwb (classificação de Koppen), possui verões brandos e chuvas concentradas nesta estação. O índice médio de chuvas na área de estudo varia de acordo com a altitude; no Parque Nacional do Itatiaia a 2.450 metros, o índice pluviométrico é de 2.240 mm, enquanto em Maria da Fé a 1.258 metros, de 1.460 mm.

A amplitude topográfica exerce influência no clima dos municípios da Serra da Mantiqueira, como mostra a tabela 1, com a diferença na temperatura e umidade do ar em diferentes pontos do município de Gonçalves.

 

Tabela 1 – Temperatura e umidade do ar em diferentes pontos do município de Gonçalves.

Local

Altitude

Temperatura

Umidade do ar

Alto do Sertão do Cantagalo

1.860 m

13,3° C

92%

Área Urbana

1.260 m

18,5° C

77%

Barra do Lambari

870 m

25,2° C

65%

Fonte: ANDRADE, 2003[15].

 

Em Gonçalves, assim como em outros municípios da Serra da Mantiqueira, o clima nas áreas elevadas é mais frio, com freqüente formação de geadas no inverno. Na Estação Meteorológica da EPAMIG, em Maria da Fé, situada a 1.258 metros de altitude, no período entre um de janeiro de 1990 e trinta e um de dezembro de 1999, a temperatura mínima foi de – 4,9° C, com média de 18 dias com geada por ano (ANDRADE, 2001[16]). Em locais com altitudes mais elevadas, a temperatura já atingiu doze graus negativos, com ocorrência de neves, como no Parque Nacional do Itatiaia, em Itamonte.

Ocasionada pela expressiva amplitude topográfica e as influências de temperatura e umidade do ar, há variações nítidas na vegetação. Na Serra da Mantiqueira ocorre um zoneamento vertical da vegetação, tendo espécies da mata atlântica como palmeiras e ipês; da mata subcaducifoliada de araucárias como o pinho-bravo e guatambu; e de campos de altitude como o junco. Nas áreas mais altas há freqüência de musgos, liquens e bromélias, ocasionadas pela alta umidade.

Nas áreas de menor altitude, como os bairros rurais do Lambari em Gonçalves, Anhumas em Itajubá e da Luminosa em Brasópolis, entre outros, apresentam maior variedade e adensamento de espécies vegetais que as encontradas nas matas de araucárias ou nos campos de altitude. Para Alonso[17]:

 

As matas tropicais têm sua ocorrência ligada ao relevo de encostas, a pluviosidade e à umidade. Há grande número de espécies, mantendo suas características até os 1.500 metros, nesse ponto associado com as araucárias. 

 

As matas subcaducifoliadas com araucárias ocorrem na maior parte dos municípios da área de estudo, como cita Alonso[18], “as matas de araucárias localizam-se na Serra da Mantiqueira em altitudes superiores a 1.500 metros de altitude, em áreas descontínuas”. Esta vegetação ocorre em locais como os bairros rurais dos Costas em Paraisópolis, no Campo dos Raposos em Córrego do Bom Jesus e nos Pintos Negreiros em Maria da Fé, entre outros. Nestas áreas há maior homogeneização das espécies vegetais, como cita Joly[19]:  

 

A mata de araucárias associada ao Podocarpus (pinho-bravo) aparece em áreas descontínuas e mais altas da Serra da Mantiqueira, nessas matas há grande quantidade de liquens e musgos ocasionados pela alta umidade.

 

 A vegetação de campos de altitude ocorre nos pontos mais altos da Serra Mantiqueira, como nos bairros rurais do Campestre em Gonçalves, do Charco em Delfim Moreira, do Juncal em Sapucaí Mirim, da Vila Maria em Piranguçu, entre outros. Para Joly[20], “o termo campos rupestres serve para designar os campos de altitude”, as espécies herbáceas predominam na paisagem, havendo vegetação arbórea nos locais mais úmidos, como cita Alonso[21]:

 

Os campos aparecem na Serra da Mantiqueira em altitudes superior a 1900 metros em Itatiaia e em altitudes inferiores no Planalto de Campos do Jordão, nas matas ciliares há presença de Podocarpus.

 

Na vertente mineira da Serra da Mantiqueira estão situadas as nascentes de importantes rios da macrobacia do Prata. O rio Verde e o Sapucaí, tributários do rio Grande, assim como o Mogi Guaçu e o Jaguari, percorrem em seu alto curso, áreas de expressiva declividade, resultando em cursos encachoeirados de expressivo valor paisagístico.

Os municípios estudados, no total de 28, compreendem a Microrregião Homogênea da Alta Mantiqueira, de acordo com o IBGE. Com uma superfície de 6.775 quilômetros quadrados, a área faz divisa com os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A população total de 334.108 habitantes (IBGE-2000) está em sua maior parte localizada na área urbana (70,2%). O município de Itajubá é o mais populoso (84.071 habitantes), esta localidade, assim como Cambuí, Extrema, Paraisópolis e Itanhandu são os mais urbanizados da área de estudo, com expressiva importância das atividades industriais e de serviços para a economia. Em municípios como Delfim Moreira, Gonçalves, Piranguçu, entre outros, a maior parte da população reside na zona rural.  

O setor agropecuário é a principal atividade econômica da maior parte dos municípios, tendo a distribuição fundiária estruturada em pequenas (até 10 hectares) e médias propriedades (de 10 a 100 hectares).             A declividade do terreno dificulta a mecanização, prevalecendo a mão de obra familiar, para o cultivo, a colheita e a comercialização ou transformação da produção. Segundo Denardi[22]:

 

A agricultura familiar é caracterizada quando a família cuida da produção, e dela é gerada a maior parte da renda; as áreas de menor concentração fundiária são as de maior participação da agricultura familiar.

 

 Os principais produtos agropecuários da área de estudo são a pecuária leiteira, a criação de suínos, e o cultivo de batata, arroz, milho, morango, banana, entre outros. Há a presença de indústrias de produtos alimentícios como laticínios, frigoríficos, alambiques, entre outros.

Assim como em outras regiões do Brasil, a pecuária leiteira e o cultivo de produtos agrícolas para o consumo interno, não tiveram políticas efetivas para seu desenvolvimento, dificultando melhores rendimentos aos produtores e ocasionando variados impactos ao meio natural.

De acordo com Ianni[23]:

 

O surgimento do ploretariado rural, como categoria fundamental da sociedade agrária brasileira, somente ocorreu na época em que se verificou a hegemonia da cidade sobre o campo, quando o setor industrial suplantou o setor agrícola (econômica e politicamente) no controle das estruturas de poder do país.

 

A baixa produtividade do setor agropecuário é ocasionada por fatores como a limitada capacitação da mão de obra, a pouca fertilidade do solo e a ausência de investimentos públicos e privados no setor. Para Oliveira[24], “uma parte do campesinato tem elevado o grau de produtividade do trabalho camponês familiar através da introdução de novas tecnologias”. O crescimento do turismo na Serra da Mantiqueira, as características naturais e fundiárias, assim como a proximidade com grandes centros consumidores, podem motivar a produção de artigos diferenciados, tendo condições de aumentar os rendimentos e diversificar as atividades econômicas, como é o caso da fabricação de produtos como doces, aguardentes, compotas, queijos, além da agricultura orgânica, da piscicultura e da apicultura.

A paisagem natural da área de estudo foi modificada por diversas atividades econômicas, como a agropecuária, a extração madeireira e a expansão urbana. A inadequada utilização dos recursos naturais provoca impactos ambientais diversos, como erosões, a degradação da paisagem, e a contaminação do solo e dos recursos hídricos.

A necessidade de preservar áreas de expressiva importância natural motivou a criação de unidades de conservação, como o Parque Nacional do Itatiaia, a Floresta Nacional de Passa Quatro e a Área de Preservação Ambiental da Serra da Mantiqueira, mantidos pelo IBAMA; e a Área de Preservação Ambiental da Fernão Dias, mantido pelo Instituto Estadual de Florestas.

 

A análise do mapa de localização da Serra da Mantiqueira permite compreender a organização espacial das cidades, rios, estradas, picos e unidades de conservação da área.

 

Turismo e utilização dos recursos naturais nos municípios mineiros da Serra da Mantiqueira 

 

No Brasil, um país em sua maior parte tropical, é pouco comum local com temperaturas baixas, com exceção da região Sul e das áreas serranas do Sudeste, entre elas as Serras da Mantiqueira, da Canastra, do Caparaó, entre outras. As localidades montanhosas no Sudeste são áreas de climas próprios, mais frios e úmidos.

Tuan[25] descreveu dessa forma a atração turística de vales e montanhas:

Os vales atraem os seres humanos por ser um nicho ecológico diversificado, há uma grande variedade de alimentos nos rios, planícies de inundação e encostas; os cumes das montanhas são escadas para o céu, o lar dos deuses. Nas primeiras etapas da história humana, a montanha era vista com assombro, ela elevava-se acima das planícies habitadas, era remota, difícil de se aproximar, perigosa e inassimilável às necessidades do trabalho diário do homem; povos em diferentes partes do mundo consideravam a montanha como o lugar onde o céu e a terra se encontravam. A partir do século XIX, os esplendores das montanhas começavam a ser cantados e declamados, como um lugar de gloriosas alturas que arrebatavam as almas em êxtase, possuíam uma beleza sublime que era o que estava na terra mais próximo do infinito; as montanhas passaram a serem relacionadas como lugares de grande beleza, ar puro e muito benéfico à saúde física e mental, isso levou à construção de estações de saúde, hotéis, casas de repouso e centros de lazer nas montanhas.

 A proximidade das regiões serranas do Sudeste em relação aos principais centros econômicos do país, juntamente com a qualidade ambiental, faz com que as localidades e parques aí situados sejam locais visitados por pessoas com diferentes interesses. Para Vieira[26]:

 

A diversificação da função urbana produtiva propiciou o surgimento de cidades com a função de acolher visitantes de outras cidades; tanto o espaço urbano como o rural passou a se organizar procurando qualificar áreas para atender atividades não produtivas, surgindo assim os parques, clubes e jardins para entretenimento e descanso da população.

 

 Campos do Jordão, Visconde de Mauá e Monte Verde são os principais centros receptores de turistas na Serra da Mantiqueira, tendo uma expressiva visitação de pessoas. Os proprietários dos estabelecimentos turísticos dessas localidades são, em sua maior parte, de outros centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Krippendorf[27], “a população local deve participar no desenvolvimento turístico em seu espaço, para não se posicionar como invadida”. A comunidade deve ser responsável e beneficiada com o turismo desenvolvido, tendo a oportunidade de aumentar seus rendimentos.

Com a maior preocupação da sociedade pela preservação do meio ambiente, houve a valorização da natureza como produto turístico, e com isso, várias localidades passaram a ser procuradas por turistas interessados em ter contato direto com a natureza, principalmente visando diminuir o estresse causado pelo trabalho e os problemas das grandes cidades. Diversos municípios mineiros da Serra da Mantiqueira como Gonçalves, Itamonte, Passa Quatro, Bueno Brandão e Delfim Moreira começaram a atrair turistas, motivados em conhecer seus atrativos naturais e pela tranqüilidade, já que alguns destinos turísticos tradicionais estavam saturados, em função do crescimento rápido e desordenado do turismo, provocado pela falta de integração da população local com a atividade e de conservação da paisagem natural e construída.  Segundo Petrocchi[28]:

 

O turismo em montanhas atrai diversas pessoas com interesse para atividades como descanso, esportes, visitar parques ou descobrir a natureza, sendo essa última também fundamental para o turismo ecológico.

 

O crescimento do turismo em centros turísticos consolidados como Monte Verde, assim como das localidades de desenvolvimento turístico recente como Gonçalves ou Delfim Moreira, está ocorrendo sem o planejamento adequado, ocorrendo impactos ao meio natural como desmatamento, aumento do lixo e contaminação dos recursos hídricos; e à comunidade local como o encarecimento dos produtos e a modificação do seu modo de vida. A perda da qualidade de vida dos moradores e a inadequada utilização dos atrativos podem vir a descaracterizar a localidade, diminuindo sua atratividade junto aos turistas. O respeito à capacidade de suporte é essencial, como cita Petrocchi[29]:

 

O turismo sustentável ocorre quando a expansão da atividade não exceder o limite da capacidade territorial de receber visitantes; deve se impor limites ao crescimento do turismo pela preservação ambiental, do ponto de vista físico e social.

 

Apesar de gerar benefícios, como o aumento da renda, dos empregos e a melhorias dos serviços, o turismo também pode vir a provocar graves impactos à população local e a paisagem, deteriorando a imagem do centro receptor. O poder público, junto aos investidores e a comunidade local, devem priorizar o planejamento turístico, para que a atividade promova a adequada utilização das potencialidades existentes em seu território, como cita Benko[30]:

O renascimento dos meios locais e regionais na qualidade de núcleos da organização econômica, cultural e política oferece novas e inesperadas possibilidades para a renovação da vida comunitária. A democracia e a cidadania tornam um novo sentido no contexto da sociedade local; a criação de novas identidades locais e de novas ações democráticas entra em perspectiva. A realização de uma nova visão política gesta-se em relação com o novo contexto mundial.

A valorização da produção de artigos locais como artesanatos, queijos e doces pode motivar a integração da comunidade local com a atividade turística, evitando sua descaracterização cultural. A diversificação das atividades econômicas pode vir a aumentar os rendimentos da população, sendo que ela deve tomar consciência da necessidade de utilizar adequadamente seus recursos, melhorando progressivamente sua localidade, como cita Krippendorf[31]:

Cabe promover uma grande diversificação econômica nas regiões turísticas, que confira ao desenvolvimento da agricultura, da silvicultura, das artes e ofícios, do artesanato, da pequena indústria e dos serviços não-turísticos uma importância pelo menos equivalente ao turismo. Nas regiões onde o turismo cresce rapidamente, estes outros ramos econômicos devem, inclusive, ser alvo de uma prioridade absoluta.

O crescimento do turismo pode favorecer a diversificação das atividades econômicas no meio rural, melhorando a qualidade de vida da população envolvida e diminuindo o êxodo rural.  Segundo Senra[32], “o cultivo de espécies não adaptadas ao clima não apresenta resultados satisfatórios, exigindo investimentos elevados”. O clima frio possibilita a produção de artigos como trutas, pinhões e a fruticultura de clima temperado, como o figo, a ameixa e a pêra. Essas frutas ainda podem ser transformadas em doces, geléias ou licores para serem vendidos a turistas ou em outros centros. Para Rodrigues[33]:

 

Existem diversas propriedades rurais nas quais turismo e produção rural são complementares, os proprietários recebem os turistas em sua casa, fornecendo alimentação e hospedagem; podendo também produzir e vender artigos artesanais de origem rural como pães, biscoitos, mel, aguardentes, queijos, doces e produtos cultivados sem agrotóxico; trata-se de uma estrutura turística estritamente familiar.

 

 A estrutura fundiária e o meio natural da Serra da Mantiqueira, caracterizado pela expressiva amplitude topográfica, possibilitam a produção de frutas de clima temperado e a piscicultura de trutas, como começa a ocorrer em alguns municípios. Para Furtado[34]:

Seja qual for o nível de desenvolvimento, uma sociedade só se transforma se tiver capacidade para improvisar, inovar, enfrentar seus problemas de maneira mais prática possível, mas numa perspectiva racional.

 Na área deste trabalho existe um consórcio intermunicipal para o desenvolvimento da fruticultura de clima temperado, mantido através de um convênio entre a Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) e as prefeituras de dezesseis municípios, situados na bacia do rio Sapucaí, como Itajubá, Maria da Fé, Delfim Moreira, Marmelópolis, entre outros. A produção de frutas de clima temperado é um exemplo da potencialidade natural da região para a diversificação das atividades econômicas no meio rural. Segundo Diniz[35]:

O sucesso econômico de cada país, região ou localidade passa a depender da capacidade de se especializar vantagens comparativas efetivas e dinâmicas, decorrentes do seu estoque de atributos, e da capacidade local da promoção continuada de sua inovação. 

 A criação de trutas necessita de águas correntes, frias e limpas. Essa atividade se adaptou bem nos municípios da Serra da Mantiqueira.  Em Delfim Moreira, por exemplo, a produção de trutas ajudou a impulsionar o turismo. Os produtores investiram na construção de pesqueiros, que foram os primeiros estabelecimentos turísticos do município, sendo que em alguns deles o proprietário construiu chalés para hospedagem dos visitantes, aumentando seus rendimentos. A truticultura em Delfim Moreira é um exemplo de como trabalhar as potencialidades naturais do lugar e transformá-la num atrativo turístico. 

Para que o crescimento turístico resulte no desenvolvimento econômico e social, dos municípios mineiros da Serra da Mantiqueira, é necessário que haja a integração de todos os setores da sociedade local e regional. O planejamento da atividade deve procurar beneficiar a comunidade local, que deve tomar consciência da necessidade de utilizar adequadamente dos recursos naturais e construídos existentes em seu território. Para Lameirinhas[36]:

 

Além de seguir os princípios da sustentabilidade, a comunidade deve estar capacitada e dominar as novas tecnologias no que se refere às questões operacionais ou gerenciais, além de tornar perceptível ao turista a sua preocupação e efetiva atuação em questões como a coleta do lixo, a capacidade dos atrativos naturais e de caráter sociocultural, a adaptação dos recursos de uso turístico, ao mesmo tempo em que busca a sua conservação.

 

O desenvolvimento econômico e social nos municípios estudados depende da correta utilização dos recursos existentes no território. O crescimento do turismo, se bem planejado, motivará o melhor aproveitamento de especificidades locais como o clima frio, agregando maior valor aos produtos e aumentando os rendimentos da população envolvida.

A adequada utilização turística dos recursos naturais e construídos, nos municípios mineiros Serra da Mantiqueira, poderá aumentar o fluxo de turistas, aumentar os rendimentos da população e conservar a paisagem e o modo de vida local.

 

 

Notas

 

[1] Mestrando em Geografia – Unesp - campus de Rio Claro. E-mail: acandrade@ubbi.com.br

[2] Professora Doutora do Departamento de Geografia da Unesp, campus de Rio Claro.

[3] Mirna Lygia Vieira. A imagem turística de Itanhaém, litoral sul paulista. Tese de doutorado. Rio Claro, Unesp, 1997, pp. 14.

[4] Jüerguen Richard Langenbuch. Os municípios turísticos do estado de São Paulo: Determinação e caracterização geral. Revista Brasileira de Geografia – vol.2 n°3, Rio de Janeiro, 1977, pp. 2.

[5] Jost Krippendorf. Sociologia do turismo – para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1989, pp. 187.

[6] Berta Becker. Políticas e planejamento do turismo no Brasil. YÁZIGI, Eduardo; CARLOS, Ana Fani Alessandri; CRUZ, Rita de Cássia da (org) – Turismo, espaço, paisagem e cultura. São Paulo, ed. Hucitec, 1999, pp. 181.

[7] Mário Petrocchi. Turismo, planejamento e gestão. São Paulo, ed. Futura, 1998, pp. 72.

[8] Eduardo Yázigi. Vandalismo, paisagem e turismo no Brasil. YÁZIGI, Eduardo; CARLOS, Ana Fani Alessandri; CRUZ, Rita de Cássia Ariza (org) – Turismo: Espaço, Paisagem e Cultura. São Paulo, ed. Hucitec, 1999, pp. 134.

[9] Marcos Aurélio Tarlombani Silveira. Política de turismo; oportunidade ao desenvolvimento local. RODRIGUES, Adyr Balastreri (org) – Turismo rural. São Paulo, ed. Contexto, 2001, pp 135.

[10] Lívia de Oliveira. Que é geografia. Sociedade e natureza – vol 11, n°12. Uberlândia, Edufu, 1999, pp 95.

[11] Genebaldo Freire Dias. Educação ambiental – Princípios e práticas. São Paulo, ed. Gaia, 1994, pp. 141.

[12] Luis Osvaldo Mendes Júnior (et al). Relatório Mantiqueira. São Paulo, FEDAPAM, 1991, pp. 27.

[13] Jurandyr Luciano Sanches Ross (org). Geografia do Brasil. São Paulo, Edusp, 2000, pp.58.

[14] Amélia Alba Moreira (et al). Relevo. Geografia do Brasil – região Sudeste. Rio de Janeiro, Sergraf – IBGE, 1977, pp. 14.

[15] Alexandre Carvalho de Andrade. Análise da evolução do turismo em Gonçalves, Minas Gerais. Monografia de Especialização. Rio Claro, Unesp, 2003, pp. 23.

[16] Alexandre Carvalho de Andrade. Importância do turismo para a diversificação das atividades econômicas na região de Itajubá, Minas Gerais. Trabalho de Formatura. Rio Claro, Unesp, 2001, pp. 21.

[17] Maria Theresinha Alves Alonso. Vegetação. Geografia do Brasil – região Sudeste. Rio de Janeiro, Sergraf – IBGE, 1977, pp. 93.

[18] op cit, pp 96.

[19] Aylthon Brandão Joly. Conheça a vegetação brasileira. São Paulo, ed. Polígono, 1970, pp. 66.

[20] op cit, pp. 123.

[21] op cit, pp. 104.

[22] Reni Antônio Denardi (et al). Fatores que afetam o desenvolvimento em pequenos municípios do Paraná. Curitiba, EMATER – PR, 2000, pp. 19.

[23] Octavio Ianni. Relações de produção e proletariado rural. SZMRECÁNSKI, Tamás e QUEDA, Oriowaldo (org). Vida rural e mudança social. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1979, pp. 148.

[24] Ariovaldo Umbelino de Oliveira. Agricultura brasileira – transformações recentes. ROSS, Jurandyr Luciano Sanches (org) - Geografia do Brasil. São Paulo, Edusp, 2000, pp. 500.

[25] Yu-Fu Tuan. Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo, ed. Difel, 1980, pp. 81.

[26] op cit, pp. 6.

[27] op cit, pp 191.

[28] op cit, pp 119.

[29] op cit, pp. 59.

[30]  Georges Benko. A recomposição dos espaços. Interações – revista internacional de desenvolvimento local – vol. 1 n° 2. Brasília, UCDB, 2001,  pp. 11.

[31] op cit,  pp. 186.

[32] Nelson de Castro Senra. Contribuição para o estudo sobre a comercialização dos produtos agrícolas. Boletim de Geografia Teorética – vol.7,  n°14, Rio Claro, Ageteo, 1997,  pp 47.

[33] Adyr Balastreri Rodrigues. Turismo rural no Brasil: ensaio de uma tipologia. RODRIGUES, Adyr Balastreri (org) – Turismo rural. São Paulo, ed. Contexto, 2001, pp 113.

[34] Celso Furtado. O longo amanhecer – Reflexões sobre a formação do Brasil. Rio de Janeiro, ed. Paz e Terra, 1999, pp. 79.

[35] Clélio Campolina Diniz. O papel das inovações e das instituições no desenvolvimento local. Belo Horizonte, Cedeplar, 2002, pp. 4.

[36] Margarida Lameirinhas. Capacitação em turismo rural. Anais do Segundo Congresso Brasileiro de Turismo Rural. Piracicaba. Esalq – Usp, 2000,  pp. 39.

 

 

Bibliografia

 

ALONSO, Maria Theresinha. Vegetação. Geografia do Brasil – região Sudeste. Rio de Janeiro, Sergraf – IBGE, 1977.

 

ANDRADE, Alexandre Carvalho. Importância do turismo para a diversificação das atividades econômicas na região de Itajubá, Minas Gerais. Trabalho de Formatura. Rio Claro, Unesp, 2001.

 

------------------------- Análise da evolução do turismo em Gonçalves, Minas Gerais. Monografia de Especialização. Rio Claro, Unesp, 2003.

 

BECKER, Berta. Políticas e planejamento do turismo no Brasil. YÁZIGI, Eduardo; CARLOS, Ana Fani Alessandri; CRUZ, Rita de Cássia da (org) – Turismo, espaço, paisagem e cultura. São Paulo, ed. Hucitec, 1999.

 

BENKO, Georges. A recomposição dos espaços. Interações – revista internacional de desenvolvimento local – vol. 1 n° 2. Brasília, UCDB, 2001.

 

DENARDI, Reni Antônio (et al). Fatores que afetam o desenvolvimento em pequenos municípios do Paraná. Curitiba, EMATER – PR, 2000.

 

IAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental – Princípios e práticas. São Paulo, ed. Gaia, 1994.

 

DINIZ, Clélio Campolina. O papel das inovações e das instituições no desenvolvimento local. Belo Horizonte, Cedeplar, 2002.

 

FONSECA, Maria Lucinda. Patrimônio, turismo e desenvolvimento local. RODRIGUES, Adyr Balastreri (org) – Turismo rural. São Paulo, ed. Contexto, 2001.

 

FURTADO, Celso. O longo amanhecer – Reflexões sobre a formação do Brasil. Rio de Janeiro, ed. Paz e Terra, 1979.

 

IANNI, Octavio. Relações de produção e proletariado rural. SZMRECÁNSKI, Tamás e QUEDA, Oriowaldo (org). Vida rural e mudança social. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1979.

 

KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do turismo – para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1989.

 

LAMEIRINHAS, Margarida. Capacitação em turismo rural. Anais do Segundo Congresso Brasileiro de Turismo Rural. Piracicaba. Esalq – Usp, 2000.

LANGENBUCH, Jüerguen Richard. Os municípios turísticos do estado de São Paulo: Determinação e caracterização geral. Revista Brasileira de Geografia – vol.2 n°3, Rio de Janeiro, 1977.

 

MENDES JÚNIOR, Luis Osvaldo (et al). Relatório Mantiqueira. São Paulo, FEDAPAM, 1991.

 

OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Agricultura brasileira – transformações recentes. ROSS, Jurandyr Luciano Sanches (org) – Geografia do Brasil. São Paulo, Edusp, 2000.

 

OLIVEIRA, Lívia de. Que é geografia. Sociedade e natureza – vol 11, n°12. Uberlândia, Edufu, 1999.

 

PETROCCHI, Mário. Turismo, planejamento e gestão. São Paulo, ed. Futura, 1998.

 

RODRIGUES Adyr Balastreri. Turismo rural no Brasil: ensaio de uma tipologia. RODRIGUES, Adyr Balastreri (org) – Turismo rural. São Paulo, ed. Contexto, 2001.

 

ROSS, Jurandyr Luciano Sanches (org). Geografia do Brasil. São Paulo, Edusp, 2000.

 

SENRA, Nelson de Castro. Contribuição para o estudo sobre a comercialização dos produtos agrícolas. Boletim de Geografia Teorética – vol. 7,  n°14, Rio Claro, Ageteo, 1997. 

 

SILVEIRA, Marcos Aurélio Tarlombani. Política de turismo: oportunidade ao desenvolvimento local. RODRIGUES, Adyr Balastreri (org) – Turismo rural. São Paulo, ed. Contexto, 2001, pp 135.

 

TUAN, Yu-Fu. Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo, ed. Difel, 1980.

 

TULIK, Olga. Estratégias de desenvolvimento do turismo rural. Anais do Segundo Congresso Brasileiro de Turismo Rural. Esalq – Usp, 2000.

 

VIEIRA, Mirna Lygia. A imagem turística de Itanhaém, litoral sul paulista. Tese de doutorado. Rio Claro, Unesp, 1997.

 

YÁZIGI, Eduardo. Vandalismo, paisagem e turismo no Brasil. YÁZIGI, Eduardo; CARLOS, Ana Fani Alessandri; CRUZ, Rita de Cássia Ariza (org) – Turismo: Espaço, Paisagem e Cultura. São Paulo, ed. Hucitec, 1999.