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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE NATURAL DE UNIDADES HOMOGÊNEAS DA BAIXADA MARANHENSE

 

 

Prof. Dr. Roberto Verdum (verdum@ufrgs.br)

Geógrafo Ney Fett Junior (ney_fett_jr@yahoo.com.br)

Bolsista de IC Camila Thomaz da Silveira (camilathomaz@hotmail.com)

 

 

Laboratório de Geomorfologia

Departamento de Geografia-IG-UFRGS



 

Palavras chave: Geografia, Geomorfologia, vulnerabilidade natural

Eixo: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo: Gestão e Planejamento Ambiental

 




 

Introdução

 

Fundamentando-se na metodologia de Tricart (1977) e no interesse de se estabelecer a avaliação da vulnerabilidade natural da área de interesse – Área de Preservação Ambiental (APA) da Baixada Maranhense, no Estado do Maranhão, optou-se para expressar um dos critérios dessa avaliação, a geomorfologia, através da relação entre os processos de morfogênese (geração das formas pelos processos morfogênicos) e a pedogênese (formação dos solos). Além desses dois aspectos, destaca-se também, as características essenciais da natureza litológica como dado essencial para o aspecto estrutural das unidades de relevo.

 

Procedimentos metodológicos

 

Como procedimentos iniciais para a realização desta etapa do estudo, foram utilizados os documentos cartográficos e fotográficos, seguintes:

 

  1. os mapas geológico, de solos e geomorfológico; escalas 1:1.000.000, do Projeto Radambrasil (1973);

  2. o mapa geológico do Estado do Maranhão, escala 1:1.000.000, do Departamento Nacional da Produção Mineral (1986);

  3. o Atlas do Maranhão (2000) e as fotos aéreas de 1986, escala 1:60.000, da Divisão de Terras do Estado do Maranhão.

 

Após a análise e a produção de um mapeamento geomorfológico preliminar, foi realizada uma saída de campo para reconhecimento das unidades geomorfológicas mapeadas e suas respectivas vulnerabilidades aos processos morfogênicos, assim como, as dúvidas em relação aos mapeamentos geológicos que, confrontados, apresentavam discordâncias.

Inicialmente, propõem-se como primeiro nível de abordagem a Compartimentação Geomorfológica Regional que caracteriza o contexto geomorfológico mais genérico em que está situada a APA da Baixada Maranhense.

Em seguida, num segundo nível de compartimentação geomorfológica, definidas as Unidades Geomorfológicas, através dos critérios anteriormente apontados, foram identificadas as principais Características Geomorfológicas e Geodinâmicas de cada uma dessas unidades, assim como as respectivas Categorias de Meios Geodinâmicos (estáveis, intergrades e instáveis).

Finalizando, apresenta-se o Quadro Resumo e o Mapa de Geomorfologia da Baixada Ocidental Maranhense com os principais resultados obtidos neste estudo, que servem como dados de referência para a Caracterização da Vulnerabilidade Natural.

 

Contexto geomorfológico regional

 

A partir dos documentos consultados pode-se propor como um primeiro nível de compartimentação geomorfológica da APA as seguintes unidades:

 

  1. o golfão Maranhense e
  2. a superfície Maranhense.

 

O Golfão Maranhense caracteriza-se por ser um compartimento do relevo rebaixado - planície, constituindo-se em um grande coletor do sistema hidrográfico da porção norte do Estado, sendo constantemente alagada pela confluência estuarina dos rios Pindaré, Grajaú, Mearim, Itapecuru e Munim. Resultado do intenso processo de colmatação recente (aluviões Holocênicos), posterior a intensa erosão fluvial durante o Quaternário, este compartimento apresenta a associação entre numerosas lagoas fluviais e extensas várzeas inundáveis.

A Superfície Maranhense caracteriza-se por ser um compartimento do relevo formado por uma superfície aplainada em rochas sedimentares (Formações Barreiras e Itapecuru), constituindo-se essencialmente por colinas suaves e relevos testemunhos, tabulares, oriundos da dinâmica fluvial dos rios, tais como: Caxias, Urubuçu, Paraná, Turiaçu e Pericumã.

 

Unidades Geomorfológicas e Categorias de Meios Geodinâmicos

 

Para esta etapa, buscou-se detalhar os compartimentos do relevo, na intenção de se criar subsídios capazes de auxiliar na definição das unidades geomorfológicas mais propícias à Vulnerabilidade Natural, considerando, além das características estruturais, aquelas relativas as dinâmicas erosivas e deposicionais.

Seguindo a proposição metodológica apresentada no mapeamento do Projeto Radambrasil (1973), propõe-se a identificação das formas associadas as dinâmicas que destas resultam. Basicamente, as Unidades Geomorfológicas estão divididas em: acumulativas (A); de dissecação (d) e erosivas (E).

 

a) Unidades Geomorfológicas Acumulativas (A)

 

Apfmc - Planície fluvio-marinha pleistocênica

Planície colmatada por depósitos fluviais (aluviões pleistocênicos), onde os processos morfogênicos são atuantes pela presença de dissecação fluvial em solos hidromórficos lateríticos e sedimentos areno-argilosos (areais quartzosas).

Categorias de Meios Geodinâmicos: instáveis - 3

 

 

Apfmg - Planície fluvio-marinha

Planície na forma de vales afogados (rias), onde há presença de manguezais em áreas periodicamente inundadas. A ação de abrasão marinha contribui à morfogênese em solos halomórficos de mangues e sedimentos areno-silte-argilosos.

Categorias de Meios Geodinâmicos: instáveis – 3

 

Apfmi - Planície fluvio-marinha

Áreas deprimidas de depósitos continentais recentes, onde a morfogênese se realiza simultaneamente com a pedogênese, pela deposição periódica de sedimentos fluvio-marinhos, devido as flutuações hídricas sazonais.

Categorias de Meios Geodinâmicos: intergrades (intermediários) - 2

 

Atf - Terraços fluviais

Terraços fluviais com depósitos inconsolidados, onde a instabilidade dos agregados pode favorecer o processo morfogênico. Esses relevos apresentam processos atuais de pedimentação, formando solos aluviais pouco desenvolvidos.

Categorias de Meios Geodinâmicos: intergrades (intermediários) – 2

 

b) Unidades Geomorfológicas de Dissecação (d)

 

dc – Colinas suaves e relevos tabulares dissecados

Relevos dissecados por canais geralmente curtos, numerosos e pouco aprofundados, constituindo uma extensa superfície pediplanada. O processo morfogênico sobre solos hidromórficos lateríticos e podzólicos, assim como sobre os depósitos sedimentares que identificam litologicamente essa unidade geomorfológica, é caracterizado pela evolução lenta do modelado em equilíbrio com as condições bioclimáticas atuais. Foto 3.

Categorias de Meios Geodinâmicos: estável - 1

 

dm - Relevos tabulares

Relevos resultantes da evolução dos processos de dissecação em interflúvios. A morfogênese se realiza pela declividade das vertentes desses relevos, em consonância com a friabilidade dos solos hidromórficos lateríticos e podzólicos, assim como dos sedimentos areno-argilosos (areias quartzosas) que os compõem. Foto 4.

 

Categorias de Meios Geodinâmicos: instável - 3

 

c) Unidades Geomorfológicas de Erosivas (E)

 
Eepe - Relevos dobrados

Relevos de cristas estruturais, dobras e colinas (estruturas pré-cambrianas), exumadas sobre depósitos sedimentares. Os processos morfogênicos ocorrem sobre solos concrecionários lateríticos, sobre estruturas cristalinas e, em algumas áreas, esses processos apresentam-se sobre depósitos sedimentares fluvio-marinhos.

 

Categorias de Meios Geodinâmicos: intergrades (intermediários) – 2

 

Para sistematizar as características das Unidades Geomorfológicas e as Categorias de Meios Geodinâmicos, apresenta-se o quadro abaixo:

 

Unidades

Geomorfológicas

Caracterísiticas geomorfológicas

e geodinâmicas

Categorias de meios

Geodinâmicos

Apfmc

Planície fluvio-marinha pleistocênica

3 - instáveis

 

colmatada por depósitos fluviais.

 

 

Morfogênese atuante pela presença

 

 

de processos de dissecação fluvial em

 

 

sedimentos areno-argilosos.

 

 

 

 

Apfmg

Planície fluvio-marinha, na forma de

3 - instáveis

 

vales afogados (rias), onde há presença

 

de manguezais em áreas periodicamente

 

 

inundadas. A ação de abrasão marinha

 

 

contribui à morfogênese em sedimentos

 

 

areno-silte-argilosos.

 

 

 

 

Apfmi

Planície fluvio-marinha.

2 - intergrades

 

Áreas deprimidas de depósitos

(intermediários)

 

continentais recentes, onde a

 

 

morfogênese se realiza simul-

 

 

taneamente com a pedogênese,

 

 

pela  deposição periódica de

 

 

sedimentos fluvio-marinhos,

 

 

devido as flutuações hídricas sazonais

 

 

 

 

Atf

Terraços fluviais com depósitos

2 - intergrades

 

inconsolidados, onde a instabilidade dos

(intermediários)

 

agregados pode favorecer  a morfogênese.

 

 

Esses relevos apresentam processos

 

 

atuais de pedimentação.

 

 

 

 

dc

Colinas tabulares dissecadas por canais

1 - estável

 

geralmente curtos, numerosos e pouco

 

 

aprofundados, constituindo uma

 

 

extensa superfície pediplanada.

 

 

A morfogênese é caracterizada pela

 

 

evolução lenta do modelado em

 

 

equilíbrio com as condições bioclimáticas

 

 

atuais.

 

 

 

 

 

 

 

dm

Relevos tabulares resultantes da

3 - instável

 

evolução dos processos de dissecação

 

 

em interflúvios. A morfogênese se realiza

 

 

pela declividade das vertentes desses

 

 

relevos em, consonância com a friabilidade

 

 

dos sedimentos areno-argilosos que os

 

 

compõem.

 

 

 

 

Eepe

Relevos dobrados na forma de cristas

2 - intergrades

 

estruturais e colinas, exumadas sobre

(intermediários)

 

depósitos sedimentares.

 

 

Em algumas áreas a exumação se 

 

 

apresenta em depósitos fluvio-marinhos.

 

 

Resultados

 

Adotando-se os critérios relativos à natureza litológica e a relação entre os processos morfogênicos e a pedogênese, pode-se estabelecer as Unidades Geomorfológicas de maior potencial à vulnerabilidade natural na área da APA da Baixada Maranhense. Avaliando-se os resultados obtidos quanto a essa vulnerabilidade, destacam-se as seguintes unidades: Planície fluvio-marinha pleistocênica (Apfmc), Planície fluvio-marinha (Apfmg) e Relevos tabulares (dm).

 

 

Referências bibliográficas

 

Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto Radambrasil. Folha SA. 23 e parte da Folha SA 24. Volume 3. Rio de Janeiro. 1973.

 

Departamento Nacional da Produção Mineral. Mapa Geológico do Estado do Maranhão. Escala 1:1.000.000. Rio de Janeiro. 1986.

 

Gerência de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, Laboratório de Geoprocessamento – UEMA. Atlas do Maranhão. São Luis: GEPLAN. 2000

 

Tricart, Jean Ecodinâmica.. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Diretoria Técnica, SUPREN. Rio de Janeiro. 1977. 91p.