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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

USO DA TERRA NA MICROBACIA DA SANGA ALBERTI E SUA INFLUÊNCIA EM VARIÁVEIS LIMNOLÓGICAS SÃO JOÃO DO POLÊSINE/RS1

 

 

Edison Antonio Alberti2, Fabrício Arnuti3; Isabel Camponogara³; Waterloo Pereira Filho4

 

 

Palavras Chave: microbacias, limnologia, uso da terra.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.







 

 

1. INTRODUÇÃO

A questão ambiental vem sendo discutida nos últimos anos, mais intensamente, pelas Organizações não Governamentais, pelos órgãos oficiais dos governos e pela população. Estas instituições têm demonstrado, não só preocupação com o meio ambiente como também o forte desejo em modificar determinadas formas de relações que as populações mantêm com a natureza. Ao priorizar o desenvolvimento econômico, o homem tende a alterar profundamente os parâmetros ambientais, chegando, em determinados casos, a impossibilitar o desenvolvimento normal do seres vivos em seu ecossistema. Para Dorst (1973), a conservação da natureza e a exploração racional dos recursos são problemas que remontam desde o surgimento do homem sobre a terra, influenciando no seu habitat, a partir da exploração em seu proveito, alterando o equilíbrio natural e provocando profundas modificações na natureza mais do que qualquer outra espécie animal.

O município de São João do Polêsine enfrenta problemas de degradação ambiental, tais como: erosão, pois o recurso solo está diretamente ligado à vocação econômica deste à sua preservação, pois é imprescindível para a manutenção da produtividade (Klamt, et al. 1997), destruição desordenada das matas ciliares, assoreamento dos cursos fluviais e poluição da água pelo lançamento de substâncias orgânicas e inorgânicas, resultantes principalmente do esgoto doméstico (Alberti, 2001). Outro problema igualmente grave para a natureza e à população são os agrotóxicos utilizados na agricultura, ocasionando sérios problemas ambientais. Sendo assim, os impactos provocados pelas atividades humanas sobre a natureza chegam a níveis preocupantes, colocando em risco a sobrevivência humana.

Portanto, estudos locais que levam em conta problemas ambientais, como lançamento de esgoto doméstico no Arroio Alberti no Município de São João do Polêsine - RS, com pequeno núcleo urbano, são de grande valia, por permitir avançar no detalhamento e análise de problemas ambientais, através de algumas variáveis limnológicas. Averiguou-se no mesmo duas realidades distintas: uma zona rural, que recebe influência da atividade agropecuária e outra zona urbana que recebe influência da cidade, que despeja parte dos seus efluentes neste manancial (Alberti, 2001).

A constatação e/ou resolução dos problemas ambientais dos rios, sejam elas quais forem, têm que serem iniciadas a partir de suas nascentes. Desta forma, pode-se ter a real dimensão de onde está ocorrendo e qual verdadeiramente é o problema, agilizando-se desta forma os trabalhos e os esforços para solucioná-los (Alberti, 2001). Nesse sentido, o estudo da bacia hidrográfica se torna indispensável, uma vez que todo o acontecimento na bacia de captação irá repercutir diretamente ou indiretamente à jusante de um rio. Em suas palavras, Odum (1988), considera que a bacia hidrográfica é um sistema aberto, por isso as causas e as soluções da poluição da água não são encontradas, analisando-se somente a água. O funcionamento e estabilidade são relativos ao longo dos anos e são determinados em grande parte pela entrada e saída de águas, materiais e organismos de outras partes da bacia de captação. Se a entrada de materiais for muito grande e não puder ser assimilado o rápido acúmulo de materiais pode destruir o ecossistema.

A erosão do solo e a perda de nutrientes de uma floresta perturbada ou de um campo cultivado inadequadamente, não somente empobrecem esses ecossistemas, como também podem causar impactos, como a eutrofização a jusante em um rio (Odum, 1988). Estudando o processo de eutrofização em reservatórios Tundisi (1986), identificou uma série de conseqüências para o ecossistema, tais como: diminuição do oxigênio, aumento dos sedimentos em suspensão e turbidez da água, reduzindo as possibilidades de sobrevivência da fauna e da flora, essenciais e esse ambiente para completar o ciclo ecológico.

Para Branco (1978), os maiores prejuízos para um manancial, causado pela poluição, são a destruição da flora e fauna naturais. Esta destruição é devida às alterações do teor de oxigênio, matéria orgânica, pH (potencial hidrogeniônico), temperatura, entre outras.

A temperatura é uma variável importante, segundo Mota (1997), mudanças na temperatura podem resultar em modificações em outras propriedades da água, ou seja, a viscosidade da água reduz-se, com a elevação da temperatura, podendo ocorrer a precipitação de microorganismos, principalmente fitoplâncton; a redução da temperatura da água causa o aumento da sua densidade; quanto maior a temperatura, menor o teor de oxigênio.

A temperatura desempenha um papel importante no metabolismo do meio aquático, condicionando as influências de uma série de parâmetros físico-químicos. Em geral, à medida que a temperatura aumenta, de 0 a 30°C, a viscosidade, tensão superficial, compressibilidade, calor específico, constante de ionização e calor latente de vaporização diminuem. Branco (1978), comenta que os organismos aquáticos possuem limites de tolerância térmica superior e inferior, temperaturas ótimas para o crescimento, temperatura preferida em gradientes térmicos e limitações de temperatura para migração, desova e incubação de ovos. O aumento da temperatura acelera as atividades metabólicas e conseqüentemente aumento do consumo de oxigênio, prejudicando desta forma a piscicultura, assim como diminui a autodepuração dos rios por decomposição microbiana (Fellenberg, 1980).

O conceito sobre poluição utilizado normalmente no meio acadêmico ou pela população leiga é amplo. Conforme Batalha (1986, p. 90), refere-se a: “Qualquer interferência prejudicial aos usos preponderantes das águas, do ar e do solo, previamente estabelecidos”. Embora existam vários conceitos para o termo poluição, para uma maior compreensão do assunto, trabalhou-se com uma caracterização geral, a fim de melhor interpretar a sua manifestação, seja ela: poluição físico-química, denominada ciência que se situa no limiar entre a física e a química, isto é, que utiliza os princípios científicos da física e da química para explicar alguns processos e reações físico-químicas. A poluição físico-química, provocada pelos mais variados tipos de resíduos sólidos, tem como principais fatores a capacidade de determinar modificação da fauna e da flora do meio, além de agir de forma nociva à saúde humana.

Neste trabalho avaliou-se a condição ambiental a partir de certos parâmetros da água deste manancial, correlacionando-se aos dados obtidos a partir das coletas das amostras de água dos seguintes parâmetros: pH (potencial hidrogeniônico); Temperatura da água; Condutividade elétrica; Totais de Sedimentos Dissolvidos (TDS); Totais de Sedimentos em Suspensão (TSS). Esse trabalho tem como objetivo avaliar as relações entre as variáveis limnológicas do sistema aquático do arroio Alberti no município de São João do Polêsine, com as formas de uso da terra e a influência da cidade nestas variáveis.

 

2. CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA DE ESTUDO

A área de estudo que compreende a microbacia da Sanga Alberti está situada entre as coordenadas geográficas 29°36’26” e 29°38’19” de latitude sul; 53°26’11” e 53°28’53” de longitude oeste. Fazendo parte do município de São João do Polêsine, que possui uma área de 83,95km², o município está localizado em área central do Estado do Rio Grande do Sul, entre as coordenadas 29°36’59’’ e 29°37’00’’ de latitude sul; 53°26’45” e 53°27’11’’ de longitude oeste.

O núcleo urbano está situado a uma altitude acima dos 50m e o município apresenta cota máxima de 495m em relação ao nível do mar, localizado no Cerro da Pedra Branca. São João do Polêsine faz limite com os seguintes municípios: ao norte, Faxinal do Soturno; a oeste, Silveira Martins; a leste e ao sul com o município de Restinga Seca.

No que se refere ao aspecto populacional, o município, segundo resultados do Censo Demográfico de 2000 aplicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem uma população total de 2.742 habitantes (32,66 hab./Km²), distribuídos nos 83,95Km² de área superficial, sendo que desta 1.958 (38,60%) vivem na zona Urbana e 1.684 (61,40%) vivem na zona rural.

O clima, utilizando-se a classificação de Köppen, enquadra-se em temperado chuvoso e quente do tipo “Cfa”, com temperatura média anual mínima de 14°C a 15°C e a máxima de 23°C a 25°C, com variação nos meses mais frios (junho a agosto) entre - 3°C e 18°C e os meses mais quentes (dezembro a fevereiro) superior a 22°C.

Segundo dados do INCRA1, apud (Baratto, 1994, p. 12), este clima apresenta as seguintes características:

- O total anual de precipitações é de 1600mm, geralmente distribuídas uniformemente, sendo que no verão caem em média 400mm, no outono entre 400 a 500mm, no inverno em torno de 400mm e na primavera 450mm. Os meses de maior precipitação são abril, maio, setembro e outubro;

- A umidade relativa do ar neste município está entre a média mensal de 75% a 80%, portanto o clima pode ser considerado úmido;

- Predominam os ventos dos quadrantes leste e sul (no inverno). Quanto aos ventos do quadrante norte indica um tipo de tempo pré-frontal (aquecido).

A rede hidrográfica do município constitui-se de rios e arroios perenes, dividida em duas sub-bacias, a do rio Soturno e a do rio Vacacaí-Mirim, pertencentes à bacia hidrográfica do rio Jacuí, o qual faz parte da Bacia hidrográfica do Guaíba.

Para Coradini (2000, p. 49), geomorfologicamente o município de São João do Polêsine, conforme ilustra a Figura 1, apresenta um espaço morfoestrutural, pertencente aos seguintes compartimentos: Rebordo do Planalto, composta por rochas sedimentares e vulcânicas e à Depressão Central. Na Depressão Central a geomorfologia apresenta uma configuração de coxilha e planícies aluviais.

 

FIGURA 1 – Localização da área de estudo no Estado do Rio Grande do Sul

 

3. MATERIAIS E MÉTODOS

Para a delimitação da área de estudo, utilizou-se como base cartográfica a carta topográfica de Faxinal do Soturno, folha (SH. 22-V-C-V-I), na escala de 1:50.000, produzida pela Diretoria de Serviço Geográfico do Exército e publicada em 1980 (DSG, 1980). Seguindo o sistema de drenagem da Sanga Alberti e pelo divisor de águas, com base nas curvas de nível, delimitou-se a bacia hidrográfica.

Depois de identificada e delimitada a área de estudo, situada entre as coordenadas geográficas 29°36’26’’ e 29°38’19’’ de latitude sul; 53°26’11’’ e 53°28’53’’, de longitude oeste, fez-se a coleta das amostras. A coleta obedeceu a determinações técnicas, sendo que para isso foram utilizados recipientes plásticos próprios para este fim, devidamente identificados e esterilizados, conforme normas da CETESB2, a partir da metodologia definida em Agudo et al. (1987).

Para a determinação do TSS, utilizou-se garrafas plásticas esterilizadas, com capacidade de 1 litro de água; para o georeferenciamento dos pontos utilizou-se do GPS (Sistema de Posicionamento Global) da marca GARMIN-38; também utilizou-se o phmetro, marca “pH Master”, aparelho que registra o pH e a temperatura da água, sendo que o sensor que determina o pH foi calibrado antes do procedimento de averiguação desta variável em soluções padrões (pH=4 e pH=7); a condutividade elétrica TDS foi identificada com o aparelho “Orion 515”. Esta etapa foi realizada no dia 21 de agosto de 2002.

A determinação do TSS, a qual foi realizada no Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geociências CCNE/UFSM, procedeu-se da seguinte forma:

Primeiramente fez-se a secagem dos filtros a uma temperatura de 40°C durante 24 horas, em estufa de esterilização universal (FABBE-PRIMAR), dos filtros de celulose tipo HA com 0,45mm de poro e 0,47mm de diâmetro, acondicionados em Placa de Petri de plástico, numerados seqüencialmente, fabricados pela Millipore. Após este período foram colocados no dessecador para esfriar e mantê-los seco até a pesagem e filtragem das amostras.

Na segunda etapa procedeu-se a pesagem dos filtros para a determinação do seu peso seco, pesagem feita com balança de precisão “Mettler Toledo AG245” com precisão de centésimos de milésimo do grama, executada no Laboratório de Pesquisa Espectrometria Atômica e Cromatografia, do Departamento de Química do CCNE/UFSM.

A terceira etapa consistiu na filtragem das amostras feitas com o auxilio de um conjunto para filtrar, marca Kontes, mais quitasato. Na filtragem, utilizou-se a quantidade de 20ml de água.

A quarta etapa consistiu novamente em secar os filtros a temperatura de 40°C durante 24 horas na estufa já descrita. Após este período, acondicionou-se novamente o filtro no dessecador para que os mesmos esfriassem e ficarem protegidos da umidade e serem transportados até a balança de precisão (já descrita) para proceder à pesagem desta vez com adição de sedimentos aos poros dos filtros, neste caso para determinar o peso final.

De posse dos valores das pesagens, tanto do peso seco inicial (PI) quanto do peso seco final (PF), este, após a filtragem, procedeu-se o cálculo para determinar a quantidade de sedimento (TSS) por amostra. A diferença entre peso inicial do filtro e peso final após desidratação é a quantidade de sedimentos total (TSS) presente nas amostras. De posse dos valores das pesagens, procede-se o cálculo para se determinar a quantidade de sedimento por amostra (TSS). Utilizando-se para isso a fórmula (1).

 

TSS = PF (g) PI (g) x 1000                                       (1)

Vol. (L)

 

TSS = Totais de Sedimentos em Suspensão; PF = Peso Final, em gramas; PI = Peso Inicial, em gramas; Volume = quantidade de água filtrado em litros, multiplicado por mil.

 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A coleta das amostras, 8 (oito) no total, foi realizada no dia 21 de agosto de 2002 entre 8:30h e 12:00h, chovendo na ocasião da coleta da primeira amostra e no restante nublado sem chuva. No mês que antecedeu às coletas, entre os dias 21 de julho e 21 de agosto de 2002, o volume de chuvas foi de 369,2mm (informação obtida no escritório da EMATER3 em São João do Polêsine), quantidade precipitada esta acima da média para o período em decorrência do efeito “el nino”, sendo que nos sete dias que antecederam as coletas houve precipitação de 72,5mm de chuva.

Os pontos amostrais foram distribuídos no Arroio de tal forma que possibilitou obter a representatividade do uso da terra tanto rural quanto urbano. Com esta distribuição procurou-se visualizar as realidades do uso da terra correlacionando com a geomorfologia da área de estudo, os pontos 1 a 3 pertencem ao Rebordo do Planalto com atividade rural, os pontos 4 a 8 estão localizados na Depressão. Especificamente os pontos 4 e 5 localizam-se dentro do sitio urbano e os pontos 6 a 8 novamente localizam-se no setor rural.

Foram pesquisadas algumas características intrínsecas deste manancial, as variáveis limnológicas estudadas referem-se às águas em ambiente lótico e as informações extraídas obedecem a duas condições distintas a primeira, atribuída a coletas de variáveis em campo, tais como: pH (potencial hidrogeniônico); temperatura da água; cor da água; uso do solo no entorno; altura da lâmina d’água; largura do arroio; condutividade elétrica; TDS; e condição do tempo, e a segunda em laboratório para a determinação do TSS (Totais de Sedimentos em Suspensão) usando-se filtro de celulose. Os dados estão relacionados na Tabela 1.

 

TABELA 1 Dados das variáveis

Amostras

TSS celulose (mg/L)

Temperatura da água (°C)

pH

TDS (mg/L)

Condutividade elétrica (µS)

1

  53,8

15,8

6,88

25,0

52,1

2

  39,5

15,4

6,40

21,0

43,9

3

  48,8

15,4

6,75

20,0

42,8

4

120,4

16,0

6,48

22,0

45,6

5

117,2

16,1

6,37

29,0

59,2

6

114,6

16,2

6,35

26,0

59,2

7

122,5

16,2

6,60

26,0

55,1

8

125,0

16,2

6,66

25,0

55,3

Organização: Alberti, E. A.

 

Na interpretação das analises considerou-se a possibilidade da qualidade da água mudar ao longo do ano em função de: fatores meteorológicos; da eventual sazonalidade de lançamentos de poluidores; e, das vazões. Considerou-se também a possibilidade da qualidade da água do rio melhorar devido à capacidade de autodepuração e à diluição dos contaminantes pelo recebimento de melhor qualidade de água de seus afluentes. Esta recuperação, entretanto, atinge apenas os níveis de qualidade aceitável ou boa.

Analisando a variável TSS, percebe-se uma pequeno valor de sedimentos dos pontos 1 ao 3 (Figura 2). Estes valores podem estar associados à presença de vegetação arbórea neste setor da bacia de captação. Destaca-se que no ponto 2 tem-se a presença de mata ciliar, aproximadamente 5 metros em ambas as margens, o que proporciona o menor valor de TSS (39,5mg/L), neste caso a vegetação exerceu um papel atenuador dos processos erosivos, impedindo que um maior volume de sedimentos sejam carreados para dentro dos cursos d’água, apesar destes pontos estarem localizados em Rebordo, neste setor da área de estudo apresenta floresta e eventualmente áreas destinadas à pecuária diminuindo desta forma o transporte de sedimentos pela chuva para o arroio, pois o solo possui ainda uma proteção. A ação antrópica mais incisiva sobre este ecossistema é registrada a partir do ponto 4. Neste ponto, observa-se uma mudança na forma do relevo, onde passa de Rebordo do Planalto para Depressão Periférica. Essa mudança de relevo faz com que a exploração da terra mude, nas áreas mais íngremes têm-se culturas permanentes (cana-de-açúcar), em pequenas propriedades, e atividade pecuária. Nas áreas com menor declividades têm-se culturas temporárias (arroz), sendo que estas ocorrem próximo aos arroios devido à facilidade de acesso a água. Este quadro ocasiona a retirada de mata ciliar.

 

Organização: Alberti, E. A.

FIGURA 2 Valores de TSS

 

Observa-se um aumento de sedimentos em suspensão à jusante do ponto amostral 4, onde predomina a atividade agrícola e o início do setor urbano. Isso se deve principalmente à agricultura, ao lançamento de esgoto doméstico sem tratamento, à pouca cobertura florestal arbórea na maior parte desta seção da área de estudo, bem como, à extinção da mata ciliar e também pela presença de animais que utilizam a sanga para dessedentação. Esse aumento de sedimentos em suspensão pode ser visualizado através da Figura 3, onde, em períodos de grande vazão, as margens ficam repletas de sedimentos, acarretando, com isso, os mais diversos danos ao meio ambiente, entre eles o assoreamento do arroio, que em épocas de grande precipitação seu leito é extravasado. Observa-se nesta figura a presença de atividades agropecuárias até as margens do arroio.

 

No trabalho realizado por Alberti (2001), na mesma área de estudo, mostrou uma situação semelhante dos problemas, sendo que os valores de TSS foram menores, e aumentaram a partir do ponto 4, mesmo que tenham sido em um período com ausência de precipitação pluviométrica (sete dias antes das coletas). Em contrapartida, neste trabalho, ocorreram chuvas dois dias antes da coleta dos dados. Os valores aumentaram também a partir do ponto 4 (começo do núcleo urbano), porém os valores de TSS foram maiores.

 

FIGURA 3 Condição de uso da terra às margens do arroio Alberti, no segmento correspondente à Depressão

 

A condutividade elétrica fornece uma boa indicação das modificações na composição de uma água, especialmente na sua concentração mineral. À medida que mais sólidos dissolvidos são adicionados, a condutividade específica da água aumenta.

Analisando a variação da Condutividade Elétrica (CE) ao longo do Arroio (Figura 4), pode-se constatar realidades distintas. No primeiro ponto a CE é alta possivelmente pela grande declividade do terreno, proporcionando, desta forma, maior energia no transporte de sedimentos. Entre os pontos 2 a 4 os valores da CE diminuem possivelmente devido ao processo de autodepuração da água, como salienta Mota (1997), os corpos d’água ao receber matéria orgânica têm condições de depurar, através de mecanismos naturais, entretanto, essa capacidade é limitada, dependendo das características do manancial e da quantidade de matéria orgânica lançada. Entretanto, os valores desta variável voltam a subir tendo seus maiores valores nos pontos 5 e 6, que estão localizados à jusante do local, onde o esgoto doméstico sem tratamento é lançado diretamente no Arroio. Já nos pontos amostrais 7 e 8 voltam a diminuir.

 


Organiza
ção: Alberti, E. A.

FIGURA 4 Variação da Condutividade Elétrica

 

Segundo Troppmair (1987), poderá se compor um zoneamento da qualidade da água deste manancial: uma zona de águas limpas, antes do lançamento do esgoto; uma zona degradada, após o lançamento de efluentes, afetando a vida aquática com excesso de matéria orgânica; e uma zona de recuperação, trecho onde começa a autodepuração. A extensão de cada uma destas zonas depende do regime e do volume de água, bem como do volume e da composição do esgoto.

Considera-se o pH, uma relação numérica que exprime o equilíbrio entre os íons de hidrogênio e oxidrilas no meio. Este indicador fornece a condição da água, se a mesma é ácida (pH inferior a 7), se é neutra (pH igual a 7) ou se é alcalina (pH maior que 7), dependendo da origem e das características da água, sendo que esta pode ser alterada quando a introdução de resíduos, águas superficiais etc. Alterações bruscas do pH de uma água podem acarretar o desaparecimento dos seres presentes na mesma.

Desse modo, constatou-se um pH pouco ácido, pois seus valores não ultrapassaram a 7. Observa-se na (Figura 5) que o pH, não obedece à mesma situação do estudo realizado por Alberti (2001), que encontrou valores de pH variando de 6,82 à 8,42, sendo que os maiores valores de pH encontravam-se nos pontos a jusante do local, onde o esgoto urbano é lançado. Possivelmente essa discrepância se deve à ocorrência de precipitação nos dias que antecederam à coleta de amostra, pois, com ambiente lótico e com a entrada de diversas águas superficiais, o pH manteve-se inconstante, não obedecendo à situação anterior.

 


Organiza
ção: Alberti, E. A.

FIGURA 5 Variação do pH

 

A variável TDS manteve uma relação com a condutividade elétrica (Figura 6), tendo uma simetria entre os pontos, possuindo seu valor máximo no ponto 5, ou seja, quando acaba o perímetro urbano e começa a área rural, onde este é ponto final de recebimento dos efluentes domésticos. Portanto o TDS acompanha a situação das zonas propostas por Troppmair (1987).

 

Organização: Alberti, E. A.

FIGURA 6 Variação de Totais de Sedimentos Dissolvidos

 

Variações de temperatura são parte do regime climático normal e corpos de água naturais apresentam variações sazonais e diurnas, bem como estratificação vertical. A temperatura superficial é influenciada por vários fatores: tais como latitude, altitude, estação do ano, período do dia, taxa de fluxo e profundidade.

Ainda verifica-se na Figura 7 uma diminuição da temperatura nos ponto 2 e 3, possivelmente devido à presença de mata ciliar. Já a elevação da temperatura à jusante destes pontos do arroio se deve principalmente à ausência de mata ciliar, lançamento de despejos domésticos e também pela hora da tomada das amostras, pois foram tiradas próximas ao meio dia.

 

Organização: Alberti, E. A.

FIGURA 7 Variação da Temperatura da água

 

 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A microbacia do arroio Alberti, apesar de ser pequena, 7,25km², é responsável pela irrigação de lavouras de arroz e dessedentação de animais. Sendo assim, é necessária sua preservação, já que o uso da água esta diretamente ligado às atividades econômicas. Com relação ao uso da terra na microbacia em estudo, pode-se destacar que a espacialização levando-se em conta a geomorfologia; a presença de floresta ocorre mais expressivamente na seção correspondente as encostas mais íngremes do Rebordo do Planalto da área de captação. O sítio urbano localiza-se na área de transição entre o Rebordo do Planalto e a Depressão Central, já a área agrícola mais intensiva está localizada nas planícies aluvionais da Depressão Central.

Averiguou-se no estudo uma alta concentração de sedimentos em suspensão em todos os pontos amostrais, possivelmente devido à precipitação ocorrida dois dias antes da coleta dos dados. Também observou-se duas realidades distintas, a primeira entre os pontos 1 a 3, que apresentam os menores valores de TSS, que corresponde a área de maior cobertura florestal e maior inclinação de vertente e a segunda realidade entre os pontos 4 a 8 com os maiores valores de Totais de Sedimentos em Suspensão. Apesar do relevo com vertentes íngremes, no Rebordo do Planalto, a presença de floresta nestas áreas proporcionou menores perdas de sedimentos do que aquelas áreas localizadas na depressão. Isto foi bem observado nas amostras. Essa diferença se deve à ação do homem sobre o meio ambiente, alterando suas características naturais. Neste contexto, identificou-se a campo e com os dados limnológicas que áreas agrícolas, principalmente aquelas desenvolvidas até as margens do arroio, proporcionou aumento dos Totais de Sedimentos em Suspensão.

Em todas as variáveis limnológicas, nota-se a presença do homem atuando nelas, pois seus valores alteram quando há conflitos entre as atividades desenvolvidas pelo homem e o meio ambiente. É natural da atividade humana provocar desequilíbrios na busca de melhores condições econômicas (gerar mais lucro não se importando com o meio ambiente). Esse desinteresse, segundo Dorst (1973, p. 11), faz a seguinte observação: “Ou se consegue salvar o homem e a natureza, conjuntamente, numa feliz harmonia, ou a nossa espécie estará condenada a desaparecer com os últimos restos de um equilíbrio que não foi criado para dificultar o desenvolvimento da humanidade, mas sim para lhe servir de contexto”.

É importante o planejamento adequado para o manejo do solo, de acordo com sua aptidão, obedecendo, desta forma, à declividade das vertentes procurando minimizar os processos erosivos linear e laminar é também importante uma maior preocupação com a cobertura florestal, principalmente a mata-galeria onde há um intenso uso agrícola, bem como cobertura vegetal arbórea, onde a declividade acentuada impossibilita as atividades agropecuárias.

A recuperação e preservação deste manancial é necessária. Algumas medidas simples, porem eficazes, deveriam ser implantadas, como, por exemplo o reflorestamento das margens do arroio, seguindo à legislação do Código Florestal. O tratamento do esgoto em açudes de decantação também é recomendado. Desta forma, os impactos sobre este ecossistema seriam abrandados.

A falta de planejamento constitui uma das grandes causas da poluição dos rios. O crescimento das cidades (desordenada e irracional) e a ocupação do espaço agrícola sem técnicas concervacionistas geram grandes conflitos. Desse modo, cabe aos geógrafos planejar a dinâmica de uma cidade, ou de uma microbacia, para que não afete fria e severamente a capacidade natural do rio e assim permitir a identificação e a recuperação, ou no mínimo a minimização dos impactos ambientais.

 

 

NOTAS

 

1 Pesquisa desenvolvida no curso de Geografia, na Disciplina de Planejamento. Ambiental. Departamento de Geociências, Centro de Ciências Naturais e Exatas, Universidade Federal de Santa Maria-RS.

2 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS, CEP: 97 111-970, E-mail: alberti@mail.ufsm.br

3 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS, E-mail: isacamponogara@mail.ufsm.br

4 Departamento de Geociências, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS, CEP: 97 119-900, E-mail: waterloo@base.ufsm.br

 1 Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

2 Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental.

3 Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural.

 

 

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AGUDO, E. G. et al. Guia se coleta e preservação de amostras de água. São Paulo: CETESB, 1987.

 

ALBERTI, A. E. Influências do setor rural e urbano no arroio Alberti no município de São João do Polêsine RS. 2001. 50f. Monografia (Bacharel em Geografia)-Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2001.

 

BARATO, J. Uso da terra por classe de declividade nos municípios de Faxinal do Soturno e São João do Polêsine RS. 1994. 57f. Monografia (Especialização em Interpretação de Imagens Orbitais e Suborbitais) - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 1994.

 

BRANCO, S. M. Poluição: a morte de nossos rios. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1972.

 

BRANCO, S. M. Hidrobiologia aplicada à engenharia sanitária. 2. ed. São Paulo: CETESB, 1978.

 

CORADINI, M. Turismo científico em paleontologia no município de São João do Polêsine RS. 2000. 107f. Monografia (Bacharel em Geografia) - Universidade Federal Santa Maria, Santa Maria, 2000.

 

Diretoria de Serviço Geográfico do Exército (DSG). Porto Alegre: Faxinal do Soturno (MI-2966/1). Porto Alegre, 1980. (Cartas Topográficas: Escala 1:50.000).

 

DORST, J. Antes que a natureza mora: por uma ecologia política. São Paulo: Edgard Blücher, 1973.

 

FELLENBERG, G. Introdução aos problemas da poluição ambiental. São Paulo: EPU, 1980.

 

KLAMT, E.; DALMOLIN, R. S. D.; CABRAL, D. da R. Solos do Município de São João do Polêsine: características, classificação, distribuição geográfica e aptidão de uso. Santa Maria: Ed. UFSM, 1997.

 

MOTA, S. Introdução à engenharia ambiental. Rio de Janeiro: ABES, 1997.

 

ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

 

TROPPMAIR, H. Biogeografia e meio ambiente. Rio Claro: Graff Set, 1987.

 

TUNDISI. J. G. Limnologia de Represa e Barragens Artificiais. Boletim de Hidráulica e Saneamento, n. 11, 46p. 1986.