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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

ANÁLISE DO USO DA TERRA EM ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE NA SUB-BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO VACACAÍ-MIRIM/RS, UTILIZANDO GEOTECNOLOGIAS1



 

 

Isabel Camponogara2; Edison Antonio Alberti3; Marcia Andréa Trentin³

 



 

Palavras Chave: uso da terra, leis ambientais, geotecnologias.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

1 INTRODUÇÃO

O espaço geográfico em todo seu conjunto vem enfrentando constantes e contínuas transformações em função da dinâmica sócio-eonômica e espacial que faz emergir a necessidade cada vez maior de uma (re)organização territorial que atualmente, mais do que nunca, está globalizada. Além disso, a adaptação do uso da terra às várias modalidades de utilização e exploração agro-silvi-pastoril está relacionada à sua capacidade de suporte, conseqüentemente relacionada às potencialidades e limitações deste uso (Brutti, 2003).

Com base nestas alterações que causam a descaracterização das paisagens naturais, as quais têm repercussões voltadas ao crescimento e desenvolvimento da sociedade, Gonçalves apud Brutti (2003), comenta que ao se organizar territorialmente, cada sociedade forja padrões de ocupação e uso dos recursos e espaços, de acordo com suas necessidades e aspirações.

Neste sentido, o planejamento é de fundamental importância, haja vista que o ponto de partida da tomada de decisões, sobretudo quando se parte para estudos locais, permitam um maior conhecimento do ambiente natural e ocupação humana, podendo desta forma analisar as possíveis mudanças e corrigir conflitos causados pela ação antrópica desordenada.

O planejamento para Mello Filho (1994) apud Brutti (2003), visa o uso racional dos recursos naturais, proporcionando uma ocupação ordenada e melhor aproveitamento do espaço físico minimizando prejuízos ao meio, tanto na administração pública como da população inserida na área.

Para Mota (1997) o planejamento territorial, o qual considera a bacia hidrográfica como unidade de gestão, incluindo todos os componentes dos meios físico, biótico e antrópico dessa área, é a melhor forma de realizar a sua ocupação e utilização, garantindo a conservação dos recursos naturais.

Na América Latina, em particular no Brasil, a expansão geográfica e comercial dos países europeus desencadearam um processo de destruição da ambiência com as primeiras explorações em busca da conquista do território (Brutti, 2003).

Não longe desta realidade, conforme Santos & Santos (1989), encontramos o Rio Grande do Sul, colonizado e integrado mais tardiamente do o restante do país, enfrentando, porém, inúmeros impactos quanto ao uso dos recursos naturais, em resposta à intensificação da atividade agrícola tão praticada pelo imigrante que aqui chegaram, sobretudo entre 1824 a 1875. Desta forma, quando se enfoca a questão ambiental, deve-se remeter ao passado colonial deste, ao processo de submissão e exploração ao longo de décadas.

De mesma forma, o advento tecnológico da humanidade, de acordo com Guidugli (1984), até o final do século XVIII foram considerados como pouco significativos, entretanto a industrialização do século XIX e a ação humana sobre o meio tornou-se mais evidente de forma planejada ou não.

Nesta concepção, Brutti (2003) destaca que durante a década de 60 houve um aumento da preocupação ecológica com os primeiros movimentos ambientalistas. A consciência ecológica ocorre principalmente nos países industrializados, bem como na década de 80 entram em vigor as legislações específicas que regulam a instalação das indústrias estabelecendo exigências para sua instalação.

Assim como a preocupação no contexto ambiental em utilizar o meio ambiente dentro da capacidade produtiva dos ecossistemas existentes está condicionada a idéia de desenvolvimento sustentável como coloca Roth (1996), que visa garantir o uso dos recursos ambientais para atender as necessidades atuais, de modo a não modificá-los para o futuro.

Desse modo, relacionando o processo evolutivo de uso e exploração dos sistemas terrestres pelo homem, a partir da análise geográfica do impacto ambiental, e objetivando a melhoria da qualidade ambiental desta sub-bacia hidrográfica, dentro do meio que a circunda, adequando o uso às suas potencialidades e limitações é que buscou-se no estudo integrado de elementos naturais e humanos, otimizar resultados, partindo-se do mapeamento do uso da terra e identificação das áreas de preservação permanente, para avaliar a qualidade ambiental da área.

As informações obtidas possibilitam avaliar a dinâmica comportamental dos processos relacionados à exploração inadequada, identificar problemas e efetuar possíveis correções para que sejam atendidos os padrões de qualidade do ambiente, na tentativa de otimizar tempo, recursos e resultados, considerando-se estes como elementos auxiliadores no manejo de bacias hidrográficas, pois conforme salienta Rocha (1997), o manejo como ...uma proposta educativa e corretiva para recuperar o meio ambiente deteriorado, sugerindo as melhores alternativas para a proteção e conservação da natureza.... Fatos estes que evidenciam a preocupação em melhorar a qualidade de vida tanto do ambiente natural como da sociedade nela inserida.

Considerando essas premissas, o objetivo da presente pesquisa, a partir de uma abordagem integrada, e o de analisar a dinâmica do uso da terra e sua influência sobre a qualidade ambiental, bem como confrontar com as leis ambientais na área da Sub-bacia Hidrográfica do Rio Vacacaí-Mirim/RS, considerando-se o que ressalta Odum (1988), com relação às bacias hidrográficas, as quais devem ser consideradas inteiras.

 

 

2 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

 

A área de interesse corresponde à sub-bacia hidrográfica do Rio Vacacaí-Mirim, de onde parte a montante do reservatório do DNOS4, com uma área aproximadamente de 3.029,67ha, estando localizada entre as coordenadas geográficas 53º4630’’ a 53º4929’’ de Longitude Oeste de Greenwich e 29º3655’’ a 29º3950’’ Latitude Sul (Figura 1). Esta área encontra-se situada no Centro Geográfico do Rio Grande do Sul em áreas dos municípios de Santa Maria e Itaára, na área de captação do Reservatório do DNOS na sub-bacia do Vacacaí-Mirim, em uma zona de transição, que abrange parte do rebordo do Planalto Meridional Brasileiro e a Depressão Periférica Gaúcha (Maciel Filho, 1977).

Esta bacia integra-se a Bacia do Guaíba, a maior do Estado. Seus cursos fluviais são conseqüentes, de acordo com proposta de Christofoletti (1988), onde os cursos das águas apresentam-se coincidentes à inclinação das camadas rochosas, existe, porém, resistência da estrutura bem como presença de falhas e fraturas condicionantes ao curso da drenagem.

A área de estudo pode ser dividida em dois compartimentos geomorfológicos (Depressão Periférica e Região do Planalto que subdivide-se em Planalto e zona de transição o chamado Rebordo do Planalto), segundo as características Morfológicas e Geológicas.

* Região do Planalto: A zona das nascentes localizadas no Planalto encontra-se em altitude média variando entre 300 e 400 metros, formada a partir do vulcanismo da Bacia do Paraná. A região caracteriza-se pela presença do relevo ondulado a suavemente ondulado, resultante da ação de dissecação fluvial na superfície de planalto.

 

FONTE: (Vieira, E. S. 1984)

 FIGURA 1 - Localização da área de estudo no RS

 

* O Rebordo do Planalto: área de transição entre o Planalto e a Depressão Periférica sul-rio-grandense, caracteriza-se por apresentar escarpas abruptas.

* Depressão Periférica Sul-rio-grandense: constituída por rochas sedimentares da Bacia do Paraná entre o paleozóico e Mesozóico (Triássico), encobertos localmente por sedimento cenozóicos e recentes. A região apresenta-se com uma topografia bastante homogênea, de plana a suavemente ondulada.

No que se refere ao clima da região de Santa Maria - RS, de acordo com classificação de Köppen apud Ayoade (1986), corresponde ao clima sub-tropical (úmido) “Cfa”, cuja temperatura média anual apresenta uma média de 19ºC, atingindo as temperaturas máximas no mês mais quente de 31ºC, e as temperaturas mínimas do mês mais frio em torno de 9ºC, atingindo as máximas e as mínimas absolutas de 35ºC e 0ºC respectivamente. A média anual de ocorrência de geadas costuma variar de 1 a 10 dias. As precipitações pluviométricas são regulares o ano todo, apresentando índices pluviométricos anuais entre 1500mm a 1600mm.

Os ventos predominantes são de leste e sudoeste, entretanto, a região de Santa Maria caracteriza-se também pela constante presença de ventos de originários do quadrante norte. Maciel Filho (1977) apud Brutti (2003) comenta que, quanto ao inverno, a região é freqüentemente atingida por ondas de frio (procedentes do anticiclone migratório polar) caracterizadas pelo vento minuano.

A vegetação do município de Santa Maria, segundo Bortoluzzi (1971) apud Dill (2002), está constituída por vegetação do tipo campo limpos e floresta Sub-tropical, havendo o predomínio das pastagens naturais nas áreas caracterizadas pela Depressão Periférica sul-rio-grandense, entretanto, na porção norte do município, área caracterizada pela presença do Planalto, predomina as matas de pequeno e grande porte. Conforme classificação de Leite & Klein (1990), a floresta caducifólia sub-tropical caracteriza a escarpa da Serra Geral, ocupando a região central do Município.

Quanto aos solos, no município de Santa Maria, caracterizam-se por uma grande diversidade, entretanto, há predomínio dos Podzóicos-vermelho-amarelo Álico, Brunizém Hidromórficos, Litossolos, Planossolos e Latossolos (Brutti, 2003), estando à uma escala de reconhecimento e distribuídos em 6 unidades de mapeamentos: Unidade Mapeamento Julio de Castilhos; Unidade de mapeamento Charrua; Unidade de Mapeamento Ciríaco; Unidade de Mapeamento São Pedro; Unidade de Mapeamento Santa Maria; Unidade de Mapeamento Venda Grande.

 

 

 

3 PROCEDIMENTOS TÉCNICOS E OPERACIONAIS

 

3.1 Material e Metodologia

 

Para o desenvolvimento desta pesquisa procurou-se um procedimento metodológico que possibilitasse a obtenção de dados e viabilizassem a contemplação dos objetivos. Desse modo, foi realizado o levantamento de dados e informações sobre a área de interesse, incluindo a seleção de imagem de satélite e da carta topográfica.

O limite da área de estudo foi definido com base na carta topográfica de Santa Maria folha SH. 22-V-C-IV-I, MI-2965/1, em escala 1:50.000, produzida pela Diretoria de Serviço Geográfico do Exército e publicada 1980 (DSG, 1980). Visando identificar a dinâmica do uso da terra, empregou-se imagem de satélite Landsat 7 - ETM+ (bandas 3, 4 e 5), no formato digital, referente a abril de 2000.

O processamento da imagem, bem como a entrada dos dados, foram conduzidos no programa SPRING5 for Windows (versão 3.6.03, 2002), disponível no Laboratório de Geoprocessamento do Curso de Geografia da UFSM. Assim, foram armazenados como planos de informação elementos digitalizados com base na carta topográfica selecionada (drenagem, rede viária, estradas e curvas de nível), além da imagem Landsat 7 - ETM+ referente à área de estudo.

Para delimitar as áreas de preservação permanente, procedeu-se de acordo com as determinações do Código Florestal Lei n.º 4.771, (Vieira, 1991) que consiste em preservar as coberturas florestais e demais formas de vegetação natural situadas em declividades superiores a 25º (correspondendo a 47% na metodologia de De Biasi, 1970) e ao longo dos rios desde o seu nível mais alto em faixa marginal, no caso dos canais com até 10 metros de largura (situação desta sub-bacia), a área de preservação consiste em 30 metros, e para o reservatório (DNOS) por possuir dimensão variando entre 100 a 130 metros de largura, delimitou-se 100 metros para seus entornos.

Para executar delimitação das áreas de preservação permanente referente à rede hidrográfica, executou-se a operação temático para elaborar o mapa de distância. O processamento inicia-se com a rede hidrográfica ativa, e posteriormente na operação temático a opção mapa de distância. A partir deste fez-se a seleção do elemento e a entidade definida como linha. Na tela, elegeu-se os canais para posteriormente determinar a distância de preservação. Na seqüência, definiu-se o plano de informação para armazenar o mapa de preservação permanente.

Para mapear as declividades das vertentes destinadas à preservação permanente fez-se uso do mapa clinográfico, que consiste na operação MNT (Modelo Numérico de Terreno). Nesta operação, inicialmente faz-se a edição das curavas de nível e posteriormente cria-se a grade regular, e também elabora-se a imagem de textura. A partir destas cria-se a categoria temática contendo as classes de declividade. Para esta pesquisa, adotou-se cinco classes, obedecendo à metodologia de De Biasi (1970) apud Camponogara (2003).

Para identificar o uso da terra, partiu-se do georreferenciamento da imagem de abril de 2000. Para tanto, foram geradas imagens sintéticas referentes à composição colorida TM 5-R; 4-G; 3-B, realçada pela técnica de Ampliação Linear de Contraste, visando melhorar a qualidade visual e destacar as feições de interesse, de modo a facilitar posteriormente a coleta de amostras de treinamento na etapa de classificação de imagens.

De posse de uma legenda pré-estabelecida, definida com base na experiência de analistas e no trabalho de campo, foram adquiridas amostras de treinamento e teste na imagem, as quais foram submetidas a uma avaliação do desempenho. Este procedimento ocorreu através da análise individual de cada classe e suas respectivas amostras utilizando limiar de aceitação de 99,9%.

Com a conclusão dessas etapas, realizou-se o mapeamento para as classes, visando à criação das imagens temáticas finais do ano de estudo. Para esta pesquisa definiu-se as seguintes classes: floresta, campo, agricultura, área urbana e água, sendo estas últimas as de maior relevância para a área de estudo.

Para a obtenção dos produtos temáticos finais contribuiu de modo significativo o trabalho de campo realizado visando o reconhecimento da paisagem da área de estudo, através da correlação das feições presente na imagem com os padrões de cobertura vegetal e uso da terra observados no campo. Nesta ocasião foram também coletadas informações gerais, relativas ao uso da terra e referente às áreas de preservação permanente.

A partir da disponibilidade dos dados e informações de interesse, foram efetuadas as análises derivadas da quantificação das áreas das classes, bem como da dinâmica de tais feições e a partir do cruzamento da imagem classificada, obtida para o ano de estudo, com base na distribuição espacial das informações temáticas, o que possibilitou verificar as condições ambientais da sub-bacia.

 

 

 

 

 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

 

4.1 Uso da terra na sub-bacia hidrográfica do rio Vacacaí-Mirim/RS

 

O uso e a ocupação de determinada área, seja ela rural ou urbana, devem ser feitos considerando os condicionantes do meio físico, biológico e antrópico, com base num planejamento ambiental, que observe as interrelações entre os diversos sistemas naturais. Desse modo, os levantamentos de dados físicos são de fundamental importância para que se possa avaliar a qualidade ambiental e planejar o uso adequado, conservação e recuperação dos recursos naturais quando necessário.

Assim, com base na análise da imagem de satélite Landsat 7 e nas observações de campo realizadas na área de estudo, pode-se individualizar e mapear as distintas classes de uso da terra e as coberturas naturais existentes na sub-bacia hidrográfica do Vacacaí-Mirim. Para tanto, na Tabela 1 são apresentados os resultados referentes à quantificação das áreas das classes de uso da terra e coberturas naturais da área com seus respectivos percentuais.

 

TABELA 1 Quantificação do uso da terra na sub-bacia hidrográfica do rio Vacacaí-Mirim/RS.

Classe

Área (ha)

%

Floresta

2.194,11

72,4

Campo

611,82

20,1

Agricultura

132,57

4,4

Água

54,27

1,7

Área urbana

36,90

1,2

Total

3.029,67

100

ORGANIZAÇÃO: CAMPONOGARA, I.; ALBERTI, E. A.; TRENTIN, M. A.

 

Fazendo-se uma inferência em relação aos dados apresentados na tabela 1, pode-se constatar que a sub-bacia hidrográfica do rio Vacacaí-Mirim apresenta uma área de 3.029,67ha, sendo que ocorre maior concentração da classe floresta, com cerca de 72,4% da área total. A classe campo ocupa um percentual de 20,4% do total. A área da classe agricultura corresponde a um percentual de 4,4% do total da sub-bacia. Para a classe água obteve-se um percentual de 1,7%. A classe de menor abrangência corresponde à classe área urbana com um percentual de 1,2%.

Em relação aos dados obtidos percebe-se que esta sub-bacia apresenta uma concentração muito significativa de cobertura florestal, devido a declividade que a área apresenta, distribuída praticamente em todos os setores da sub-bacia, porém com menor expressão no sudoeste. Esse dado é interessante, pois o que se tem observado em outras bacias hidrográficas, principalmente na região central do Estado do Rio Grande do Sul, a ocorrência de grandes áreas desflorestadas e com expressivo déficit de cobertura florestal, porém destaca-se que apesar da presença de cobertura florestal nesta área, têm-se outros problemas relacionados com a dinâmica da intervenção antrópica. Na Figura 2 pode-se observar a distribuição dos percentuais das classes de uso da terra nesta área de estudo.

 

 

 

FIGURA 2 – Percentuais das classes de uso da terra

 

Analisando os percentuais da Figura 2 percebe-se que a classe floresta ocupa o maior percentual, isto deve-se ao fato de ser uma área com vertentes íngremes dificultando desta forma a ocupação para atividades agrícolas, já a área de campo corresponde a segunda maior ocupação proporciona em algumas áreas a pecuária, os outros usos da terra correspondem a percentuais de menor expressão, mostrando desta forma a verdadeira vocação para esta área de estudo, ou seja, preservação da cobertura florestal nas encostas do Rebordo do Planalto junto as nascentes da área de captação da Barragem do DNOS.

A Figura 3 apresenta a espacialização da dinâmica da paisagem e uso da terra. Nela, pode-se observar os locais onde ocorreu ação antrópica, correspondendo às áreas modificadas principalmente com agricultura, campo, área urbana e água.

 


 

FIGURA 3 – Mapa de uso da terra da área de estudo

 

4.2 Áreas de preservação permanente e uso da terra na sub-bacia hidrográfica do rio Vacacaí-Mirim/RS

 

As áreas delimitadas para preservação permanente consistem em vertentes com declividades acima de 47% e em faixas marginais ao longo da rede hidrográfica.

Para a situação da rede hidrográfica, constatou-se 375,66ha, das quais 291,51ha correspondem às áreas de preservação para a condição dos rios com até 10m de largura e 84,15ha corresponde ao reservatório DNOS com aproximadamente 100m de preservação em seus entornos, conforme os parâmetros do Código Florestal Federal. Os dados obtidos a partir da sobreposição das classes de uso da terra e áreas de preservação permanente referente à rede de drenagem estão representados na Tabela 2 com seus respectivos percentuais.

 

TABELA 2 Uso da terra em áreas de preservação permanente para a condição da rede hidrográfica.

Uso da terra

Área de preservação 30m (ha)*

%

Área de preservação 100m (ha)*

%

Floresta

259,0

89,0

67,32

79,7

Campo

22,5

7,6

11,0

13,1

Agricultura

9,9

3,4

6,03

7,2

Total

291,51

100

84,15

100

ORGANIZAÇÃO: CAMPONOGARA, I.; ALBERTI, E. A.; TRENTIN, M. A.

*Áreas de preservação permanente na faixa dos 30 e 100 metros no entorno da rede hidrográfica e reservatório, respectivamente.

 

Analisando os dados relacionados com as áreas de preservação permanente para situação da rede hidrográfica, no que se refere aos 30m, pode-se destacar a concentração maior da classe floresta, com cerca de 89%. Esse dado é muito significativo, pois a cobertura florestal é de grande importância para a manutenção do equilíbrio ambiental. Por outro lado, têm-se locais com áreas agrícolas e campo totalizando 11%. Essas ocupações de campo e agricultura estão inadequadas pelas determinações da legislação vigente, por isso, a área necessita de cuidados especiais no sentido de reverter ou mesmo conter o avanço da devastação da cobertura florestal.

Para a área delimitada de preservação permanente no lago do reservatório do DNOS obteve-se um total de 84,15ha, das quais 79,7% estão com floresta e 13,1% com campo, e 7,2% correspondente a agricultura. Com base nesses dados, percebe-se que ocorre maior concentração da classe floresta. Esses dados são importantes, porém existem locais onde os usos são inadequados. Esses locais, como pode ser visualizado na Figura 4, encontram-se degradados e necessitam de cobertura florestal para conter o avanço de processos erosivos e evitar o assoreamento dos canais fluviais. A florestal é um meio de proteção e prevenção, tanto para o canal como também para a fauna, além de evitar a lixiviação dos solos. A importância da preservação ou restauração das florestas ao longo dos rios e ao redor de lagos e reservatórios fundamenta-se no amplo espectro de benefícios que este tipo de vegetação traz ao ecossistema, exercendo função protetora sobre os recursos naturais bióticos e abióticos.

No que se refere às vertentes com declividades acima de 47%, obteve-se uma área de 446ha, sendo que os dados revelam que estão preservadas com cobertura florestal 70% e as demais áreas estão em contradição ao Código Florestal Federal. Na Tabela 3 são apresentados os dados obtidos referente às vertentes destinadas à preservação permanente e uso da terra.

 

TABELA 3 Uso da terra em vertentes com declividades acima de 47%.

Classe de uso

Declividade > 47% (ha)

% sobre o total

Floresta

317,0

70,0

Campo

117,0

26,5

Agricultura

12,6

3,5

Total

446,0

100

ORGANIZAÇÃO: CAMPONOGARA, I.; ALBERTI, E. A.; TRENTIN, M. A.

 

Analisando os dados que constam na Tabela 3 pode-se destacar que as vertentes com declividades acima de 47% estão com 70% de uso adequado, ocorrendo áreas de conflitos em 30%. Por isso, a sub-bacia necessita de reposição florestal nestes 30% de usos conflitantes para reequilibrar o ecossistema e manutenção do equilíbrio dos elementos bióticos e abióticos do meio ambiente natural.

Na Figura 4 apresenta-se a distribuição espacial das classes de uso da terra e coberturas naturais que estão em conflitos com os parâmetros do Código Florestal Federal.  Observando-se as classes, percebe-se a ocupação de campo e agricultura na faixa de contenção ao longo da rede de drenagem. Pode-se salientar ainda que em decorrência desses usos conflitantes, vários são os problemas surgidos, os quais pode-se enumerar assoreamento de canais, poluição dos recursos hídricos, erosão, destruição da fauna, entre outros.

Essas ocupações, resultantes da dinâmica da ação antrópica, não condizem com a aptidão da terra, segundo os parâmetros representados pelo aspecto declividade e da Lei federal, Código Florestal, adotados para esta pesquisa.

 

 

FIGURA 4 – Mapa de usos conflitantes (uso da terra e áreas de preservação permanente) da área de estudo

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Considerando os resultados alcançados, algumas considerações finais podem ser feitas quanto à dinâmica do uso da terra e referente às áreas de preservação permanente.

O uso da terra, na sub-bacia hidrográfica, basicamente consiste em agricultura, campo, floresta, área urbana e água. Quanto à dinâmica espacial, a classe floresta ocupa mais da metade da área da sub-bacia. Para as demais classes é preocupante a ocupação da agricultura, pois é desenvolvida de modo convencional, não obedecendo aos limites impostos pela natureza relacionados com áreas íngremes.

 

Os resultados obtidos, referentes aos mapeamentos e trabalhos de campo, mostraram que determinados locais da sub-bacia encontram-se sob condições inadequadas de uso, como nas vertentes consideradas íngremes (declividades superior a 47%) aproximadamente 30%, ou seja, apresentam condições de uso irregular.

 

Para a condição da rede hidrográfica referente aos 30m, 89% correspondem, a cobertura florestal restando 11% com ocupação inadequada. No que se refere aos 100m de preservação nos entornos do reservatório do DNOS, verificou-se também maior concentração de cobertura florestal, perfazendo 79,7%, sendo de uso inadequado 20,3% nesta área. Portanto, salienta-se que essas áreas exigem uma maior atenção dos órgãos públicos e  planejadores quanto ao seu manejo.

É necessário ressaltar que se deve ter maior preocupação com a exploração dos recursos naturais como florestas, águas e solos. Além disso, deve-se fazer o uso, observando a regulamentação natural da natureza e da legislação ambiental. Por isso, é importante ter as informações de base e atuais sobre as potencialidades das terras para chegar-se às possibilidades de uso adequado e harmonizar o homem e a natureza.

A disponibilidade dos recursos naturais tem implicação direta com as condições de vida da população, ou seja, os recursos naturais devem ser preservados para que haja sustentabilidade dos mesmos e que as gerações futuras possam usufruir de uma boa qualidade ambiental.

 

 

NOTAS

 

1Trabalho de pesquisa desenvolvido na Disciplina de Planejamento Ambiental – Curso de Geografia Bacharelado, Departamento de Geociências/CCNE/UFSM.

2 Autora: Acadêmica do curso de Geografia – Bacharelado/CCNE/UFSM. E-mail: isacamponogara@mail.ufsm.br

3 Co-autores: Acadêmicos do curso de Geografia – Bacharelado/CCNE/UFSM.

4 Departamento Nacional de Obras e Saneamento

5 Programa Computacional de Domínio Público

 

 

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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CAMPONOGARA, I. Análise do uso da terra na microbacia hidrográfica do Arroio da Divisa - RS, desenvolvida através de técnicas de geoprocessamento. 2003. 104f. Monografia (Especialização em Geociências) - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2003.

 

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