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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

AVALIAÇÃO DO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO (1986 e 2000) E DA FRAGILIDADE AMBIENTAL DA BACIA DO RIO IRAIZINHO PIRAQUARA/PR

 

 

Simone Tonetti – Geógrafa e especialista em Análise Ambiental UFPR (stonetti@hotmail.com)

Leonardo José Cordeiro Santos – Prof Dr do Departamento de Geografia da UFPR (santos@ufpr.br)

 

Palavras Chave: recursos hídricos, Região Metropolitana de Curitiba (RMC) e fragilidade ambiental.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

1 INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

Com a evolução da sociedade, o homem passou a transformar a natureza afim de satisfazer suas necessidades, econômicas, tecnológicas, científicas, habitacionais, alimentícias, entre outras.

Associado ao processo de transformação e exploração da natureza, surgem vários problemas de ordem ambiental.

Através do rápido crescimento populacional, os centros urbanos exercem, por exemplo, forte pressão sobre os recursos hídricos, levando a contaminação dos mesmos e a má qualidade de vida das pessoas.

A Região Metropolitana de Curitiba (RMC) não foge a este contexto onde a relação entre urbanização e problemas ambientais é evidenciada. A porção leste da área metropolitana é aquela onde os conflitos ambientais são mais flagrantes, decorrentes, notadamente do surgimento de áreas de riscos face à intensificação da industrialização sobre as áreas de mananciais.

Sendo assim, o objetivo principal do presente trabalho foi de avaliar o uso e ocupação do solo dos anos de 1986 e 2000 e a fragilidade ambiental da bacia hidrográfica do Rio Iraizinho - Paraná e como objetivos secundários, a elaboração de cartas temáticas de geologia, solos, declividade e o uso e ocupação do solo/vegetação; o cruzamento dos mapas temáticos e o estabelecimento de recomendações de acordo com os condicionantes do meio físico quanto às tendências da expansão urbana.

A bacia hidrográfica do Rio Iraizinho (fig.1), está localizada no Primeiro Planalto Paranaense, mais precisamente RMC, no Município de Piraquara, com coordenadas geográficas 25°24’40” e 25°09’02” de latitude sul e 49°00’10” e 49°07’18” de longitude oeste, apresenta 5.201,11 ha e é um dos rios utilizados para abastecimento público de Curitiba e Região Metropolitana.

 

Fig.1: Localização da Bacia Hidrográfica do Rio Iraizinho - PR

 

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 A BACIA HIDROGRÁFICA E A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA PARA O SER HUMANO

As bacias hidrográficas são unidades de interesse no que diz respeito ao planejamento ambiental e demais pesquisas que envolvam questões ambientais, pois permitem a análise dos elementos físicos e humanos que as integram, bem como a utilização dos rios para várias finalidades como transporte, abastecimento de água, etc. desde a antiguidade até os dias atuais.

Com relação às finalidades dos rios que compõem as bacias hidrográficas atribui-se prioridade ao abastecimento de água, pois a água é um recurso finito e de extrema importância para a sobrevivência humana o que levou à criação de leis para o seu racionamento e gerenciamento como por exemplo a Lei Federal nº 9.433 de 08/01/97 que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos (MELLO, 1999).

Apesar da legislação vigente, a água e consequentemente o seu uso por residências e indústrias está sob a ameaça de desaparecer devido a pressão exercida pelo aumento acelerado da população nos centros urbanos, onde a falta de um planejamento mais eficaz para suprir a necessidade habitacional, leva muitas pessoas a habitarem áreas consideradas frágeis, como os mananciais, resultando na contaminação das águas e conseqüentemente na má qualidade de vida. Essa situação acontece, por exemplo nas áreas de mananciais da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), as quais representam um reservatório para o abastecimento público não só para Curitiba como para parte da própria Região Metropolitana. Cerca de 41% do território metropolitano que forma a malha urbana de Curitiba abriga bacias hidrográficas situadas em áreas de manaciais as quais estão em uso para abastecimento e sobre forte pressão da ocupação urbana e industrial (SCHUSSEL, 2000).

Apesar da ocupação acelerada da RMC, foram criadas algumas Áreas de Proteção Ambiental (APAs), através da Lei Federal 9.985 de 18/07/00, com o objetivo de restringir as atividades humanas nas áreas de sua abrangência.

Também com o objetivo de atenuar os impactos do uso e ocupação do solo, foi criado o Programa de Saneamento Ambiental da RMC (PROSAM), que propõe a disseminação de práticas agrícolas não poluentes em áreas de manaciais, além do saneamento básico, do tratamento de efluentes líquidos, da construção de parques na RMC e da execução do canal de controle de cheias do Alto Iguaçu, entre outros (COMEC,1999).

Atualmente, encontra-se em vigor a Lei Estadual 12.248/98, que instituiu o Sitema Integrado de Gestão e Proteção dos Mananciais da Região Metropolitana de Curitiba – SIGPROM/RMC, com os objetivos de recuperar e preservar os mananciais, integrar tanto órgãos públicos como privados nas ações de proteção ao meio ambiente e mananciais, instalação de instrumentos de recursos hídricos como: Conselho Gestor de Mananciais da RMC, UTPs, Plano de Proteção Ambiental e Reordenamento Territorial em Áreas de Proteção aos Mananciais e por fim o Fundo de Proteção de Preservação Ambiental da RMC (SCHUSSEL, 2000 p.6).

A implementação da Lei vem sendo realizada de forma contínua visando a integração dos governos do estado, dos municípios da Região Metropolitana e da sociedade civil, com o propósito de se preservar os recursos hídricos e de criar projetos de recuperação de áreas degradadas.

 

2.2  A REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA (RMC)

A Região Metropolitana de Curitiba (RMC) foi criada na década de 1970 e desse período até os dias atuais vem demonstrando um acelerado crescimento populacional.  Segundo ULTRAMARI e MOURA (1994), a população cresceu de 317.442 (décadas de 1960 e 1970) para 1.440.626 habitantes em 1980, passando para 2.706.556 habitantes em 2000 (IBGE, 2000), concentrando-se em Curitiba e arredores.

A maior concentração populacional na cidade de Curitiba e na Região Metropolitana, iniciou-se na década de 1960, continuando acelerado durante toda a década de 1970, devido à criação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), obrigando a administração pública a tomar medidas no sentido de orientá-lo, pois o processo de ocupação e estruturação urbana ocorreu de forma desordenada na RMC, resultando na ocupação de extensas áreas periféricas, muitas vezes impróprias à urbanização como as encostas de morros e as áreas de mananciais.

Dessa forma foi criado em 1978 o Plano de Desenvolvimento Integrado da RMC - PDI, o qual permitiu a elaboração de três premissas norteadoras para o planejamento e desenvolvimento urbano dessa região, que foram: a preservação dos recursos hídricos e outros de caráter ecológico (Piraquara e São José dos Pinhais); a geração de riqueza, através da otimização da exploração mineral e agropecuária além do desenvolvimento industrial; e a orientação do crescimento e a criação de subcentros regionais com uma rede urbana hierarquizada de serviços e funções urbanas (Araucária e Campo Largo).

Segundo a COMEC (1999 p.22), após a elaboração do PDI/78 e sua revisão em 1981, foi novamente foco das ações da COMEC entre 1985 e 1987, quando da elaboração do Programa de Investimentos da RMC – PI, que priorizava a elevação de padrões urbanísticos de áreas que foram ocupadas espontaneamente e que apresentavam taxas de crescimento demográfico superiores às médias regionais. Por outro lado, no sentido de formular as propostas do programa PI, a COMEC gerou um diagnóstico da situação e diretrizes de ação que contribuiram para o conhecimento da Região Metropolitana.

Depois de feito o diagnóstico da RMC, foram priorizadas as ações com vistas à questão ambiental e principalmente no que concerne aos recursos hídricos, como o Programa de Saneamento Ambiental da RMC – PROSAM.

Na década de 1990, as propostas da gestão metropolitana basearam-se num tripé que objetivou a interação entre a visão ambiental, sócio-econômica e de crescimento urbano, ou seja, estas três visões traduzem o conceito de desenvolvimento sustentado onde estão incluídas: as dimensões de sustentabilidade ecológica; sustentabilidade social; sustentabilidade econômica; sustentabilidade espacial e sustentabilidade cultural (COMEC, 1999).

Ainda na mesma década porém mais precisamente a partir de 1995, ocorreram  alterações econômicas que fizeram da RMC o segundo maior pólo automotivo do Brasil, caracterizadas pelas fábricas da Renault e da Audi/Volkswagen.

A instalação destas porém, facilitou o surgimento de mais ocupações irregulares na RMC, verificando-se nessa região um crescimento populacional maior que o de Curitiba, como aconteceu na década de 1970 com a criação da CIC. Naquela época eram 14 municípios componentes da RMC, no entanto como resultado do processo concentrador, a população passou a procurar outras áreas que não o município sede, levando a mesma a se alojar em municípios vizinhos, muitas vezes criando aglomerações urbanas na faixa de contato com Curitiba, como por exemplo o município de Pinhais, desmembrado de Piraquara, Fazenda Rio Grande de Mandirituba, Tunas do Paraná de Bocaiúva do Sul, Itaperuçu de Rio Branco do Sul e Campo Magro de Almirante Tamandaré, ou seja, nos anos 90 ocorreram mais desdobramentos dos municípios da Região Metropolitana de Curitiba, chegando atualmente a 25 municípios.

Como resultado deste processo, verifica-se uma tendência da população da Região Metropolitana de crescer mais que a população de Curitiba, devido, principalmente ao crescimento populacional dessas áreas irregulares.

No caso de Curitiba, o grande desafio parece ser o de sustentar a eficácia de seu planejamento urbano em face da emergente dimensão metropolitana, a qual exige inevitáveis mudanças no modelo adotado até o presente.

Foi então que em 2001, iniciou-se a discussão de um novo PDI, que a princípio prevê uma gestão metropolitana  baseada num tripé que busca a interação ambiental, sócio-econômica e de crescimento populacional, a partir de uma metrópole competitiva, sustentável e solidária (COMEC, 2001).

O novo PDI, traz questões atuais que ainda estão sendo discutidas com os governos estadual, municipais e com a comunidade, tais como: as alterações sócio-econômicas que ocorreram no espaço regional nas últimas décadas relacionadas ao crescimento populacional e à estrutura econômica com a implantação recente do pólo automotivo; as condições ambientais que estabelecem um conflito entre o uso e ocupação do solo; e o incremento do déficit habitacional, tendo como produto final: a construção de uma base comum, sobre a qual se dará continuidade ao processo de planejamento da RMC; a elaboração da agenda metropolitana; e a definição das diretrizes físico-territoriais para o crescimento da região metropolitana.

Porém, para a concretização desses produtos se faz necessária uma parceria intensiva com os municípios da Região Metropolitana de Curitiba e o poder público estadual, que terão o papel decisivo no estabelecimento do modelo de desenvolvimento a ser proposto.

 

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O conceito de fragilidade ambiental está “aliado à qualidade dos espaços físicos, normalmente como ‘fragilidade do meio físico’, está ligada também às causas dos desequilíbrios, que podem ter origens diversas, mas que freqüentemente relacionam-se com a antropização do meio”(SANTOS e VITTE, 1998 p.124).

ROSS (1990), propõe uma análise empírica da fragilidade dos ambientes naturais e antropizados, onde deve-se fazer o levantamento dos elementos do meio físico como: solos, geologia, vegetação e relevo, avaliando-os de forma integrada com o uso e ocupação do solo. Baseando-se em TRICART que trabalha nas Unidades Ecodinâmicas e na concepção de que o ambiente é analisado sob a ótica da Teoria dos Sistemas e na existência de ambientes em equilíbrio dinâmico (estáveis) e ambientes em desequilíbrio (instáveis), ROSS, estabelece duas unidades:

·        as Unidades Ecodinâmicas Estáveis são aquelas que se encontram em equilíbrio dinâmico e não sofreram  intervenção humana;

·        as Unidades Ecodinâmicas instáveis ou de instabilidade emergente são aquelas intensamente modificadas pela ação antrópica .

Dessa maneira, o autor estabeleceu níveis diferenciados para caracterizar as unidades identificadas acima, resultando em uma graduação, que vai desde Muito Baixa até Muito Alta, conforme segue abaixo:

1.Muito Baixa; 2.Baixa; 3.Média; 4.Alta; 5.Muito Alta

Partindo da proposta de ROSS (1990), adotou os níveis de fragilidade relacionando-os aos intervalos de declividade (tabela 1), da seguinte maneira:

 

 

CLASSES DE FRAGILIDADE

 INTERVALOS DE DECLIVIDADE

 

1-Muito Baixa

até 6%

2-Baixa

de 6 a 12%

3-Média

de 12 a 20%

4-Alta

de 20 a 30%

5-Muito Alta

acima de 30%

TABELA 1 -CLASSES DE FRAGILIDADE DA DECLIVIDADE

Fonte: ROSS, 1996

 

Em relação à pedologia, o mesmo autor mostra que os solos em função de suas características morfológicas, apresentam diferentes níveis de fragilidade e que associados com o relevo, clima, litologia, elementos da pedogênese e fatores que determinam  as características físicas e químicas dos solos, estabeleceu classes de fragilidade para os solos ou erodibilidade dos mesmos, levando em conta o escoamento superficial e a concentração das águas pluviais, conforme demonstra a tabela 2.

 

GRAUS DE FRAGILIDADE

 

TIPOS DE SOLOS

Muito Baixa

Latossolo Roxo, Latossolo Vermelho Escuro e Vermelho Amarelo textura argilosa

Baixa

Latossolo Amarelo eVermelho Amarelo textura média/argilosa

Média   

Latossolo Vermelho Amarelo, Terra Roxa, Terra Bruna, Podzólico Vermelho-Amarelo textura média/argilosa

Alta

Podzólico Vermelho-Amarelo textura média/arenosa, Cambissolos

Muito Alta

Podzolizados com cascalho, Litólicos e Areias Quartzosas

TABELA 2 - FRAGILIDADE  DOS TIPOS DE SOLOS

Fonte: ROSS, 1996             

 

Com base na análise da proteção dos solos pela cobertura vegetal, resultante dos trabalhos de gabinete e de campo (ROSS,1996), organizou os graus de proteção do solo pela cobertura vegetal (tabela 3) tanto natural como cultivada em ordem decrescente conforme a capacidade de proteção.

 

GRAUS DE PROTEÇÃO

TIPOS DE COBERTURA VEGETAL

Muito Alta

Florestas/Matas Naturais, Florestas cultivadas com biodiversidade

Alta

Formações arbustivas naturais com

estrato herbáceo denso. Formações arbustivas densas ( mata secundária, cerrado denso, capoeira densa). Mata homogênea de Pinus densa. Pastagens cultivadas sem pisoteio de gado. Cultivos de ciclo longo como o cacau.

Média

Cultivo de ciclo longo em curvas de nível, terraceamento com café, laranja  com forrageiras entre as ruas. Pastagem com baixo pisoteio. Silvicultura de eucaliptos com sub-bosque de nativas

Baixa

Culturas de ciclo longo de baixa densidade (café, pimenta-do-reino, laranja), com solo exposto entre ruas, culturas de ciclo curto (arroz, trigo, feijão, soja, milho, algodão) com cultivo em curvas de nível/ terraceamento

Muito Baixa a Nula

Áreas desmatadas e queimadas recentemente, solo exposto por arado/gradeação, solo exposto por caminhos, estradas, terraplanagens, culturas de ciclo curto sem práticas conservacionistas.

TABELA 3 - GRAUS DE PROTEÇÃO POR TIPOS DE COBERTURA VEGETAL

Fonte: ROSS, 1996

 

4 TÉCNICAS OPERACIONAIS 

O primeiro procedimento utilizado para o desenvolvimento da pesquisa foi a realização do levantamento bibliográfico e cartográfico o que resultou na produção de documentos cartográficos de todos os temas envolvidos (solos, geologia, etc.) integrados em um Sistema de Informação Geográfica – SIG, com o auxílio dos software Spring 3.5.

Para a produção dos mapas temáticos, utilizou-se bases cartográficas em formato digital na escala 1:50000, o que facilitou na geração do mapa de declividade (mapa clinográfico) no software Spring 3.5, resultando em seguida o modelo digital do terreno.

Os mapas de vegetação/uso e ocupação do solo e sua evolução, foram elaborados a partir de imagens de satélite LANDSAT, cena  220-078 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, dos anos de 1986, (sucede a década de 1970 caracterizada pela criação da CIC, da Região Metropolitana e pelo aumento populacional na periferia de Curitiba) e de 2000 (por apresentar a implementação de indústrias principalmente as automotivas e pelo aumento populacional em áreas impróprias à ocupação).

A escolha de duas épocas distintas, havendo um intervalo de 14 anos, partiu do interesse em se averiguar a evolução do uso e ocupação do solo, como explica ORELLANA (1985) através de uma metodologia que procura estudar a dinâmica das paisagens a partir de uma análise temporal-evolutiva, a qual procura demonstrar pelo estudo do tempo presente (dinamismo dos processos tanto naturais como humanos) e do tempo passado, (a curto prazo e a longo prazo).

Para o presente trabalho, optou-se então pelo estudo do passado a curto prazo, pois através da utilização de imagens de satélite de dois anos distintos (1986 e 2000) é possível a observação da evolução do uso e ocupação do solo.

A próxima etapa constituiu na interpretação das imagens realizada por meio do software  Spring 3.5, utilizando-se as seguintes classes de uso do solo: área urbana, floresta (floresta ombrófila densa, floresta ombrófila mista e mata ciliar), campo/agricultura, solo exposto e corpos d'água, as quais foram identificadas nas imagens e aferidas no campo, o que possibilitou  a realização da técnica de classificação supervisonada multiespectral.

Após a confecção de todos os temas propostos, estes foram importados no software Arcview 8.1, onde cada mapa foi associado a uma tabela de dados, atribuindo aos mapas de declividade (clinográfico) e de solos, a numeração de 1 a 5 conforme a metodologia de ROSS (1996).

Na seqüência, utilizando-se do Arcview 8.1, módulo geoprocessing, cruzou-se as tabelas de dados dos mapas obtendo-se a média aritmética entre eles e através da hierarquização dos valores de fragilidade ambiental atribuiu-se a equivalência dos elementos do meio físico como na tabela 4, podendo ser exemplificado da seguinte maneira: somou-se os valores 2 e 3 e obteve-se como resultado o valor 5. Este último valor porém, foi dividido por 2, chegando-se ao valor 2,5 o que corresponde à classe de fragilidade média, e assim por diante.

Para a confecção do mapa de fragilidade emergente adotou-se o mesmo procedimento descrito acima, ou seja, o resultado final representou a média dos valores atribuídos ao cruzamento das informações dos mapas de fragilidade potencial e de uso e ocupação do solo/vegetação.

 

CLASSES DE FRAGILIDADE

CRUZAMENTOS

MÉDIA DOS VALORES ATRIBUÍDOS

Muito Baixa

1x1 (1)

1

Baixa

1x2 (1,5);1x3 (2);2x1 (1,5);2x2 (2);3x1 (2)

1,5 a 2

Média

1x4 (2,5);2x3 (2,5);2x3 (2,5);3x2 (2,5);4x1 (2,5)

2,5

Alta

1x5 (3);2x4 (3);2x5 (3,5);3x3 (3);3x4 (3,5);4x2 (3);4x3 (3,5);5x1 (3);5x2 (3,5)

3 a 3,5

Muito Alta

3x5 (4);4x4 (4);4x5 (4,5);5x3 (4);5x4 (4,5);5x5 (5)

4 a 5

TABELA 4 – MATRIZ PARA O CRUZAMENTO DOS MAPAS TEMÁTICOS

 

5 RESULTADOS

5.1 USO E OCUPAÇÃO DO SOLO DOS ANOS DE 1986 E 2000

Para a análise dos processos ocorridos durante um intervalo de 14 anos, utilizou-se as seguintes classes de uso e ocupação do solo: área urbanizada,  floresta (floresta ombrófila densa, floresta ombrófila mista e mata ciliar), campo/agricultura, solos exposto e corpos d'água.

A classe de área urbanizada compreende de modo geral todas as áreas ocupadas por construções habitacionais urbanas, de comércio, enfim de estruturas de uso múltiplo e de atividades econômicas relevantes ao município. Comparando-se os anos de 1986 e de 2000 observa-se que em 1986 a área urbanizada abrangia um total de 475,96 ha, dobrando esse valor para 841,87 ha em 2000. É importante ressaltar que esta classe não aparece na metodologia como classe de fragilidade ambiental pois representa uma determinada superfície impermeabilizada pelo asfalto e por edificações.

A classe floresta, abrange de modo generalizado todas as florestas naturais e cultivadas bem definidas. Inseriu-se então a floresta ombrófila mista (araucária), ombrófila densa (Serra do Mar) e a vegetação ciliar (caracterizada pela proximidade dos rios), representado na classe de proteção muito alta, totalizando em 1986 uma área de 1922,88 ha, aumentando esse valor para 2319,79 ha em 2000, esse acréscimo de área verde diz respeito possivelmente ao abandono de certas regiões antes utilizadas por outras atividades como a agricultura.

Na classe de campo/agricultura, de modo geral foram inseridos os campos e as áreas de agricultura, pela dificuldade da sua separação durante a classificação. Aparece no presente trabalho como classe de proteção média, totalizando em 1986 uma área de 2400,54 ha e em 2000 um total de 1779,76 ha, observando-se uma diminuição dessa classe ao longo do tempo, pois muitas delas possivelmente foram abandonadas o que fez com que aumentasse a áreas de urbanizadas e de floresta .

A classe de solo exposto geralmente corresponde as áreas desmatadas ou aradas e em alguns trechos de estradas como no Contorno Leste. Esta classe representa segundo a metodologia de fragilidade ambiental uma classe de proteção muito baixa, totalizando em 1986 uma área de 300,00 ha e em 2000 um total de 202,25 ha, resultando na sua diminuição  substituição por edificações e/ou  áreas verdes .

Os corpos d’água, estão localizados em sua maioria ao longo dos rios e, como a exemplo da área urbana, esta classe também não aparece na metodologia como classe de fragilidade ambiental, pois são consideradas como áreas inundadas, encobrindo o solo e sem vegetação, totalizando em 1986 uma área de 101,73 ha e em 2000 um total de 57,61 ha.

Não foram atribuídas graus de proteção baixa e alta por não haver nenhum tipo de classe de uso e ocupação do solo que se relacionasse com estes graus. Quanto às classes de corpos d’água e áreas urbanizadas, não foram atribuídas graus de proteção, pois estas classes encobrem o solo.

Em se tratando da evolução do uso e ocupação do solo, observa-se algumas direções do crecimento urbano da cidade de Piraquara, através da comparação os mapas de uso e ocupação de 1986 e 2000, percebendo-se um nítido avanço da área urbana nesse período para a direção sudoeste da bacia, onde localiza-se algumas indústrias de peças automotivas e o Contorno Leste, recentemente construído para desviar e amenizar o tráfego da BR116 e da PR415  (prolongamento da Avenida João Leopoldo Jacomel).

Outras direções, como as sudeste e leste, também são vetores de crescimento de fácil observação, assim como as direções nordeste e norte que também mostram-se como vetores de crescimento urbano, porém em menor proporção. 

Todas essas direções apontadas mostram para onde a ocupação e o crescimento urbano estão avançando, influenciados principalmente pela implantação de indústrias de peças automotivas e pelas novas vias de acesso como o Contorno Leste, o que possibilita ocupações irregulares e consequentemente a degradação ambiental.

 

5.2 FRAGILIDADE POTENCIAL

A fragilidade potencial do meio físico utilizada no presente trabalho, representa o cruzamento das informações dos mapas temáticos de declividade e de solos, tendo como resultado um predominio da classe de fragilidade potencial baixa principalmente ao norte, leste e sul da bacia com cerca de 3367,54 ha, associando-se a um relevo plano a suave ondulado e corresponde às áreas de Latossolo.

A classe de fragilidade potencial média predomina na direção leste com cerca de 181,49 ha, relacionando-se a um relevo suave ondulado a ondulado e ao solo Podzólico.

A classe de fragilidade potencial alta está localizada ao longo das margens do rio principal com uma área de 1322,10 ha, onde aparecem os solos Hidromórficos e Orgânicos.

A classe de fragilidade potencial muito alta predomina nas áreas mais altas da Serra do Mar, ou seja, a leste da bacia com 329,98 ha, o relevo é forte ondulado relacionando-se com as áreas de Afloramento Rochoso/associação solos Litólicos.

 

5.3 FRAGILIDADE EMERGENTE

Para a fragilidade emergente da bacia hidrográfica do Rio Iraizinho, foram utilizados os mapas de uso e ocupação do solo do ano de 2000 (por ser o mais atual) e o de fragilidade potencial, tendo como resultado o aparecimento da classe de fragilidade emergente baixa em pequenas áreas a oeste e algumas em expansão à norte e leste da bacia com 2382,43 ha, geralmente em relevo suave ondulado, onde localizam-se os Latossolos e a classe de floresta.

A classe de fragilidade emergente média está localizada em uma pequena área a leste da bacia,ou seja na Serra do Mar, com 1378,32 ha, associando-se a um relevo forte ondulado e ao Afloramento Rochoso/associação com solos Litólicos e à classe de floresta. 

Com relação à classe de fragilidade emergente alta, esta localiza-se nas regiões centro, oeste, norte e sul da bacia, com 1216,02 ha, abrange relevo plano, solos Hidromórficos e Orgânicos e a classe de campo/agricultura.

A classe de fragilidade emergente muito alta, encontra-se em pequenas áreas na bacia, com 224,33 ha, abrange um relevo suave ondulado, solos Latossolos e pequenas áreas de solo exposto.

 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aplicação da metodologa de fragilidade ambiental, demonstrou-se um recurso que permite adaptá-la conforme os interesses do pesquisador e as características da área. No caso do presente trabalho, por exemplo, a classe de solos hidromórficos que não aparece inicialmente na metodologia, foi inserida como categoria de fragilidade potencial muito alta pois representam solos sensíveis pela mal drenabilidade e saturação em água levando a extrema vulnerabilidade e a contaminação, além de ser mole e com baixa capacidade de suporte a carga sendo impróprio a qualquer tipo de construção civil.

Em relação ao uso e ocupação do solo de 1986 e 2000, observou-se que a área urbanizada aumentou em diferentes direções, o que causa preocupação com o destino dos mananciais, pois o uso dos recursos naturais superficiais e o lançamento de efluentes nos cursos d’água tem gerado cada vez mais a perda da qualidade da água, situação já encontrada em grande parte dos rios que abastecem a Capital e sua Região Metropolitana.

Com a inserção do Contorno Leste e de algumas indústrias de peças para automóveis, a expansão urbana tenderá a ser maior no eixo oeste-sudoeste, onde já é possível observar ocupações irregulares em áreas de fragilidade emergente alta, podendo ocasionar no futuro uma maior degradação ambiental.

Em relação a fragilidade potencial do meio natural, a bacia apresenta em sua maioria áreas de fragilidade baixa representando assim, regiões pouco impactantes, ou seja, pouco degradadas, pois ainda possui cobertura florestal contribuindo na proteção do solo.

Com relação a fragilidade emergente, a bacia hidrográfica do Rio Iraizinho, apresenta áreas de fragilidade emergente alta o que corresponde a futuros problemas ambientais se não for feito um planejamento da região de estudo, pois são áreas de campo e agricultura, ou seja, de intenso manuseio e ocupação podendo assim, ocasionar alterações ambientais como a contaminação dos manaciais para o abastecimento público.

Nesse sentido, deverão ser propostos estudos que possibilitem auxiliar no planejamento da área, onde deverão ser estipuladas regiões de melhor utilização para o uso e ocupação do solo, complementando-se com dados sócio-econômicos aliados aos dados do meio físico, compatibilizando assim a proteção ambiental com o desenvolvimento econômico da bacia.

 

7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

COMEC. Revista Metropolis. Curitiba:COMEC, 1999.

 

COMEC. PLANO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO. PDI 2001. Curitiba: COMEC, 2001.Disponível em: www.pr.gov.br/comec/

 

IBGE. Censo 2000. Disponível em: http://map.ibge.gov.br/website/censo2000imge/viewer.htm

 

MELLO, N. A. de. Gestão em bacias hidrográficas urbanas para superação de comprometimento ambiental. In: Boletim Paulista de Geografia Seção São Paulo - Associação dos Geógrafos Brasileiros nº76. São Paulo: AGB, 1999.

 

ORELLANA, M.M.P. Metodologia integrada no estudo do meio ambiente. Boletim de Geografia 10(20). Rio Claro, outubro 1985.

 

ROSS, J. L. S. Geomorfologia: ambiente e planejamento. SP: Contexto, 1990.

 

                      . Geomorfologia aplicada aos EIAs - RIMAs. In: Geomorfologia e meio ambiente. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

 

SANTOS,I.; VITTE, A.C. Proposta de mapeamento da fragilidade ambiental  na bacia hidrográfica do Rio Palmital, Região Metropolitana de Curitiba. I Fórum Geo-Bio-Hidrológico. Anais. Curitiba, 1998.

 

ULTRAMARI, C. ; MOURA, R. Metrópole grande Curitiba: teoria e método. Curitiba: IPARDES, 1994.