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E3-3.3 T153

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

LEVANTAMENTO GEOMORFOLÓGICO E MAPEAMENTO DIGITAL PARA ELABORAÇÃO DO DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DA APA BACIA DO COBRE/SÃO BARTOLOMEU.

 

 

Jémisson Mattos dos Santos (Depto. de Ciências Humanas e Tecnologia da Universidade Estadual da Bahia UNEB/Campus VI).  meugeografo@hotmail.com

Érika do Carmo Cerqueira (Geógrafa Técnica em Geoprocessamento da CONDER).

erikacerqueira@yahoo.com.br

 

 

Palavras-chaves: Geomorfologia e Ambiente, Morfodinâmica, Sistema de Informação

    Geográfica.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

A APA Bacia do Cobre/São Bartolomeu (ABC/SB) está inserida na Região Metropolitana de Salvador, ocupando terrenos dos municípios de Salvador e Simões Filho. Representa um espaço importantíssimo da Cidade de Salvador, por constitui-se numa área de remanescentes de Mata Atlântica ainda preservada, exibindo uma expressiva biodiversidade faunística e florística; e por possuir também um manancial hídrico que abastece uma grande parcela da população do Periurbano Ferroviário de Salvador, através da represa do Cobre. Além disso, a referida área reveste-se ainda de fortes tradições históricas e religiosas.

Segundo o IBAMA (2002) áreas de proteção ambiental são unidades de conservação de uso sustentável, formadas por áreas públicas ou privadas, que tem como objetivo disciplinar o processo de ocupação das terras e promover a proteção dos recursos bióticos e abióticos dentro dos seus limites, de modo a assegurar o bem estar das populações humanas que aí vivem, resguardar ou incrementar as condições ecológicas locais e manter paisagens e atributos culturais relevantes.

Na perspectiva atual, a gestão do território inclui a análise de diferentes componentes do ambiente e seu inter-relacionamento, para que diante das intervenções antrópicas de uso e ocupação do solo, seja possível identificar e/ou prever possíveis impactos ambientais, a curto, médio e longo prazo. Dessa forma, torna-se indispensável à sistematização da informação espacial, tanto para o controle setorial quanto para uma política global que visa compatibilizar desenvolvimento e conservação dos recursos naturais.

Destarte, objetivou-se fazer o levantamento e mapeamento geomorfológico de detalhe (1:10.000), utilizando técnicas de fotointerpretação e a ferramenta de geoprocessamento, como subsídio para a elaboração do Diagnóstico Ambiental da APA Bacia do Cobre/ São Bartolomeu.

O presente estudo utilizou o Sistema de Informação Geográfica-SIG através do software ArcView 3.2 e ArcView 3D como instrumentos que permitem obter análises para as questões relativas a geomorfologia. Assim, esta ferramenta contribuiu para dois momentos importantes: o primeiro que consistiu na geração, atualização, integração e análise de informações georreferenciadas e o segundo a representação cartográfica dos resultados obtidos.

Os procedimentos metodológicos do referido estudo iniciam-se através de:

a) Levantamento de dados secundários;

b) Fotointerpretação – de fotografias aéreas (1:8000), de 1998, obtidas na Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia - CONDER;

c) Saídas técnicas–Levantamento de campo com o auxílio do GPS e cartas topográficas da CONDER, na escala 1:5000.

A Base Cartográfica foram as folhas topográficas do Sistema Cartográfico da Região Metropolitana – SICAR/RMS - 1993, na escala de 1:5.000. Sobre estas também foi delimitadas a área de interesse, que corresponde ao limite da APA e a área de influência indireta caracterizada por uma faixa de 1Km ao entorno.

A vantagem da utilização do SIG está na possibilidade de sintetizar, exibir e combinar dados espaciais de muitas maneiras, a fim de descortinar as relações espaciais de um dado território. A construção de um banco de dados, com entidades gráficas e alfanuméricas possibilitou a análise geomorfológica da área de interesse.

Os planos de informação (PIs) temáticos tiveram em sua tabela de atributos a inserção de dados qualitativos/quantitativos, os quais representam as características atuais da área e/ou seus principais problemas ambientais. Dentre os cartogramas elaborados, destaca-se para esta análise o de Geomorfologia e Declividade, os quais contribuíram para as conclusões apresentadas neste trabalho.

 

1. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A GEOMORFOLOGIA DA CIDADE DE SALVADOR.

 

A Cidade de Salvador encontra-se nos primórdios instalada no reverso de um planalto dissecado, com altitudes que variam de 60 a 110 metros. A altitude desse planalto vai diminuindo para Sudeste e Sul e Leste até o litoral atlântico. Esse planalto apresenta uma superfície dissecada por uma densa rede de drenagem que produziu uma topografia acidentada. O reverso caindo para E apresenta aspecto contínuo e uniforme transformando-se em espigões com esplanadas suaves, festonadas por vales de 20 metros de profundidade (...). A direção da topografia neste setor é a mesma da escarpa que separa a cidade Alta da cidade Baixa (Peixoto, 1968 apud Macedo, 1960).

Grande parte dos rios corre paralelamente ao escarpamento que limita a cidade. São raros aqueles que conseguiram entalhar esse abrupto passando a correr em direção oposta ao mar. Os elementos topográficos principais do relevo refletem as direções preferenciais da rede hidrográfica que se distribui o reverso do talude. Dentre eles: espigões, as lombadas e as colinas, vales, a escarpa e as baixadas litorâneas.

Os espigões constituem na forma mais destacada do planalto, mostra-se com topos quase que planos. Sendo local inicial do processo de ocupação urbana na Cidade do Salvador. Nos estudos desenvolvidos por Peixoto (1968), diz-se que os espigões apresentam “no geral a forma de glacis com inclinação suave de 0,5º a 5º, descendo em direção do Atlântico e se retalham em lombadas digitadas seguindo a orientação da rede de drenagem”.

Os topos não possuem altitude constante, variando entre 40m próximo do litoral a 110m ao norte da Cidade do Salvador.

O reverso do planalto corresponde ao mais importante dos espigões, pois se apresenta largo e extenso, acompanhando a orientação do bordo da escarpa. Local esse conhecido como centro da Cidade do Salvador.

 

2. A GEOMORFOLOGIA DA APA BACIA DO COBRE/SÃO BARTOLOMEU

 

A região da APA (ABC/SB) caracteriza-se por uma morfogênese típica de clima quente e úmido, onde os processos de alteração química das rochas são intensos, produzindo um manto de alteração espesso e argiloso. Do ponto de vista geomorfológico, a área em questão encontra-se inserida em Domínio Morfoclimático denominado por Ab´Saber (1966) Mares de Morro, que se estende ao longo do litoral atlântico brasileiro.

A APA Bacia do Cobre/São Bartolomeu está classificada dentro do domínio dos Baixos Planaltos e o domínio referente à Bacia Sedimentar Cretácea (Triochi 1998). Observa-se na área em questão os modelados abaixo descritos e representados na Figura 2.1:

Os MORROS localizados na porção SE da área, capeados pelos sedimentos do Grupo Barreiras em cotas variando de 80-85m. Apresentam topos convexos a planos e vertentes convexas, interligando-os. Estão dissecados homogeneamente por densa rede de drenagem, em vales abertos, de fundo chato, colmatados por sedimentos recentes, ou em vales encaixados, com nítido controle estrutural.

Os ESPIGÕES, que estão mais próximos à represa, em sua porção SW, caracterizam-se por topos aplainados pela deposição dos sedimentos Grupo Barreiras, instalados em cotas a partir de 85 m, dissecados intensamente pela rede de drenagem. Formam encostas íngremes, com aproximadamente 45º de declividade, originando vales encaixados, com controle estrutural. Apresentam modelados com formas de superfícies planas, nos morros arredondados, nas colinas e nos espigões. Encontra-se em altitudes acima de 70m, principalmente onde se instalou mais espessamente, a NE da área.

 

Figura 2.1

 

As COLINAS, encontradas principalmente na porção NE da área de estudo, quando após períodos de pediplanação regional, o Grupo Barreiras se instalou em cotas entre 70-75 m sobre o manto intemperizado das rochas granuliticas. Encontram-se arrasadas e, conseqüentemente, descaracterizadas pela exploração exaustiva dos sedimentos arenosos de granulometria média a grossa do Grupo Barreiras.

Os VALES estão relacionados normalmente às falhas e fraturas regionais, assim caracterizando-se por serem estreitos, em forma de “V”, principalmente próximos à represa (SW da área de estudo). Na porção NE, mesmo ainda apresentando um certo controle estrutural, encontram-se mais abertos, colmatados por sedimentos colúvio-aluvionares.

Constata-se através da análise de fotografias aéreas que a APA do rio do Cobre é secionada pela Falha de Salvador. A estrutura geológica definiu uma vertente suave a leste, para o atlântico e uma encosta com inclinação geral maior para a Baía de Todos os Santos.

Na APA geralmente a direção dos espigões segue a orientação dos vales. Observa-se que as vertentes mostram festonamentos orientados por pequenos afluentes do curso principal. Esse processo moldou espigões de forma estreita e alongada com bordos retalhados em lombadas. Já em direção a lagoa da Paixão os espigões recortados vão diminuindo de altitude e aumentando o ângulo de inclinação, se repartindo em feições colinosas de topos arredondados. As encostas desse elemento topográfico apresentam perfis variáveis tanto no sentido lateral e vertical, onde se verifica o predomínio de vertentes convexizadas, muitas das quais formam um ângulo reto com o fundo dos vales.

Observa-se o assoreamento dos rios, bem como o entulhamento dos vales em função da retirada da cobertura vegetal, que intensifica os processos morfogenéticos, conseqüentemente, ocorre a remoção do material das vertentes, indicando uma ação eficiente do run-off. Todavia, nos locais onde o perfil de equilíbrio das vertentes não foi rompido por atividades antrópicas, observa-se processos naturais de aterramento dos mesmos (lentos). Além disso, rompendo-se a dinâmica normal, processos outros são ativados, a exemplo da erosão, que devido ao elevado índice pluviométrico anual – chuvas torrenciais – se intensifica, deslocando uma massa detrítica que é carreada através das águas, desestabilizando as encostas (SANTOS, 2002). São os processos de solifluxão e os deslocamentos de massa que modelam as formas topográficas colinosas, bem como as lombadas esculpindo-as convexamente.

O relevo no setor mais ao N/NE da APA (ABC/SB) encontra-se condicionado, sobretudo, pelo Grupo Barreiras, apresentando intensa dissecação por erosão, no qual as feições geralmente são convexas e convexo-côncavas. Os cursos d’água são drenados por vales chatos ou agudos, de pouca profundidade, de vertentes íngremes, separados por platôs de pequena extensão, formando interflúvios curtos. Os rios que drenam a região são de pequeno porte, com algumas áreas de nascentes no entorno da lagoa da paixão. No fundo dos vales, em cotas inferiores à base do Grupo Barreiras, surgem os solos de decomposição “In situ” do embasamento cristalino, de características argilo-arenosas ou silto-arenosas, com coloração predominantemente avermelhada.

No domínio da APA (ABC/SB), observa-se processo de rastejamento evidenciado em áreas de cultivo de subsistência e nos fundos de pasto. Segundo especialistas em geomorfologia o rastejamento ocorre em qualquer tipo de solo, até naqueles localizados em baixas declividades e, também de pequena espessura. O rastejamento é um movimento superficial ocorrendo a poucos centímetros de profundidade do solo afetando a encosta como um todo e produzindo o perfil convexo-côncavo da mesma, especialmente, em detritos areno-argilosos. As variações de umidade nos horizontes superiores do regolito produzem o aumento do volume das partículas e a sua contração, facilitando o deslocamento individual dentro da formação. O processo se intensifica pela simples circulação da água, pelo pisoteio dos animais, por crescimento das raízes etc. A conseqüência direta do rastejamento é a diminuição da altitude das colinas e a formação de um perfil côncavo da base da encosta.

O escoamento fluvial é condicionado pelas características particulares do regime pluvial local. O período de maior vazão corresponde aos meses de março a agosto. As principais modalidades de escoamento nos vales da APA (ABC/SB), refere-se ao escoamento superficial (pelicular) e o concentrado (em torrente). Alguns córregos que drenam o parque São Bartolomeu, principalmente, no setor S/SE, sofre um forte controle estrutural relacionado ao sistema escalonado de falhas da área, apresentando trechos de canais rochosos que formam rápidos e cachoeiras. Observa-se nas zonas de contato das encostas com o vale o surgimento de olhos d’água, locais esse que propiciam a formação de canais de escoamento fluvial. Em algumas áreas no fundo dos vales encontram-se depósitos aluviais misturados com materiais transportados pelas enxurradas.

Os processos intempéricos já delineados na área em questão, operam sobre toda a superfície da APA (ABC/SB) em uma variedade de ambientes. Todavia, estes processos sejam basicamente os mesmos, as condições ambientais locais exercem uma considerável influência no tipo e na intensidade de intemperismo, bem como na natureza dos produtos finais. Os fatores principais que condicionam os referidos processos são: a resistência dos minerais primários formadores das rochas; as condições climáticas, em especial, pluviosidade e temperatura; as formas topográficas e o sistema de drenagem.

Um dos grandes problemas evidenciado no Subúrbio de Salvador se refere à erosão urbana que é reflexo da ausência de um planejamento racional da urbe, que considera a analise das condições ambientais relacionado-as às questões socioeconômicas, possibilitando a elaboração de cenários de expansão e desenvolvimento, para fins de adequação/organização das materializações humanas no espaço geográfico, a exemplo: a deficiência do sistema de drenagem de águas pluviais e servidas; a expansão urbana acelerada e desordenada (implantação de conjuntos habitacionais e loteamentos, em locais suscetíveis a processos de ravinamentos) (SANTOS, 2002).

Um aspecto importante é que devido à ampliação do espaço construído e a pavimentação asfáltica na área de influência direta e indireta da APA, observa-se que o volume e a velocidade das águas de enxurradas concentrou o escoamento e, conseqüentemente, ocasiona a intensificação dos processos erosivos (percebe-se facilmente no entorno da Lagoa da Paixão, em vários setores dos Parques de Pirajá e São Bartolomeu, etc.).

 

3. OS ESTADOS MORFODINÂMICOS

 

“O elemento central de qualquer análise sistêmica é a noção de organização, ou “padrão de organização”. Os sistemas vivos são redes autogeradoras, o que significa que o seu padrão de organização é um padrão em rede no qual cada componente contribui para a formação de outros componentes (...)” (Capra, 2002). A argumentação de Capra dá a possibilidade de introduzi-la e adaptá-la na abordagem de sistemas geomorfológicos. Pois, nos sistemas geomorfológicos, as estruturas constituem-se estruturas materiais (formas topográficas). E os processos geomorfológicos (morfológicos) são processos de produção dos componentes materiais da rede, e as estruturas resultantes são corporificações materiais do padrão de organização do sistema (paisagens morfológicas). Assim como os sistemas biológicos, todas as estruturas geomorfológicas transformam-se continuamente; e o processo de corporificação ou incorporação material, também, é contínuo (SANTOS, 2002).

O quadro natural da APA (ABC/SB) está associado aos sistemas de relações intrínsecas entre os seus inúmeros componentes (condicionantes morfogênicos) e os processos e mecanismos atuantes (Figura 3.1). Logo, o meio físico é interpretado como a permanência, têmporo-espacial dos estados de equilíbrio morfodinâmicos.

 

Fig. 3.1 MEIO FÍSICO DA APA BACIA DO COBRE/SÃO BARTOLOMEU

Elaborado por: SANTOS, Jémison M., 2002.

 

Sua permanência no tempo e espaço é fruto dos processos morfoclimáticos atuantes nas vertentes, identificados por movimentos lentos dos materiais finos; sob influência climática, cobertura florestal quase contínua na faixa central da APA e drenagem perene do canal principal, bem como dos córregos secundários.

Os pressupostos teórico-metodológicos assumidos nesse trabalho, no qual utiliza-se do conceito de estabilidade tem sido discutido por diversos geógrafos, adotando abordagens e critérios diferenciados, em especial: Erhart (1966), Sotchava (1977), Bertrand (1971) e Tricart (1977).

A discussão central suscitada pelos autores levanta a questão que o critério principal na análise da estabilidade dos meios naturais, é fundada nas relações estabelecidas entre a dinâmica atual, denominada morfogênese, as transformações das paisagens morfológicas e a sua organização espacial.

Erhart (1966) discute o conceito de biostasia/resistasia, fundamentando-se na ação geoquímica dos substratos florestais, que está intrinsecamente relacionado a pedogênese. Sob clima quente e úmido da floresta tropical, as rochas intemperizadas perdem suas bases alcalinas e alcalinas-terrosas, além da maior parte da sílica, restando no local apenas hidróxidos de ferro e alumínio, além da caulinita. O espesso manto pedogeneizado seria o indicador de estabilidade, sobre o qual as florestas atingiriam o seu clímax.

Tricart (1977) trabalha com três tipos de meios morfodinâmicos, adotando como critério à intensidade dos processos atuantes: os meios estáveis, os meios intergrades e os fortemente instáveis.

Os meios estáveis têm como característica principal o lento processo (natural) de evolução do modelado, com ausência de processos erosivos intensos e, conseqüentemente, aparente estabilidade do modelado. O balanço morfogênese/pedogênese é condicionado pela efetividade e preponderância da pedogênese. A cobertura vegetal exerce um papel importante no desencadeamento desse estado ambiental.

Os meios intergrades são definidos principalmente pela interferência constante da superfície, geradora e transformadora do modelado (morfogênese) e a dinâmica subsuperficial que responde pela evolução dos materiais correlativos, bem como dos solos (pedogênese). Segundo Peixoto (1968) esses meios podem evoluir em duas direções; para a estabilidade, que caracteriza a categoria anteriormente citada, ou para a instabilidade, correspondente ao terceiro meio individualizado pelo autor. São, portanto, meios intermediários, muitas vezes difíceis de serem identificados através de observações levadas a efeito durante um pequeno intervalo de tempo.

Os meios fortemente instáveis são definidos pela preponderância da morfogênese em relação a pedogênese, ou seja, apresenta uma morfogênese intensa que transforma rapidamente o modelado. A desestabilização do meio físico pode ser ocasionada por efeitos da tectônica, ação climática ou de interferências antrópicas.

A ação antrópica constitui-se num condicionante importante porque os efeitos de suas atividades intensificam as influências dos fatores naturais, quer sejam climáticos ou tectônicos.

O escoamento difuso atua intensamente, lavando os flancos arredondados das vertentes. Já o escoamento concentrado incipiente é intensificado pela retirada da cobertura vegetal e as queimadas, dissecando os setores mais íngremes do relevo. A exemplo das cabeceiras de drenagem e riachos sobre os rebordos do planalto.

A erosão intensa ocasiona a depauperação dos solos, reduzindo as condições de regeneração da mata atlântica, conseqüentemente, acabam por ser totalmente substituídas por outras formações vegetais menos exigentes e com menor capacidade de proteção dos solos da ação dos agentes externos.

O escoamento concentrado constitui-se num fator importante de esculturação dos interflúvios, mas reduz-se em áreas de elevada densidade vegetacional. Nos locais da APA Bacia do Cobre/São Bartolomeu onde os processos de desflorestamento são indiscriminados, conseqüentemente, se desmantela as couraças nos topos do planalto, bem como nas altas vertentes. Os materiais retirados da vertente são deslocados para o fundo dos vales por ação gravitacional.

Em áreas de topos planos a cobertura vegetal, remanescente de mata Atlântica, está bastante alterada, salvo em pequenos trechos bem conservados. Além disso, algumas áreas (topos e vertentes) apresentam pequenas parcelas de terra roça e pomar inserida no meio da floresta que se apresenta ainda exuberante.

 

Foto 3.1– Atividades Antrópicas nas vertentes convexas.

 

Observa-se nas áreas de empréstimo do Grupo Barreiras, onde as couraças foram decapitadas, produziu-se seixos que se espraiam vertente abaixo, bem como uma paisagem árida/degradada nas parte elevadas. Expondo totalmente o solo aos processos intempéricos, a exemplo de erosão em sulcos e ravinamentos (SANTOS, 2002).

Os processos lineares atuam destacadamente nos vales encaixados. A morfologia e as vertentes acentuadas que os limitam, possibilita o solapamento das margens. Analiticamente, a carga de leito transportada no canal é constituída basicamente de areias e fragmentos rochosos. Devido à diminuição da competência dos rios nessas áreas, a carga do leito é abandonada nas margens dos canais sinuosos.

Nas planícies aluviais, a substituição da cobertura vegetal por pastagens e culturas de hortaliças etc, alterou o processo de escoamento difuso e mais fortemente, seus efeitos. Geralmente, os solos sob a floresta tropical úmida funcionam como um sistema acumulador de água, cuja propriedade principal é a retenção de uma quantidade considerável das águas pluviais. Logo, o escoamento subsuperficial atual funciona mais intensamente, lavando as vertentes e retirando grande quantidade de materiais finos.

Nos meios fortemente instáveis a dissecação do relevo é condicionada principalmente pela atividade antrópica inserida na área, causando repercussões ambientais negativas como, por exemplo, atividades mineradoras, uso e ocupação desordenada das encostas, desflorestamento para introdução de pastagens. Essas atividades podem ocasionar o surgimento de processos erosivos intensos nas vertentes, deslocamento de massa e canais de torrente.

O escoamento concentrado ocorre de maneira mais intensa nos locais de declives mais acentuados, devido o desnudamento das vertentes. As características litológicas favorecem a formação de sulcos nos solos e, posterior, avanço das frentes de erosão provocados pelo escoamento torrencial, ativando o processo de ravinamentos, sobretudo entre as colinas e os morros rebaixados (SANTOS, 2002).

 

§         Setores da APA que apresentam estabilidade morfodinâmica.

Os setores da APA Bacia do Cobre/São Bartolomeu que apresentam características de estabilidade morfodinâmica encontram-se em áreas de topos planos e nos rebordos escalonados do planalto, nas cabeceiras de drenagem e nos anfiteatros de erosão.

As formações areno-argilosas e a topografia dos topos planos são fatores que retraem a dinâmica de superfície nessas áreas, condicionando o acúmulo de água, conseqüentemente, favorece a infiltração e a umidade do solo. Logo a pedogênese ocorre ativamente a partir da alteração do material que constitui o regolito, originando os solos.

A cobertura vegetal desempenha um papel de agente estabilizador, na medida em que atenua o impacto das gotas de chuva sobre os solos, bem como serve de anteparo aos fluxos de escoamento e aos deslocamentos de massa. Parafraseando Tricart (1977) a vegetação possui um efeito fitoestático.

Nos locais onde a cobertura vegetal não é expressiva e nas encostas com declives acentuados, os solos estão submetidos a um processo de ablação superficial que, praticamente, determina a retirada das partículas e, ocasiona a redução de sua espessura.

Entretanto, as áreas que apresentam baixa declividade, nas baixas vertentes, onde se estabeleceu uma estabilidade relativa, verifica-se o que Tricart (1977) denominou de compensação aproximativa que se define através da complexa relação entre a ablação superficial, de sentido horizontal e o aprofundamento da pedogênese, no sentido vertical.

 

·        Setores que apresentam reduzida instabilidade morfodinâmica.

Os respectivos setores representativos da APA Bacia do Cobre/São Bartolomeu apresentaram características que permitiu classificá-las em dois tipos: setores de agradação e setores de degradação. Aqueles setores relacionados com a dinâmica fluvial SETORES DE AGRADAÇÃO: observa-se em áreas específicas da APA (ABC/SB) que os vales dos tributários possuem segmentos mais largos separados por gargantas estreitas. Nas quais a transição do curso médio inferior para a foz se faz em cachoeiras. O ressalto existente a montante da cachoeira, limita os setores de agradação fluvial, dos setores de agradação flúviomarinha.

Os depósitos da planície flúviomarinha são produzidos, principalmente, pela carga sólida do rio Mané Dendê, rio do Cobre e dos canais de torrente que dissecam as vertentes íngrimes no setor sudeste da APA.

As formações vegetais do manguezal servem de agente estabilizador do ambiente. A seqüência de desmatamentos e aterramentos ocorridos no Parque São Bartolomeu tendem a desestabilizar a cadeia trófica, bem como a alterar a dinâmica fluvial, conseqüentemente, gerando desajustes no sistema ambiental, principalmente, na foz do rio do Cobre.

Em setores inferiores das vertentes no curso médio do rio do Cobre, verifica-se uma concavidade acentuada, moldando um perfil transversal em forma de berço. E, devido ao forte controle estrutural no curso médio (faixa central e sudeste da APA) tem-se um encaixamento do vales em forma de V e desníveis topográficos abruptos da ordem 85m sob a forma de vertentes retilíneas. (vide mapa de Declividades e Geomorfologia Peças Gráficas).

E, aqueles setores que se referem aos processos erosivos ligados às atividades antrópicas são denominados SETORES DE DEGRADAÇÃO: onde se percebe que nas vertentes e topos ocupados por culturas de subsistências (roças) abre-se caminho para instalar os processos erosivos, impulsionado pelo escoamento concentrado incipiente que produz a exportação dos detritos.

Nos locais de pastagens a erosão é condicionada pelo pisoteio dos animais, que promove a compactação do solo e a formação de micro-relevos.

Na planície de inundação do rio do Cobre, em seu trecho inferior, se observa a plantação de hortaliças (em leiras). Esse tipo de cultivo do solo orienta o escoamento pluvial e, pode ocasionar a intensificação dos processos erosivos de sulcamento e ravinamento. Entretanto, o material exportado é oriundo das próprias leiras e não do fundo dos sulcos. Quando o transporte desses materiais detríticos não atinge as vertentes, tem-se o preenchimento do fundo dos sulcos e, posteriormente, o entulhamento dos canaletes, planificando a superfície.

 

·        Setores em instabilidade morfodinâmica.

Esses setores correspondem aos espaços nos quais as atividades antrópicas foram ou são cada vez mais intensas, nos topos no reverso planalto, nos segmentos das vertentes cultivadas, em áreas de mangue, etc... De maneira geral, ocorrem por toda a extensão da APA, das altas e médias vertentes até aos vales.

Os indicadores desta referida instabilidade morfodinâmica podem ser constatados pelo surgimento de sulcos, ravinamentos, desmontes, bem como da retirada da cobertura vegetal do manguezal que se apresenta em estágio avançado de degradação ambiental e a uso desordenado das vertentes. Além disso, as atividades de exploração dos recursos minerais na área da APA Bacia do Cobre/São Bartolomeu, arenoso nos topos do Grupo Barreiras, extração de rochas cristalinas nas baixas e médias vertentes comprometem o equilíbrio dinâmico.

 

 

4 . RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES FINAIS.

 

Do ponto de vista geral a APA (ABC/SB), se enquadra na classificação proposta por Tricart (1977) nos meios intergrades, com tendência para os meios instáveis. No conjunto podemos caracterizá-la por uma morfodinâmica intensa, embora dificilmente se manifeste por fenômenos de grande amplitude e magnitude.

A declividade acentuada da maioria das encostas sobre o reverso do planalto cristalino (Figura 4.1), a concentração dos índices elevados de pluviosidade durante grande parte do ano, a degradação dos estratos de vegetação e as atividades antrópicas irregulares, confirmam os principais fatores responsáveis da dinâmica da APA.

 

        Figura 4.1

 

Constata-se que, a permanência das declividades acentuadas das vertentes, bem como o entulhamento dos vales, são indicadores da preponderância da morfogênese sobre as vertentes em relação à pedogênese.

A dinâmica pronunciada na referida área sofre variações nos diversos subsistemas da APA, podendo ser tanto no sentido de amenização quanto na amplificação da morfogênese. A faixa central (dissecada em morros e topos planos) da APA encontra-se relacionada aos fatores resultantes da própria evolução geomorfológica recente. E, os setores a NE e SW estão condicionados as repercussões das interferências antrópicas na paisagem, podendo ser classificado em relação ao processo dominante ou à sua intensidade.

Todavia, a dinâmica atual está associada a movimentos eustáticos, principalmente, durante o Quaternário, oscilações climáticas e a reativação do sistema de falhas e fraturas, ou seja, efeitos da tectônica recente. Além disso, a ação antrópica intensificou os processos morfogenéticos naturais modificando a dinâmica normal, bem como a estabilidade da APA (ABC/SB), por exemplo: a retirada de arenoso no topo dos morros e colinas (sedimentos oriundos do Grupo Barreiras); impermeabilização do solo; cortes; aterros; barramentos, artificialização dos vales; atividades agrícolas etc. Pode-se constatar alguns setores recobertos por matas em estágio médio de regeneração (fechada), com árvores adultas, sobre os rebordos acentuados do planalto cristalino. Internamente o clima local faz permanecer a umidade sobre os solos e o regolito, com a formação de serrapilheira que amortece o efeito splash. Essas áreas encontram-se geralmente sombrias, os raios solares dificilmente atingem o chão. O regolito é espesso, constituído de materiais argilosos, freqüentemente cauliníticos. No setor sudoeste, correspondente a área de manguezal evidencia-se alteração da sua composição e estrutura original causada por ação antrópica tais como: aterramentos, lançamento de águas servidas e desmatamento. Essas áreas (ecossistemas de mangue) são legalmente protegidas pela legislação ambiental brasileira.

 

QUADRO 4.1 - CARACTERIZAÇÃO MORFODINÂMICA DA APA BACIA DO COBRE/SÃO BARTOLOMEU.

CARACTE-RIZAÇÃO MORFODI-NÂMICA

LOCALI-ZAÇÃO

PROCES-SOS E MECA-NISMOS

PRINCI-PAIS CONDI-CIONATES

CARACTE-RÍSTICAS DA EVOLU-ÇÃO

SETORES EM ESTABILI-DADE MORFODI-NÂMICA

Cabeceiras de drenagem e dos anfiteatros de erosão.

Acumulação, escoamento pelicular e difuso; meteorização; pedogênese.

Topografia plana e vegetação de mata.

Permanência de topografia plana.

Desenvolvi-mento de solos na base.

 

 

 

 

Topos planos e topos de blocos escalo-nados.

Escoamento difuso e pelicular; erosão pluvial; escoamento sub-superficial; meteorização.

Topografia plana e vegetação de mata.

Conservação dos topos planos.

SETORES EM FRACA INSTABILI-DADE MORFODI-NÂMICA

 

 

 

 

ü                 Setores de Agradação Relacionados com a dinâmica fluvial.

Planície aluvial do curso inferior.

Acumulação e escoamento laminar.

Topografia plana ou com baixa declividade.

Enriqueci-mento do horizonte superf. do solo e conservação da topografia plana; assorea-mento das planícies e do manguezal.

ü                 Relacionados com a dinâmica dos interflúvios.

Encostas inferiores que limitam as planícies aluviais.

Escoamento difuso e laminar; rastejamento e acumulação.

Baixa declividade das vertentes e topografia plana nos vales.

Coluviona-mento das vertentes nos setores inferiores e assoreamento dos vales.

ü                 Setores de Degradação – relacionados com a dinâmica dos interflúvios.

Encostas.

Escoamento concentrado incipiente.

Fortes declividades das vertentes e atividades antrópicas.

Ravinamento; Acentuação das declividades.

Erosão em sulcos.

SETORES EM INSTABILI-DADE MORFODI-NÂMICA

Setores restritos das vertentes.

Escoamento concentrado.

Declividade acentuada e atividades antrópicas.

Acentuação das declividades das vertentes – áreas de cultivo e fundos de pasto, deslocamento de massas, enxurradas (vias asfaltadas).

 

Topos de morros dissecados em colinas.

Escoamento concentrado

Erosão Pluvial.

Declividade acentuada e atividades antrópicas: retirada de material de empréstimo do Barreiras (arenoso).

Assorea-mento de Lagoas e córregos, entulhamento dos vales; erosão ou sulcos.

Elaborado por: SANTOS, Jémison, M. 2002.

 

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

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