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E3-3.3 T158

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

ANÁLISE DA ECODINÂMICA DO LITORAL DE BEBERIBE-CE
VISANDO O TURISMO SUSTENTÁVEL

 

 

 

Erica Silva Pontes (UECE), Edson Vicente da Silva (UFC)

 

 

Palavras-chaves: Rio João Mendes; Seções Transversais; Perfil Longitudinal.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

 

O Turismo tornou-se uma das válvulas de escape para a economia mundial, proposto como uma das soluções para o desemprego estrutural e como via de desenvolvimento para os “países pobres”, como o Brasil. Considerado a terceira atividade econômica mundial, responsável por 6% do PIB global, o turismo é fruto da sociedade industrial e surge a partir da sobrecarga das grandes cidades, maiores centros de formação e emissão de turistas, o Homo turisticus, vítima do caos urbano. (RODRIGUES,1999:17).
O turismo é uma atividade terciária que exige como elementos constituintes os homens (turistas, população residente, guias de turismo, agentes de viagem, etc.), as firmas (produtoras de bens e serviços, como agências, operadoras e hotéis), a infra-estrutura (água, esgoto, energia, comunicações e transporte) e o meio ecológico (base física natural para o trabalho social). A constatação é de que os homens e o meio ecológico têm sido massacrados nesse processo mundial de turistificação dos lugares. A paisagem torna-se um incrível recurso turístico sendo comercializada como se mercadoria fosse. Os homens, principalmente os nativos das comunidades receptoras, são bombardeados por novos códigos culturais, adaptando-se a uma vida teatral de recepção dos turistas, sendo estes últimos modificados pela ilusão do marketing. Aparece, assim, a necessidade de se avaliar a quantas anda a influência de todo esse processo no litoral cearense.
No Ceará, centro receptivo por excelência, o turismo existente e incentivado pelo Estado é desordenado, sem retorno social local significativo. Esse turismo de massa – assim nomeado pelo grande volume de pessoas, de classe média, que consomem paisagem e cultura locais em curto intervalo de tempo – é globalizante e homogeneíza os lugares, anulando diferenças identitárias do lugar. Os turistas estão interessados em fugir do seu caos diário deslocando-se para um lugar paradisíaco que seus rendimentos de classe média possam pagar. O motivo não está no lugar de destino, daí o Ceará e o Caribe só possuírem como diferença o valor da tarifa a ser cobrada. A infra-estrutura de ambos os lugares é instalada igualmente e as políticas públicas não se preocupam com as peculiaridades locais. Essa não é uma postura adequada quando se propõe atender as necessidades de uma comunidade. Assim sendo, propõe-se uma pesquisa visando o rompimento com o modelo proposto e vigente, indicando novos caminhos para o desenvolvimento local por meio do turismo.
O conhecimento de alternativas de sustentabilidade visa o benefício coletivo, que pode ser atingido com a atividade turística. Esta deve estar diretamente relacionada com o conceito de Turismo Sustentável.
O trabalho a ser desenvolvido busca trilhar caminhos que indiquem o turismo que traga o bem-estar social da população nativa, sem eliminar a possibilidade de recepção da população visitante. O litoral de Beberibe-Ce será nosso estudo de caso. Com diferentes ambientes naturais, de beleza cênica e paisagística incomparável, é destino turístico certo da grande maioria dos visitantes do Ceará. Algumas das praias mais conhecidas e “vendidas” pelo trade turístico no Ceará são as de Morro Branco e Praia das Fontes, pertencentes ao referido município. Importante é ressaltar que ambas são divulgadas, através de um pacote promocional, pelas agências de receptivo de Fortaleza como o “passeio das areias coloridas”, sendo conhecidas num só dia. Com isso, são duas das áreas litorâneas mais visitadas e mais afetadas pela degradação decorrente da atividade no Ceará. Em contrapartida, a comunidade da Prainha do Canto Verde, também em Beberibe, trabalha arduamente, juntamente com entidades locais e internacionais, na busca de um turismo socialmente responsável, baseado na educação e organização comunitária.
O turismo demanda infra-estrutura (básica e turística) adequada para atender a um turista cada vez mais exigente. Para suprir essa demanda, o meio físico natural funciona como matéria-prima e, conseqüentemente, sofre alterações como o desmonte de dunas e falésias, poluição dos recursos hídricos, desmatamentos irregulares, além de haver intervenções no cotidiano da comunidade local com a existência, por exemplo, de conflitos de terras entre investidores e população nativa, desculturação ou aculturação, concentração de renda, só para citar alguns dos problemas decorrentes. Conhecer, através do mapeamento e análise, esses impactos sobre a localidade receptora é imprescindível para a proposição de um quadro sustentável.
A pesquisa apresenta também o intuito de trabalhar com levantamentos específicos e integrados na tentativa de direcionar a atividade turística para um desenvolvimento local, com benesses para a comunidade, sem agredir sua cultura e seu ambiente.
Busca-se conhecer as potencialidades e as limitações da área para a proposição de estratégias de melhoria social local a partir de tal atividade econômica, com a participação comunitária. Para tanto, faz-se necessário compreender a constituição natural e político-administrativa da área de estudo.
O Município de Beberibe está situado no litoral leste do Estado do Ceará, a 82 km da capital Fortaleza, pela rodovia CE-040. Possui uma extensão territorial de 1617 km² e tem como áreas limítrofes ao Norte o Oceano Atlântico; ao Sul os municípios de Palhano, Russas e Morada Nova; a Leste os municípios de Aracati e Fortim; a Oeste os municípios de Cascavel e Ocara. Seu litoral, com 52 km de extensão, é delimitado pelas planícies flúvio-marinhas dos rios Choró, a oeste, e Pirangi, a leste. Sua paisagem é constituída por feições geossistêmicas de praia, pós-praia, dunas móveis e fixas, falésias junto ao mar, planícies flúvio-marinhas e contato com o tabuleiro costeiro.
O litoral de Beberibe apresenta características morfológicas que se desenham em sedimentos inconsolidados da Formação Barreiras e dos sedimentos quaternários de neo-formação. A área possui um clima sub-úmido – com médias de precipitação anuais de 900 mm, com altos índices pluviais concentrados entre os meses de fevereiro e maio e a temperatura média variando entre 26° C, de julho a agosto, e 27,3° C, nos meses de dezembro a fevereiro. Os solos característicos são os Neossolos Quartzarênicos, Planossolo Nátrico e Gleissolo Sálico e Tiomórfico. A cobertura vegetal é a Vegetação Pioneira Psamófila na faixa de pós-praia e dunas móveis, Vegetação Subperenifólia de Dunas nas dunas fixas e Vegetação Perenifólia Paludosa Marítima de Mangue nas planícies flúvio-marinhas e Vegetação Subcaducifólia de Tabuleiro nas superfícies de domínio dos tabuleiros costeiros. Existe na área o desenvolvimento da agricultura de subsistência e pesca artesanal, feita em jangadas. Há atividades de lazer, presença de veranistas e fluxo constante de turistas, nacionais e internacionais, bem como de investidores na construção de hotéis, pousadas e pontos de apoio para esta atividade econômica. (SOARES, 1998)
Foi elaborado como objetivo principal do trabalho analisar a ecodinâmica dos componentes geossistêmicos do Litoral de Beberibe-Ce visando o turismo sustentável. Para alcançar tal meta, é essencial mapear os componentes geossistêmicos do litoral de Beberibe; mapear suas feições paisagísticas; diagnosticar a capacidade de carga de cada uma das feições geossistêmicas, indicando suas potencialidades e limitações ambientais; identificar o grau de vulnerabilidade e de estabilidade ecodinâmica de cada feição; propor alternativas para a conservação do meio ambiente local prevendo uma atividade turística sustentável.
O embasamento teórico será a abordagem sistêmica através do estudo de geossistemas proposto por BERTRAND (1971). Tal abordagem coloca a paisagem como um todo que, para ser compreendido, deve ser compartimentado, mas não se constitui como o somatório de seus componentes, e sim, pelo entendimento da função integrada destes. A compartimentação dá-se em unidades, que não necessariamente são homogêneas do ponto de vista fisionômico. De acordo com o grau de homogeneidade e escala espacial têm-se como unidades internas os geossistemas, os geofácies e, ainda, geótopos. Assim, para a análise do litoral de Beberibe-Ce torna-se necessário seu parcelamento em unidades geossistêmicas que se inter-relacionam em seu conjunto. A metodologia a ser adotada busca uma melhor compreensão das inter-relações entre os fatores abióticos (geologia, geomorfologia, clima e hidrologia), bióticos (solos, vegetação e fauna) e a atividade social. O conhecimento das unidades geossistêmicas interligadas proporcionará fundamentação para proposição de medidas para o desenvolvimento do turismo sustentável, de acordo com uma visão holística do meio ambiente.
Serão identificadas e analisadas as condições de estabilidade e/ou instabilidade dessas unidades geossistêmicas, de acordo com TRICART (1977), para o entendimento de sua ecodinâmica, numa relação entre morfogênese (onde prevalecem os processos erosivos modificadores do relevo) e pedogênese (onde prevalecem os processos formadores do solo). Colaborará também para a pesquisa a consulta da bibliografia já existente sobre a área de estudo. Não poderia ser excluída a bibliografia relacionada ao Turismo, como é o caso de CORIOLANO (2001), RODRIGUES (1999), e outros.
O material geocartográfico e imagens orbitais utilizados são constituídos por imagens em papel e transparências do sensor TM-LANDSAT-7, escala 1:100.000, fotos aéreas na escala de 1:35.000, Esteio (1998); folhas sistemáticas plani-altimétricas da SUDENE/DSG (1972) na escala 1:100.000. Os equipamentos são constituídos de mesa digitalizadora Van Gogh/Digigraf, microcomputador AMD Duron 950MHZ, 128 MB, 20GB, CD-room 52 X; impressora a jato de tinta, HP 840 C, maquina fotográfica Yashica MG motor, Scanner e GPS, bem como os softwares AutoCad Map, Surfer, Arqview.
De acordo com a metodologia adotada, são necessárias distintas e integradas etapas para o desenvolvimento da pesquisa, de forma a descrever e classificar as unidades de paisagem. Trabalhos de gabinete com levantamento bibliográfico e seleção de material geocartográfico disponível compõem etapas iniciais. Levantamentos e observações de campo para verificação da realidade terrestre, com coleta de material para análise; trabalhos laboratoriais; aplicação de entrevistas com a comunidade, para conhecer a percepção desta com o meio; ordenação e interpretação dos dados, com elaboração de tabelas, gráficos, perfis, quadros-síntese; definição do inventário da área, descrevendo as unidades geoambientais, suas interações e feições paisagísticas; confecção de mapas de impactos ambientais e de áreas potencialmente propícias à atividade turística; elaboração de um plano de ordenação espacial, com o estabelecimento de diferentes zonas de uso restrito, visando o desenvolvimento de um turismo sustentável.

Referências Bibliográficas

BERTRAND, G. Paisagem e geografia física global. Caderno de Ciências da Terra. São Paulo, 1971. N. 13, p. 1-27. 1971

CORIOLANO, Luzia Neide M. T. Turismo e degradação ambiental no litoral do Ceará. IN: LEMOS, Amália Inês Geraiges de. (org.) Turismo: impactos socioambientais. 3ª. ed. São Paulo: Hucitec, 2001.

RODRIGUES, Adyr Balastreri. Turismo e espaço: rumo a um conhecimento transdisciplinar. 2ª. ed. São Paulo: Hucitec, 1999

RODRIGUES, Adyr Balastreri. (org). Turismo Desenvolvimento Local. 2ª. ed. São Paulo: Hucitec, 1999

SOARES, Ana Maria Lebre. Zoneamento Geoambiental do município de Beberibe-Ce. Fortaleza: UECE, 118 p. (Dissertação de Mestrado) 1998

TRICART, Jean. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE, 97 p. (Recursos Naturais e Meio Ambiente.1). 1977