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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DA BACIA DO RIO ITAQUI COM VISTA AO ZONEAMENTO AMBIENTAL

 

 

Laércio Martins Graduando - Geografia/UFPR, laertins@ig.com.br

Claudio Jesus de Oliveira Esteves Mestrando - Geografia/UFPR, claudiaojoe@ig.com.br

Claudinei Taborda da Silveira – Mestrando - Geologia/UFPR, claudineits@ig.com.br
Luciano Barão de Souza – Geógrafo, lucianobarao@hotmail.com

Paulo César Medeiros - Mestrando - Geografia/UFPR , paulicer@terra.com.br

 

 

Palavras Chave: Diagnóstico Ambiental, Cartografia e Zoneamento Ambiental

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

Introdução

 

A água é vital para a sobrevivência e o bem-estar dos seres humanos, como afirma DREW (1994, p.87): Pode- se dizer que a água doce é o mais importante recurso da humanidade, individualmente considerado. Porém, o que se observa é a constante e progressiva degradação das fontes de água doce, sendo que este fato está relacionado principalmente as formas de ocupação e uso da terra conforme afirma DREW (1994, p. 87): Com o advento da moderna tecnologia, o grau de interferência aumentou de maneira assustadora; atualmente são poucos os sistemas de drenagens no mundo , que têm caráter inteiramente natural.(...)as modificações inadvertidas dos mesmos sistemas são universais, em geral por se passar a utilizar a terra de outra maneira. Diante desta situação verifica-se a importância que tem adquirido no campo do planejamento e da gestão ambiental aos estudos e ações a partir da unidade espacial Bacia Hidrográfica[1] visto que este recorte espacial pelas suas características constitui um diagnóstico privilegiado das condições ambientais da sua área de abrangência além de ser um elemento da natureza facilmente cartografável. 

A partir desta compreensão a presente pesquisa, que se desenvolveu como parte das atividades da disciplina de Planejamento Regional e Gestão Territorial do curso de geografia da Universidade Federal do Paraná[2], teve como objetivo diagnosticar e analisar as condições ambientais da microbacia do Rio Itaqui, situada na Região Metropolitana de Curitiba, com vistas a subsidiar um hipotético zoneamento e planejamento ambiental da sua área.   Como base metodológica deste estudo foi utilizada a proposição apresentada por MENDONÇA[3] (1999, p. 67):

A proposta metodológica para a elaboração de análise e diagnóstico ambiental aqui apresentada insere-se dentro do campo do conhecimento geográfico, portanto de análise da integração entre atividades humanas e o meio físico natural, e tem como unidade espacial a microbacia hidrográfica. A proposta está fundamentada na cartografação dos elementos físicos-naturais e socioeconômicos da paisagem, bem como na análise da qualidade da água da microbacia; o diagnóstico ambiental culmina com o zoneamento e o levantamento de diretrizes para a recuperação da degradação ambiental estudada, aspectos fundamentais para toda e qualquer ação de planejamento e gestão de bacias hidrográficas.

 

Nesta perspectiva foram adotados os seguintes procedimentos: Os aspectos fisiográficos e sócio econômicos foram levantados através de pesquisas bibliográficas, observações e estudos de campo, utilização de carta topográfica e fotointerpretação a partir de imagens na escala de 1:20.000, sendo os resultados descritos, analisados e, por fim, cartografados. A partir deste procedimento foram gerados seguintes mapas: Hipsometria; Declividades de vertentes; Orientação das vertentes; Direção e velocidade dos ventos; Uso do solo; Distribuição espacial da degradação ambiental; Legislação ambiental. Por fim foram confrontados os dados coletados, as representações cartográficas e as observações de campo gerando-se uma carta síntese com os níveis de degradação ambiental, sendo proposto a seguir um Zoneamento Ambiental da área, levando em conta os estágios de degradação ambiental e apontando algumas diretrizes numa perspectiva ao planejamento e a gestão ambiental da área.

 

 

Caracterização Geográfica da Bacia do Rio Itaqui

 

Esta bacia drena uma área de 39,80 km²  abrangendo  porções dos municípios de Piraquara e São José dos Pinhais[4]. Com 49º 10´ 01´´W  - 25º 27´52´´S  e 49º00´11´´W – 25º32´31´´S e se estende no sentido sudeste da cidade de Curitiba – PR. Nas regiões próximas às nascentes predomina a ocupação por chácaras de lazer e pequenos agricultores enquanto que nas áreas situadas no médio e baixo curso apresenta um vetor de industrialização recente onde se destaca uma grande montadora do setor automotivo (Fábrica da Renault) e pequenas e médias indústrias de ramos variados. Destaca-se o fato desta área apresentar densa ocupação com inúmeras vilas e favelas, algumas em situação irregular, sendo uma das áreases com maiores problemas sociais da Região Metropolitana de Curitiba.  

O Rio Itaqui é contribuinte da margem esquerda do Rio Iguaçu, fazendo parte, portanto, da Bacia do Altíssimo Iguaçu. Segundo a Carta Geológica do Estado do Paraná, cerca de 40% do seu curso inicial se dá sob os Migmatitos e Granitos Associados (Pré-Cambriano). Seu leito principal segue, em seguida, sob uma planície de terrenos aluvionares (Holoceno)e na sua margem direita localizam-se os terrenos de Formação Guabirotuba (argilitos e arcósios – Pleitoceno). Na área de jusante e porção norte da Bacia do Rio Itaqui a unidade geomorfológica, segundo a  SEMA (1996), é definida como “Bacia sedimentar de Curitiba – Depressão formada por detritos carregados circunjacentes. As áreas mais altas apresentam–se mais desgastadas e na parte central deprimida encontram-se os depósitos realizados pelo principio da superposição. A porção sul e sudeste da Bacia do Rio Itaqui localiza-se na unidade geomorfológica de “ relevo de dissecação média, observa-se a formação de topos em cristas não seguindo orientação dominante com presença de morros alongados” (SEMA, 1996) porção média do da Bacia do Rio Itaqui insere-se como  “ unidade de planície aluvial – área sujeita a inundações de rios nas partes onde o terreno é baixo ou mais ou menos plano” (SEMA ,1996). O relevo do alto curso, mais precisamente é bastante tectonizado e/ou intrudidos por diques de diabásio,  de característica moderadamente e fortemente ondulados. A vegetação original  se divide em três compartimentos segundo MAACK (1981): As Matas de Araucárias (com taquarais e Palmáceas) à Montante; no Curso médio ocorrem os Campos Limpos (estepes de gramíneas com capões, com matas ciliares ou galerias ao longo dos arroios; as Matas de Várzeas ou campos de inundação que ocupam os vales do curso médio e predominam na jusante  da bacia. Quantos à fauna são identificados diferentes espécies que ocupam porções distintas da bacia Alguns mamíferos como o tatu e a capivara são vistos apenas à montante. Próximos aos banhados são vistas codornas, pombas-rola e pomba do mato, além de alguns bandos de anús. Entre os pássaros são vistos os colibris, beija-flores, coleira do brejo, caboclinho, pintassilgo, canário-da-terra, galo do mato e sabiá. Além destas importantes espécies são encontrados diferentes répteis, peixes, lipidópteros e coleópteros, que podem ser amplamente estudados.

O clima predominante da região segundo a classificação de KOEPPEN, é o do tipo Cfb – mesotérmico úmido e super úmido, sem estações secas, com verões frescos e geadas severas no inverno com pluviosidade anual registrada (isoieta) entre 1500- 1600 mm e evapotranspiração potencial anual registrada atinge em média 800mm e um excedente aproximado de 500mm. (MAACK, 1981). A circulação atmosférica ocorre através do mecanismo das massas de ar Polar Atlântica e Tropical Atlântica que determinam e regulam  os regimes térmicos e pluviométricos do clima regional.

 

 

Aspectos Fisiográficos e Sócioeconômicos da Bacia do Rio Itaqui

 

A partir da compreensão da Bacia Hidrográfica, buscou-se como referencial metodológico a proposição apresentada por MENDONÇA (1999), que consiste em um primeiro momento no enfoque dos elementos físicos-naturais da microbacia, deste modo serão abordados os seguinte aspectos:

·         O relevo - delimitação geográfica, perfis latitudinais/longitudinais, hipsometria e declividade),

·         A dinâmica espacial da radiação solar e dos ventos (exposição de vertentes e direção/velocidade dos ventos

·         Uso e ocupação do solo – envolve tanto aqueles elementos derivados da dinâmica  natural como a vegetação natural, quanto os provenientes da atividade humana.

Após a caracterização geral serão analisados os aspectos relativos à degradação e/ou poluição do ambiente, à qualidade da água e à legislação ambiental.

Por fim serão confrontados os dados coletados, as representações cartográficas e as observações de campo na perspectiva de estabelecer o Zoneamento Ambiental, apresentando os diversos ambientes de forma a perceber seus estágios de degradação e levantando algumas diretrizes com vistas a exercitar este conjunto de procedimentos e sugerir uma perspectiva ao planejamento e a gestão ambiental da área.

 

3.1 Perfis da Bacia do Rio Itaqui

Para melhor analisar as características existentes no relevo da bacia do Itaquí, foram destacados alguns perfis representativos que podem demonstrar a declividade, o gradiente e as relações de altimetria com o comprimento da bacia, por exemplo. O perfil longitudinal representado é o da bacia hidrográfica. Para confecciona-lo foi necessário traçar dois segmentos de reta que acompanham a drenagem principal da bacia. Através deste perfil, pode-se verificar graficamente as amplitudes altimétricas em relação ao comprimento da bacia e também relaciona-lo com as características hipsométricas. Os outros perfis estão relacionados a cortes transversais na bacia (corte superior, corte médio e corte inferior). Em função da dinâmica que ocorre dentro da área estudada, traçou-se um seguimento de reta em cada porção, no intuito de perceber as variações altimétricas e as formas do relevo da bacia. Através da análise, pode-se notar que os perfis demonstram o resultado de três regimes diferentes ao longo da extensão do curso da água. A parte superior da bacia pode ser considerada como área de coleta de água e erosão, o que implica no entalhamento. O trecho inferior é área de deposição, com predominância de sedimentação. A porção intermediária é a transição entre ambas. A bacia do rio Itaquí apresenta, de um modo geral, um relevo bastante plano com vertentes pouco inclinadas e um relevo acidentado nas proximidades da montante e das nascentes com vertentes moderadamente inclinadas.

 

3.2 Carta Hipsométrica

Para MENDONÇA (1999) a identificação e análise da hipsometria, possibilitam a observação da variação altimétrica do relevo da área, fato importante na análise de processos relativos a dinâmica de uso e ocupação do solo e da formação de micro-ambientes da mesma, dentre outros. A metodologia utilizada para a confecção da carta hipsométrica da bacia do Itaquí, partiu do seguinte pressuposto, devido a planitude ou a pequena amplitude altimétrica, a bacia estudada foi dividida em cores que possibilitam a observação da variação altimétrica do relevo. Cada cor utilizada representa um determinado patamar altimétrico. Como está demonstrado na carta hipsométrica, as variações altimétricas da bacia hidrográfica do Rio Itaquí são amenas, o que favorece a ocupação antrópica, seja ela com atividades agrícolas ou mesmo urbanas. O fato é que pelas características apresentadas na área, principalmente pelo meio físico, são desfavoráveis a esse tipo de uso.

 

3.3 Carta Clinográfica

A carta clinográfica ou carta de declividade é uma ferramenta aplicada em trabalhos de planejamento, de fragilidade ambiental, entre outros, através da qual é possível delimitar a distribuição das porções de inclinação em um terreno, já que a inclinação é uma das variáveis que compõem a fragilidade de uma vertente.

DE BIASI (1992), define as classes de declive aplicadas à legislação ambiental vigente: <5%, limite utilizado internacionalmente para uso urbano-industrial; de 5 – 12%, que define o limite máximo do emprego da mecanização na agricultura; de 12 – 30%, limite máximo para urbanização sem restrições, de acordo com a Lei 6766/79; de 30 – 47% que, baseado no código florestal, que estabelece como limite máximo de corte raso 25º (ou 47%); e > 47 que, conforme o artigo 10 do código florestal, não permite o corte florestal em áreas com inclinação maior que 25º (ou 47%).

A bacia do Rio Itaqui possui, na maior parte de sua porção, declividade suavizada. Predomina a classe de menor declividade (<5%), principalmente na margem direita (no sentido jusante montante), enquanto que a área da margem esquerda do rio é mais estreita com as curvas de nível mais próximas, o que demonstra ser mais inclinada. A suavidade do relevo torna a área propícia a alagamentos. No terço médio não há homogeneidade de classes de declive, porém apresenta maior inclinação no leito norte do canal de drenagem, com vale mais abrupto, enquanto que na margem sul do canal o relevo é plano, com exceção do vale de um de seus afluentes. No terço superior da bacia o relevo é mais inclinado, com declividade abrupta nas nascentes do Rio Itaqui, em área serrana, com o vale encaixado.

 

3.4 Carta de Orientação de Vertentes

As cartas de orientação de vertentes são representações temáticas utilizadas principalmente em estudos relacionados com Geomorfologia, Climatologia, Geografia Agrária, Urbana, etc., que contribuem para a delimitação das áreas afins de acordo com sua posição geográfica (norte, sul, leste, oeste, etc.).

Essa representação pode auxiliar, por exemplo, na valorização (ou desvalorização) de uma área, em estudos de solos ou tipos de vegetação encontradas nas diferentes vertentes, ou em estudos de suscetibilidade a escorregamentos (movimentos de massa).

A carta de orientação de vertentes têm grande importância e utilização na valorização imobiliária da região de Curitiba, onde devido à posição geográfica da cidade e à posição que o Sol toma durante o ano com relação à mesma, torna as áreas de Face Sul menos valorizadas que as de Face Norte: as áreas que têm Face Sul quase não recebem luminosidade solar no inverno e pouca e somente vertical no verão. Já as áreas de Face Norte recebem luminosidade lateral e vertical durante o ano todo.

No estudo da Bacia Hidrográfica do Rio Itaqui a carta foi importante para a delimitação das áreas que recebem maior ou menor insolação, apesar da pequena declividade do relevo da área de estudo. Além disso, pôde auxiliar na relação dos tipos de vegetação existentes, de acordo com as faces em que se encontram.

 

3.5 Carta de Direção e Velocidade dos Ventos

A carta de direção e velocidade dos ventos é utilizada para auxiliar a analisar parte dos aspectos climáticos da área, sua dinâmica atmosférica notadamente da circulação terciária, conforme MONTEIRO (1976) & RIBEIRO (1993) citado por MENDONÇA (1999), quanto a observação da dispersão atmosférica de poluentes, de microorganismos e de impactos de vendavais, dentre outros.

A elaboração da presente carta foi adaptada da proposta de MENDONÇA (1999). Este mapeamento toma o vento em relação ao relevo da área mapeada, não considerando os parâmetros meteorológicos. Trata-se de um mapeamento voltado ao enfoque da dinâmica atmosférica da área conforme a força de atrito produzida pelo relevo sobre a atmosfera. (MENDONÇA, 1999).

Para a Bacia do Rio Itaqui, nas médias e baixas vertentes, há predominância dos ventos com sentido noroeste - sudeste. Para determinar esta direção na carta, tomou-se como base o estudo de MAACK (1981) que afirma que no Planalto de Curitiba predominam ventos oriundos do quadrantes norte  (Cerca de 52,7% durante o ano). Deve-se fazer a ressalva que a maior parte das ocorrências de ventos originários no quadrante setentrional acontecem durante o inverno, sendo que no verão  predominam ventos originários do quadrante meridional. Na alta vertente, tendo como base a calha do Rio Itaqui, os ventos predominam no sentido oeste para leste.

Segundo MENDONÇA (1999) os poluentes atmosféricos se distribuem no sentido predominante dos ventos, sendo assim atividades que poluam o ar, para não prejudicar a população, devem levar em conta esta dinâmica atmosférica. Nestas condições, tomando como base as informações cartografadas, as atividades que lançam poluição na atmosfera, nas áreas de baixas e médias vertentes, devem se situar a leste ou oeste da bacia. Nas áreas localizadas nas altas vertentes estas atividades devem se situar ao norte ou ao sul da bacia. Deve-se enfatizar que, durante observações de campo, ficou evidente que a lei de não ocupação com  atividades industriais e imobiliárias na região, devido ao fato de ser área de mananciais de água não foi respeitada. Portanto, esses tipos de uso do solo na região comprometem a qualidade dos recursos hídricos que abastecem parte da população da Grande Curitiba.

 

3.6 Carta de Uso e Ocupação do Solo

Para MENDONÇA (1999) a identificação e o uso do solo “constituem-se em importantíssimo elemento num estudo ligado à temática ambiental, pois quanto mais atualizado sobre uma determinada localidade auxiliará, dentre outros, a identificar e localizar os agentes responsáveis pelas condições ambientais da área”. Para o levantamento do uso e ocupação do solo inicialmente foram definidas categorias de uso e ocupação. Após foi feita fotointerpretação da área tendo como base levantamento aerofotogamétrico da (SUDHERSA, 2000). A conclusão deste levantamento foi feita através de visita de campo para conferir e atualizar a fotointerpretação aérea, além de levantar novos dados. Os usos predominantes observados foram: No alto curso da bacia a exitência de chácaras de lazer e pequena agricultura; No médio e baixo curso nota-se densa ocupação em loteamentos, vilas e favelas além de pequenas e médias indústrias. Ressalta-se a existência de áreas de antigos areais onde é alto o nível de degradação ambiental conforme será anlisado na seqüência.

 

3.7 Carta de Degradação Ambiental

Nesta carta são levantados e espacializados os diferentes tipos e indicativos de degradação ambiental. Inicialmente, através de fotointerpretação buscou-se identificar indicativos da degradação ambiental da área. Após, em visita de campo, os dados da fotointerpretação foram conferidos e atualizados e também buscou-se identificar outros indicativos de degradação ambiental na Bacia. No caso da Bacia do rio Itaqui os elementos indicadores da degradação ambiental foram: indícios de erosão, solo exposto fruto de desmatamento, assoreamento, turbidez da água, presença de roedores, forte odor  em alguns pontos do rio, poluição atmosférica, lixo e esgoto a céu aberto, áreas de favelamento, lançamento de esgotos diretamente no rio barulho ocasionado por intenso tráfego de veículos na BR-277, a presença de cavas  devido a retirada de areia.

 

3.8 Carta de proteção de matas ciliares - Código Florestal Brasileiro

O entendimento desta legislação é fundamental não apenas para a formulação do Planejamento Ambiental que ora se propõe, mas igualmente para sua aplicação por meio dos órgãos competentes. Foi confeccionada uma carta buscando espacializar aspectos da legislação ambiental proposta pelo Código Florestal Brasileiro (Lei nº 4.771, de 19/05/65), centrada numa revisão da legislação que no seu artigo 2º define como preservação permanente, as áreas localizadas: a)    ao longo dos rios ou de qualquer curso d’água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima seja:  de 30 metros para os cursos d´água de menos de 10 metros de largura;          de 50 metros para os cursos d’água que tenham de 10 a 50 metros de largura; de 100 metros para os cursos d’água que tenham de 50 a 200 metros de largura; de 200 metros para os cursos d’água que tenham de 200 a 600 metros de largura; de 500 metros para os cursos d’água que tenham largura superior a 600 metros; Esta carta busca espacializar este capítulo da legislação ressaltando os seus principais aspectos para o caso em questão da bacia do Itaqui, naquilo que diz respeito aos conflitos das formas de uso e ocupação do solo. Deve servir como referência preliminar ao trabalho de planejamento, licenciamento e controle desta área. Na carta de Legislação Ambiental pode-se perceber, através de representação cartográfica, pela aplicação da Lei nº4.771/65 do Código Florestal Brasileiro, inúmeras áreas de conflito em relação a esta legislação oriundas da ocupação e das formas de uso da terra no local.

 

 

4.   Uma proposta de zoneamento com vistas ao planejamento ambiental

 

A construção de um zoneamento ambiental para a bacia hidrográfica do Itaqui levou em consideração o atual uso do solo em confronto com as anotações de campo e com a carta dos indicadores de degradação ambiental. O resultado desta confrontação permitiu identificou a identificação de três zonas de degradação:

 Fracamente degradada – áreas que apresentam cobertura vegetal em estágios de menor degradação, encontradas no curso médio e superior da bacia;

Moderadamente Degradada – áreas que apresentam baixo adensamento urbano e conservam características naturais em estágios moderados de degradação, com a presença de alguns indicadores de degradação registrados;

Fortemente Degradadas – áreas de intensa ocupação urbana (regulares e irregulares), loteamentos e propriedades particulares destinadas à urbanização. Nesta zona houve uma maior ocorrência dos indicadores de degradação ambiental.

 

A presente proposta buscou integrar os conhecimentos sobre os aspectos naturais, o uso do solo atual e os diferentes estágios de degradação. Através de um levantamento bibliográfico e da construção das representações cartográficas da bacia, buscou-se espacializar e hierarquizar zonas de planejamento específico.

Foram também incorporadas à estas análises as proposições e diretrizes apresentadas pela Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral – SEPL, através de um documento preliminar (Plano de Desenvolvimento Integrado – PDI /2001)que abre o processo de discussão sobre o desenvolvimento da Região Metropolitana de Curitiba, com vistas a revisar o PDI/1948. O plano é orientado pela Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba – COMEC. Em seus aspectos gerais o PDI/2001 considera como área urbana os terrenos que se estendem desde a foz do rio Itaqui até o Contorno Leste (limite da porção inferior da bacia). Indica, também a constituição de uma Unidade Territorial de Planejamento – UTP, abrangendo a totalidade da bacia.

Na porção inferior são consideradas pelo PDI/2001 duas zonas específicas: Zona Residencial de Baixa Densidade e Zona Residencial Especial.

Nos cursos, médio e superior aparecem uma extensa Zona de Baixíssima Densidade com enclaves de Zonas de Baixa Densidade. Esta área também é considerada pela Lei 1751/96, como áreas limitadas à proteção dos Mananciais de Abastecimento Público.

A proposta de diretrizes de uso do solo apresentada pelo PDI/2001 indica três destinos específicos à bacia em estudo:

1.        Parque Iguaçu nas áreas próximas à foz do rio;

2.        Áreas de ocupação controlada que predominam na maior porção da bacia;

3. Áreas de conservação, destinada às nascentes do Itaqui.

 

A partir destes dados foram estabelecidas três zonas distintas, duas delas considerando os níveis de ocupação urbana e os indicadores de degradação. A terceira categoria levou em consideração as áreas de proteção da Serra do Mar, o Parque Iguaçu e a vegetação ciliar prevista no Código Florestal Brasileiro. Ficando constituída e caracterizada da seguinte forma.

 

ZPU – Zona de Planejamento Urbano

Compreende todas as áreas urbanizadas por processos regulares e irregulares. Com alto nível de degradação ambiental. Estas áreas têm sua maior concentração na porção inferior da Bacia, limitada pelo Contorno Leste. Na porção média da bacia encontra-se um grande enclave urbano ao lado direito da Rodovia 277 e um pequeno enclave à esquerda.  Esta zona, pelo seu alto nível de antropização, deverá receber uma legislação específica que considere os seguintes aspectos:

·         As medidas necessárias para conter os indicadores de degradação ambiental constatados nesta pesquisa;

·         Relocação das habitações na faixa de proteção ambiental dos rios;

·         Fiscalização por parte dos órgãos competentes quanto à construções irregulares, lançamento de poluentes,

·         Projetos de reflorestamentos, despoluição e educação ambiental.

 

ZEPU – Zona Especial de Planejamento Urbano

Esta zona teve sua delimitação orientada pela situação atual de ocupação de baixa densidade urbana, que é devido às condições naturais (solos aluvionares). Uma porção considerável desta zona está sob propriedades particulares, algumas destinadas a atividade agrícola e outras  ao mercado imobiliário, que poderão comprometer a situação atual caso não se aplique um conjunto de medidas de controle ambiental e incentivo ao desenvolvimento de práticas de preservação. A legislação a ser constituída deverá atender os seguinte requisitos:

·         Limitação do adensamento urbano às condições ambientais da região;

·         Proibição ao uso de agrotóxicos e incentivo as práticas de agricultura orgânico-ecológicas;

·         Constituição de áreas públicas com vistas ao lazer e à preservação;

·         Apoio à pesquisa científica  e às praticas de educação ambiental.

 

 ZPA – Zona de Proteção Ambiental

Estas áreas compreendem as porções extremas da bacia, conectando-se através de um corredor de preservação que tem como limite as margens do rio principal e seus afluentes com suas respectivas nascentes. Ficando sujeita esta zona aos seguintes critérios de uso e ocupação:

·        Proibição de loteamentos;

  • Proibição de atividades industriais,

  • Proibição do uso de práticas agrícolas extensivas, bem como do uso de produtos químicos;

  • Proibição de introdução de espécies animais e vegetais  estranhos ao ambiente; 

  • Incentivo às atividades econômicas compatíveis com a preservação, tais como: psicultura, agricultura ôrganica-ecológica, apicultura e turismo ecológico;

  • Constituição de programas de reflorestamento e recuperação das áreas degradadas;

  • Constituição de áreas verdes a serem destinadas à parques;

  • Disponibilização à pesquisa científica quando de caráter ambiental

  

 

5. Considerações finais

               

A utilização da metodologia apresentou resultados consideráveis no que diz respeito à formação de uma base experimental para o desenvolvimento e elaboração do diagnóstico ambiental e do zoneamento em nível acadêmico. Percebeu-se que a escolha de variáveis constitui a fase primordial do processo de estudo e serão determinantes nas análises e no resultado final. Portanto cabe aos profissionais do planejamento a tarefa de identificar o maior número de variáveis e que apresentem dados não somente quantitativos, mas também qualitativos, permitindo a correta tomada de decisão.

O diagnóstico ambiental é uma produção que adquire cada vez maior importância devido aos avanços jurídicos e legais das políticas públicas de meio ambiente. A sua realização é uma condição prioritária para que o planejamento, pois assegura o caráter técnico-científico e traz à tona um amplo processo de discussão e interação entre as diferentes áreas do conhecimento. Neste sentido faz necessário considerar que formação do geógrafo adquire, por conta da natureza de seu objeto, um papel primordial na elaboração de estudos deste porte.

A proposta de zoneamento que se originou do presente estudo buscou levar em consideração os aspectos metodológicos que se desenvolveram ao longo da pesquisa. Entre os procedimentos mais importantes do trabalho destaca-se o trabalho de campo e a utilização do geoprocessamento que permitiram equacionar a percepção dos pesquisadores e a representação gráfica dos elementos da análise. Assim a compilação dos dados e a reflexão se alimentaram teórica, técnica e praticamente durante o processo de estudo.

Percebeu-se que a tomada de decisão a respeito da determinação dos usos dos diferentes espaços pode ser dinamizada ao se aplicar a presente proposta. No entanto é preciso ampliar cada vez mais os elos de ligação entre o corpo técnico e a população atingida por projetos oriundos de estudos como este. O envolvimento de profissionais de diferentes áreas também é fundamental para o exercício da reflexão ampla dos fenômenos geográficos, garantindo assim uma maior proximidade entre as necessidades sócio-ambientais e as políticas públicas que regem o crescimento urbano-industrial, com vistas ao desenvolvimento de planejamentos adequados às necessidades atuais.

 

 

NOTAS

 

[1] Neste trabalho, a compreensão de bacia hidrográfica esta associada a definição como sendo um sistema aberto que pode ser utilizado de maneira eficaz no tocante as analises quantitativas e qualitativas do fluxo de matéria e energia que nela se processa.  (CHRISTOFOLLETI , 1979).

[2] Disciplina que foi ministrada pelo Professor Dr. Francisco Mendonça no ano letivo de 2001 e devido a greve nacional dos professores foi concluída em 2002.

[3] Dos procedimentos propostos na metodologia somente não foram realizadas análises laboratoriais da qualidade da água sendo substituídos por parâmetros perceptivos como odor, lixo na água e indícios de erosão e assoreamento

[4] A bacia encontra-se entre as seguintes coordenadas geográficas: 49º 10´ 01´´W  - 25º 27´52´´S  e 49º00´11´´W – 25º32´31´´S e se estende no sentido sudeste da cidade de Curitiba – PR.

 

 

6. Referências Bibliográficas

 

COMEC. Unidade Territorial de Planejamento. Coordenadoria da Região Metropolitana de Curitiba/PR : Curitiba, p. 15 16, 1998.

 

DE BIASI, Mario. A carta clinográfica: os métodos de representação e sua confecção. Revista do Departamento de Geografia da USP : São Paulo, n. 6, p. 45 – 61, 1992.

 

DE BIASI, Mario; et al. Cartas de orientação de vertentes: confecção e utilização. Revista do Departamento de Geografia da USP : São Paulo, s/n, p. 01 – 11, 1977.

 

DREW, D. Processos interativos Homem – ambiente. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

 

MAACK, R. Geografia Física do Estado do Paraná. 2 ed. Rio de Janeiro : J. Olympio; Curitiba : Secretaria do Estado da Cultura e do Esporte do Estado do Paraná, p. 139 – 154, 1981.

 

MENDONÇA, F. A. Diagnóstico e análise ambiental de microbacia hidrográfica.

RA’EGA Espaço geográfico em análise : Curitiba, UFPR, p. 67 – 89, 1999.

 

SEMA. Mapa Geomorfológico do Estado do Paraná. Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos : Curitiba, Folha Curitiba SG 22 X D, 1996.

 

CHRISTOFOLETTI, Antônio. Geomorfologia. Edgard Blücher, Ed. Da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1979.

 

SEWELL G.H., Administração e controle da qualidade ambiental ; tradução Gildo Magalhães dos Santos Filho. São Paulo: EPU : Editora da USP: CETESB, 1978.