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E3-3.3T163


 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

A Realidade ambiental do Parque Aggeo Pio Sobrinho

 

 

Ricardo Barbosa de Souza

Alberto Adriano Ribeiro dos Santos

Fabiana de Sousa Santos

Graduandos do Curso de Geografia e Meio Ambiente

Marcelino dos Santos Morais

Professor do Curso de Geografia e Meio Ambiente

 

 

Centro Universitário Newton Paiva

 

Palavras Chaves: urbanização; efluentes; erosão.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

INTRODUÇÃO

O objeto de estudo deste trabalho é a porção que abrange parte do bairro Buritis, tendo como foco principal, o Parque Aggeo Pio Sobrinho - PAPS, localizado na avenida Professor Mário Werneck, 2691, região Oeste de Belo Horizonte. Este Parque possui uma área de 26 ha, oriundos do parcelamento do solo que deu origem ao bairro.

O PAPS é um remanescente da antiga fazenda Tebaíbas do Sr. Aggeo Pio Sobrinho. Atualmente o parque é dotado de equipamentos de lazer, tendo como grande diferencial a constituição três drenagens que formam o Córrego Ponte Queimada, afluente do córrego Cercadinho, pertencente à bacia do Ribeirão Arrudas.

Equivalente a 15% do loteamento e classificada como área de preservação, a área do PAPS foi regulamentada pela Lei Municipal N.º 5755, de 24 de julho de 1990, sendo este inserido no Programa “Parque Preservado” da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte - PBH, tendo sido inaugurado em novembro de 1996 (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 1998).

Em relação á coordenadas geográficas, o parque se localiza entre UTM 7789000 e 7791000 e 607200 e 609000.

 

 

METODOLOGIA

Definiu-se para este estudo, uma classificação numérica para as três drenagens que constituem o Córrego Ponte Queimada. A drenagem que possui direção SE-NW foi classificada com n.º 1, sendo esta o curso d’água principal correspondente ao denominada de n.º 2; por fim, a drenagem de orientação SW-NE, classificou-se com n.º 3 (Figura 1).

A base cartográfica utilizada foi a carta topográfica de Belo Horizonte, em 1:50.000, editada pelo IBGE em 1979, tendo sido usadas imagens aéreas orto-retificadas (1:5.000) de autoria da Vistaerea Ltda (1999). Foram realizadas visitas de campo com o auxílio de materiais cartográficos e GPS, visando identificar e mapear as degradações existentes no interior do parque, sendo que, por meio da matriz de interação de Leopold foi possível identificar também os principais agentes impactantes.

 

 

ASPECTOS NATURAIS

O PAPS situa-se na borda norte do Quadrilátero Ferrífero, tendo a Serra do Curral como faixa de transição entre esse e o Complexo Belo Horizonte (NOCE, 1995).

Este local é caracterizado como uma área de clima tropical de altitude (seco no inverno com verões quentes e úmidos), onde a temperatura média anual varia entorno de 19º e 21ºC e a precipitação total anual é aproximadamente de 1400 a 1600 mm (RIBEIRO, 1999).

A região onde o Parque está inserido, é considerada como vegetação típica de campo rupestre. Grande parte do seu interior é composto por mata ciliar, árvores esparsas caracterizadas como campo sujo, tanto no interior do PAPS quanto no seu entorno. A vegetação local fica, em certas épocas do ano, susceptível a queimadas naturais ou induzidas por ação antrópica.

A mata que constitui o Parque é caracterizada como secundária, uma vez que pode-se notar a presença de embaúbas (Cecropia sp.) se destacando entre a vegetação. O quadro vegetal do PAPS apresenta composição florística variada, com vários estágios de comunidades arbóreos-arbustivas e solo coberto por serrapilheira. Há algumas espécies encontradas no mesmo que merecem destaque, como o pau-d’óleo ou copaíba (Copaífera langsdorffi), vinhático (Plathymenia foliosa), a jaboticaba (Myrciaria trunciflora) e o jerivá (Syagrus ramanzoffiana).

 

 

 

Escala aproximada: 1:9.000.

Fonte: Vistaérea, 1999.

Figura 1: Vista aérea do PAPS.

 

O Parque configura-se como um refúgio para a fauna remanescente como o mico-estrela (Callithrix jacchus), o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventis), o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) e o quati (Nasua nasua). Além das espécies raras de anfíbios: Eletherodactylus juipoca e Scinax longuneus. Alguns destes animais, como o quati, já não são vistos com freqüência pelos visitantes e, principalmente, pelos moradores mais antigos da região devido ao crecsimento urbanistico que foi constituído no bairro Buritis, fazendo com que áreas verdes como o PAPS fossem totalmente “ilhadas”por construções.

 

CARACTERIZACÃO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS

À montante da drenagem principal (n.º 1), o Parque faz limite com um pequeno distrito industrial (bairro Olhos D’Água), onde há vários tipos de estabelecimentos de atividades diferenciadas. Muitos destes descartam seus efluentes químicos e sanitários na rede de drenagem fluvial. Estes efluentes ao serem descartados, escoam para o interior do PAPS, contaminando o solo, as águas subterrâneas e superficiais, como é o caso do córrego Ponte Queimada.

A Vide Bula que é uma fábrica de vestuário, localizada neste distrito industrial e vizinho do PAPS, descarta por meio de uma tubulação, mascarada com rochas e vegetação, o seu esgoto químico e sanitário in natura diretamente na drenagem. (Fotos 1 e 2, Anexo) Este impacto ocorre na drenagem 1 do córrego Ponte Queimada (Figura 1). A intensidade e freqüência que os efluentes são descartados, o próprio córrego não consegue depurar, uma vez que o mesmo possui trechos de corredeiras e quedas d’água em toda a sua extensão. Quando descartados, o efluente chega a se confundir com o d’água, que dependendo da sazonalidade, fica difícil definir onde é a nascente naquele momento. Observa-se a presença de água parada e de lodo nas margens do córrego, modificando totalmente as características do ar no local, onde este passa a ter um odor desagradável.

Não se sabe ainda a condição em que as águas do córrego Ponte Queimada chega na parte mais á jusante do córrego, próximo à entrada do parque, onde a calha da drenagem é utilizada pelos moradores (adultos e crianças) da região, como área de lazer e recreação.

Um segundo impacto é observado ainda à montante do córrego Ponte Queimada, em sua drenagem 1. É a ocorrência de uma erosão de grande proporção, conforme pode ser observado na Foto 3 (Anexo). Esta feição surgiu após a formação de um platô no interflúvio do espigão em que se apoia o PAPS. Este platô foi construído com o objetivo de ser alugada para determinados fins, como shows e eventos diversos.

O sistema de coleta de águas pluviais foi canalizado de modo não adequado. Quando ocorre a precipitação de chuvas, a água é capturada pelas canaletas e consequentemente é concentrada, passando a escoar sob a forma de enxurradas pela vertente.

O escoamento superficial de modo contínuo e excessivo de água precipitada no período de cheias, promove a desagregação do solo e o transporte deste material (GALETI, 1989). Esta ação é intensificada com a topografia, que nas regiões de forte declividade, pode chegar a constituir erosões de grande porte como esta. Todo o material desagregado por ação das águas pluviais, foi carreado para jusante do córrego, chegando a entulhar a calha do córrego Ponte Queimada com sedimentos finos a grosseiros.

Um outro impacto que ocorre à montante do PAPS localizado acima e entre às drenagens 1,2 e 3 é a construção de um empreendimento imobiliário. Este empreendimento está voltado para a formatação de um condomínio fechado constituído por residências unifamiliares.

O desenvolvimento deste empreendimento tem ocorrido sem nenhuma preocupação ambiental, o qual esta ação exerce forte pressão sobre a vegetação e sérios impactos sobre os recursos hídricos local.

Para que a obra fosse realizada, necessitou-se que suprimisse a vegetação rupestre, principalmente em pontos onde a mesma fazia transição com a mata ciliar. A retirada da vegetação, para a formatação dos arruamentos deste empreendimento, deixou o solo vulnerável a ação da meteorização ou intemperismo, como pode ser observado a formação de processos erosivos lineares (sulcos e ravinas) na Foto 4.

O corte na porção acima das nascentes 1 e 2, para a abertura dos arruamentos dos lotes, rompeu com o equilíbrio da encosta, expondo o solo e o propiciando aprocessos erosívos.

Durante longo tempo em que a empresa empreendedora não realizou a pavimentação e a contenção dos resíduos resultantes da construção dos arruamentos, iniciaram-se a formação de processos erosivos no solo exposto, deflagrados pelas abundantes chuvas de final e início de ano (novembro a meados de fevereiro). Os escoamentos difusos e concentrados (sulcos e ravinas) transportaram quantidade aprecível de solo para as partes mais baixas, entulhando as calhas dos afluentes do córrego Ponte Queimada. A quantidade de materiais carreados é tão grande, que trechos de corredeiras e de represamentos naturais foram encobertos por sedimentos.

Toda a extensão das drenagens apresentam-se assoreadas, onde em alguns trechos, as águas escoam sob a forma de filetes.

Em alguns trechos da área de inserção do empreendimento, encontram-se canaletas coletoras das águas pluviais, construídas com escadas dissipadoras de energia, totalmente entupidas e com as manilhas de concreto deslocadas (foto 5). Não houve nenhuma preocupação na escolha da instalação desta canaletas, para a deposição final das águas precipitadas. A água, ao sair das canaletas, flui por sobre a serrapilheira de forma concentrada e excessiva. Ao escoar, a água começa carrear material (serrapilheira), passando a erodir o solo, solapando ao redor das árvores de médio/grande porte, deflagrando na sua queda e assoreamento da drenagem (foto 6 e 7).

Outros impactos, como os movimentos de massa, ocorrem no PAPS. No período das cheias, o solo local fica saturado devido a excessiva infiltração das águas das chuvas, ficando susceptível a deslizamentos de terras (MEIS & SILVA, 1968).

Com o equilíbrio rompido, todo o material movimentado encobre canal fluvial, entulhando-o. O assoreamento no PAPS decorrente à ação antrópica à montante e aos movimentos de massa, diminuem as calhas das drenagens, e isto leva a transbordamentos e inundações (GALETI, 1987).

Transbordamentos e inundações ocorrem com freqüência no período chuvoso. Com a calha fluvial assoreada, as águas do córrego transbordam, inundando as margens, promovendo o solapamento destas. Conseqüentemente, ocorre o transporte de mais sedimentos para o leito do córrego propiciando a derruba de árvores.

Um outro fator impactante no Parque, e de total origem antrópica, é a questão de restos de embalagens plásticas, papel, latas de alumínio, comida, entre outros, deixados no local pelos visitantes e freqüentadores, além de lonas plásticas, pneus e descartes de materiais de construção provenientes dos empreendimentos à montante (Foto 8).

A partir da caracterização/descrição dos impactos ambientais, foi possível montar uma matriz de interação (Quadro 1) , onde listou-se os agentes impactantes e os impactos ocorrentes no PAPS. Os valores atribuídos no Quadro 1 são de 0 a 3 e o somatório dos mesmos correspondem ao total de cada agente ou impactos listados. Dessa forma, o total de cada item determinará, segundo esta matriz, o agente que mais contribuí na degradação do meio ambiente e o impacto de maior gravidade.

Quadro 1

Matriz de Interação

 

quadro1

Fonte: Matriz de Leopold (Adaptado).

 

CONCLUSÃO

As agressões desencadeadas no PAPS vêm confirmar a falta de interesse dos órgãos públicos competentes no que tange as questões ambientais e da população, que por falta de uma educação ambiental, a população de Belo Horizonte não foi sensibilizada e conscientizada a valorizar e preservar as poucas áreas verdes que ainda resistem neste cenário urbano.

O presente trabalho faz parte da monografia de final de curso dos autores, onde os mesmos estão desenvolvendo medidas mitigadoras para que sejam aplicadas no local de estudo e em um trabalho de percepção ambiental junto a comunidade e aos freqüentadores, no sentido da valorização deste espaço. Uma vez que esta área contribui na qualidade de vida dos moradores do bairro Buritis e adjacências.

 

FOTOS - ANEXO

 

Figura 1

Tubulação de esgoto encoberta com a vegetação e o solo.

Figura 2

Esgoto descartado na drenagem.

Figura 3

Erosão de grande porte na margem esquerda do córrego Ponte Queimada.

Figura 4

Geração de processos erosivos estruturais (sulcos e ravinas).

Figura 5
Canaleta coletora de águas pluviais com as manilhas deslocadas.

Figura 6

Canaleta coletora de águas pluviais formatando erosões

Figura 7

Árvore derrubada devido ao solapamento das águas pluviais

Figura 8

Lixo represando o córrego Ponte Queimada

 

 

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