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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA PRECIPITAÇÃO EM EVENTOS EXCEPCIONAIS NA REGIÃO NOROESTE DA ÁREA URBANA DE JUIZ DE FORA – MG E SUAS RELAÇÕES COM AS OCORRÊNCIAS DE DEFESA CIVIL



 

 

Lucas Barbosa e Souza (Doutorando em Geografia – UNESP/Rio Claro)

João Afonso Zavattini (Orientador, Livre Docente do Depto. de Geografia – UNESP/Rio Claro).

lbsgeo@bol.com.br

 




 

Palavras-Chave: Distribuição das chuvas; eventos excepcionais; acidentes naturais.

 Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.







 

INTRODUÇÃO

 

Inúmeras áreas do planeta são assoladas anualmente por acidentes naturais, implicando em significativas perdas econômicas e sociais. As inundações e os escorregamentos fazem parte desses acidentes e, devido às suas relações com as chuvas, são mais freqüentes nos países tropicais. Da mesma forma, concentra-se nos trópicos o maior número de países pobres do mundo, fato que potencializa as conseqüências nefastas de tais acidentes, elevando-os muitas vezes à categoria de catástrofes.

O crescimento desordenado do espaço urbano é outro fator que aumenta sensivelmente os riscos ambientais nos países pobres, onde boa parcela da população reside em áreas inadequadas. A ocupação de encostas íngremes e de fundos de vale se justifica por intermédio da valorização excessiva do solo urbano, o que inviabiliza a sua aquisição para muitos moradores. O direito a terra, seja para a simples moradia e reprodução social, é negado para expressivo número de cidadãos, que engrossam uma enorme massa de excluídos social e espacialmente (Rodrigues, 1994).

A sociedade se materializa no espaço, cristalizando suas diferenças e seus conflitos. É no espaço urbano que esse processo atinge seu nível máximo, o ápice das relações capitalistas de produção projetadas sobre a superfície. Qualquer abordagem sobre os riscos ambientais que desconsidere essa realidade torna-se parcial e inválida – atrás do processo de ordem físico-natural reside a injustiça, a diferença de classes, a privação do homem, o problema do onde e do como morar.

No Brasil, o controle dos acidentes naturais é realizado pelos órgãos de Defesa Civil, que nas escalas federal, estadual e municipal, procuram amenizar os riscos já instalados e promover assistência à população envolvida. Entretanto, o caráter paliativo e assistencialista da maioria das ações ligadas aos acidentes naturais não tem sido suficiente para a solução do problema. Na verdade, tais medidas contribuem para o agravamento da questão, uma vez que mascaram a realidade e muitas vezes transferem a responsabilidade para outros setores da sociedade.

A prevenção e o controle de acidentes naturais devem se basear em dois pilares fundamentais:

1. O reconhecimento dos condicionantes ambientais de cada processo ou fenômeno natural, seguidos do zoneamento de risco, do cumprimento da legislação pertinente e do efetivo controle sobre novos assentamentos;

2. O estudo das condições sociais, econômicas e culturais das populações envolvidas, seguido de políticas públicas de inclusão e de legitimação da comunidade, além de assistência adequada nos casos de transferências.

O diagnóstico dos elementos físico-naturais que compõem o ambiente de risco constitui, portanto, apenas uma parte dos procedimentos necessários. Porém, sua contribuição é essencial para que os objetivos finais sejam alcançados. É necessário saber onde e quando os acidentes poderão ocorrer, para que as providências possam ser tomadas em tempo hábil. Nessa perspectiva, o presente trabalho pretende discutir um importante aspecto: a relação entre a distribuição espacial da precipitação em eventos chuvosos excepcionais e a ocorrência de acidentes naturais em áreas urbanas.

Visto que a chuva constitui o elemento deflagrador de muitos fenômenos causadores de acidentes, torna-se imprescindível o reconhecimento do seu comportamento (temporal e espacial) como subsídio ao trabalho de previsão e zoneamento de riscos. O total pluviométrico de um evento chuvoso é altamente variável conforme fatores meteorológicos e topográficos e, por isso, promove diferentes impactos sobre a superfície. A concentração espacial e horária das chuvas pode ser fator essencial à distribuição das ocorrências registradas pela Defesa Civil, atingindo mais intensamente algumas áreas, em detrimento de outras, inclusive no interior de uma mesma cidade (Souza, 2002).

Este fato, aliado às diferenças da ocupação urbana – condições dos terrenos e padrão técnico das construções – justifica a grande irregularidade espacial dos acidentes naturais em áreas urbanas. A determinação do risco não pressupõe somente a probabilidade de ocorrência de um acidente, mas também as condições que a população dispõe para suportá-lo.

O presente artigo é fruto das reflexões dos autores acerca das condições de risco em áreas urbanas e das suas relações com a gênese e a dinâmica pluvial. A linha de pesquisa, em desenvolvimento desde a dissertação de mestrado (Souza, 2003), encontra-se atualmente em fase de amadurecimento, por ocasião da elaboração da tese de doutorado junto à UNESP, campus de Rio Claro.

 

 

CARACTERÍSTICAS DA ÁREA DE ESTUDO

 

Juiz de Fora é uma cidade com cerca de 430 mil habitantes localizada na Região da Zona da Mata Mineira, porção sudeste do Estado de Minas Gerais. Em 1996, a Área Urbana de Juiz de Fora foi dividida pela Prefeitura, através do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, em 8 (oito) Setores de Planejamento, sendo que cada um deles foi dividido em uma série de Regiões Urbanas de Planejamento (PJF, 1996)[1]. A unidade de estudo do presente trabalho engloba o Setor Noroeste da Área Urbana do Município, subdividido em 14 (quatorze) Regiões Urbanas de Planejamento – Barreira do Triunfo, Benfica, Santa Cruz, Nova Era, Barbosa Lage, Jóquei Clube, Jardim Natal, Bairro Industrial, Francisco Bernardino, Carlos Chagas, Cerâmica, Monte Castelo, Esplanada e São Dimas (Figura 01).

O vale do Rio Paraibuna, que atravessa a região no sentido NW – SE, orientou inicialmente a ocupação local, por intermédio de seus principais alvéolos. Posteriormente, a expansão urbana alcançou alguns vales secundários, de afluentes do Paraibuna, até o início da ocupação de encostas íngremes, sobretudo nos últimos anos. Entretanto, em função da concentração da ocupação ao longo da Avenida Juscelino Kubitschek, via de acesso paralela ao Rio Paraibuna, ainda se observa nitidamente a característica linear da malha urbana. 

A grande dimensão do Setor Noroeste da Área Urbana de Juiz de Fora faz com que o mesmo apresente uma baixa densidade demográfica, inferior a 50 habitantes por hectare. O contingente populacional representava, no ano de 1991, uma parcela de 17,5% da população total da cidade. Calculando-se este mesmo porcentual, a partir dos dados do último censo demográfico, estima-se um número de 75 mil habitantes vivendo atualmente na Região Noroeste da Área Urbana de Juiz de Fora. As regiões urbanas de planejamento mais populosas são, pela ordem, Benfica, Santa Cruz e Barbosa Lage, onde concentra-se a maioria dos terrenos planos da região.

Conforme as informações apresentadas no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PJF, 1996), a área de estudo conta com níveis satisfatórios de serviços e de infra–estrutura urbana, com mais de 90% da população atendida pela coleta de lixo e pelas redes de água e esgoto. Entretanto, não é o que se verifica nas periferias das regiões urbanas, sobretudo nas áreas de maior declividade ocupadas pela população carente. Aqui fica explícita a existência de duas cidades na constituição do espaço social, evidenciada pela dicotomia inclusão-exclusão na constituição do espaço urbano. Se, por um lado, existe uma cidade com acesso aos equipamentos urbanos de acordo com o Plano Diretor; na prática, depara-se com a outra cidade baseada no modelo da exclusão social (Santos, 1999).

As condições de renda apresentam-se bastante desfavoráveis, denunciadas pela média de 2,3 salários por família e proporção de 53,7% dos chefes de família com ganhos inferiores a 2 salários mínimos (PJF, 1996). É de se esperar que os menores valores de renda também estejam localizados entre os moradores das áreas de risco.

A área de estudo congrega usos múltiplos do solo urbano, com grande número de lotes de pequenas dimensões e áreas ocupadas por estabelecimentos industriais de portes diversos, sobretudo em sua porção norte. Também são observados conjuntos habitacionais voltados às camadas populares e serviços comerciais básicos, restritos às principais vias de circulação. Às encostas restringem-se as sub-moradias e algumas áreas ainda desocupadas.

De acordo com informações prestadas pela Defesa Civil de Juiz de Fora, os problemas com movimentos de massa manifestam-se de forma mais proeminente nas Regiões Urbanas de Benfica (Bairros Vila Esperança I e II), Santa Cruz (Bairros São Judas Tadeu, Vila Melo Reis, Santa Lúcia e Santa Cruz) e Jóquei Clube (Bairro Jóquei Clube). Quando comparado com outras parcelas da cidade, o Setor Noroeste não apresenta as maiores incidências de acidentes naturais (ainda conforme a Defesa Civil). Todavia, essa região tem atualmente sua ocupação intensificada, constituindo o principal eixo de expansão urbana de Juiz de Fora. Por esse motivo, grandes esforços de planejamento urbano e ambiental devem se voltar para esta área, para que no futuro sejam mantidos níveis aceitáveis de qualidade de vida urbana.

 

 

METODOLOGIA E PROCEDIMENTOS

 

O presente trabalho se insere na perspectiva da Climatologia Dinâmica, ou seja, procura relacionar o ritmo e a gênese dos sistemas atmosféricos aos impactos meteóricos produzidos em superfície. SOUZA (2003) elaborou dois gráficos de análise rítmica para Juiz de Fora (primavera-verão 1996/1997 e 1999/2000), acrescentando as informações relativas às ocorrências de escorregamentos e ameaças de escorregamentos na Região Noroeste da Área Urbana. Tal abordagem possibilitou a compreensão das principais variações dos tipos de tempo sobre a área de estudo, seus resultados pluviais e suas conseqüências sobre as encostas ocupadas. Da mesma maneira, foram identificados aqueles eventos chuvosos excepcionais que provocaram transtornos significativos ao espaço urbano de Juiz de Fora, durante o período de tempo analisado.

Como modo de aprofundamento dessa linha de pesquisa, procurou-se selecionar dois exemplos de eventos pluviais excepcionais sobre Juiz de Fora (06/01/1997 e 19/03/2000) e elaborar os respectivos cartogramas da distribuição espacial da precipitação sobre a área de estudo. Para isso foram utilizadas as séries de dados pluviais coletados entre 1997 e 2000 pelo Laboratório de Climatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, por intermédio de uma rede auxiliar de pluviômetros instalados ao longo da malha urbana da cidade. Foram também empregados os dados coletados no mesmo período pela empresa Belgo Mineira e Participação (BM&P) e pela CESAMA (Companhia de Saneamento Municipal), além dos dados da Estação Climatológica Principal (INMET/UFJF).

Após o preparo dos dados no software Excelâ (Microsoft Corporations), foram realizadas as operações de interpolação e confecção dos cartogramas digitais. Foram testados os métodos de interpolação disponíveis no software Surfer 7.0 (Golden Software Inc.) e selecionado o processo de mínima curvatura. A superfície modelada mostrou-se bastante fiel aos dados originais, mesmo levando em consideração o baixo número de pontos amostrados e sua distribuição espacial irregular. Em seguida foram inseridos os layers de drenagem e de arruamento, vetorizados no software AutoCad Mapâ R2 (AutoDesk) e exportados em formato dxf.

As ocorrências registradas pela Defesa Civil de Juiz de Fora foram identificadas nos cartogramas, levando-se em consideração a sua localização aproximada (os registros limitam-se ao endereço da ocorrência, o sistema de coordenadas não é empregado). Foram utilizados os tipos de ocorrências de maior impacto sobre a comunidade (desabamentos, escorregamentos e inundações), eliminando-se aquelas de menor impacto (rachaduras, infiltrações, trincas etc).

A análise conjunta das imagens de satélite e dos dados meteorológicos registrados em superfície possibilitou a identificação do sistema atmosférico atuante sobre Juiz de Fora e gerador do evento chuvoso. Procedeu-se ainda a observação dos totais pluviométricos acumulados nos 5 (cinco) dias anteriores ao evento deflagratório dos acidentes, conforme os registros da Estação Climatológica Principal (INMET/UFJF). O tratamento gráfico das informações foi realizado com o auxílio do software Corel Drawâ 9.0 (Corel Corporation).

 

 

A DINÂMICA DAS CHUVAS EM JUIZ DE FORA

 

Em decorrência de sua posição geográfica, Juiz de Fora recebe influência de sistemas inter e extratropicais, que se revezam ao longo do ano e determinam a dinâmica pluvial. Os choques frontais entre a Massa Tropical Atlântica e a Massa Polar Atlântica são responsáveis pela maior parte da precipitação, cuja concentração ocorre no período de primavera – verão.

Entre os meses de novembro e março, a Frente Polar Atlântica atinge a porção sudeste de Minas Gerais dotada de grande umidade, bloqueada pelas unidades do relevo regional. Este fato estimula a precipitação sobretudo nas vertentes voltadas para o quadrante sul, ou seja, a barlavento dos sistemas de origem polar. Juiz de Fora é largamente influenciada pelo efeito orográfico da Serra da Mantiqueira, recebendo parte das chuvas geradas pela ascensão do ar úmido após trajeto sobre o Vale do Paraíba do Sul.

Chuvas de origem convectiva também são formadas no período de primavera – verão, porém representam apenas pequena parcela do total de precipitação anual. Este processo ocorre quase sempre no interior da Massa Tropical Atlântica, denunciado pela presença de linhas de instabilidade que formam chuvas de alta intensidade e curta duração.

Os maiores impactos pluviais são verificados nas ocasiões em que a Frente Polar Atlântica apresenta um ritmo oscilante sobre a região, com sucessivos avanços e recuos. Nestes momentos, ocorre com freqüência o estacionamento das frentes, intensificando as chuvas e causando graves transtornos ao complexo geográfico local. Este panorama tem se mostrado bastante propício à manifestação de acidentes das encostas de Juiz de Fora.

SOUZA (2003) identificou que mais de 90% da precipitação ocorrida durante os períodos de primavera – verão de 1996/1997 e 1999/2000 foi originada por sistemas frontais. Da mesma forma, os escorregamentos verificados nestes mesmos períodos vincularam-se exclusivamente às passagens de frentes sobre Juiz de Fora.

Por outro lado, nos momentos em que as diferenças barométricas entre os sistemas inter e extratropicais se mostram mais vigorosas, as chuvas apresentam-se mais brandas ou mesmo inexistentes. A superioridade da Massa Tropical Atlântica induz a frontogênese ao sul de Juiz de Fora, seja em São Paulo, na Região Sul ou mesmo na altura do Prata. Já as altas pressões no interior da Massa Polar Atlântica favorecem a sua rápida incursão sobre o território brasileiro, com passagem momentânea sobre Juiz de Fora e maiores resultados pluviais ao norte do município.

 

DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA PRECIPITAÇÃO E AS OCORRÊNCIAS DE DEFESA CIVIL NA REGIÃO NOROESTE DE JUIZ DE FORA

 

O evento de 06 de janeiro de 1997

Os últimos dias do mês de dezembro de 1996 foram marcados pela chegada de uma vigorosa Frente Polar Atlântica sobre Juiz de Fora, promovendo resultados pluviais crescentes a partir do dia 29. Esse sistema atmosférico prosseguiu dominando as condições de tempo nos primeiros dias do mês de janeiro de 1997, configurando-se a partir do dia 01 como uma típica Frente Polar Estacionária.

No dia 06 de janeiro de 1997, a pluviosidade apresentou seu ponto máximo em 24 horas, quando foram registrados 69,6 mm de chuva pela Estação Climatológica Principal de Juiz de Fora. Esse valor, somado aos 174,4 mm acumulados desde o dia 01 de janeiro, produziu severos impactos à malha urbana da cidade, sobretudo na área enfocada neste trabalho (Figura 02).

Na Região Noroeste da Área Urbana de Juiz de Fora, as áreas afetadas concentraram-se nos bairros Benfica, Santa Cruz e Jóquei Clube, com destaque para o último. Em Benfica, foram registrados um escorregamento de encosta e uma ameaça de desabamento de edificação; em Santa Cruz, dois escorregamentos de encosta, uma ameaça de escorregamento e uma ameaça de desabamento de edificação; e no Jóquei Clube, quatro escorregamentos de encosta e duas ameaças de desabamento de edificação.

O total pluvial do dia 06 de janeiro de 1997 não representou valor demasiadamente alto para os padrões da região. Entretanto, os valore acumulados nos dias anteriores foram responsáveis pela saturação gradual dos terrenos movimentados. Esse panorama reflete a condição mais típica para a manifestação de escorregamentos nas encostas de regiões tropicais – um sistema frontal estacionário com valores pluviais crescentes ou com chuva pronunciada no último dia de atuação.

Nesses casos, a deflagração do escorregamento pode ocorrer a partir de valores pluviais relativamente reduzidos em 24 horas, ou seja, o limite de segurança da encosta pode ser ultrapassado com o acúmulo lento e gradual da umidade no solo, seja pela redução das tensões de sucção, encontro do nível freático com a frente de saturação, formação de fluxo subterrâneo ou simples aumento do peso da massa detrítica.

A análise do mapa permite reconhecer que os registros realizados pela Defesa Civil de Juiz de Fora no dia 06 de janeiro de 1997 coincidem com faixas de precipitação entre 38 e 54 mm, o que nos faz imaginar o estado prévio (elevado grau de saturação) das encostas da região neste dia. O número de ocorrências apresentou crescimento na mesma direção dos valores de precipitação que, por sua vez, se concentrou na porção sudeste da área mapeada, junto às partes mais elevadas do relevo de Juiz de Fora. O bairro Jóquei Clube, que apresentou o maior número de ocorrências, esteve sob a faixa de precipitação de 50 mm.

 

O evento de 19 de março de 2000

O período que antecedeu o evento de 19 de março de 2000 foi caracterizado por uma forte oscilação no ritmo atmosférico sobre Juiz de Fora. O dia 14 de março iniciou-se sob o domínio da Massa Polar Atlântica, que atuava na região desde o final do dia 12, trazendo condições de tempo eminentemente estáveis. Ainda no dia 14 esse sistema atmosférico começou a apresentar sinais de enfraquecimento, passando-se a caracterizar uma Massa Polar Velha. Tal condição vigorou por todo o dia seguinte (15/03/2000), alterando-se somente no dia 16, com a chegada de uma Frente Polar Atlântica. Esse sistema frontal induziu a manifestação de chuva incipiente nos dias 16 e 17, passando-se à condição de Frente Polar em Dissipação no início do dia 18.

Ao final do dia 18 de março, as condições atmosféricas sobre Juiz de Fora apresentaram mudança significativa – o fortalecimento do centro de ação da Massa Tropical Atlântica forçava o retrocesso do sistema frontal (que neste momento já deixava o sudeste mineiro) configurando, portanto, uma Frente Polar Atlântica com setor quente de retorno sobre o continente.

A chegada deste último sistema atmosférico foi responsável pelo início da precipitação ainda no dia 18 (11,2 mm) e durante todo o dia 19, quando foram registrados 73,2 mm de chuva na Estação Climatológica Principal e mais de 100 mm no vertedouro da Represa João Penido (Posto da Cesama) (Figura 03).

Juiz de Fora vivenciou no dia 19 de março de 2000 um expressivo número de ocorrências ligadas às chuvas, especialmente na porção noroeste de sua área urbana. Ao longo da área de estudo, foram afetados os bairros de Benfica, Nova Benfica, Nova Era, Santa Lúcia, Santa Cruz, Vila Melo Reis, São Judas e Parque das Torres.

A gênese da chuva neste dia e os altos valores registrados foram responsáveis pela manifestação de pontos de inundação em três bairros diferentes (Benfica, Santa Cruz e Parque das Torres). A provável concentração da precipitação trouxe mais um efeito complicador para o espaço urbano – a dificuldade de infiltração e o rápido escoamento das águas pluviais, ultrapassando a capacidade de vazão dos córregos da região. Além disso, em cerca de 14 pontos foram verificadas ocorrências ligadas a escorregamentos e a desabamentos, demonstrando que o limite de segurança das encostas também foi ultrapassado, apesar dos baixos valores de precipitação acumulada nos dias anteriores.

As ocorrências concentraram-se entre as faixas de 70 e 82 mm de precipitação e provavelmente não foram mais numerosas devido ao padrão espacial de crescimento da pluviosidade. As chuvas intensificaram-se de sudoeste para nordeste, alcançando seus maiores valores no entorno da Represa João Penido e nos vazios urbanos (área militar) da porção norte da Área Urbana. A concentração da precipitação ocorreu, portanto, nas áreas menos habitadas da região.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Os eventos pluviais excepcionais na região de Juiz de Fora estão quase sempre ligados à atuação da Frente Polar Atlântica, seja pela simples passagem do seu ramo principal ou pela configuração de setores quentes de retorno. Portanto, os impactos produzidos pela chuva apresentam relação direta com a tipologia dos fluxos de origem polar. Empregando a classificação proposta por Monteiro (1969), pode-se dizer que os fortes aguaceiros são produzidos pelos fluxos alternados e interrompidos, que induzem a oscilação das frentes sobre as faixas latitudinais do sudeste mineiro.

A distribuição espacial dos totais pluviométricos em 24 horas se apresentou de maneira distinta nos dois eventos chuvosos analisados. Com freqüência, os valores registrados pela rede de pluviômetros indicam um padrão de variação espacial bastante complexo, com diferenças significativas entre os dados. Essa variação pode fornecer importantes parâmetros para a analise espacial das ocorrências registradas pela Defesa Civil de Juiz de Fora.

Os escorregamentos podem ocorrer mesmo quando o total pluvial é pouco significativo, especialmente depois de seqüências chuvosas com mais de dois ou três dias, quando o acumulado já atuou na elevação do grau de umidade dos terrenos. Este fato pode ser observado no evento do dia 06 de janeiro de 1997, quando os acidentes registrados localizaram-se nas áreas de menor precipitação do mapa, porém sob efeito cumulativo de cinco dias chuvosos anteriores.

Também as inundações podem acontecer em pontos de pluviosidade menos expressiva, bastando para isso que o solo da bacia esteja impermeabilizado ou que maiores teores pluviais sejam registrados à montante. Todos os pontos de inundação registrados no dia 19 de março de 2000 localizaram-se na margem direita do Rio Paraibuna, enquanto o pico de maior precipitação ocorreu em sua margem esquerda. Portanto, a precipitação responsável pelas ocorrências registradas ocorreu sobre os córregos tributários localizados nas porções leste e sudeste do mapa, inclusive em faixas inferiores aos 70 mm.

Todavia, naquelas áreas em a ocupação de risco se apresenta mais avançada, as conseqüências dos eventos são sempre potencializadas, traduzindo maiores números de ocorrências, além de maiores prejuízos à população. A distribuição espacial da precipitação em cada evento chuvoso, as condições topográficas da bacia e o seu grau de impermeabilização podem atuar na diminuição ou ampliação dos acidentes naturais nas áreas urbanas.  Caso essas características atuem na sobrecarga de escoamento sobre áreas de ocupação de risco pode-se esperar graves efeitos na estabilidade das encostas e no comportamento da vazão dos cursos d’água, implicando em severos acidentes.

Na maioria dos casos, a baixa probabilidade desses acidentes de grande porte favorece o imobilismo e a desarticulação dos setores públicos responsáveis pelo controle das ocupações de risco. Uma visão integrada para o planejamento ambiental em áreas urbanas deve levar em consideração o maior número possível de condicionantes físico-ambientais e envolver os diferentes órgãos municipais de administração (secretaria de obras, meio ambiente, planejamento etc). Iniciativas desse tipo, aliadas à preocupação social de geração de trabalho e renda, fortalecimento do poder local e políticas de inclusão, poderiam amenizar sensivelmente as condições sub-humanas em que vivem as populações das áreas de risco.

 

 

NOTAS

 

[1] Em 1999, foi aprovada a nova versão do Plano Diretor com algumas alterações sobre a versão de 1996, esta empregada neste trabalho.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

MONTEIRO, C. A. F. A Frente Polar Atlântica e as Chuvas de Inverno na Fachada Sul-Oriental do Brasil. São Paulo: IG/USP, 1969 (Série Teses e Monografias).

 

PREFEITURA DE JUIZ DE FORA. Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Juiz de Fora: diagnóstico. Juiz de Fora: Concorde, 1996.

 

RODRIGUES, A. M. Moradia nas Cidades Brasileiras. São Paulo: Contexto, 1994. (Coleção Repensando a Geografia)

 

SANTOS, C. B. O descompasso da polis e as duas cidades: um estudo do plano diretor de desenvolvimento urbano de Juiz de Fora. 1999. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais) ICHL/UFJF, Juiz de Fora.

 

SOUZA, L. B. Dinâmica Pluvial, Movimentos de Massa e Algumas Possibilidades de Contribuição da Climatologia Geográfica. Geografia Rio Claro, 27(2): 131-140 agosto 2002. (Nota).

 

SOUZA, L. B.Chuvas e Escorregamentos na Região Noroeste da Área Urbana de Juiz de Fora – MG: uma abordagem genética em Climatologia. 2003. Dissertação (Mestrado em Geografia) IGCE / UNESP, Rio Claro.