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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

MENSURAÇÃO DA VULNERABILIDADE NATURAL A EROSÃO NA FAIXA DE MEANDRAMENTO DO RIO MADEIRA
TRECHO: PORTO VELHO-RO A NOVO ARIPUANÃ-AM
 

 


Tatiane Rodrigues Lima1; Joiada Moreira da Silva2; Dorisvalder Dias Nunes3; Wanderley Rodrigues Bastos4; Angelo Mansur Mendes5; Luiz Cleyton Holanda Lobato6; Aldina Gomes de Assunção7; Déborah Pereira Linhares8



 

 

 1 Bolsista PIBIC/CNPq, Acadêmica do curso de Ciências Biológicas/UNIR – tatilima@unir.br
2 Pesquisador Associado ao LABOGEOHPA, Geógrafo/UNIR
3 Coordenador do LABOGEOHPA/UNIR , Prof. Depto. de Geografia – dorisval@unir.br
4 Coordenador do LABIGEOQ/UNIR, Prof. Depto. de Ciências Biomédicas - bastoswr@unir.br
5 Pesquisador da EMBRAPA/RO
6 Pesquisador/colaborador do LABOGEOHPA, Acadêmico do curso Geografia/UNIR
7 Pesquisadora/colaboradora do LABOGEOHPA, Acadêmica do curso Geografia/UNIR
8 Pesquisadora/colaboradora do LABOGEOHPA, Acadêmica do curso Geografia/UNIR – deborah@unir.br
 

 

 




Palavras-chave: Vulnerabilidade; Erosão; rio Madeira
Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

 

 


INTRODUÇÃO


Uma gama de fatores exerce considerável influência sobre o desenvolvimento da vida em determinados habitats. De maneira geral, alguns desses elementos contribuem em escala global para a diversificação das formas bióticas ao longo do tempo. Servindo de substrato para sustentação dos organismos vivos, tanto flora como fauna, encontra-se o solo, que revela características distintas, de acordo com a influência dinâmica do meio intrínseco e extrínseco onde está localizado. A interação entre clima, solo e topografia (relevo), por exemplo, cria uma dinâmica de fluxos de energia que terminam por modificar a paisagem, condicionando a existência de diversificados cenários, o que permitiu o desenvolvimento dos variados ecossistemas por todo o planeta Terra (RICKLEFES, 1996).
A composição de um ecossistema se dá pela união de elementos bióticos e abióticos em interação, por meio de trocas de energia, o que mantém um equilíbrio dinâmico. Assim, o clima, a topografia, os solos e vegetação representam as componentes ambientais, que ao se sobreporem, revelam os aspectos da paisagem. As variações dos padrões climáticos sobre o globo terrestre regem a intensidade de trocas de matéria e energia nos diferentes ecossistemas. Por exemplo, pluviosidade e temperatura influenciam diretamente na flutuação da umidade do solo e por conseqüência, em sua taxa de fertilidade natural e indiretamente na conformação da vegetação, em detrimento das oscilações do quantitativo de água disponível à absorção (RICKLEFES, Op. Cit.). Em um ambiente tropical, como é o caso da Amazônia, os índices de pluviosidade e temperatura são dos mais elevados, fatores essenciais para acelerar a produção e reciclagem de biomassa, resultando na conformação da cobertura vegetal densa presente na Amazônia. Alterações induzidas pelo trabalho humano, como desmatamento e atividades agropastoris terminam por expor o solo à ação erosiva das chuvas, elevando os riscos referentes à desagregação e transporte do mesmo (ROSS,1996).
De acordo com TRICART (1977), as variáveis ambientais podem ser classificadas de acordo com uma escala de estabilidade/instabilidade aos processos erosivos. Assim, conceitos como morfogênese e pedogênese são aplicados na identificação dos ambientes instáveis, ou promotores da formação do relevo; e estáveis, quando permitem o estabelecimento de condições para formação gradativa dos solos. São denominados como instáveis, ambientes que se encontram, por exemplo, sob processos periódicos de alteração, seja por influência da geomorfologia fluvial ou mesmo queimadas e desmatamentos. A mensuração da vulnerabilidade natural à erosão das componentes ambientais geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e clima aplica-se como método multidisciplinar na obtenção de informações relevantes no campo do planejamento ambiental, pois visa identificar, de acordo com os aspectos fisiográficos, qual a contribuição de cada variável para o estabelecimento dos processos de morfogênese e pedogênese. Assim, foi proposta a aplicação do método indicado por BRASIL (2000) ao longo da faixa de meandramento do rio Madeira, compreendendo o trecho entre Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM. Ao se calcular a vulnerabilidade natural, são reveladas as áreas mais susceptíveis a apresentar os processos erosivos, antes mesmo que o fenômeno seja notado visivelmente, tal informação poderá ser útil, por exemplo, ao se iniciar um processo de ocupação humana urbana ou agropecuária.
O método proposto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE (BRASIL, Op. Cit.), forneceu os procedimentos para obtenção dos valores de vulnerabilidade para as componentes ambientais de acordo com seus padrões de maior ou menor instabilidade ecológica.

MATERIAL E MÉTODOS
Foi realizada a análise de trinta e três pontos amostrais, obedecendo a intervalos de 20 km entre cada unidade de análise, conforme escala geográfica estabelecida em cartas do DSG - 1: 1.000.000. Foi realizado o levantamento de dados referentes aos aspectos fisiográficos: constituição pedológica, geológica, topográfica, fitogeográfica e climática, bem como evidências de atividade antrópica.
As variáveis geologia e relevo foram caracterizadas através de consulta às cartas temáticas fornecidas pelo Projeto Radam Brasil (IBGE, 1978), já os dados referentes a componente clima foram fornecidos pela Agência Nacional de Águas – ANA, através da qual foram compilados dados de pluviosidade de seis estações pluviométricas inseridas na área de estudo. Devido à escassez de estações em relação à grandeza do espaço amostral, foi estabelecido o critério de abrangência, o qual determina a área de influência das estações sobre as unidades, assim, cada estação fornece dados de pluviometria correspondente ao diâmetro de aproximadamente 40 km. A intensidade pluviométrica, que representa a quantidade de chuva precipitada em razão ao intervalo de tempo, configura-se como o parâmetro determinante da vulnerabilidade climática, assim, maior quantidade de chuva precipitada em períodos reduzidos de tempo, converterá em alta intensidade pluviométrica e, por conseguinte em altos índices de vulnerabilidade climática.
A componente ambiental solo foi caracterizada por meio de descrição morfológica e coleta de amostras de solo em perfil nas 33 unidades de análise, totalizando cento e quarenta e quatro (144) horizontes de perfis de solo (Quadro I), devidamente identificados e armazenados em sacos plásticos para posterior análise laboratorial. A análise granulométrica foi realizada em laboratório seguindo o método Dispersão Total (pipeta) indicado por BRASIL (1997), por meio do qual foram obtidos os percentuais das frações do solo argila, silte e areia, indicativos da erodibilidade natural do solo. Foram coletados aproximadamente 2 kg de solo de cada horizonte conforme descrição morfológica, por meio da qual foram identificados os parâmetros físicos como profundidade, horizontes, cor, estrutura, textura, consistência, transição, drenagem, pedregosidade e observações gerais - parâmetros de análise indicados por LEMOS & SANTOS (1996). Para caracterização empírica do ambiente, foi realizada descrição geral da paisagem: localização/coordenadas, litologia, formação geológica/período, relevo local e regional, indícios de processos erosivos, tipo de vegetação e uso atual do solo.

 

Quadro I - Amostras dos Perfis de Solo, coletas realizadas entre Porto Velho-RO e foz do rio Madeira-AM - 2003
 

Localidades/Unidades de Análise

Coordenadas

Perfil de solo

Horizontes

Nº de Horizontes

Lat - S

Long -W

Cujubin Grande

08° 35’ 26’’

63° 42’ 46’’

01

A; AB; BA; B1; B2

05

Itacoã

08° 35’ 54’’

63° 35’ 37’’

02

A; BA; B1; B2; B3

05

Primavera

08° 29’ 35’’

63° 35’ 53’’

03

A1; A2; B

03

São Carlos

08° 26’ 17’’

63° 30’ 02’’

04

A; AB; B1; B2

04

Curicaca

08° 18’ 12’’

63° 22’ 58’’

05

A; AB; B

03

Cavalcante

08° 22’ 40’’

63° 24’ 57’’

06

A; BA; B

03

Papagaios

08° 11’ 00’’

63° 05’ 34’’

07

Ap ; A1; A2; A3

04

Calama

08° 03’ 36’’

62° 56’ 07’’

08

A; BA; B1; B2; B3

05

Humaitá

07° 30’ 28’’

62° 53’ 40’’

09

Ap; BA; B1; B2; B3

05

Ponta Pelada

-

-

10

A1; A2; B1; B2

04

Santa Rosa

07°19’56’’

62° 50’24’’

11

A; B

02

Providência

07°09’18’’

62°54’15’’

12

A; AB; BA; B

04

Moanense

06°59’56’’

62°49’38’’

13

A; BA; B

03

Três Casas

06°54’34’’

62°38’45’’

14

A; B; C; D; E; F; G;

07

Boca do Carapanatuba

06°46’59’’

62°34’12’’

15

A; AB; BA; B1; B2; C

06

Santo Antônio

06°47’50’’

62°23’00’’

16

A; BA; B

03

L. Santo Antônio

06°35’46’’

62°20’58’’

17

A; B; C; D; E; F

06

Ilha São Rafael

06°28’48’’

62°18’30’’

18

A; BA; B1; B2

04

Baiano

06°18’10’’

62°15’00’’

19

A; B; C; D; E

05

Santa Rosa

06°12’26’’

62°05’40’’

20

A; BA; B1; B2

04

Mondego

06°19’33’’

61°51’08’’

21

A1; A2; B

03

Laranjal

06°09’56’’

61°50’18’’

22

A; AB; B

03

Santa Helena

06°02’15’’

61°41’41’’

23

A; BA; B1; B2

04

Ilha das Onças

05°53’57’’

61°42’26’’

24

A; B; C; D;  E; F; G

07

Paraíba

05°51’58’’

61°29’53’’

25

A; AB; BA; B1; B2

05

*Democracia

05°49’04’’

61°21’22’’

26

A; BA; B1; B2; Seringa; Pastagem

06

*Manicoré

05°44’30’’

61°16’13’’

27

A; BA; B1; B2; Capoeira; Mandioca

06

Verdum

05°37’37’’

61°08’19’’

28

A; C1; C2; C3; C4; C5; C6

07

Curralinho

05°36’37’’

60°59’15’’

29

A; BA; B1; B2; B3

05

Cachoeirinha

05°29’51’’

06°49’50’’

30

A; AB; B

03

São Pedro

05°22’00’’

60°43’00’’

31

A; AB; B

03

Santa Rosa

05°18’01’’

60°36’52’’

32

A; BA; B

03

Bela Vista

05°11’32’’

60°29’38’’

33

A; E; EB; B

04

Total

 

 

33

 

144

Fonte: Dados obtidos em atividade de campo – descrição morfológica e coleta dos perfis de solos

 

A representação dos níveis de vulnerabilidade segue padrões de classificação pré-estabelecidos dentro de uma escala numérica de 1,0 a 3,0. Cada componente ambiental é classificada dentro da escala, para posterior identificação da média geral da vulnerabilidade nas trinta e três unidades, o resultado é obtido através da fórmula de média aritmética dos índices de vulnerabilidade das cinco componentes ambientais.

Parâmetros Avaliados

Para dar suporte a mensuração da vulnerabilidade natural à erosão da pedologia, foi realizada a análise granulométrica dos solos coletados em campo, como forma de permitir a identificação da classe e do percentual de frações, que por sua vez revela o grau de erodibilidade do solo em análise.
O método Dispersão Total - Pipeta, aplicado em laboratório, baseia-se na velocidade de queda das partículas que compõem o solo. Fixa-se um tempo para sedimentação das partículas, após o qual, a fração argila em suspensão é obtida por meio de pipetagem e as frações areia fina, média e grossa, por meio de sucessivas tamisações (peneiragem). Primeiramente adiciona-se 10 ml de dispersante químico (soda) em 20g de solo, deixando-o em repouso por uma noite, tempo durante o qual se processa o desfragmentação das partículas ou conjunto de partículas maiores; após o intervalo, adiciona-se mais 100 ml de água e a solução é agitada por 15 min; posteriormente a solução é tamisada em peneira de 20cm de diâmetro e malha de 0, 053 (n° 270) sobre funil, através da qual é obtida a fração areia grossa, o restante da solução é armazenada em proveta de 1000 ml; na proveta, a solução é agitada com bastão apropriado por cerca de 20 minutos, enquanto a prova em branco é preparada; após agitação, mede-se a temperatura com o termômetro da solução de solo e da prova em branco para efeito de comparação com o tempo de repouso estabelecido em tabela (BRASIL, 1997); Após repouso, retira-se com auxílio de uma pipeta de 50 ml, solução de 5 cm da extremidade superior da proveta, obtendo-se a fração argila; o restante da solução da proveta é tamisada novamente para obtenção da fração areia fina; as frações são condicionadas em béqueres de 100 ml, secas em estufa e pesadas para determinação dos respectivos percentuais. O percentual do silte é determinado por meio de cálculo (complemento para 100 % das porcentagens de argila e areia) (BRASIL, Op. Cit.).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para a componente geologia constatou-se uma alta vulnerabilidade (Figura 01), com índices variando de 2,7 a 3,0, sendo todas as unidades de análise classificadas como vulneráveis aos processos erosivos. Conforme as características geológicas, as unidades apresentam diferenças em relação ao tempo geológico de acumulação e consolidação dos sedimentos. As unidades com valor de vulnerabilidade igual a 2,7, expõe sedimentos mais antigos de idade pleistocênica, que atualmente não recebem depósitos por meio do regime de cheia do rio Madeira. Tais unidades de relevo recebem a denominação de Terraço Fluvial, são constituídas por aluviões com cascalho e depósitos causados por movimento de massa (BRASIL, 1978). As unidades que apresentaram graus de vulnerabilidade iguais a 3,0, estão inseridas em áreas sujeitas a inundação. São compostas pela colmatação de sedimentos holocênicos recentes – Aluviões Atuais, constituídas por areias finas, siltes e argilas. O mais relevante aspecto relacionado à conformação geológica da área de estudo, diz respeito à consolidação insipiente das partículas sedimentares de colmatação recente, o que evidencia o baixo grau de coesão entre seus minerais constituintes, fator que influencia no desenvolvimento de solos com maior erodibilidade natural, caso dos Neossolos Flúvicos.

 

 

Figura 01 – Vulnerabilidade Natural à Erosão da Geologia e Relevo na Faixa de Meandramento do rio Madeira – Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM-2003
 

A vulnerabilidade do relevo (Figura 01), evidenciou a relação estabilidade/instabilidade das unidades morfométricas: planície fluvial periodicamente inundada, classificada como vulnerável, com índice 3,0 e terraço fluvial, classificado como moderadamente estável, com índice 1,4. Trata-se de ambiente menos instável ao desenvolvimento dos solos e vegetação. Das 33 unidades de análise, 26 apresentaram-se vulneráveis quanto ao relevo, ou seja, 79% do total de unidades, que por se tratarem de ambientes susceptíveis a alterações periódicas pela influência das águas fluviais, não apresentam condições ótimas ao desenvolvimento e maturação do solo, apesar de sua topografia suave de planície fluvial, movimenta depósitos de sedimentos aluviais, que em certos pontos são acumulados e em outros novamente erodidos pela águas fluviais e, conforme o uso da terra, também por águas pluviais.
A vulnerabilidade do clima foi classificada em moderadamente estável em 76% do total de unidades e medianamente estável/vulnerável nas oito unidades restantes (Quadro II). Segundo NIMER (1989), o trecho em análise está inserido em variações de duas fácies climáticas, sendo elas: Úmido com 1 a 2 meses secos, onde se incluem as unidades com índice de vulnerabilidade climática (1,6 e 1,7) e Super-Úmido com subseca, com índice (2,0 e 2,1). O Acréscimo da vulnerabilidade climática das unidades com índice 2,0 e 2,1 deve-se aos altos índices de precipitação, pois as mesmas estão sob influência de um regime estacional de precipitação que normalmente não apresenta período definido de seca, ou seja, os índices pluviométricos tendem a ser altos durante todo ano, a exemplo da média anual de chuva precipitada na estação Manicoré, 2.523 mm anuais.

 

Quadro II – Variação da Vulnerabilidade Climática na Faixa de Meandramento do rio Madeira – Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM 2003
 

Estação Pluviométrica

Unidades de Análise

Índice

Grau

Porto Velho

Cujubim Grande; Itacoã; Primavera; São Carlos; Curicaca; Cavalcante

1,6

Moderadamente Estável

Humaitá

Papagaios; Calama; Ponta Pelada; Humaitá; Santa Rosa; Providência; Moanense

1,7

Moderadamente Estável

Faz. Nova Estrela

Três Casas; Boca do Carapanatuba; Sto Antônio; Lago Sto Antônio; Ilha São Rafael; Baiano

1,7

Moderadamente Estável

São Rafael

Santa Rosa; Mondego; Laranjal; Sta Helena; Ilha das Onças; Paraíba

1,7

Moderadamente Estável

Manicoré

Democracia; Manicoré; Verdum; Curralinho

2,1

Medianamente Estável/Vulnerável

Novo Aripuanã

Cachoeirinha; São Pedro; Sta Rosa; Bela Vista

2,0

Medianamente Estável/Vulnerável

Fonte: De acordo com dados de pluviometria fornecidos pela ANA – Agência Nacional de Águas.

 

A partir da análise física dos solos, foi possível determinar as respectivas classes de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (BRASIL, 1999). Na pedologia, 63% das classes identificadas foram classificadas como vulneráveis, representadas por Neossolos Flúvicos, Gleissolos e Plintossolos, recebem índice (3,0) e são caracterizadas por seu pouco desenvolvimento, não apresentando horizonte B diagnóstico (Quadro III).   

Quadro III – Classes de Solo Identificadas com Base em Descrição Morfológica e Análise Granulométrica dos Perfis de Solo da Faixa de Meandramento do rio Madeira – Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM 2003

 

Grau de

Vulnerabilidade

Classes de Solo

Índice

% Verificado

no Trecho

Estável

Latossolo Amarelo

1,0

6

Medianamente estável/vulnerável

Argissolo

2,0

12

Moderadamente Vulnerável

Cambissolo

2,5

18

Vulnerável

Neossolo Flúvico; Gleissolo; Plintossolo

3,0

63

Fonte: De acordo com descrição morfológica e análise granulométrica dos perfis de solo.

 

Verificou-se maior predomínio das classes Neossolo Flúvico e Plintossolo, ambas com 27% de ocorrência e são características de ambientes onde predominam os processos de morfogênese. Dentro da escala de vulnerabilidade, os Plintossolos são classificados como vulneráveis aos processos erosivos, índice (3,0), apresentam drenagem imperfeita, o que dificulta a infiltração da água para os horizontes subjacentes ao horizonte plíntico. Tal propriedade deve-se à presença de plintita coincidente ou abaixo do horizonte B textural. A formação de plintita por segregação localizada de ferro predispõe o perfil de solo a ação erosiva das águas, pois essa quando precipitada percola com dificuldade devido a consolidação da plintita sob efeito de sucessivos processos de umedecimento e secagem. Assim, horizontes A; E são saturados mais rapidamente e com o impedimento da infiltração, tendem a ser erodidos intensamente (BRASIL, 1999). Os Neossolos Flúvicos são classificados como vulneráveis aos processos erosivos, índice (3,0). São caracterizados por seu pouco desenvolvimento, não apresentando horizonte B diagnóstico. O perfil de Neossolo é estratificado em camadas ainda inconsolidadas, com variações físico-químicas pouco correlacionáveis. Tais aspectos evidenciam sua característica principal, que é a formação através de deposições sucessivas de sedimentos em ambientes de várzea. Apresentam textura média a arenosos, por efeito da maior deposição de partículas grosseiras de areia, e por conseqüência, apresentam-se altamente susceptíveis a denudação.
Os Gleissolos, assim como os Plintossolos e Neossolos, também são classificados como vulneráveis aos processos erosivos, índice 3,0. São característicos de ambientes de grande dinâmica fluvial, constituídos por minerais pouco desenvolvidos. Sua formação pedogenética é influenciada pelo regime de inundação periódica, ou mesmo pela oscilação do lençol freático superficial. Por tais propriedades, apresentam-se normalmente mal drenados compostos por argilas de baixa ou alta atividade.
Os Cambissolos estão presentes em 18% do total de unidades de análise e são classificados como moderadamente vulneráveis à erosão, índice (2,5). São solos com pedogênese pouco avançada e apresentam horizonte B incipiente logo abaixo do horizonte A. Já os Argissolos e os Latossolos corresponderam respectivamente a 12 % e 6 % do total de perfis realizados. Os Argissolos apresentam horizonte B textural, com argila de atividade baixa logo abaixo do horizonte A e são classificados como medianamente estável/vulnerável, índice (2,0). São característicos de ambientes onde predominam os processos pedogenéticos, fato esse condicionante de sua evolução avançada e boa drenagem. Os Latossolos também são caracterizados por sua evolução avançada e classificam-se como estáveis dentro da escala de vulnerabilidade, índice (1,0). Sendo solos envelhecidos, apresentam-se comumente intemperizados, o que determina certa homogeneidade físico-química entre seus horizontes formadores. Caracterizam-se também por apresentar horizonte B latossólico, boa porosidade e drenagem. Na Figura 02 estão representadas as classes de solo identificadas no trecho de análise e os respectivos percentuais de ocorrência.

 

 

Figura 02 – Percentual de Ocorrência das Classes de Solo na Faixa de Meandramento do rio Madeira – Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM 2003

.
Na Figura 03 estão reunidos os índices de vulnerabilidade climática, da vegetação e dos solos, de modo a representar as unidades de análise com maior susceptibilidade aos processos erosivos indicados pelos aspectos intrínsecos do solo e extrínsecos do clima e vegetação/uso do solo. As unidades de análise apresentaram em média, altos índices de vulnerabilidade do solo, maior parte formados por Neossolos Flúvicos e Plintossolos que são característicos de ambientes com alta umidade, como é o caso da planície fluvial de várzea, apresentam fatores de alta erodibilidade por suas características intrínsecas. Recebem destaque as unidades São Carlos, Curicaca, Cavalcante, Papagaios, Ponta Pelada, Manicoré e Bela Vista, pois, além de apresentarem alta vulnerabilidade pedológica, a densidade da vegetação é reduzida por efeito de atividade antrópica traduzida pelo emprego da agricultura, principalmente cultura de banana e pastagem, o que potencializa a vulnerabilidade natural nestas unidades. No entanto, 70% de unidades apresentam-se sob cobertura de vegetação natural, o que promove a proteção dos solos aos processos de erosão, soma-se aqui o fato de que também a intensidade pluviométrica predominante classifica-se dentro da estabilidade.
 


 

Figura 03 – Vulnerabilidade Natural à Erosão do Clima, Vegetação e Solos na Faixa de Meandramento do rio Madeira – Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM 2003

 

CONCLUSÃO
Os processos erosivos atuam de forma a desequilibrar o ambiente natural, não apenas in loco, mas pode atingir grandes espaços geográficos, dependendo somente da localização do ponto de origem do problema. A erosão verificada nas encostas dos leitos fluviais age de modo a viabilizar a remoção de sedimentos, que por sua vez são drenados em direção a calha do principal do rio de uma bacia hidrográfica. O curso do rio Madeira que atua como receptor dos seus afluentes, bem como das águas superficiais oriundas das chuvas nas vertentes do mesmo, recebe considerável quantidade de carga sólida e dissolvida. De acordo com a intensidade da erosão, a quantidade de sedimentos depositados no rio pode exceder sua capacidade de suporte, acarretando em sérios prejuízos à sua qualidade em vazão e navegabilidade.
A aplicação da média aritmética junto aos valores de vulnerabilidade da geologia, relevo, vegetação, clima e solos indicaram haver 61% de unidades de análise com grau moderadamente vulnerável à erosão, índice de vulnerabilidade em torno de 2,3 (Figura 04).
 

 

Figura 04 – Média Geral da Vulnerabilidade Natural à Erosão na Faixa de Meandramento do rio Madeira – Porto Velho-RO a Novo Aripuanã-AM



Constatou-se que a erodibilidade do solo aumenta de acordo com a atividade antrópica, traduzida pela eliminação da vegetação natural, sobretudo às margens dos cursos fluviais dando lugar à produção agropecuária. Sendo assim, das 33 unidades analisadas, 15% foram classificadas como vulneráveis ou altamente susceptíveis a desenvolver processos erosivos (Figura 04). Cada tipo de solo apresenta índices variáveis de erodibilidade de acordo com seus aspectos físico-químicos e por servir de substrato á ocupação humana, é diretamente afetado por seu uso indiscriminado e indiferente às técnicas que promovem sua sustentabilidade, dessa maneira, os valores de erodibilidade crescem de acordo com a ampliação do risco ambiental o qual é submetido. A cobertura vegetal atenua a capacidade erosiva da chuva e sua manutenção implica em menores taxas de perda de solo, no entanto, as atividades agropecuárias ao longo do rio Madeira tem sido ampliadas, o que pode induzir no aumento dos valores de perda de solo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL, Metodologia de Desenvolvimento para Subsidiar o Zoneamento Ecológico-Econômico. São José dos Campos: INPE, 2000.
BRASIL, Projeto Radam Brasil: Geologia, Geomorfologia, Pedologia, Vegetação, Clima, Folha SC-20 Porto Velho, Folha SB-Purus e Folha SA-21 Santarém. Brasília: IBGE, 1978.
BRASIL, Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília: EMBRAPA, 1999.
BRASIL, Manual de Métodos de Análise de Solo – 2 ed. Rio de Janeiro: EMBRAPA, 1997.
LEMOS, R. C. & SANTOS R. D. dos. Manual de Descrição e Coleta de Solos no Campo. Campinas: SBCS, 1996.
NIMER, E. Climatologia do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1989.
TRICART, Jean. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE, 1977.
RICKLEFES, Robert E. A Economia da Natureza. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
ROSS, J. L. S. Geomorfologia: ambiente e planejamento. São Paulo: Contexto, 1996.