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E3-3.3T199


 

X SIMPSIO BRASILEIRO DE GEORAFIA FSICA APLICADA

 

A ELABORAO DE  UMA METODOLOGIA DE ZONEAMENTO AMBIENTAL COM FINS TURSTICOS ATRAVS DA VISO SISTMICA: O CASO DO MUNICPIO DE BROTAS (SP)



 

SILVA, Charlei Aparecido da[1] - IGE/UNICAMP

PEREZ FILHO, Archimedes[2] - IGE/UNICAMP

 

 

Palavras Chave: zoneamento ambiental, turismo e anlise  sistmica.

Eixo Temtico:  3 - Aplicao da Geografia Fsica Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gesto e Planejamento Ambiental.

 





 

Introduo A contemporaneidade da anlise geogrfica do turismo

 

O turismo no final do sculo XX desponta como uma das atividades que mais cresceram em todo mundo. Os mais otimistas afirmam que a atividade turstica  de forma direta ou indireta  movimenta 52 segmentos  da economia e que para cada US$1,00 investidos no setor a um retorno de U$6,00. Tal fato tem levado os rgos oficiais de financiamento tais como BNDES e BID e o poder pblico em seus diversos nveis, municipal, estadual e federal, a investirem maciamente no setor. O BNDES somente, por exemplo, desembolsou para o setor turstico no perodo de 1990 a 1998  um total de US$ 821349,10 milhes, sendo que as regies Sul e Sudeste foram as mais beneficiadas. No quadro internacional o Brasil se constitudo como um dos destinos tursticos de maior potencialidade, devido  principalmente as suas caractersticas naturais e sua diversidade tnica e cultural, o que permite o desenvolvimento de diversas tipologias tursticas.

No territrio brasileiro h uma infinidade de localidades cuja beleza paisagstica tem se transformado em produtos tursticos a fim de atender a uma demanda cada vez maior. Ambientes naturais conservados tem se transformado em produtos tursticos e includos novos roteiros de forma cada vez mais rpida. Porm, isto vm  ocorrendo, em muitos casos, sem uma discusso prvia das transformaes decorrentes desta nova forma de uso dos recursos naturais.

O turismo tem se desenvolvido nas localidades desordenadamente, sem planejamento e estudos que permitam identificar a capacidade de resilincia dos ambientes explorados. Nestes casos tem sido desconsiderado o carter antropofgico do turismo em funo de vises mercadolgicas de curtssimo prazo. 

A atividade turstica definida pela OMT (Organizao Mundial de Turismo) como o fenmeno que ocorre quando um ou mais indivduos se trasladam a um ou mais locais diferentes de sua residncia habitual por um perodo maior que 24 horas e menor que 180 dias, sem participar dos mercados de trabalho e capital dos locais visitados (OLIVEIRA,  2000, p. 31). Tal conceito por si s vem imbudo de dois aspectos geogrficos importantes e essenciais para compreenso  o fenmeno turstico na atualidade: o tempo e o espao.  Se levarmos em considerao que os trs grandes princpios da Geografia so a extenso, a analogia e a causalidade, possvel compreender que a relao tempo e espao diz respeito como as manifestaes sociais, naturais, culturais, histricas, polticas e econmicas ocorridas, no passado e no presente, so as responsveis pela organizao do espao e, paulatinamente do territrio, onde se desenvolvem as atividades tursticas hoje.

Segundo SANTOS (1996, p. 26), o espao deve ser entendido como um conjunto indissocivel de que participam, de um lado, certo arranjo de objetos geogrficos, objetos naturais e objetos sociais, e, de outro, a vida que os preenche e os anima, ou seja, a sociedade em movimento, ou seja, um conjunto de formas sendo que cada qual contm fraes da prpria sociedade, a qual esta em constante movimento.  Neste caso a percepo e a compreenso da questo tempor-espacial e do ritmo da ocorrncia dos fenmenos que abrangem o turismo  fundamental para o entendimento das questes atuais ligadas a esta atividade, no Brasil e no mundo.

A criao de destinaes tursticas significa, a instituio de novos espaos e objetos, os quais,  muitas vezes, so conflitantes entre si e cujas respostas s vezes se manifestam e so encarados como problemas ambientais e sociais. Devido a esta dinmica envolvida, o estudo da atividade turstica, deve abranger aspectos polticos-econmicos, scio-culturais e fsico naturais. Os estudos geogrficos que abordam a questo devem ser capazes de explicar os processos envolvidos em seu desenvolvimento, prever os impactos positivos e inibir os impactos negativos atravs do uso racional dos ambientes explorados. No caso especifico de ambientes naturais deve possibilitar a compreenso dos limites de explorao e orientar o seu uso, em funo, principalmente, dos processos de inter-relao e interdependncia que envolve os elementos que compem o Sis-Tur (sistema Turstico).

 

 

As bases tericas e os objetivos da pesquisa

 

Segundo BENI (2002, p. 26) O SisTur um sistema aberto que realiza trocas com o meio que o circunda e, por extenso, interdependente, nunca auto-suficiente. Ou seja, o turismo influncia as localidades onde se desenvolve e as caractersticas destas tambm influenciam direta ou indiretamente no seu desenvolvimento, possibilitando assim sua existncia no tempo e no espao. 

O turismo no deve ser encarado como um sistema tipicamente social-cultural, poltico-econmico ou natural, essa ocorrncia levaria a um erro grosseiro de supravalorizao  de   um  subsistema em funo da sub-valorizao de outro, o que prejudicaria a anlise de elementos fundamentais para a gnese do turismo. Por ser um sistema aberto o estudo do processo de interdependncia e de inter-relao de seus elementos e componentes, em muitos casos, muito mais apropriado para sua compreenso do qu a explicao de fragmentos isolados. Neste caso torna-se importante adoo da concepo sistmica, j que sua proposta est mais adequada a sua explicao. De acordo com MOLINA (2001, p. 144), sua aplicao no turismo essencial, pois permite compreender as relaes que impulsionam o seu desenvolvimento e suas conseqncias.

 

Von Bertanlanffy estabelece que uma das caractersticas mais importantes dos sistemas abertos consiste nos intercmbios que mantm com o meio circundante. Os intercmbios se referem energia, aos materiais e informao. Isso inteiramente correto no turismo, j que o sistema exibe contnuos e permanentes processos com seu entorno: sem alguns deles no poderia nem mesmo sobreviver.

 

Para vislumbrar-se a compreenso da complexiblidade que envolve o desenvolvimento do turismo em uma localidade necessrio compreende-lo como um elemento capaz de modificar as caractersticas originais dos sistemas nela presente, isto por qu, ele emana fluxos de energias que devem ser assimilados por esses sistemas. Neste processo de assimilao, pode at mesmo  ocorrer novas formas de organizao e novas estruturas, que levaro a transformao dos padres vigentes at sua instalao.  O turismo no decorrer do seu desenvolvimento afetar os impreterivelmente os sistemas natural, scio-cultural e poltico-econmico das localidades.

BUTLER (1980), ao estudar como ocorre esta influncia, prope analisar as localidades de forma cclica, para isto sugere a adoo de um ciclo que demonstre o processo de evoluo do turismo em uma localidade. Chamado de ciclo de vida das destinaes tursticas, este ciclo divide-se em cinco fases, as quais so capazes de demonstrar como as localidades so afetadas pelo turismo, sendo elas: investimento; desenvolvimento e explorao; consolidao; estagnao e rejuvenescimento ou declnio. Alm disto o ciclo facilita entender a dinmica de crescimento da localidade e registrar quais foram os impactos negativos e/ou positivos ocorridos em cada uma das fases. Acima de tudo, ele possibilita um acompanhamento dinmico e histrico dos processos que fizeram daquela localidade uma destinao turstica e quais so as conseqncias disto.

Como o foco do presente estudo est na compreenso das modificaes que podem ocorrer no sistema natural e quais devem ser os mecanismos implementados para minimizar estes impactos negativos, foram estipulados os seguintes objetivos:

 

  Comprovar a importncia do planejamento ambiental na implementao da atividade turstica, principalmente naqueles municpios cujas potencialidades tursticas esto diretamente relacionadas a explorao de ambientes naturais conservados;

  Desenvolver uma metodologia que seja capaz de direcionar a implementao do turismo de forma racional, baseada principalmente na fragilidade dos ambientes explorados e na legislao pertinente a questo ambiental;

  Conjugar tcnicas de avaliao impactos ambientais e de avaliao de qualidade ambiental para criao de uma metodologia de zoneamento de reas de interesse turstico e reas de risco;

  Identificar no municpio de Brotas as reas de interesse turstico e mensurar e qualificar, caso haja,  os impactos advindos da explorao tursticas desordenada;

  Contribuir no aprofundamento e no desenvolvimento de conhecimentos na rea de turismo e meio ambiente e com isto contribuir na elaborao de linhas de pesquisa especficas.

Com base nestes objetivos espera-se se criar uma metodologia que possibilite a elaborao de uma proposta de zoneamento ambiental com fins tursticos, com as seguintes reas: zona estratgica para o desenvolvimento do turismo; zona de interesse turstico; zona impactada ou esgotada; zonas alteradas; zona de uso restrito ou disciplinado e zona de proteo mxima. Tais zonas representariam basicamente:

   reas homogneas, com caractersticas fisiogrficas semelhantes;

   A capacidade de resilincia e o uso potencial  dos recursos naturais  renovveis e no renovveis disponveis;

   reas de menor e maior vulnerabilidade;

   As limitaes quanto s formas de uso e as tipologias tursticas associadas;

   Os nveis de modificaes verificados;

 

Entre os  critrios para o enquadramento destas zonas esto:

   Os nveis de cobertura vegetal;

   A declividade do local;

   O uso atual dado e o tipo de atividade desenvolvida turstica ou no;

   Existncia ou no de mananciais e suas caractersticas;

   As caractersticas geolgicas,  pedolgicas e climticas;

   A legislao vigente;

   Os possveis tipos de uso entre outros.

 

Portanto, para a realizao deste trabalho tem-se adotado trs perspectivas. A primeira focada no levantamento das caractersticas dos sistemas naturais de Brotas e a segunda na elaborao de um roteiro que possibilitasse o entendimento das relaes e dos processos que envolvem o turismo em Brotas e os impactos gerados. A terceira na elaborao de uma proposta de zoneamento ambiental que possibilite o uso racional das reas exploradas pelo turismo, minimizando assim os impactos negativos e ampliando o ciclo de vida das destinaes tursticas atravs da adoo de medidas conservacionistas.

Para isto buscou-se elaborar um roteiro de diagnstico ambiental que contemple todo o Sistur e venha a servir, no futuro, a criao de uma proposta de zoneamento com fins tursticos. Isto se fez necessrio devido ausncia de uma metodologia direcionada para os objetivos aqui j expostos. A maioria das propostas de zoneamento ambiental no inclui o turismo ou quando o faz possu objetivos que so nica e exclusivamente preservacionistas, desprezando assim, as tipologias tursticas envolvidas e os aspectos scio-culturais e polticos-econmicos.  Com base em BATISTA (2002); BORGES (2002); LIMA (2002); MOLINA (2001); ALMEIDA et alli (1999); BOULLN (1999); MARINHO (1999); GIOMETTI (1993) entre outros, elaborou-se o seguinte roteiro de diagnstico ambiental:

 

Figura 01 Proposta de diagnstico ambiental com fins tursticos

 

 

Resultados preliminares da pesquisa

 

Para reunir o maior nmero de informao possvel tem-se consultado diversos rgos e instituies pblicas, entre eles: o IPT, IAC, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo, INPE, DAEE, SEADE, IBGE, CETESB, Prefeitura Municipal, as bibliotecas da UNESP, UNICAMP e USP entre outras. Nestes rgos e instituies  tem-se buscado coletar os seguintes materiais:

   Obras correlacionadas ao tema da pesquisa;

   Cartas topogrficas nas escalas de 1:50.000 (IBGE)

   Fotografias areas e imagens de satlite;

   Cartas de uso das terras;

   Mapas geolgicos, geomorfolgicos e pedolgicos;

   Dados de qualidade ambiental;

   Dados fluviomtricos e pluviomtricos;

   Dados scio-econmicos, entre outros.

 

Estes dados tm possibilitado a caracterizao socioeconmica e fisiogrfica da rea de pesquisa. Tem ajudado tambm na criao de um banco de dados cujas informaes tem sido cruzadas e migradas em alguns softwares atravs do ambiente Windows mtodo j utilizado por SILVA (2001).

 

Com base na bibliografia e em trabalhos correlatos j realizados  chegou-se a concluso que a escala de 1:50.000 atende aos objetivos propostos nesta pesquisa, j que ela permite cartografar toda a rea do municpio sem que haja perca de detalhes importantes  para definio do zoneamento aqui proposto, entre eles, aspectos de altimetria e de declividade, de pedologia e geologia, de uso e ocupao das terras, de hidrografia entre outros.

 

A inteno confeccionar no decorrer da pesquisa uma srie de produtos cartogrficos que subsidiaro a proposta final de zoneamento da rea de estudo. Entre estes documentos esto:

   Inventrio socioeconmico, ambiental e turstico e caracterizao fsiogrfica da rea de pesquisa;

   Modelo topogrfico da rea de estudo;

   Carta de uso das terras;

   Carta com a rede hidrogrfica;

   Carta de unidades geoambientais - conseguida atravs da interao dos componentes naturais e antrpicos da rea de estudo;

   Mapa de potencial turstico;

 

At o presente momento gerou-se uma carta base da rea da pesquisa, o municpio de Brotas (SP). Para criao desta carta base utilizou-se cartas topogrficas do IBGE, sendo elas:

 

Carta

Folha

Ano de Publicao

Brotas

SF-22-Z-B-III-4

1974

Dois Crregos

SF-22-Z-B-III-3

1974

Dourado

SF-22-Z-B-III-1

1972

Itirapina

SF-23-M-I-3

1969

Ribeiro Bonito

SF-22-Z-B-III-2

1971

Santa Maria da Serra

SF-22-Z-B-IV-2

1974

So Carlos

SF-23-Y-A-I-1

1971

 

Como no houve a possibilidade de adquirir estas cartas, pois todas se encontram esgotadas, optou-se ento em digitaliza-las e posteriormente imprimi-las. O processo de digitalizao foi realizado atravs do uso do software  Corel Photo verso 9.0. As cartas topogrficas do IBGE  foram digitalizadas num scanner A-0 da marca Vidar e os arquivos foram gravados em formato *.TIF para que futuramente pudessem ser migrados dentro do ambiente windows para diversos sofwares, entre eles, o Corel Draw, verso 9.0, e o Autocad Map, verso 3.0. No software Autocad Map, verso 3.0, as cartas topogrficas foram georefenciadas e a escala foi conferida, momento em que se percebeu que no houve nenhuma distoro durante o processo de transformao da informao cartogrfica analgica para a digital.

Estas cartas topogrficas foram digitalizadas em Autocad Map, verso 3,0. A carta base do municpio de Brotas foi conseguida atravs da articulao das cartas topogrficas citadas. Os arquivos *.dwg foram transformados em  *.dxf ou *pdf  e  migrados conforme a necessidade  para CorelDraw 9.0.  Como suporte metodolgico, nesta etapa,  utilizou-se as propostas de SILVA (2001); MARINHO (1999); TOMMASI (1994); CUNHA e GUERRA (1999); MULLER e ABSABER (1998).

A carta base da rea da pesquisa contm o limite municipal, as coordenadas da rea, a hidrografia e a localizao geogrfica do municpio. Para  possibilitar a criao desta carta base, s informaes foram convertidas para o formato vetorial atravs da digitalizao em tela, sendo que os pontos foram coletados com auxilio do mouse.

A adoo deste procedimento eliminou a necessidade do uso de uma mesa digitalizadora e permitiu um maior nvel de preciso nesta etapa do trabalho,  j que em determinados momentos houve a necessidade de ampliar algumas reas a nveis que no seriam possveis sem ajuda dos recursos disponveis no software Autocad Map, verso 3.0. A finalizao da carta foi realizada no ambiente Corel-Draw, atravs do uso de seus recursos grficos, cujo resultado preliminar apresentado a seguir.

 

Figura 02 Limite territorial e rede de drenagem do municpio de Brotas (SP)

Organizador: Silva (2003)

 

Paralelo a elaborao dos primeiros produtos cartogrficos tem-se buscado compreender os sistemas presentes no municpio de Brotas. Com base no roteiro de diagnstico ambiental j apresentado passou-se a coletar as primeiras informaes sobre o sistema natural da rea da pesquisa. Nesta etapa privilegiou-se a coleta de dados que pudesse fornecer um perfil preliminar das condies naturais do municpio, cujos resultados so os seguintes:

 

 

Caractersticas do sistema natural

 

As reas naturais de Brotas encontram-se relativamente preservadas devido principalmente as caractersticas de seu processo histrorico de desenvolvimento econmico e suas caractersticas fisiogrficas.  Nas palavras de GIOMETTI (1993, p. 30):

Com o deslocamento dos interesses econmicos para fora da rea da bacia do Jacar-Pepira, o meio ambiente que a constitui no veio a sofrer tanta agresso antrpica, como outros inseridos em reas que se constituram plos atrativos para implantao do desenvolvimento.

 

Com base no mapa geolgico do Estado de So Paulo, folha Bauru, SF-22-Z-B, na escala de 1:250.000,  de 1984, foi possvel verificar-se que grande parte do municpio de Brotas encontra-se dentro do Grupo So Bento, cuja formao datam do trissico-cretceo onde esto presentes a Formao Serra Geral, a Formao Botucatu e a Formao Pirambia.

Na formao Serra Geral predominam derrames de basaltos em forma tabulares superpostos e alguns tipos de arenitos.  Na Formao Botucatu h predominncia de arenitos finos a mdios, com uma estratificao cruzada de grande porte nas cores creme e vermelho. Por sua vez, na Formao Pirambia surgem arenitos finos a mdios com matriz siltico-argilosa, estratificao cruzada de mdio a grande porte com predominncia de cor vermelho-claro. 

Prximo s margens do rio Jacar-perira, principal manancial do municpio, presena de depsitos de cimeira, conglomerados, arenitos imaturos e cimentos ferruginosos decorrentes do oligoceno-mioceno. J nos leitos de alguns rios notou-se a presena de alguns diques de diabsio associados Formao Serra Geral.

A geomorfologia do municpio est associada as Cuestas Areniticas-Baslticas e ao Planalto Ocidental Paulista. Nas reas onde as Cuestas Areniticas-Baslticas esto mais presentes o relevo mais movimentado possuindo escarpas com altitudes s vezes acima de 1000 metros, surgem vales fluviais encaixados que favorecem a grande concentrao de nascentes e a atuao de processos erosivos regressivos.  As reas dominadas pelo Planalto Ocidental Paulista so mais planas, em face de uma menor movimentao do relevo, nelas surge depsitos sedimentares, interflvios com uma configurao mais convexa com extenses maiores e as altitudes predominantemente esto por volta de 600 metros AbSber (1959 e 1969); Almeida (1949; 1956 e 1964); Giometti (1993).

A configurao da rede de drenagem do municpio reflete sua configurao geomorfolgica e geolgica,  em todo o municpio h o predomnio de uma configurao dendrtica. Na rea que corresponde o front das Cuestas Areniticas-Baslticas o fluxo  hidrogrfico tem maior velocidade e os cursos dgua tendem a ser de primeira ordem, enquanto na rea do  Planalto Ocidental Paulista surgem rios e crregos com caractersticas mais meandricas e, em funo disto, a velocidade do fluxo hidrogrfico menor.

De acordo com a SO PAULO (1998), os mananciais do municpio se encontram dentro do sexto grupo de UGRHIs (Unidades de Gerenciamento de Recursos Hdricos),  na UGRHIs de nmero 13. O maior corpo dgua do municpio, o rio Jacar-Pepira,  apresenta um IQA (ndice de Qualidade de gua) na faixa de boa qualidade hdrica, estando enquadrado na classe 03, isto devido a alguns valores de coliformes-fecais

Na rea onde se localiza o municpio de Brotas, segundo MONTEIRO (1973),   clima dominado por sistemas tropicais e extra-tropicais que se justape s diversificaes do relevo. A gnese das chuvas est associada presena da massa Polar Atlntica durante o ano todo, sendo que  chove anualmente em  mdia  no   municpio  aproximadamente  1600 mm. As temperaturas mximas ficam em torno de 30 graus Celsius e as mnimas por  volta de 15 graus Celsius.

O inverno do municpio caracteriza-se por um perodo mais seco com temperaturas mais baixas do que aquelas registradas em outras pocas, do ano fruto da ao da Massa Polar Atlntica. A diminuio das chuvas neste perodo decorrente da ausncia de passagens frontais, neste perodo do ano comum o predomnio de um mesmo sistema atmosfrico durante dias em toda a rea,  o que favorece a estabilidade do tempo. As poucas chuvas que ocorrem na regio quase sempre esto ligadas orografia. 

O vero se caracteriza pelo domnio de sistemas tropicais martimos e continentais, neste perodo sobre regio atuam alternadamente os sistemas Tropical Continental e Tropical Atlntico. A concentrao das chuvas neste perodo resultado de movimentos convectivos, que geram fortes aguaceiros,  e  passagens frontais, j que a massa Polar Atlntica tambm se faz presentes em alguns dias ocasionando a instabilidade do tempo que se manifesta na forma de pluviosidade. As temperaturas, so elevadas por volta de 30 graus, cujo desconforto diminudo devido s caractersticas do relevo e as chuvas constantes. 

O outono e a primavera se caracterizam por serem os perodos intermedirios entre as estaes de  inverno e vero, neles h uma alternncia constante dos sistemas atmosfricos tropicais e polares, cujas caractersticas do tempo dependero de suas intensidades.

 Neste levantamento preliminar foi possvel perceber em Brotas a existncias de diversos   tipos de solos entre eles: latossolos roxos; latossolos vermelho-escuro; latossolos vermelho-amarelos; podzlicos vermelho-amarelos; terra roxa-estruturada; areais quartzozas e solos hidromrficos GIOMETTI (1993).

De acordo com TROPPMAIR (2000),  Brotas esta localizado no geossistema da Cuestas, cuja configurao constitui-se como um degrau que corta o Estado de so Paulo no sentido norte-sul. A cobertura vegetal desta regio composta originalmente por manchas de cerrado, matas tropicais de encosta, matas ciliares e matas de groto. As matas tropicais de  encostas  e as matas de groto que restam encontram localizadas na regio front das  Cuestas Areniticas-Baslticas, enquanto as manchas de cerrado surgem no seu reverso, rea de predominncia do Planalto Ocidental Paulista. As matas ciliares encontram-se dispersas, sendo que h mananciais onde estas apresentam excelentes nveis de  conservao e outros onde elas j foram totalmente retiradas. Tal fato est relacionado com o processo de ocupao e desenvolvimento do municpio que primou pela ocupao das reas mais planas para implementao de atividades agrcolas e pastoris. 

O contato destas formaes vegetais e a configurao geolgica e geomorfolgica, somada as dificuldades de acesso e a baixa ocupao humana, acabaram por originar nmeros habitats e refgios  que  ainda  hoje  concentram  grande  biodiversidade  de flora e fauna - TROPPMAIR (op. cit.).

Outro fator importante que contribuiu para conservao destes ambientes o fato do municpio estar dentro da APA (rea de Proteo Ambiental) Corumbata-Botucatu-Tejub, a qual possu legislao que regula o uso destas reas e inibi o crescimento desordenado, principalmente das atividades agrcolas.

 

 

Concluses parciais e resultados esperados

 

Os resultados preliminares tm demonstrado que Brotas, dentro do Estado de So Paulo, configura-se como um municpio impar, graas a sua posio geogrfica, facilidades de acesso, seu processo histrico de desenvolvimento, sua qualidade paisagstica, a qualidade de seus recursos hdricos e o nvel de conservao de seus ambientes naturais.  A existncia destes ambientes conservados e as caractersticas dos sistemas naturais presentes no municpio e em suas reas adjacentes que possibilitaram o crescimento do turismo na dcada de 1990.

Por ser hoje incontestavelmente o maior plo de ecoturismo do Estado, o turismo gera aproximadamente 25% da renda do municpio e responsvel pelo emprego direto e indireto de trs mil pessoas. Porm, os custos ambientais, principalmente no que diz respeito aos impactos negativos do turismo nas reas naturais,  ainda no foram quantificados e qualificados o que se espera ser realizado at o final desta pesquisa. 

Na atualidade nota-se que Brotas como uma destinao turstica comea a entrar, dentro do ciclo de vida das destinaes tursticas, fase da estagnao. Momento em que h uma mudana do perfil dos turistas e os impactos negativos comeam a afetar a qualidade do produto turstico oferecido.  Os ambientes naturais antes conservados, responsveis pela potencialidade da localidade, comeam a demonstrar os primeiros sintomas de uma dcada de explorao e o fluxo turstico comea a sofrer modificaes.

Para que isto ocorra no venha se agravar e haja reverso do quadro fundamental um novo direcionamento na forma de explorao dos ambientes naturais do municpio. O zoneamento ambiental aqui proposto, portanto, surge como uma possibilidade. Para isto ser preciso a finalizao do material cartogrfico aqui proposto, sua anlise e a caracterizao do sistema natural.

O foco da pesquisa estar, portanto, a partir de agora, na gerao de um modelo topogrfico do terreno e na criao de uma carta dos atrativos tursticos de Brotas. Isto a fim de se verificar como se d a distribuio destes atrativos, quais so as atividades tursticas realizadas e sua ligao com o sistema natural.

Os desafios, portanto, ainda so muitos para se conseguir uma proposta de zoneamento  que leve em considerao as especificidades da atividade turstica. Todavia, as metas e os objetivos propostos no incio da pesquisa esto bem alicerados e fundamentados na escolha da metodologia de anlise e com isto, espera-se,  que os resultados venham  naturalmente.

 

 

NOTAS

 

[1] charleis@terra.com.br - Doutorando do Curso de Ps-Graduao em Geografia do Instituto de Geocincias da Unicamp.

 

 

 

Referncias Bibliogrficas

 

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