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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

DIAGNÓSTICO SÓCIO-ECONÔMICO AMBIENTAL DO MUNICÍPIO DE ALTO CAPARAÓ - MG



 

Fabrício de Oliveira Moté* - briciooliveira@hotmail.com
Anderson Chagas de Oliveira* - achagasoliveira@aol.com
Itamar Frederico de Souza Gonçalves* - ifrederico@hotmail.com
Juliana Azevedo Marques* - juliegeo@ig.com.br
Aline Garcia dos Santos* - alinegarciadosantos@yahoo.com.br
Lívia Guimarães de Andrade* - lívia.andrade@grafitti.net

 

* Departamento de Geografia. UFRJ. Rio de Janeiro – RJ. Brasil

Palavras-chave: Diagnóstico ambiental

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

INTRODUÇÃO

 

O município de Alto Caparaó está localizado no sudeste do Estado de Minas Gerais, divisa com o Estado do Espírito Santo, na Zona da Mata Mineira – Mesorregião do sudeste mineiro delimitada pelo Rio Paraíba do Sul e Rio Doce, e pela Região Auri-Ferrífera a noroeste e pelos limites dos Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro a Sudeste (figura 1). É um município nacionalmente conhecido pela presença do Parque Nacional do Caparaó, que ocupa cerca de 30% da porção leste do território municipal, de aproximadamente 130 km2, o restante é ocupado pela lavoura do café, principal produto local. As altitudes médias giram em torno de 1.000 m e o ponto culminante é o Pico da Bandeira, com 2.890 m.

Em relação à população, percebe-se que as histórias, experiências e conhecimentos adquiridos contribuem para a participação de cada cidadão em relação ao município onde nasceu, ou que adotou, e em que vive e que deve ser vivenciado de modo a expressar os interesses e desejos comuns, capazes de influenciar decisões na busca de objetivos sociais, econômicos e ambientais diretamente relacionados com sua existência.

O objetivo deste trabalho é um diagnóstico ambiental do município, em função das condições sócio-econômicas pesquisadas.

 

 

Figura 1: Localização do município de Alto Caparaó – MG

 

METODOLOGIA

 

Foram utilizados para efeito de caracterização local, dados obtidos através de pesquisas bibliográficas, com destaque para a obra inédita da História de Alto Caparaó, desenvolvida na própria cidade, por autores locais, disponível na Biblioteca Municipal. Também foram efetuadas pesquisas em páginas da internet e saídas a campo, em visitas de reconhecimento a locais definidos como importantes para o objetivo. Visita ao Parque Nacional do Caparaó e alguns Órgãos Públicos, com entrevistas a representantes dessas instituições. Na área rural foram visitadas fazendas e entrevistados os respectivos responsáveis.

Especial atenção foi dada ao depósito municipal de lixo, georreferenciado com auxílio de GPS, com plotagem na carta topográfica Manhumirim (Folha SF. 24 – V-A-I-3, escala 1:50.000, IBGE , 1977), onde também foram traçados os limites do município. Essa delimitação da área municipal foi efetuada com o intuito de permitir a visualização das áreas visitadas e georreferenciadas em relação à hidrografia local.

Nos trabalhos de campo foram aplicados à população, questionários elaborados de forma a produzir informações sobre a área rural, a área urbana - tratando de comércio e serviços (inclusive públicos) -, sobre a renda e dados sociais e sobre a influência do Parque Nacional sobre o município.

 

A POPULAÇÃO DE ALTO CAPARAÓ

 

A área total do município é 130,3 Km2 e possui 4.673 habitantes (IBGE, 2000), em maioria urbana (tabela 1).

 

Tabela 1: População de Alto Caparaó e sua distribuição.

 

População total

População Urbana

População Rural

No de habitantes

4.673

3.329

1.344

Porcentagem (%)

100

71,24

28,76

 

(Fonte: IBGE, 2000).

 

Uma caracterização geral da população de Alto Caparaó pode ser visualizada na tabela 2. A população masculina é maior do que a feminina e a taxa de alfabetização da cidade é muito expressiva para o número total de habitantes: 84,4 % da população de Alto Caparaó, com 10 anos ou mais de idade, são alfabetizados. 

 

Tabela 2: População residente por sexo, situação do domicílio e taxa de alfabetização (%).

População residente, sexo e situação do domicílio.

 

População residente com 10 ou mais anos de idade

Total

Homem

Mulher

Urbano

Rural

Total

Alfabetizada

Taxa de alfabetização (%)

4673

2409

2254

3329

1344

3745

3163

84,4

 

(Fonte: IBGE, 2000).

 

 

ASPECTOS FÍSICOS DE ALTO CAPARAÓ

 

Segundo o projeto RADAMBRASIL (1983), as duas unidades geomorfológicas onde o município está inserido são: Unidade Maciços do Caparaó e Unidade Serranias da Zona da Mata Mineira. A Unidade Maciços do Caparaó apresenta como maior característica a presença de grande número de intrusões graníticas, numa área com predominância de granulitos, charnoquitos, migmatitos e granitóides; falhamentos que se intercruzam nas direções SE-NO e SO-NE conferem, à área, marcante diferenciação morfológica.

O relevo, de uma maneira geral, apresenta-se com grandes formas alongadas de topos e encostas convexizadas, onde se desenvolvem alterações profundas, resultando em espessos mantos argilosos. Incluída nesta unidade, a Serra do Caparaó constitui uma crista, de grande extensão no sentido norte-sul, resultante de dobras que desnivelaram em cerca de 1.800 m seus pontos culminantes em relação às áreas próximas.

 As encostas quase simétricas são marcadas por facetas triangulares, evidenciadas, sobretudo na face ocidental. As outras formas que compõem o maciço têm o aspecto de cristas íngremes com o manto de alteração argiloso pouco espesso. Nas partes mais elevadas são freqüentes os vales abertos, ressaltados pelos falhamentos transversais à sua direção, com as encostas quase ligadas entre si por pedimentos rochosos, dando uma forma aproximada de “U”, e formando, em vários pontos, verdadeiros patamares. As encostas destes vales estão recobertas por caos de blocos de dimensões variadas, ligeiramente arredondados, e quase não é notada a alteração das rochas, demonstrando que atualmente os processos mecânicos de evolução do relevo são os que predominam nos setores mais elevados da unidade (RADAMBRASIL, 1983).

Quanto à Unidade Serranias da Zona da Mata Mineira, o relevo identificado possui formas alongadas, tipo cristas e linhas de cumeada. É sobre esta unidade que as partes urbana e rural do município de Alto Caparaó estão inseridas (figura 2). Os tipos de modelados mais comuns referem-se à dissecação diferencial, com predominância de índices de aprofundamento situados entre 268 e 344 m. A unidade é marcada por escarpas adaptadas às falhas, sulcos estruturais, grandes linhas de cumeadas e cristas simétricas alinhadas.

 Quanto à geologia, o município está inserido em três unidades geológicas: o Complexo Juiz de Fora, o Complexo Pocrane e Gnaisse Eugenópolis.

 

Figura 2: Unidade Serranias da Zona da Mata Mineira e  a cidade de Alto Caparaó.

 

De uma maneira geral, em Alto Caparaó, as rochas regionais (metamorfitos pré-cambrianos) acham-se representados por gnaisses, biotita gnaisses, migmatitos, quartzo biotita xistos, metaquartzitos e granitóides (Angeli, 1978). São encontrados no município Latossolos Vermelho-Amarelo e Cambissolo.     Em relação à vegetação, são encontrados no município, a Região da Floresta Ombrófila Densa, Floresta Montana, Floresta Alto-Montana, Região da Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Montana, Refúgios Ecológicos, Refúgios Ecológicos Alto-Montano, Vegetação Secundária, além de vegetação típica de pastagem.  A vegetação original, constituída de Floresta Montana, deu lugar à vegetação secundária sem palmeiras e pastagens, que revestem cambissolos, argissolos e latossolos, além de neossolos, resultantes da alteração dos charnoquitos e granulitos (RADAMBRASIL, 1983).

 

 

RESULTADOS

 

Uma informação importante é que, em Alto Caparaó, a população tem forte religiosidade, que fica evidente em uma simples caminhada pela cidade; são 28 igrejas evangélicas e duas católicas, e a importância da igreja na vida das pessoas é tamanha que muitos a vêem também como uma forma do escasso lazer local.

A relação entre as diversas denominações evangélicas e a igreja católica é forte e tranqüila. O Lar Batista para Idosos (única instituição de apoio à velhice, do município) foi fundado quatro anos pela Igreja Batista, que o mantém, com a colaboração das demais. Os serviços profissionais de manutenção dessa instituição, com exceção dos de enfermagem, que são cedidos pela Prefeitura, são todos voluntários, não se dando muita importância ao credo dos profissionais nem dos internos.

O município possui uma escola estadual e duas municipais, com uma extensão rural. Uma das escolas municipais é voltada para as classes de alfabetização e pré-escola (que não contabilizamos). Como ocorre em todo o país, foi possível verificar que a merenda é objeto de motivação para a freqüência escolar. Porém em certos períodos faltam alimentos e a escola pede aos alunos que os tragam de suas casas. Algumas peculiaridades podem ser citadas a partir de uma análise individual em cada escola:

A Escola Municipal José Emerich mantém 330 alunos de 1a a 4a séries em período diurno e curso noturno de alfabetização para adultos. A Escola Estadual Cel. Américo Vespúcio de Carvalho mantém 523 alunos de 5a a 8a séries e ensino médio noturno e apresenta alunos que estão enfrentando problemas com o repasse da bolsa-escola, devido à evasão na época de colheita do café, e desmotivação por parte dos pais dos alunos (problema comum às duas escolas entrevistadas). Ambas possuem projetos de meio ambiente em conjunto com o Parque Nacional do Caparaó. Em um outro prisma temos a observação da escola municipal. De acordo com as informações cedidas, a mesma possui um programa próprio de incentivo à reciclagem de lixo, em sua estrutura interna conta com computador (na diretoria), máquina para fotocópias, bem como vídeo e televisão para aulas especiais.

O índice de reprovação chega a 20% e é considerado baixo na média nacional em vistas às condições de vida dos alunos, em sua maioria carentes.

O quadro de profissionais da escola é composto por 25 professores distribuídos por turnos, sendo o maior número no período matutino e vespertino. Esses professores são residentes do município de Alto Caparaó, e participam do Projeto Veredas (visa ter todos os professores com nível superior até 2007). O projeto é Federal e tem por objetivo oferecer e incentivar a licenciatura superior para os professores efetivos. Para os professores que estão fazendo cursos graduação em Manhumirim ou Manhuaçú, bem como cursando alguma pós-graduação, a Prefeitura fornece transporte. Além de um programa de bolsa para os que freqüentam cursos de pós-graduação.

Na finalização das observações em campo, a relação quantitativa professor/aluno em números absolutos é tida como equilibrada.

O Município de Alto Caparaó não possui linhas de ônibus coletivo interno, apenas linhas intermunicipais. É servido de uma linha intermunicipal, sendo o início em Caparaó, passando por Alto Caparaó, Alto Jequitibá, Manhumirim e Manhuaçú A empresa que presta os serviços é a Viação Rio Doce. O preço da passagem varia de acordo com o trecho percorrido e é considerado adequado, segundo os moradores, à distância percorrida. Atualmente há ônibus a intervalos de 1 hora e 30 minutos.

Com relação à assistência médica prestada à população, o município é provido de apenas um posto de saúde, que funciona de segunda à sexta-feira, no horário de 8:00 às 17:00 hs. A qualidade do posto de saúde, em relação ao seu atendimento médico, foi uma das perguntas abordadas em nossos questionários e teve como resultados os dados indicados na figura 3.

 

Figura 3: Qualidade do atendimento médico, segundo as pessoas entrevistadas.

 

Casos de emergência que não possam ser atendidos no município, são remetidos por ambulância às cidades vizinhas. Segundo informações obtidas com a aplicação dos questionários, os atendimentos aumentam na época da colheita do café, devido principalmente a acidentes com as ferramentas utilizadas e também devido à acidentes com cobras, que costumam enrolar-se nos galhos dos pés de café, podendo vir a picar trabalhadores mais descuidados.

A cidade apresenta o programa de Agente Comunitário, tendo como objetivo analisar casos médicos, indo à residência das pessoas. Com o questionário aplicado a um agente comunitário, obtemos a informação de que os casos mais freqüentes observados por eles são: hipertensão, diabetes e gravidez. No que diz respeito às crianças, os casos de desnutrição, de acordo com a informação colhida, são poucos. O trabalho de Agente Comunitário já existe há seis anos e de acordo com a opinião do entrevistado, o programa está sendo um sucesso porque, indo às residências, eles conseguiram diagnosticar casos sérios de saúde e pediram à pessoa para dirigir-se ao posto.

A região apresenta uma sub-sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que fornece assessoria jurídica e informações gerais aos trabalhadores, com maior movimento de abril a setembro (época de colheita do café). O Sindicato atua também na defesa dos pequenos produtores e em projetos de conscientização de impactos ambientais no campo, com a divulgação de apostilas referentes à Legislação Ambiental Básica para Agricultores. Existe uma cooperativa de crédito rural (Credivap Ltda.), empresa privada formada pelos próprios produtores de café, que funciona como banco de atendimento para o pequeno produtor.

Água de boa qualidade para os diversos usos humanos e para dessedentar os animais, recolhimento e tratamento do esgoto residencial, industrial e de instituições, além de coleta e destinação adequadas dos resíduos sólidos, são itens mínimos para as condições de saneamento de qualquer cidade. A água distribuída à população pela Prefeitura é farta e de boa qualidade. Captada no Rio Caparaó, na área do Parque, acima da localidade conhecida como Vale Verde (1.300 m de altitude) e tratada. Não foi encontrado esgoto correndo a céu aberto. As casas mais afastadas da área urbana e distantes dos corpos d’água corrente possuem fossas do tipo sumidouro. As que estão mais próximas aos cursos d’água lançam seu esgoto diretamente e de maneira individual nesses cursos. Na área mais urbanizada, todo o esgoto é recolhido em linhas mantidas pela Prefeitura e descartado in natura no Rio Caparaó.

A cidade está em uma Área de Proteção Ambiental (APA), cuja regulamentação está direcionada para a definição de um zoneamento ambiental, que é a integração sistemática e interdisciplinar da análise ambiental ao planejamento dos usos do solo, com o objetivo de definir a melhor gestão dos recursos ambientais identificados, delimitando os parâmetros e as zonas de uso e ocupação, visando equilibrar a ocupação urbana com a preservação ambiental (Ministério do Meio Ambiente).

A maior parte da população desconhece a existência do depósito municipal de lixo (lixão) na área rural, a 1,5 km da área urbana (figura 4). O lixo de Alto Caparaó é coletado três vezes por semana em caminhão de 4 m3, que carrega em média 1.600 kg de resíduos por viagem, fazendo de três a quatro viagens por dia, dando uma média de 14.400 kg por semana. O mesmo é composto por resíduos orgânicos, entulho de construção civil, pneus, plásticos em geral, embalagens de agrotóxicos, resíduos de serviços de saúde, pilhas, resíduos de oficina mecânica, lâmpadas fluorescentes e papéis.

 

Figura 10: “Lixão” de Alto Caparaó.

 

Foi possível observar animais alimentando-se desses resíduos, tais como urubus, ratos, cães, porcos e cabras em grande número, cujo leite provavelmente é comercializado na região, assim como os porcos. Nas proximidades há algumas casas onde moram trabalhadores que cuidam de um cafezal plantado à jusante do “lixão”, que está colocado em um platô, provavelmente resultado de aplainamento de origem antrópica, frontal a uma cabeceira de drenagem em anfiteatro, que concentra todo o fluxo pluvial por sobre o lixão, já tendo ocorrido diversos acontecimentos de espalhamento desse lixo encosta abaixo, carreado pela água, atravessando o cafezal, terminando no Córrego Pinheiro, que está a mais ou menos duzentos metros encosta abaixo, e que é afluente do Córrego dos Tavares, que por sua vez deságua no Rio Caparaó.

O município de Alto Caparaó tem nas lavouras de café uma das suas atividades econômicas mais importantes, senão a principal. Na zona rural predominam as pequenas propriedades e o café é o principal produto. Planta-se também laranja, tangerina, feijão, arroz, amendoim, milho e alguns outros produtos, principalmente para subsistência. Poucas fazendas têm criação de animais e, de maneira geral, esses animais são de uso doméstico.

Das fazendas visitadas, apenas em uma a principal atividade é a pecuária (leiteira), sendo o leite fornecido a uma cooperativa regional. As demais fazendas têm o café como principal produto, no entanto, a produção anual em sacas é baixa, concentrando-se em até 300 sacas por ano (tabela 4).

 

  Tabela 4: Produção de café por ano (em sacas) das fazendas pesquisadas.

 

Produção de Café (sacas por ano)

Nº de Fazendas

1 – 100

2

100 – 300

7

300 – 1000

2

Superior a 1000

3

 

Os principais compradores do café produzido em Alto Caparaó estão no município vizinho de Alto Jequitibá, os quais fazem a seleção dos melhores grãos, classificam-nos segundo suas melhores características e depois revendem as sacas por preços que chegam a ser 100 vezes superiores àqueles pagos aos produtores.

O plantio e o manejo das lavouras de café apresentam-se em curvas de nível, rotação de culturas, morro abaixo, utilizando fertilizantes, corretivos químicos para o solo, pesticidas e reaproveitamento do restolho das culturas anteriores, assim como o estrume dos animais, utilizado como adubo.

Das 17 propriedades visitadas apenas seis contam com algum tipo de crédito rural ou subsídio, nove recebem assistência técnica, com a visita de um técnico rural da Emater, que vai às fazendas e presta consultoria quanto ao melhor tipo de café a ser plantado, formas de plantio, agrotóxicos e demais produtos que podem ou não ser utilizados nas plantações. Seis propriedades utilizam máquinas agrícolas durante a colheita e o posterior processamento do café, no entanto é preciso afirmar que essas máquinas têm de porte pequeno a médio.

A região da Serra do Caparaó apresenta intensa hidrografia, por isso a maioria das fazendas é atravessada por córregos ou têm nascentes dentro da propriedade. Das propriedades pesquisadas, 62% afirmaram que toda a água utilizada na propriedade para irrigação, consumo próprio ou dos animais, é proveniente dos rios que cortam as fazendas. Alguns fazendeiros afirmam preocupar-se com a proteção dos mananciais, porém os produtos químicos utilizados no café e o esgoto doméstico de grande parte das fazendas é jogado diretamente nos córregos e rios, contaminando-os.

Em toda a área rural não há coleta de lixo pela Prefeitura Municipal, por isso o material é enterrado, queimado ou juntado e posteriormente levado ao depósito de lixo. O uso do restolho das plantações anteriores ajuda a evitar tanto a erosão dos solos e conseqüente formação de ravinas e voçorocas quanto os movimentos de massa gravitacionais.

Duas propriedades com plantações de café estão buscando uma nova cultura, em função da crescente dificuldade da lavoura cafeeira – o morango. Visitamos uma dessas propriedades. O tamanho da fazenda é de 2,5 alqueires e a mesma conta com crédito rural e com a consultoria de um técnico agrícola. Segundo o proprietário o crédito obtido está sendo utilizado na implantação e também em melhorias da cultura do morango, que vem sendo plantado há uns dois anos; a média de produção está em 8.000 potes por ano, considerada razoável para a cultura. Segundo o fazendeiro, essa cultura exige espaços menores e também menos mão-de-obra. Os lucros são superiores aos do café e o uso de pesticidas, corretivos químicos e fertilizantes é muito menor. O atual mercado consumidor está principalmente nas cidades da região, como Manhumirim, Manhuaçú e Alto Jequitibá.

Seria o morango um substituto do café?

Para Tommasi (1994), “uma questão extremamente importante é que o conceito de impacto ambiental, como também o de poluição é, basicamente, um conceito antropocêntrico. Ele está calcado no efeito das ações humanas sobre os ecossistemas e envolve, também, os efeitos das mesmas sobre a própria sociedade humana e sua economia. É, por isso, que devemos entender que não há poluição natural e que, impacto ambiental, se refere às ações antrópicas, ainda que, devamos considerar estressores ambientais naturais, inclusive de grande efeito, como: inundações, secas, terremotos, furacões, etc”.

Na área rural de Alto Caparaó os principais impactos ambientais relacionam-se à cultura cafeeira. Segundo Hooke & Kain (1982) “as atividades humanas modificam o ambiente natural, impactando-o As principais atividades humanas que foram identificadas na literatura como causas de mudanças ambientais são as seguintes: uso da terra e práticas agrícolas, urbanização, drenagem, construções da engenharia e atividades industriais, podendo ser distinguidos efeitos diretos e indiretos”. A região rural do município encontra-se bastante degradada, apresentando grande quantidade de ravinas e voçorocas e, em alguns pontos, pequenos movimentos de massa, relacionados principalmente ao desmatamento.

A cultura do café é conhecida pelas suas ações impactantes e também pelos danos que ela provoca. As principais ações impactantes encontradas são:

Desmatamento;

Uso de agrotóxicos;

Queimadas;

Despejo de resíduos líquidos nos corpos d’água;

Deposição inadequada dos resíduos sólidos.

Os principais impactos ambientais relacionados à cultura cafeeira são:

Perda da diversidade vegetal e animal;

Erosão dos solos;

Perda de nutrientes dos solos e, conseqüentemente, da sua fertilidade, devido à erosão;

Assoreamento dos rios e diminuição do corpo líquido;

Poluição dos rios pelo carreamento dos agrotóxicos;

Poluição do ar e problemas respiratórios derivados das queimadas;

Problemas musculares nas pessoas que colhem o café, por ser uma atividade repetitiva, cansativa e “pesada”;

Intoxicação das pessoas que lidam com o café, devido à aplicação dos produtos químicos;

Aumento da velocidade do vento devido ao desmatamento.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Falta em Alto Caparaó saneamento, melhores condições econômicas, lazer, opções de trabalho fora das lavouras. O café começa a sentir os resultados de anos de uso excessivo do solo, que faz com que sejam necessários maior quantidade de insumos, que “pressionam” o meio ambiente e a concorrência, que baixa o preço ao produtor.

Os rios estão poluídos e assoreados, as florestas desmatadas, a zona rural erodida e os solos próximos do esgotamento, o que vem provocando danos às pessoas e ao meio ambiente, dificultando a manutenção das lavouras. Muito precisa ser feito, muita pesquisa ser realizada, outras aprofundadas, para que as condições sócio-ambientais da região possam ser melhoradas, resultando em melhor qualidade de vida e ganhos econômicos.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ANGELI, Nelson. “Pesquisa de calcário e caulim no Norte do Estado do Rio de Janeiro e sul do Estado do Espírito Santo e Serra do Caparaó (Minas Gerais)”. In: Anais do XXX Congresso Brasileiro de Geologia, Recife/PE, V.4, pp- 1718-1728. 1978.

 

BANCO DO NORDESTE. Manual de impactos ambientais: orientações básicas sobre aspectos ambientais de atividades produtivas. Fortaleza, Banco do Nordeste, 1999, 297 p.

 

COELHO, M.C.N. Impactos Ambientais em Áreas Urbanas – Teorias, Conceitos e Métodos de Pesquisa. In: Impactos Ambientais Urbanos no Brasil. Antonio José Teixeira Guerra, Sandra Baptista da Cunha (organizadores). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. Págs 19 – 45.

 

IBAMA. Parque Nacional do Caparaó. In: www.ibama.gov.br. Acesso em 20 de abril de 2003.

 

IBGE. Folha SF-24-V-A-I-3 (Manhumirim). Escala 1: 50.000. IBGE – Diretoria de Geodésia e Cartografia – Superintendência de Cartografia. 1a Edição, (1977).

 

IBGE. Censo demográfico 2000 – Resultados do universo – CD-ROM. 2000.

 

J. M. HOOKE; R. J. P. KAIN. Historical Change in the Physical Environment: a guide to sources and techniques (studies in Physical Geography). Butterworth Scientific, London, 1982.

 

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Legislação Federal de Meio Ambiente. In: www.mma.br. Acesso em 20 de junho de 2003.

 

PROJETO RADAMBRASIL. Folhas SF.23/24, Rio de Janeiro/Vitória. Rio de Janeiro, volume 32, 1983.

 

TOMMASI, LUIZ ROBERTO. Estudo de Impacto Ambiental. São Paulo: CETESB: 1a Edição, setembro de 1994, 354 p.