Voltar à Página da AGB-Nacional


                                                                                            

   

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

IMPACTOS AMBIENTAIS E ESTADO DE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DO CANAL DO SANTA BÁRBARA, MUNICÍPIO DE PELOTAS, R.S.*

 

 

SIMON, Adriano Luís Heck (geoadrisimon@bol.com.br) ¹;
GONÇALVES, Ana Maria Bertinetti Alves (ambag@bol.com.br) ²,
HILSINGER, Roni ²;
NOAL, Rosa Elena (rosa.noal@bol.com.br


 

Universidade Federal de Pelotas – UFPel – R.S

Curso de Geografia, Laboratório de Cartografia e Estudos Ambientais -LACEA. Projeto concluído.
 

 

 

 

Palavras-chaves: análise ambiental, recursos hídricos.

Eixo:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 




 

1.Introdução

 

 O presente estudo visa analisar a atual conjuntura ambiental do Canal do Santa Bárbara, localizado na área urbana do município de Pelotas. A ação humana ao longo do Canal foi ocasionando sucessivos processos de degradação, decorrentes de diversas formas de impacto ambiental, como as construções irregulares em área de preservação permanente, a emissão de esgoto doméstico e químico, além do depósito inadequado de lixo em vários pontos do curso. Segundo o Conselho Nacional do Meio Ambiente CONAMA, de acordo com o decreto nº 88.351, de 1º de junho de 1983, [...] considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas [...].

Este trabalho objetiva a identificação espacial das áreas onde se processam estas atividades de degradação e a sua intensidade ao longo do percurso do Canal, através da elaboração de um mapa temático. Segundo ALMEIDA, 2001, os recursos que permitem a representação das transformações constituem uma chave para o pensamento crítico sobre o espaço, e isto diz respeito à preservação ambiental. Desta forma, pretende-se auxiliar os órgãos competentes no sentido de uma maior fiscalização e melhor gestão dos recursos hídricos no município de Pelotas, além de colaborar para a estruturação de um banco de dados sobre o Canal do Santa Bárbara.

 Esta análise abrange diretamente as conseqüências da ação humana sobre o meio natural e também traduz a situação da população diante de sua exposição a condições de risco. De acordo com MENDONÇA (1998), a geografia, ao lado de algumas outras ciências, desde a sua origem tem tratado muito de perto a temática ambiental, elegendo-a de maneira geral, uma de suas principais preocupações.

 

 

2.Metodologia

 

A análise e interpretação dos dados, assim como a elaboração do mapa temático e a estruturação do banco de informações sobre o Canal do Santa Bárbara, foram desenvolvidas no Laboratório de Cartografia e Estudos Ambientais (LACEA), vinculado ao Departamento de Geografia e Economia ICH/UFPel, que vem promovendo pesquisas referentes à temática ambiental, buscando um envolvimento crítico-participativo dos alunos de graduação e pós-graduação nos assuntos que dizem respeito à geografia física.

Num primeiro momento, realizou-se o levantamento bibliográfico, fundamental para a compreensão dos aspectos físicos e humanos da área em estudo, assim como da dinâmica de modificação sofrida pelo Canal e a complexidade das problemáticas ambientais atuais. A utilização de fotografias aéreas dos anos de 1995 e 2003, na escala 1: 8.000, (concedidas pela Secretaria de Urbanismo-SEURB), possibilitou a caracterização de um panorama evolutivo das habitações irregulares nas áreas de preservação ambiental no entorno do Canal, além da identificação das áreas industriais, comerciais, habitacionais e áreas verdes.

As plantas cadastrais e mapas urbanos em diferentes escalas auxiliaram na delimitação e compreensão das áreas próprias e impróprias para a habitação, assim como na orientação e demarcação dos impactos ambientais, durante os percursos realizados nos trabalhos  de campo. As plantas originais do projeto de construção do Canal (concedidas pela Agência da Lagoa Mirim-ALM) e mapas topográficos da área urbana de Pelotas em diferentes escalas e datas orientaram na determinação do perfil e da profundidade média do Santa Bárbara.

Os trabalhos de campo, foram necessários para a constatação dos impactos ambientais provocados pela emissão do esgoto doméstico, de dejetos químicos e depósitos irregulares de lixo evidenciados nas fotografias aéreas, assim como o reconhecimento da estrutura e a classificação das habitações irregulares. Além disso, através do diálogo com os habitantes, foi possível compreender a situação destas pessoas que vivem em áreas de risco e sua interação com o Canal. O mapa base para a referência dos dados coletados nas saídas de campo foi obtido na SEURB e posteriormente digitalizado. A confecção do mapa temático foi efetuada no programa Corel Draw, com o auxílio do programa de melhoramento de fotografias e imagens MGI Photosuit. A caracterização das áreas de degradação e dos pontos de impacto ambiental ocorreu através da disposição de cores, símbolos, convenções temáticas e cartográficas, compreendidas por uma legenda.

 

 

3.Quadro Natural do Canal do Santa Bárbara.

 

O Canal do Santa Bárbara localiza-se no município de Pelotas, Estado do Rio Grande do Sul (figura 1A). Encontra-se numa área com altitude média de 7 metros em relação ao nível do mar e posição geográfica de 31°45’43” de latitude sul e 52°21’00” de longitude oeste, sendo o principal responsável pelo escoamento hídrico da bacia hidrográfica do Santa Bárbara. A maioria dos rios e arroios responsáveis pela drenagem desta bacia hidrográfica, possui suas nascentes localizadas nas encostas da parte leste do Escudo Cristalino Sul-Riograndense, na zona rural do município de Pelotas.

A área do Canal, assim como Pelotas é caracterizada por um clima subtropical úmido com invernos frios e verões brandos, sendo sua média anual de temperatura  igual a 17,6°C além de possuir uma precipitação pluviométrica (média anual)  de 1.249 milímetros  e ventos de velocidade média anual de 11 km/h , sendo  os maiores de setembro a dezembro com 14 km/h e os menores de abril a julho com 9 Km/h.

A vegetação predominante no entorno do Canal do Santa Bárbara é composta por banhados, que têm como função natural, a absorção das águas durante os períodos de chuva intensa, servindo como verdadeiras “esponjas” dentro de uma bacia hidrográfica. Também é constituída por gramíneas de porte baixo e médio (0,1 a 2 m), como a grama-forquilha e os juncos, por plantas aquáticas, como os aguapés, além de vegetações implantadas após a canalização do curso, (eucalipto, aroeira, chorão, entre outras), que tem grande importância na cobertura ciliar do Canal, impedindo, nas áreas ainda preservadas o seu assoreamento.  

 

       

 

Figura 1: Localização espacial do Município de Pelotas e do Canal do Santa Bárbara na área urbana do município.

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (modificado).

 

 

4.O Processo de Ocupação e as Transformações no Curso do Canal do Santa Bárbara.

 

A cidade de Pelotas teve sua urbanização influenciada principalmente pelo desenvolvimento das charqueadas, responsáveis pela produção do charque que alimentava grande parcela dos escravos das regiões Sul e Sudeste. Desta forma, os arroios  que circundam o município sempre tiveram um papel importante para o desenvolvimento do comércio local com outras regiões.

A proximidade das charqueadas em relação ao centro da cidade e sua importância no cenário econômico da região são destacados por MAGALHÃES (1998), pois o escravismo era o sistema dominante no Brasil e o charque, o principal alimento dos escravos, logo, a repercussão desses empreendimentos era muito grande. Basta lembrar que em  1820, já haviam 22 charqueadas funcionando no município, sobretudo às margens dos arroios no entorno da cidade.

O Código de Posturas da cidade de Pelotas do ano de 1834 era aplicado dentro dos limites urbanos da vila, até então situados à oeste no arroio Santa Bárbara,  e a leste na atual Rua Almirante Barroso. O traçado inicial das ruas em xadrez , seguiu a orientação norte/sul, leste/oeste.

Segundo SILVA, (2003), havia uma certa preponderância das ruas que cortavam a cidade no sentido norte/sul, sobre as que cortavam a cidade no sentido leste/oeste, sendo que as primeiras eram denominadas ruas principais, onde se localizava o comércio público e  as habitações de maior expressão, enquanto que as segundas denominadas de ruas transversais, abrigavam habitações de menor porte, sendo o comércio ali estabelecido considerado mais popular. Esta hierarquia das ruas norte/sul sobre as ruas leste/oeste, dava-se exatamente pela direção do escoamento das águas pluviais, como se pode constatar no artigo nº 63 do Código de Postura de 1834: “Sendo mais fácil o escoamento das águas da vila pelas ruas que estão de leste ao oeste, conforme o nivelamento dos edifícios e a inclinação dos terrenos...”, pois a oeste situa-se a várzea do arroio Santa Bárbara e a leste a várzea do arroio Pepino.

É exatamente este escoamento das águas superficiais que vai causar grandes transtornos para a população do núcleo urbano pelotense, mais precisamente para os moradores do entorno do arroio Santa Bárbara.

 

Com o crescimento da cidade de Pelotas, a área urbana aproximou-se da área do arroio e decidiu-se loteá-la. Esta urbanização ocasionou a retirada de parte de sua vegetação, que protegia a ação erosiva das águas pluviais. Abriu-se e pavimentou-se ruas , impermeabilizando o solo. Aterrou-se áreas, alterando a sua topografia e edificou-se prédios, impedindo o escoamento natural das águas. (SILVA, 2003, p.14).

As conseqüências deste processo de ocupação nas margens do arroio não tardaram a aparecer. A diminuição das dimensões do curso d’água trouxe sucessivas inundações e enchentes, que adquiririam proporções cada vez maiores a cada precipitação contínua. Segundo SILVA (2003), as maiores chegaram a atingir a cota de 10,50m em 1914 e 10,4m em 1941.      

 

A solução final, segundo o informe municipal, somente se daria com a canalização total do curso de água e a drenagem dos terrenos inúteis de sua planície, que se fariam valiosos e utilizáveis pela municipalidade, (História em Revista, 2001).  

De acordo com GUERRA & CUNHA (1994), a canalização é uma obra de engenharia realizada no sistema fluvial que envolve a direta modificação da calha do rio e desencadeia consideráveis impactos, tanto no canal quanto na planície de inundação. Existem diferentes processos que consistem desde o alargamento e aprofundamento da calha fluvial, à retificação do canal principal e a construção de canais artificiais e diques de contenção nas suas margens, além da remoção de obstáculos.

Desta forma, no início da década de 60, ocorrem as primeiras obras para a construção do novo leito do arroio Santa Bárbara, que iriam acabar por volta de 1966, dando origem ao novo curso do então Canal do Santa Bárbara. A área onde antigamente estava situada a calha do arroio, é hoje palco de várias outras inundações que ocorrem devido ao escoamento superficial natural, causado pela topografia do terreno. Nesta área estabeleceram-se moradias, além de prédios comerciais. Antigas pontes, por onde passam hoje importantes avenidas são os únicos resquícios do extinto curso do arroio Santa Bárbara.

O canal retificado inicia seu percurso logo após a Barragem Santa Bárbara que é mantida pelo Sistema Autônomo de Saneamento de Pelotas – SANEP, órgão responsável pela captação de água para o consumo de parte da população pelotense. Ao longo de seu percurso, atravessa a cidade desde a zona noroeste, passando pelos bairros Três Vendas e Fragata, até a zona sudeste, nos bairros Simões Lopes Neto e Padre Réus, vindo a desaguar no Canal de São Gonçalo (figura 1 B), possuindo uma extensão média de 3,8 Km e profundidade média variando de 1 m próximo a barragem a 3 m nas proximidades de sua foz.(figura 2).

 

 

Figura 2: Desenho representativo do perfil longitudinal e dos perfis topográficos do Canal do Santa Bárbara, desde a Barragem Santa Bárbara até o Canal de São Gonçalo.

Fonte: Própria/ desenho de Adriano Simon.

 

Tanto do lado esquerdo, como no lado direito, foram construídos dois pequenos “torpedos”** , que possuem a função de acumular a água da chuva e dejetos vindos dos bairros próximos para posteriormente serem bombeados para o leito principal do Canal.

A área do Canal do Santa Bárbara hoje é caracterizada por profundas problemáticas ambientais. A elevada incidência de moradias irregulares e todas as conseqüências deste processo, como o depósito irregular de lixo e a emissão acentuada de esgoto, são apenas alguns dos fatores que contribuem para o seu processo de degradação.

 

 

5.Caracterização dos Impactos Ambientais no Canal do Santa Bárbara.

 

O descaso com os recursos hídricos é notável em vários pontos da superfície terrestre. O desenvolvimento das cidades, assim como das rotas comerciais, sempre ocorreram levando em consideração o percurso realizado pelos rios, arroios e demais cursos d’água. Porém, a preocupação com a gestão e preservação dos mananciais passou a ser considerada ideal e necessária apenas após o mundo compreender que este bem comum é fundamental à vida e que principalmente, pode esgotar-se.

De maneira geral, várias são as formas de impacto ambiental que afetam diretamente as águas superficiais. O crescimento das aglomerações urbanas em torno dos cursos d’água, fez com que a população enxergasse no rio um local para o despejo dos resíduos produzidos por diversas ações diárias. Esta falta de consciência levou os rios a um processo de degradação ambiental intenso, sobretudo nos países em subdesenvolvimento, onde a industrialização se deu de forma acelerada e tardia, fazendo com que a sociedade não alcançasse um grau de progresso significativo.

De acordo com o Código Florestal – Lei 4.771, de 15.9.65, considerou-se como de preservação permanente as florestas e formas de vegetação natural situadas, entre outros locais, ao longo de rios ou de qualquer curso d’água. A lei diz ainda que cursos d’água com mais de 10 m de largura, como no caso da maior parte do Canal do Santa Bárbara, devem manter preservadas as florestas e outras formas de vegetação ciliar situadas numa faixa marginal de 50 m.

Apesar de todas as intervenções do estado, muitas pessoas apropriam-se de terrenos e ocupam porções de terra localizadas nas margens dos cursos d’água, geralmente construindo habitações de péssima qualidade, vivendo em áreas de risco e intervindo no escoamento superficial das águas. O Canal do Santa Bárbara, teve uma evolução drástica do número de ocupações e habitações irregulares nas margens de seu curso. Comparando fotos aéreas do ano de 1995 com fotos aéreas do ano de 2003, pode-se perceber um notável crescimento do número de habitações nas margens do Canal, sobretudo na área mais urbanizada por onde o mesmo atravessa a cidade. Concomitantemente a este processo de ocupação inadequada, existem as conseqüências trazidas pelo desenvolvimento indisciplinado destas moradias.

Os esgotos sanitários provenientes da falta de um sistema de tratamento de efluentes adequado, são eliminados diretamente no leito do Canal. Segundo BENETTI & BIDONE (1993), os esgotos sanitários apresentam uma composição praticamente uniforme, constituída primeiramente por matéria orgânica biodegradável, microorganismos (bactérias e vírus), nutrientes (nitrogênio e fósforo), óleos, graxas e detergentes.

Os resíduos sólidos, são aqueles que não apresentam mais nenhuma utilidade e são descartados pela população, geralmente em áreas abandonadas e terrenos baldios. Estes depósitos clandestinos podem ocorrer quando não há acesso dos moradores à coleta seletiva, ou simplesmente pela falta de conscientização. Durante o período de chuvas, são carregados pelas águas para dentro do leito do Canal, promovendo o entupimento em pontes e bueiros, além de causar sérios transtornos à população, principal responsável pelo seu manejo irregular.

Existem ainda as águas residuárias industriais, emitidas por pequenas, médias e grandes indústrias, além de postos de gasolina (água de lavagem dos tanques e carros),. BENETTI & BIDONE (1993) explicam que as águas residuárias industriais apresentam uma variação muito grande, e que são originadas de três pontos principais: águas de processo (que tem contato direto com a matéria prima do produto processado); águas de refrigeração e águas sanitárias (efluentes de banheiros e cozinhas).

Todos estes resíduos, sólidos ou líquidos, no momento em que são eliminados diretamente no curso d’água, podem causar alterações físicas, químicas e biológicas, dependendo da quantidade e da intensidade de sua emissão. Tais alterações podem corresponder ao aumento ou diminuição da temperatura da água, à quantidade de oxigênio dissolvido e à elevação ou queda de seu pH, influenciando na preservação da biodiversidade aquática e podendo afetar diretamente a saúde das populações que utilizam esta água em atividades diárias.

Segundo CHRISTOFIDIS (2002), nestas situações, a exemplo do corpo humano, o corpo d’água fica adoentado, enfermo, prejudicial ou nocivo à saúde. Assim, enfermo, com anormalidades, está doentio e pode, em decorrência disso, causar doenças, não sendo apto a todas as utilizações, especialmente às vinculadas à manutenção da vida. Sendo nocivo à saúde dos seres humanos e dos ecossistemas , pode causar doenças, mutações e até a morte das espécies. Essa debilidade ocorre pelos lançamentos de resíduos de esgotos sanitários e de indústrias/ agroindústrias, águas servidas quando sem tratamento compatível, ou quando o grau de recuperação não esteja em consonância com a capacidade de depuração do corpo receptor.

 

 

6.Identificação dos Pontos de Impacto Ambiental e Delimitação das Áreas de Degradação.

 

De acordo com as abordagens realizadas sobre os principais impactos ambientais que ocorrem ao longo do percurso do Canal do Santa Bárbara, a análise e interpretação das fotografias aéreas dos anos de 1995 e 2003 e principalmente com as observações e contatos realizados durante os trabalhos de campo, foi possível a delimitação de três zonas distintas quanto ao nível de degradação ambiental do Canal. Esta delimitação levou em consideração o total de área verde ainda preservada nas margens do curso, as agressões causadas pelas moradias irregulares, tanto no que diz respeito aos depósitos irregulares de lixo, como no que diz respeito às emissões de esgoto diretamente no Canal, além da qualidade das habitações, que conseqüentemente traduzem a qualidade de vida da população.

                A primeira zona (figura 3), localiza-se entre a Barragem Santa Bárbara e a Avenida Theodoro Muller. Trata-se do trecho mais preservado do Canal, pois não sofre diretamente com as ações impactantes, justamente por estar situado em uma zona onde as construções são rarefeitas. A largura média do curso neste trecho varia de 2 a 3 m, chegando a aproximadamente 10 m na altura da ponte da Avenida Theodoro Muller, onde a mata ciliar possui a extensão prevista pelo código Florestal. Durante os trabalhos de campo, moradores locais afirmaram pescar neste trecho do Canal, pois “ele ainda não é tão poluído como mais adiante”.

Porém, esta área apresenta vestígios de degradação ambiental, que colocam em xeque sua atual conjuntura de preservação. A Estação de Tratamento de Água Santa Bárbara é responsável pela emissão de ingredientes químicos utilizados no processo de tratamento da água, além de outras impurezas. No “torpedo” esquerdo do Canal, são despejados esgotos residuais de industrias, que apresentam mau cheiro estando provavelmente em contato com a matéria prima processada pela industria. As moradias irregulares nas margens do Canal são pouco significativas, mas apresentam uma evolução constante, não possuindo o mínimo de condições básicas como energia elétrica, água encanada e tratamento de esgoto. A emissão de lixo ocorre em vários pontos, principalmente naqueles próximos as habitações clandestinas e não é realizada apenas pelos moradores das margens do Canal.

 A segunda zona situa-se entre a Avenida Theodoro Muller e a BR 392 (figura 3). Durante este percurso, o Canal atravessa uma área densamente urbanizada, também caracterizada pelo grande número de atividades impactantes desenvolvidas pela ação antrópica. O aterro sanitário de Pelotas foi estabelecido às margens do “torpedo” direito do Canal, liberando todo o chorume  produzido diretamente nas águas do pequeno curso, como pôde ser constatado durante os trabalhos de campo. Também existe nas proximidades do Canal do Santa Bárbara, a Lagoa de Estabilização de Esgoto, mantida pelo SANEP, que recebe o esgoto doméstico de todo o bairro Fragata. Este esgoto passa apenas por um processo de estabilização, não recebendo nenhum tipo de tratamento, sendo lançado posteriormente, através de galerias subterrâneas, diretamente no “torpedo” esquerdo do Canal principal. A água e o esgoto armazenados nos dois “torpedos”, são periodicamente bombeados para o Canal do Santa Bárbara, causando uma hiper-concentração de dejetos orgânicos e inorgânicos que são levados pelo curso d’água. Além de tudo, outros pequenos arroios que passam por áreas urbanizadas da cidade também deságuam no Canal principal, trazendo todos os resíduos acumulados durante seus percursos.

O desrespeito ao Código Florestal é percebido com grande intensidade neste trecho onde Canal apresenta uma largura média de 15 m, sendo que a área de mata ciliar protegida não abrange os 50 m na maior parte do curso. A ocupação irregular não tem limites, e as moradias invadem as margens, sendo constituídas até praticamente dentro do Santa Bárbara. Formaram-se pequenas vilas que comportam um grande agregado populacional em vários pontos. As construções são precárias e não apresentam nenhum tipo de planejamento. Todas as pequenas vilas visitadas apresentam luz elétrica e água encanada, outras poucas, constituídas há mais tempo, são atendidas pela coleta de lixo, o que representa o consentimento da Prefeitura Municipal em manter esta situação. O esgoto doméstico tanto das construções irregulares, como de algumas construções regulares, é liberado a céu aberto diretamente no Canal do Santa Bárbara. As vilas e moradias que não são atendidas pela coleta de lixo, despejam o mesmo em terrenos baldios ou diretamente no Canal, como foi constatado nos trabalhos de campo. O forte odor e turbidez da água são características marcantes nesta zona do Canal, representando o seu nível elevado de degradação ambiental.

A terceira zona, estende-se desde a BR 392 até o Canal de São Gonçalo, e diz respeito ao percurso final do Santa Bárbara, situado fora da área urbanizada (figura 3). Neste trecho, a declividade do Canal é muito baixa, e suas águas seguem o regime do Canal do São Gonçalo. Isso faz com que em certos dias a água permaneça praticamente parada e não ocorra oxigenação necessária para evitar o processo de eutrofização. O mau cheiro e a elevada turbidez demonstram a quantidade de matéria orgânica e inorgânica carregada ao longo de seu percurso. A partir do momento em que o Canal do Santa Bárbara deságua no Canal de São Gonçalo, pode-se constatar o encontro das águas de coloração escura do primeiro, com as águas de coloração mais clara do segundo, formando uma mancha que corre em direção à Laguna dos Patos, demonstrando assim a alta concentração de efluentes citada acima.

A ocupação irregular nas margens do Canal ocorre com freqüência neste último trecho. Os moradores da área são formados por “papeleiros”, que vivem da coleta de materiais recicláveis, além de pescadores que realizam suas atividades na Laguna dos Patos. As habitações apresentam uma infra-estrutura muito deficiente, a água é canalizada desde o Clube de Caça e Pesca, localizado no final do percurso do Santa Bárbara. As pequenas vilas formadas neste trecho do Canal recebem energia elétrica e possuem iluminação nas ruas, porém não são atendidas pelo serviço de coleta de lixo e tratamento de esgoto. Desta forma todas as casas liberam diretamente o esgoto doméstico dentro do Canal, sendo que, em vários momentos este fato foi presenciado. O lixo dos moradores, assim como o lixo que não é enviado para a reciclagem tomam conta de grandes áreas e muitos habitantes locais reclamam da proliferação de insetos e pequenos animais (roedores, raposas), dizendo já terem sido vítimas de doenças como a leptospirose.

O mapa abaixo representa a atual conjuntura ambiental do Canal do Santa Bárbara. Foram caracterizadas as áreas verdes, áreas de ocupação regular e irregular, pontos de emissão de esgoto e depósito de lixo clandestino. O mapa também demonstra a localização espacial do Canal na área urbana de Pelotas e o seu traçado retilíneo

 

Figura 3: Mapa dos impactos ambientais no Canal do Santa Bárbara

Fonte: SEURB/ adaptado pelo autor

 

 

7.Considerações Finais

 

O Canal do Santa Bárbara é um dos pontos naturais de fundamental importância no processo de formação e desenvolvimento do município de Pelotas.

A falta de conscientização assim como o descaso dos órgãos públicos,  fizeram com que o Canal se transformasse em um grande problema ambiental que afeta diretamente a população pelotense.  As mudanças ocorridas em seu leito, não sortiram o esperado efeito no que diz respeito às enchentes na área do antigo curso.

Se o desenvolvimento do capitalismo, fez com que o curso do Canal fosse desviado em nome do progresso, agora são as conseqüências deste capitalismo mal estruturado nos países de terceiro mundo que agem, provocando sérios danos ambientais.

Sendo a única alternativa para várias famílias, a ocupação das áreas nas margens do Canal é cada vez mais constante e desordenada. Todo o processo que acompanha estas aglomerações irregulares traz ainda mais conseqüências perturbadoras ao meio ambiente.

Vários projetos de estabelecimento destes moradores em outras áreas foram e estão sendo estruturados, porém, falta uma política mais coerente que além da transferência, promova, com o auxílio de outras secretarias a criação de programas de desenvolvimento social integrado com as ações de planejamento ambiental. Segundo ROSS & DEL PRETTE (1998) “As questões ambientais tem sido tratadas de forma setorial e desvinculadas das questões sociais e econômicas”.

A consciência ambiental, que já vem sendo debatida e implantada pela Secretaria de Qualidade Ambiental do Município, é fundamental e necessária para a reversão destas problemáticas pelas gerações futuras. Apenas desta forma, poderá ocorrer a verdadeira preservação prevista nas áreas marginais dos cursos d’água, fazendo com que o Canal do Santa Bárbara, além de exemplo de conscientização e planejamento ambiental, seja exemplo de organização e políticas públicas de respeito ao meio ambiente.

 

 

Notas

 

* Trabalho de pesquisa desenvolvido na disciplina de Planejamento Ambiental.

¹ Autor e apresentador, acadêmico do curso de Geografia da UFPel.

² Autores, acadêmicos do curso de Geografia da UFPel.

³ Orientadora, coordenadora do Laboratório de Cartografia e Estudos Ambientais – LACEA/ICH/UFPel.

 ** Os torpedos, são dois canais laterais, paralelos ao Canal do Santa Bárbara, que tem a função de receber o excedente das águas pluviais, além de descargas de esgoto doméstico e industrial. Ao longo de percurso do Canal do Santa Bárbara existem bombas que possuem a função de conduzir a água e esgoto concentrados nos torpedos para o leito principal.

 

 

8.Referências bibliográficas

 

ALMEIDA, Rosângela Doin de. Do desenho ao mapa, iniciação cartográfica na escola. São Paulo: Contexto, 2001.

 

BELTRAME, Ângela da Veiga. Diagnóstico do meio físico de bacias hidrográficas: modelo e aplicação. Florianópolis: EDUFSC, 1994.

 

BENETTI, Antônio & BIDONE, Francisco. O meio ambiente e os recursos hídricos. In: TUCCI, Carlos. E. M. (org). Hidrologia: ciência e aplicação. Porto Alegre: EDUFRGS/EDUSP, 1993.

 

CHRISTOFIDIS, Demetrios. Considerações sobre conflitos e uso sustentável em recursos hídricos. In: THEODORO, Suzi Huff . Conflitos e uso sustentável dos recursos naturais.Rio de Janeiro: Garamond, 2002.

 

GUERRA, Antônio José Teixeira & CUNHA, Sandra Baptista da. Geomorfologia: Uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

 

________ Geomorfologia do Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

 

GRANZIERA, Maria Luiza Machado. Direito das águas e meio ambiente. São Paulo: Ícone, 1993.

 

HISTÓRIA EM REVISTA. Nº 1. Núcleo de Documentação Histórica. Instituto de Ciências Humanas. Pelotas: EDUFPel, 1998.

 

MAGALHÃES, Mário Osório. Pelotas agrícola e pastoril. História da associação rural. Pelotas: Editora Armazém Literário, 1998.

 

MEDEIROS, Rosa Maria Vieira. EIA-RIMA: Estudo de impacto ambiental. Porto Alegre: Metrópole, 1993

 

MENDONÇA, Francisco de Assis. Geografia e meio ambiente. São Paulo: Contexto, 1998.

 

MENEGAT, Rualdo. Atlas ambiental de Porto Alegre. Porto Alegre: EDUFRGS, 1998.

 

OLIVEIRA, Cêurio. Curso de cartografia moderna. Rio de Janeiro: IBGE, 1968.

 

Relatório de Projetos - SANEAMENTO DE PELOTAS - Novos estudos.1947, Pelotas, Of. Graf. Da Livraria do Globo S.A., 1950.

 

ROSS, Jurandyr L. Sanches & DEL PRETTE, Marcos Estevan. Recursos Hídricos e as Bacias Hidrográficas: Âncoras do Planejamento e Gestão Ambiental. Revista do Departamento de Geografia/FFLCH/USP. Nº 12, 1998.

 

________ Geografia do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2001.

 

SANTOS, Milton. Metamorfose do espaço habitado. São Paulo, Editora Hucitec, 1988.

 

SILVA, Ricardo Sache da. Arroio Santa Bárbara, a morte e o braço morto. Monografia de conclusão de curso. Pelotas: UFPel, 2003.