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E3-3.3T250

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

OS PRINCIPAIS PROBLEMAS AMBIENTAIS DECORRENTES DAS VIAS DE ACESSO NA APA DO GERICINÓ-MENDANHA (RJ)



 

 

Flávia Floriano Dutra. Estagiária Voluntária PIBIC/UERJ - flaviafdutra@ubbi.com.br

Sonia Vidal Gomes da Gama. Profª do Depto de Geografia/UERJ - svggama@ig.com.br

 



 

Palavras-chave: Unidades de Conservação, Trilhas e Gestão Ambiental.

Eixo:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

 

INTRODUÇÃO

A APA do Gericinó-Mendanha foi criada pela Lei Estadual n° 1.331/88 e totaliza uma área de 10.500 hectares acima da cota 100 no maciço que está situado no centro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ). Considerada Reserva da Biosfera pela UNESCO em 1996, necessita atualmente de Plano de Manejo adequado. Esta pesquisa está sendo realizada na vertente Sul do maciço voltada para a Zona Oeste do Rio de Janeiro onde se concentra mais de 1,6 milhões de habitantes (IBGE, 1996), caracterizando a expansão urbana dessa porção do território. Aí estão localizados empreendimentos de grande porte e de caráter institucional como o Lixão de Bangu, as Torres de Furnas, o Complexo Presidiário de Bangu, o Campo de Atividades do Exército dentre outros, que aliado ao crescimento desordenado vem contribuindo na intensificação da degradação ambiental da APA.

Destacam-se os desmatamentos pelas atividades extrativas e pelas alterações no uso do solo (a ocupação urbana avançando para áreas agrícolas e as áreas agrícolas avançando para a floresta), além de fontes de poluição nos principais rios que drenam para a Baía de Sepetiba (Gama, 2002; Costa, 2002; Ramalho, 1999; Costa et al, 2000; Gama, 2000; Moura et al, 2000; Costa, 1998;Gama, 1998) e, daqueles que drenam para a Baía de Guanabara (Egler et al, 2003).

Alguns indícios de comprometimento da cobertura vegetal estão sendo investigados nas trilhas pelo incremento da atividade turística (aumento do número de usuários/visitantes) e nas principais vias de acesso pelo contínuo fluxo de veículos (estrada de Furnas). O manejo de UCs e as diretrizes de uso e ocupação dos solos que visam o desenvolvimento regional e local não podem estar desarticulados do contexto geológico-geomorfológico e devem prescindir de estudos integrados ao sistema de gerenciamento dos recursos hídricos e do gerenciamento costeiro (Gama, Op Cit.; Costa, Op Cit.).

 

 

JUSTIFICATIVA

Atualmente, muitos são os fragmentos de floresta que estão protegidos por lei no país e que não estão livres de qualquer ameaça. São Unidades de Conservação (UCs) como Parques, APAS entre outros instrumentos normativos para conservação ambiental, e infelizmente, nem todas estão devidamente bem administradas ou mesmo fiscalizadas. Enfrentam inúmeros problemas em seus processos de legalização ou preservação, além de concorrerem em desvantagem, com a especulação imobiliária como forma alternativa do mercado ou de exploração do turismo como atividade econômica, acarretando por vezes a descaracterização ambiental e cultural (Gama, Op. Cit.). O Maciço Gericinó-Mendanha possui um importante potencial turístico ainda não aproveitado, principalmente no vale do rio Guandu do Sapê, como demonstra Ramalho (Op. Cit.) quando, ao estudar o potencial turístico da Zona Oeste, toma como exemplo o Maciço Gericinó-Mendanha. Existem, portanto, problemas físicos que ocorrem ao longo dos acessos e trilhas e que estão sendo pesquisados. Dentre os problemas decorrentes do uso de acessos e das trilhas sem prévio planejamento podemos ressaltar a deflagração de processos erosivos (Seabra, Op Cit.; Cifuentes, Op Cit.; Costa, Op Cit; Costa, 2003), o aumento do efeito de borda na floresta e aqueles decorrentes dos usos incompatíveis com o de preservação.

Este estudo está inserido no contexto do projeto “Vulnerabilidade ambiental e o processo de gestão integrada na APA do Gericinó-Mendanha – Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RJ)” em desenvolvimento no GEA – Depto de Geografia da UERJ.

 

 

OBJETIVOS

O objetivo geral dessa pesquisa é o de contribuir no processo de implementação do plano diretor e de gestão da APA do Gericinó-Mendanha (Zona Oeste do município do Rio de Janeiro), proporcionando um maior conhecimento sobre os impactos ambientais decorrentes principalmente das atividades diferenciadas nas encostas desse Maciço e sobre as transformações ambientais nas áreas circunvizinhas. Para tal são necessários os seguintes objetivos específicos: verificar a extensão e a largura dos acessos; identificar e mapear os usos ao longo desses acessos; investigar a ocorrência de processos erosivos e de impactos ambientais; identificar e mapear as alterações impostas pelos acessos à estrutura da vegetação; monitorar as atividades que provocam impactos ao meio ambiente; integrar e analisar os dados para compor diagnóstico da área de estudo e propor intervenções de recuperação e monitoramento adequado.

 

 

METODOLOGIA

A metodologia empregada fundamenta-se no estudo dos acessos (vias principais e secundárias, caminhos e trilhas) como unidade de análise ambiental, tornando-se fundamental para a caracterização da situação de unidade de conservação e, ao mesmo tempo, como unidade de manejo para sua recuperação.

Alguns estudos (Seabra, 1999; Costa, 2002; Gama 2002) destacam a escassez de trabalhos referentes aos impactos ambientais em unidades de conservação no Brasil e, igual deficiência no estudo dos impactos causados pela utilização indiscriminada dos acessos presentes nesses ambientes “protegidos”. Os acessos refletem, física e biologicamente, os diferentes usos que lhe são impostos e; os solos refletem o meio físico ou micro ambiente mais adequado a sua gênese de solo, ficando mais fácil prever a distribuição geográfica e as limitações para a ocupação urbana (Antunes & Barroso, 1988). Neste contexto, Peixoto et al. (1997) demonstraram a importância de se buscar uma unidade funcional geográfica que proporcione à resolução de problemas ligados à ocupação e à degradação ambiental, subsidiando o planejamento e, por conseguinte, a gestão.

Para a realização deste estudo é necessário o cumprimento de etapas como: caracterização física e biológica dos acessos (APA); caracterização do uso e ocupação dos solos (APA); identificação dos impactos ambientais (negativos) na APA; mapeamento dos impactos ambientais (negativos) na APA e o processamento e integração de dados.

Ao final deste trabalho espera-se reconhecer e caracterizar os acessos e trilhas da APA que potencializam a vulnerabilidade da unidade e contribuem para o processo de fragmentação do ecossistema de Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro.

 

 

RESULTADOS PRELIMINARES: O ACESSO A FURNAS

O primeiro acesso investigado é o da Estrada de Furnas que está totalmente no interior da APA, na vertente sul do Maciço Gericinó-Mendanha. Inicia-se na Estrada do Mendanha e é a única via que leva às torres de Furnas (sistemas de energia elétrica e de telecomunicações), acima da cota de 700m. É também um dos acessos das trilhas “Taperis” (Furnas - Cachoeira do Escorrega) e “Travessia” (Furnas-Campo Grande-Bangu) e de algumas ocupações como sítios de lazer, residências e um restaurante (Varandão da Serra). A estrada tem aproximadamente 7,5 km de extensão e sua largura varia de 7 (km 0, cota 100m) a 12 metros (km 7,5; cota >700m), segue em curvas e declives acentuados até o topo no Morro do Guandu. Nas cotas mais baixas a estrada percorre o solo Podzólico Vermelho-Amarelo, associado com o relevo suave ondulado a ondulado e nas cotas mais elevadas, percorre o solo Latossolo (segundo EMBRAPA, 1999). Em relação à declividade, inicia-se numa classe de declividade de até 5º, passando imediatamente para as classes de 15 a 30º, de 30 a 45º e superior a 45º o que indica áreas mais propensas a processos erosivos (cabeceiras de drenagem dos Rios Piabas, Bananal e Cachoeira, contribuintes do Rio Guandu do Sena e Rio da Prata no Mendanha).

Esta estrada corta a floresta tipo Mata Atlântica que se apresenta vulnerável frente à pressão de usos distintos como o da agricultura, lazer e turismo, além do uso institucional que justifica um fluxo mais intenso de veículos diariamente e não somente nos finais de semana. O estudo e monitoramento desse acesso são importantes para a compreensão do efeito de borda que está causando na floresta onde, num primeiro levantamento, já foram identificados e mapeados os usos, os processos, as linhas de drenagem e a ocorrência de bananeiras ou de espécies que denotam degradação no ambiente ao longo da estrada. São 35 pontos situados as margens da estrada que estão sendo monitorados e irão ser analisados em conjunto com outras ocorrências num buffer de 100 metros de cada lado da via.

BIBLIOGRAFIA

 

ANTUNES, F. S. & BARROSO, J. A importância da utilização das informações geológicos-geotécnicas no planejamento da ocupação territorial in Anais do Ciclo de Mesas Redondas: Impropriedades no uso do solo. Deptº de Geologia/UFRJ; Rio de Janeiro, 1988.

 

CIFUENTES, M. Determinación da Capacidad de Carga Turística en Áreas Protegidas. Fundo Mundial para a Natureza - WWF, Turrialba, Costa Rica, 1992.

 

COSTA, R.G.S. Mapeamento geo-ambiental do complexo Gericinó-Mendanha e áreas circunvizinhas - zona oeste do município do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado.PPGG/IGEO/UFRJ, Rio de Janeiro; 1998.

 

COSTA, S. M. Avaliação Geoambiental das Trilhas do Maciço Gericinó-Mendanha: Uma Proposta de Manejo. Monografia em Geografia. IGEO/UFRJ.Rio de Janeiro,2002.

 

COSTA, N. C. Análise do Parque Estadual da Pedra Branca (RJ) por geoprocessamento: uma contribuição ao seu Plano de Manejo. Tese de Doutorado, PPGG-UFRJ, Rio de Janeiro, 2002.314p.

 

EGLER et al, Zoneamento Ambiental da Baía de Guanabara in Proposta de Plano de Gestão Costeira para a Baía de Guanabara, MMA-ITPA, Rio de Janeiro; 2003.

 

EMBRAPA. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Centro Nacional de Pesquisa de Solos – Brasília: Embrapa Prod. Informações; Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 1999, 412p. GAMA, S. V. G. Contribuição Metodológica à Gestão Ambiental Integrada de Unidades de Conservação-O caso do Maciço Gericinó-Mendanha - Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro. Tese de Doutorado. PPGG/UFRJ. Rio de Janeiro, 2002.

 

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MOURA, J. R. S. et al. Modificações Sócio-Ambientais e Zoneamento de Risco na Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro. Relatório Final vols. 1 e 2. in: Projeto Interinstitucional Porto de Sepetiba. Rio de Janeiro: CFCH/UFRJ, 1999.

 

PEIXOTO, M.N.O.; SILVA ,T.M. & MOURA, J.R.S.Reflexões sobre as Perspectivas Metodológicas em Geografia Física. Revista da Pós-Graduação em Geografia. Rio de Janeiro: UFRJ/PPGG, semestral, vol. 1, set., 1997, 35-48 p.

 

RAMALHO, R. S. Análise Ambiental de Áreas Potenciais de Turismo na Zona Oeste - O Caso do Maciço Gericinó-Mendanha (RJ). Dissertação de Mestrado PPGG/UFRJ, Rio de Janeiro, 1999.

 

SEABRA, L. S. Determinação da Capacidade de Carga Turística para a Trilha Principal de Acesso à Cachoeira de Deus - Parque Municipal Turístico-Ecológico de Penedo, RJ. Pós-Graduação em Ciência Ambiental. Dissertação de Mestrado, Niterói: UFF, 1999.