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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

TURISMO E CONDIÇÕES DE BALNEABILIDADE NA ILHA DO MEL
(LITORAL DO PARANÁ)

 
Toni Laine Elias – Graduando em Geografia/UFPR - tiagovski@ibest.com.br
Janaína Martinez - Bacharel e Licenciada em Geografia/UFPR – jajanamar@ig.com.br
Cláudio Jesus de O. Esteves – Mestrando em Geografia/UFPR – claudiaojoe@ig.com.br


Palavras chaves: Ilha do Mel, balneabilidade, turismo
 

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.



 

I  - INTRODUÇÃO

  

Nos lugares onde deseja-se conservar o meio ambiente, o turismo pode representar importante alternartiva econômica, por se tratar,  a princípio, de atividade considerada como de baixo impacto ambiental. Infelizmente, nem sempre, as atividades turísticas se desenvolvem de forma harmoniosa com o meio ambiente, sendo inúmeros os exemplos onde prevalecem os interesses individuais, sobre os coletivos, e os econômicos sobre os sociais e ambientais.

Em diversos locais do litoral brasileiro o desenvolvimento do turismo ocorreu de forma desordenada, prevalecendo os interesses dos investidores em turismo e da especulação imobiliária. Nestes lugares as comunidades tradicionais foram expropriadas dos seus territórios, cedendo espaço a empreendimentos turísticos e casas de veraneio. Em relação ao meio ambiente este processo foi altamente degradante, especialmente no tocante aos manguezais,  recursos hídricos, e praias. Entre outros problemas, a implantação de sistemas de saneamento básico não acompanhou o ritmo do crescimento turístico e da ocupação proporcionada por esta atividade, ocasionando contaminação nos rios, manguezais, águas subterrâneas e praias.

A Ilha do Mel, situada na Baía de Paranaguá (litoral do Paraná), e suas localidades[1] se enquadram no contexto acima abordado. É grande a beleza cênica das paisagens naturais, as praias são lindas e proporcionam o banho e a prática de esportes como o surf e o mergulho. A população nativa é acolhedora e o ambiente é festivo. O ritmo do turismo é sazonal, sendo mais intenso durante a temporada de verão e feriados prolongados.

Nas áreas da Ilha do Mel onde é permitida a concessão de lotes e a construção de edificações o ritmo de ocupação foi intenso e totalmente desordenado. O desenvolvimento das atividades turísticas , a partir das décadas de 1970 e 1980, foi o principal motivo da densa ocupação local. O processo de ocupação teve como base a especulação imobiliária, com intensa comercialização de lotes e ritmo acelerado de construções destinadas ao turismo, muitas das quais em total desrespeito ao estabelecido em legislação.

Paralelamente ao processo de desenvolvimento turístico, e da ocupação originária desta atividade, ocorreu desagregação cultural e social da comunidade local e degradação da qualidade ambiental. Em relação aos recursos hídricos, a degradação se intensifica na medida que não existe nenhum sistema de coleta e tratamento de esgotos nas localidades ocupadas. Os dejetos sanitários das residências dos moradores, casas de veraneio e estabelecimentos comerciais são destinados às fossas ou, como é comum, são diretamente despejadas nos cursos hídricos. Os cursos hídricos, carregados de esgotos, desembocam nas comprometendo as condições de balneabilidade da água dessa bela praia.

Este trabalho que se encontra em fase de elaboração tem como objetivo relacionar as condições de balneabilidade das praias da Ilha do Mel com o fluxo de turistas que aumenta especialmente na temporada de verão. Para tanto serão analisados os boletins de balneabilidade emitidos pelo Instituto Ambiental do Paraná, que são feitos a partir de monitoramentos nas Praias conhecidas como Prainha dos Pescadores da vila de Encantadas e Praia do Farol, no período compreendido entre 01/12/2002 e 02/03/2002, confrontando estes dados com a legislação que trata a respeito das condições de balneabilidade nas águas brasileiras que estão expostas na resolução 274/2000 do Conselho Nacional de Meio Ambiente. Até o presente momento foram levantados dados a respeito da evolução do turismo, lançamento de esgotos e qualidade da água na vila de Encantadas, sendo que na seqüência estes dados serão pesquisados nas demais localidades da Ilha do Mel.

 

 

II - O TURISMO NA ILHA DO MEL

  

No começo do século XX a Ilha do Mel era o balneário de mais fácil acesso do litoral do Paraná. As praias da Ilha do Mel eram frequentadas pelas famílias ricas de Curitiba que lá possuíam casas de veraneio. Também próximo à Fortaleza existia um Hotel; “ Na década de 1920, a Ilha do Mel viveu tempos áureos, quando foi considerada efetivamente o primeiro recanto turístico do Estado do Paraná, (já contava com um hotel). No período do inverno, quando os perigos das doenças tropicais eram menores, as ilustres famílias curitibanas se dirigiam para lá.”(PARANÁ, 1996a, p. 24). Este fluxo de turistas se dirigia ao norte da Ilha do Mel, especialmente na região das proximidades da Fortaleza. Nesta época o turismo na região de Encantadas, tinha como atrativo a “gruta das Encantadas” e era fruto das excursões realizadas até esta localidade pelos turistas que  frequentavam a região da Fortaleza como relata FERNANDES (1985, p. 141):

 

Na década de 1940, da Fortaleza, onde ficava o balneário, até as Encantadas o percurso de 12 quilômetros era feito em três etapas: pela praia, até a boca do mato (mais ou menos cinco quilômetros); entre árvores até o Morro do Sabão, que bloqueava a trilha; escalada pisando barro preto e escorregadio, forçava uma descida não menos perigosa, à praia do Mar de Fora. A terceira parte entre trechos de areia úmida era a mais curta e terminava diante da grande abertura da Gruta. Nesta, segundo uma das lendas, tinham morado as três fascinantes moças que despertavam o amor dos pescadores com seus cantos e, depois, deixavam-nos afogar-se nas águas. Tal excursão era obrigatória ao bom frequentador da Ilha.

 

O turismo vai entrar em decadência na Ilha do Mel por causa da construção da estrada para os outros balneários paranaenses em 1926 (PARANÁ, 1996 a, p. 25) e principalmente devido a segunda guerra mundial: “Por volta de 1945, com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, acaba-se o apogeu da Ilha, que passou a ser considerada ‘Zona de Guerra’. Muitas casas foram então desapropriadas para dar lugar aos soldados que faziam plantão no local, já que a Ilha do Mel representava um patrimônio estratégico de defesa do patrimônio nacional”(PARANÁ, 1996b, v. 2, p. 62). Depois da guerra o turismo praticamente desapareceu “Assim, o movimento da Ilha foi decrescendo e ela tornou-se um lugar cada vez mais despovoado. Algumas famílias continuaram a frequentá-la, porém o movimento nunca mais voltou a ser o de antes da guerra.”(KRAEMER, 1978, p. 74)

Como exemplo deste crescimento, abaixo é apresentada a evolução do turismo na vila de Encantadas que se constitui na localidade mais densamente ocupada e para onde se destinam os maiores fluxos turísticos da Ilha do Mel:

O turismo na Ilha do Mel volta a crescer na década de 1970. A maioria dos turistas eram jovens que procuravam esta localidade devido a beleza de suas paisagens e praias. Também por ser um lugar, na época pouco habitado e sem policiamento sugeria liberdade  “De uns quatro a cinco anos é que começou a ser procurado por pessoas da cidade que geralmente acampam nas suas proximidades. Como a Ilha é estreita neste local, pode-se passar facilmente para o outro lado, em mar aberto. É a parte mais bonita deste trecho da Ilha, onde está a Ponta Encantada e trechos com pedras e grutas sem qualquer habitação.”(KRAEMER, 1978, p. 78).

Na década de 1980 a atividade turística se intensifica. Várias famílias de nativos começam improvisar campings em suas casas. Estudo realizado por KRAEMER, na Vila de Encantadas, em 1983 e citado em PARANÁ (1996b, v. 2, p. 62) detecta que “Registrou-se nesta época um aumento na quantidade de turistas que passaram a frequentar a Ilha, principalmente no verão”. Nesta época começa a crescer o número as casas de veranistas na Vila de Encantadas. A este respeito, no mesmo estudo, KRAEMER citada por PARANÁ (1996b, v.2, p.63) constata este fenômeno “...em observações realizadas em 1983, cita a presença de várias construções novas de casas de veranistas na Ilha, principalmente na região de Prainhas.”

Com o passar dos anos, nas décadas de 1980 e 1990, multiplicam-se os estabelecimentos comerciais direcionados às atividades turísticas; “Na região da Prainha também conhecida como Encantadas(...)Existem ainda 8 pousadas, 2 bares, 11 restaurantes, 8 lanchonetes, 9 campings particulares, 2 mercearias e 2 salões de baile”(PARANÁ, 1996a, p.69).

Segundo levantamento de campo realizado em janeiro de 2002 atualmente existem na vila de Encantadas 39 pousadas, 22 restaurantes (ou similares como bares e lanchonetes) e 28 campings . Ainda existe na região, no Mar de Fora, uma praça de alimentação composta por oito restaurantes. Apesar da localização desta praça de alimentação se encontrar fora da área de estudo, a mesma existe em função do turistas que frequentam a localidade da Vila de Encantadas.

O crescimento desta estrutura destinada às atividades comerciais relacionadas ao turismo, só foi possível diante de um quadro de intensa especulação imobiliária ocorrida durante as décadas de 1980 e 1990. Esta situação se estabeleceu diante de uma  situação de desrespeito à política fundiária e de ocupação, estabelecida em lei e no Plano de Uso da Ilha do Mel. A motivação dos compradores em primeiro momento foi o desejo de possuir casa de veraneio na localidade e posteriormente a possibilidade de lucrar com a exploração de estabelecimentos voltados à atividade turística como pousadas e restaurantes (ESTEVES, 2001, p. 56) fato este concretizado e materializado nos dias atuais.

O processo de comercialização dos lotes na vila de Encantadas foi iniciado pelos próprios nativos. Ao estudar a história desta comunidade não é difícil compreender porque isto ocorreu: A Vila de Encantadas, até o início da década de 1980 era habitada exclusivamente por pescadores que estavam inseridos em um processo de produção pesqueira onde a relação de trabalho, entre estes, e os proprietários do instrumentos para pesca e negociantes (os irmãos Valentim) do pescado, era de semi-escravidão. Muitos dos pescadores achavam que através do desenvolvimento das atividades turísticas se libertariam desta relação de trabalho, e da miséria, em que viviam como relata KRAEMER (1978, p. 57):

 

Os pescadores queixaram-se que a orientação do SPU que proíbe a construção de novos imóveis na Ilha do Mel está prejudicando-os. Com a construção de casas de turistas na Prainha eles teriam maiores oportunidades de comercializar seus produtos e não seriam tão dependentes do comerciante local. Poderiam ainda arrumar algum ‘bico’ em construção ou conserto de casas, além de empregos das suas mulheres como domésticas a exemplo do que acontece em Pontal do Sul, praia até pouco tempo desabitada ( há mais ou menos dez anos) ocupada por banhistas, fato que fez com que a vida dos pescadores de lá melhorasse.

 

O contato da população nativa com o turista urbano despertou, no primeiro, o desejo do consumo e do padrão de vida urbana. Este desejo foi alimentado pela popularização da televisão entre os nativos: “ Com a instalação da luz elétrica em 1988, além da implementação do serviço de barco de transporte, a população da Ilha passou a ter mais acesso a bens de consumo como TV, rádio, eletrodomésticos, mobiliário.”(PARANÁ, 1996b, v.2, p. 63). Para a concretização dos desejos, de consumo e busca do padrão de vida urbano, era necessário ter dinheiro. O dinheiro conseguido através da pesca, pequenos “bicos”, ou até mesmo exploração de campings era insuficiente, portanto uma alternativa encontrada foi a negociação de terrenos.

Este processo de especulação imobiliária ocorrido na vila de Encantadas se enquadra dentro do contexto analisado por AB’ SABER (1998, p.44) quando afirma que a costa brasileira ficou comprometida pelos negócios imobiliários tornando-se um espaço “superpartilhado” e, neste quadro,  as populações tradicionais foram induzidas à absorver os padrões de consumo da sociedade capitalista. O processo de especulação imobiliária no litoral ocorreu dentro de um sistema de trocas desiguais: de um lado espaços de grande valor, comprados a preços baixos, e de outro, vendedores ingênuos seduzidos pelo “poder do dinheiro”.

A atividade turística, do ponto de vista econômico, beneficiou principalmente o investidor “de fora” que domina a maior parte dos estabelecimentos comerciais (NETO, 1999) . Os nativos, apesar de alguns terem se tornado proprietários, geralmente realizam os trabalhos  pesados, ou aqueles considerados menos nobres como os carregadores e coletores de lixo; “Trabalham como barqueiros, fazem carretos internos, trabalham em serviços gerais de reparos e manutenção de residências, no comércio, como atendentes e cozinheiras. Em menor número, há donos de bares, restaurantes e pousadas. Um número significativo de mulheres prepara e vende pão, doces e salgados. Algumas lavam roupa e trabalham como empregadas em serviços gerais.”(PARANÁ, 1996a, p.43) . Também possuem baixo nível de instrução escolar  “...entre os nativos, a condição é bastante precária, pois mesmo parte significativa (...) que fez a 4a série (chefe de família, esposa) poucos mal conseguem ler e escrever...”(PARANÁ, 1996a, p. 49). Em relação a população nativa ocorreu forte desagregação cultural: “Os antigos hábitos, valores e atitudes da população foi gradualmente sendo trocado por um estilo de vida mais urbano. (...) A convivência cada vez maior com turistas, veranistas e pessoas de fora que mudaram-se para o local, fez com que hoje somente as pessoas mais idosas conservem alguns hábitos antigos e lembranças de como era a Ilha antigamente” (PARANÁ, 1996b, v. 2, p. 63).

Além desta progressiva perda de identidade dos nativos, outros problemas sociais surgiram; “Já entre os problemas ligados a população local, destacam-se o impacto sobre a sua cultura e modo de vida e a adoção de novos hábitos trazidos do meio urbano, como por exemplo, o consumo e a venda de drogas e o abandono das práticas tradicionais como a pesca.” (SILVEIRA, 1998, p. 228).

Do ponto de vista ambiental houveram muitas consequências negativas : “...destruição da flora e da fauna local, depredação das praias, acúmulo de lixo, falta de água potável e outros” (SILVEIRA, 1998, p. 228).

Em relação a água dos córregos, lençol freático e do mar, as conseqüências são lamentáveis devido ao fato de inexistir um sistema público de coleta e tratamento de esgotos. Estas questões serão análisadas nos capítulos seguintes, dando-se ênfase à questão relativa às condições de balneabilidade da Prainha dos Pescadores na Praia do Farol.

 

 

III -  O PROBLEMA DO SANEAMENTO (OU DA FALTA DE SANEAMENTO...)

  

Não existe na Ilha do mel sistema de coleta e tratamento dos esgotos. É comum o lançamento dos esgotos diretamente nos cursos de água. Levantamento de campo, realizado no mês de janeiro de 2002 na vila de Encantadas constatou a seguinte situação (segundo as respostas dos moradores, veranistas e comerciantes).

 

 

 

TABELA 1 – DESTINO DOS ESGOTOS RESIDENCIAIS  E COMERCIAIS NA VILA DE ENCANTADAS – 2002

 

DESTINO

QUANTIDADE

Rio/Mar

6

Fossa

129

Rio ou (e) Mar/Fossa

30

Sem Banheiro

8

Não Soube Responder

8

FONTE: Pesquisa de campo

 

 

            

Nos domicílios, onde a população declarou possuir fossas a grande maioria afirmou utilizarem fossas sépticas:

 

TABELA 2  – TIPOS DE FOSSAS UTILIZADAS NA VILA DE ENCANTADAS - 2002

 

TIPOS DE FOSSA
QUANTIDADE

Simples

35

Séptica

105

Simples/séptica

10

Séptica com tratamento

3

Não soube responder

6

                         FONTE: Pesquisa de campo

NOTA: Dados extraídos das respostas dos entrevistados que declararam destinar os esgotos às fossas.

 

Em pesquisa de campo com o objetivo de levantar os pontos de descarga de esgotos diretamente nos cursos da água e nos banhados da vila de Encantadas constatou-se grande número de pontos de descarga de esgotos sob duas formas. A mais comum é o cano despejando diretamente o esgoto do domicílio no curso d’água. A outra forma são valetas que passam por dois ou mais domicílios constituindo uma espécie de ponto de descarga de esgotos coletiva.

Um fato percebido em campo foi a omissão de informações por parte de muitos moradores. Em alguns domicílios, onde o entrevistado afirmou possuir fossa séptica e destinar todo o resíduo sanitário doméstico para a mesma, foi constatado a presença de canos ou valetas para o escoamento dos esgotos direto para os cursos da água. Também é comum (vide tabela 12) o esgoto do banheiro ir para a fossa e o da cozinha ter como destino os cursos d’ água.

Os esgotos despejados diretamente nos cursos d’água e a construção de fossas inadequadas ocasionam a contaminação do lençol freático e dos cursos d’ água. No ano de 2001 foi encaminhado um ofício, pelo Ministério Público do Paraná, ao IAP solicitando informações a respeito da contaminação do lençol freático da Ilha do Mel. Em resposta ao citado ofício, o IAP encaminhou resultados de análises físico-químico-bacteriológicas realizadas no ano 2000 em diversos poços tubulares da Ilha do Mel, dos quais dois  localizados na vila de Encantadas (PARANÁ, 2001). Nestas análises, diversos parâmetros atestaram padrões de contaminação ou a condição de água imprópria para consumo humano. ESTEVES (2002) em estudo sobre a degradação dos cursos d’água superficiais da vila de Encantadas atesta forte degradação sobre estes córregos. Um dado ilustrativo desta situação, foi a análise microbiológica de uma  amostra de água coletada no dia 12/02/2002 (Terça-feira de carnaval) no córrego conhecido como Rio da Ponte, onde se constatou a presença de 14.000.000 de coliformes fecais na referida amostra (Outra amostra coletada em 19/03/02, onde a presença de turistas era pequena, atestou a presença de 2000 coliformes fecais).

A água dos córregos, carregadas de esgotos, encontram-se com o mar. Isto vai contribuir com a contaminação da água da praia, afetando as condições de balneabilidade.

 

 

IV  - AS CONDIÇÕES DE BALNEABILIDADE DA PRAINHA DOS PESCADORES DA VILA DE ENCANTADAS E NA PRAIA DO FAROL

 

A Prainha dos Pescadores banha toda a extensão oeste da vila de Encantadas se localizando-se para o interior da Baia de Paranaguá de “frente” para o continente . Por ser uma praia com o mar pouco agitado é muito procurada pelos banhistas, especialmente crianças. Na Prainha, que tm uma extensão aproximada de 1 quilômetro, desembocam os cursos da água, em total de quatro, que formam a rede de drenagem superficial da Vila de Encantadas. A Praia do Farol localiza-se a uma distância aproximada de 5 quilômetros da Prainha dos Pescadores banhando a porção leste da localidade do Farol se localizando-se para a parte exterior da Baia de Paranaguá de “frente” para o “mar aberto”. Na praia do Farol, que tem uma extensão aproximada de dois quilômetros, deságua uma lagoa que recebe todo o sistema de drenagem superficial desta localidade. As condições de balneabilidade começaram a ser monitoradas, pelo Instituto Ambiental do Paraná, no final de 1996 e são realizadas entre os meses de dezembro e março na Prainha dos Pescadores da vila de Encantadas e na Praia do Farol (ESTEVES, 2002).

 

As condições de balneabilidade das praias brasileiras estão expostas na resolução 274/2000 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA). Abaixo é transcrito parte da lei que explícita esta questão:

 

Art. 2o As águas doces, salobras e salinas destinadas à balneabilidade (recreação de contato primário) terão sua condição avaliada nas categorias própria e imprópria.

§ 1o As águas consideradas próprias poderão ser subdivididas nas seguintes categorias:

a) Excelente: quando em 80% ou mais de um conjunto de amostras obtidas em cada uma das cinco semanas anteriores, colhidas no mesmo local, houver, no máximo, 250 coliformes fecais (termotolerantes) ou 200 Escherichia coli ou 25 enterococos por l00 mililitros;
b) Muito Boa: quando em 80% ou mais de um conjunto de amostras obtidas em cada uma das cinco semanas anteriores, colhidas no mesmo local, houver, no máximo, 500 coliformes fecais (termotolerantes) ou 400 Escherichia coli ou 50 enterococos por 100 mililitros

c) Satisfatória: quando em 80% ou mais de um conjunto de amostras obtidas em cada uma das cinco semanas anteriores, colhidas no mesmo local, houver, no máximo 1.000 coliformes fecais (termotolerantes) ou 800 Escherichia coli ou 100 enterococos por 100 mililitros.

§ 2o Quando for utilizado mais de um indicador microbiológico, as águas terão as suas condições avaliadas, de acordo com o critério mais restritivo.

§ 3o Os padrões referentes aos enterococos aplicam-se, somente, às águas marinhas.

§ 4o As águas serão consideradas impróprias quando no trecho avaliado, for verificada uma das seguintes ocorrências:

a) não atendimento aos critérios estabelecidos para as águas próprias;
b) valor obtido na última amostragem for superior a 2500 coliformes fecais (termotolerantes) ou 2000 Escherichia coli ou 400 enterococos por 100 mililitros;
(BRASIL,2000)

 

Na tabela 3 estão retratadas resultados qualitaivos destas análises conforme as categorias expostas na resolução 274/2000. As análises se refere ao parâmetro Escherichia coli:

 

TABELA 3 – Condições de balneabilidade na Prainha dos Pescadores da vila de Encantadas e na Praia do Farol no período compreendido entre 01/12/2002 a 05/03/2003.

 

Número do Boletim

Período da coleta

Condições de balneabilidade na Prainha dos Pescadores

Condições de balneabilidade na Praia do Farol

1

01/12/2002 a 15/12/2002

Excelente

Excelente

2

03/12/2002 a 26/12/2002

Imprópria

Excelente

3

08/12/2002 a 02/01/2003

Excelente

Excelente

4

10/12/2002 a 05/01/2003

Imprópria

Excelente

5

15/12/2002 a 12/01/2003

Imprópria

Muito bom

6

26/12/2002 a 19/01/2003

Imprópria

Muito bom

7

02/01/2003 a 26/01/2003

Imprópria

Muito bom

8

05/01/2003 a 02/02/2003

Imprópria

Muito bom

9

12/01/2003 a 09/02/2003

Imprópria

Excelente

10

19/01/2003 a 16/02/2003

Imprópria

Excelente

11

26/01/2003 a 23/02/2003

Imprópria

Excelente

12

02/02/2003 a 05/03/2003

Imprópria

Excelente

   Fonte: PARANÁ (2003)

 

Ao se analisar a tabela 3 observa-se que as condições de balneabilidade são piores na Prainha dos Pescadores. Nesta praia ficam evidentes a degradação ocasionada pelo turismo nas condições balneabilidade visto que as situações em que a água apresentou melhores condições coincidem com períodos de menor fluxo de turistas. Estes períodos de coleta (período 1 e 3) se relacionam ao início do mês de dezembro e das festas de final de ano onde o fluxo de turistas ainda não é significativo visto que não se iniciaram as férias escolares (ESTEVES, 2002) e apresentaram condições excelentes. As coletas realizadas nos períodos de maior fluxo de turistas (Excetuando o período dois todos os demais, ou seja, o 4,5,6,7,8,9,10,11 e 12) apresentaram condições impróprias para banho e se relacionam à época de maior fluxo de turistas que vai do feriado de ano novo até carnaval (ESTEVES, 2002). Na Praia do Farol o fluxo de turistas, em relação as condições de balneabilidade apresentadas na tabela 3 não afetaram a qualidade de água no período abordado a ponto de proporcionar condições insatisfatórias de banho, visto que as coletas registraram situação consideradas próprias (Excelente e Muito Bom). Pode-se inferir uma certa influência na alteração da qualidade da água pelas atividades turistícas visto que nos períodos de coleta coincidentes as épocas do feriado de ano novo apresentaram aumento da quantidade de coliformes fecais visto que as condições de balneabilidade oscilaram de excelente para muito bom.  

               

 

           

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Conforme explanado neste trabalho, através dos dados apresentados, nos momentos de grande fluxo de turistas comprometem as condições de balneabilidade da Prainha dos Pescadores apresentando condições insatisfatórias para o banho, o mesmo não ocorrendo na Praia do Farol. Em relação a Prainha dos Pescadores este fato pode ser explicado pelos lançamentos de esgotos nos seus córregos e desta água contaminada no mar conforme exposto no capítulo 3 onde foram verificados grande número de pontos de descarga dos efluentes líquidos nos córregos citados. O porque da diferença observada em relação a uma praia, no caso a Prainha dos Pescadores, e outra, no caso a Praia do Farol requer estudos mais aprofundados visto que na localidade do Farol, a exemplo da vila de Encantadas, não existe sistema público de coleta e tratamento de esgotos. Na seqüência deste estudo algumas hipóteses serão verificadas para tentar explicar esta situação: a) A quantidade e a densidade de turistas que tradicionalmente é maior na vila de Encantadas; b) a dinâmica do movimento das águas que difere de uma praia para a outra visto que a praia do farol apresenta maior quantidade de ondas e se localiza voltada para o mar aberto; c) destino dos esgotos na região do farol.

Para a resolução dos problemas relacionados a qualidade da água na Ilha do Mel, especialmente na vila de Encantadas, a principal medida, sem dúvida , é a implantação de um sistema de saneamento básico, com coleta e tratamento de esgotos. Este sistema deve ser adaptado às condições do ambiente local, e para tanto devem ser realizados estudos e debates com a comunidade e pesquisadores para buscar o sistema mais adequado. É importante ressaltar que a implantação de um sistema de saneamento na localidade não pode onerar financeiramente toda a sociedade local, visto que, conforme analisado nesta pesquisa, o maior impacto sobre os recursos hídricos advém das atividades turísticas, sendo portanto os empreendedores, que lucram com esta atividade, os grandes responsáveis pelo pagamento de possíveis custos envolvidos em tal empreitada. Ao Estado cabe financiar e depois estudar a melhor forma dos gastos serem ressarcidos.

Por quanto o sistema de saneamento não seja implantado deve-se estabelecer uma nova capacidade de suporte para a localidade:

 

A capacidade de suporte ou capacidade de carga, termo oriundo da Ecologia, é a capacidade de sustentação de um ambiente qualquer, para que uma população estável se mantenha em equilíbrio indefinidamente.

A capacidade suporte de uma região, no que diz respeito à ação antrópica, está relacionada com o limite de ocupação humana e o impacto das atividades econômicas. Estas sempre alteram o ambiente, e raramente de modo favorável, a médio e longos prazos.

 

Do ponto de vista do turismo, refere-se ao grau de exploração que os recursos naturais podem suportar, acrescido da infra-estrutura disponível, de modo não afetar o ambiente e proporcionar e um mínimo de conforto a moradores e visitantes.(PARANÁ, 1996 a, p. 101)

O Plano de Gestão Integrado da Ilha do Mel indicava uma capacidade de suporte para a Ilha  “...de aproximadamente 4000 pessoas.”(PARANÁ, 1996a, p. 104). Atualmente é permitida a entrada de 5000 pessoas. Estes números devem ser revistos e mensurados a partir da realidade ambiental das localidades da Ilha do Mel. Estabelecer a capacidade de suporte para cada localidade, como a vila de Encantadas, pode não surtir efeito prático visto que as pessoas costumam circular por toda a Ilha. Diante desta realidade deve-se fazer um estudo global na Ilha do Mel, para chegar a um número de visitantes que, somados à população fixa, não comprometa o meio ambiente de cada localidade, se por um acaso um percentual elevado de pessoas resolvam em um mesmo momento se concentrar em um determinado local ( O que é perfeitamente possível de acontecer, por exemplo, em um campeonato de surf ou em algum show  de forte apelo popular).

Alguns parâmetros que podem ser levados em consideração para determinar a capacidade de suporte são: A capacidade de abastecimento de água potável; A observância dos limites máximos, permitidos na lei, em relação à parâmetros microbiológicos, físicos e químicos para as águas, sendo que para isto deve-se equilibrar o número de visitantes à capacidade de autodepuração dos recursos hídricos, para que os mesmos se mantenham dentro destes limites.

Gradualmente, a partir do momento que haja implantação de infra-estruturas de saneamento, abastecimento de água, coleta de esgoto e outras medidas, esta capacidade de suporte pode ser revista, desde que se mantenha os princípios ambientais pelos quais esta foi determinada.

Abaixar o limite de visitantes na Ilha do Mel, se por um lado traria melhorias ambientais, por outro pode causar problemas sociais visto a dependência criada, pela economia local, das atividades turísticas. Portanto deve-se traçar estratégias de diversificação das atividades econômicas no local. Este processo inicia-se com a melhoria das condições de ensino na Ilha e requer estudos sobre outras potencialidades econômicas que poderiam ser desenvolvidas na região. Uma alternativa que poderia ser estudada, por exemplo, é a criação de ostras e mariscos.  Evidentemente que para tal objetivo ser atingido é fundamental a participação do Estado, principalmente porque este esforço deve ser direcionado para os nativos, que em sua maioria não dispõe de recursos para investimentos.         

O turismo na vila de Encantadas (e em toda a Ilha do Mel) deve ser praticado sob a ótica do Ecoturismo. Um projeto de Ecoturismo, se for implantado corretamente, prevendo e ao mesmo tempo se precavendo contra possíveis danos ambientais, pode ser capaz de conciliar o desenvolvimento econômico local com a conservação do meio ambiente .

A prática do ecoturismo deve ter como princípio básico a educação ambiental. Segundo SILVEIRA (1996, p. 10) “Sem dúvida, somente a perspectiva pedagógica será capaz de instituir e educar as pessoas no sentido de estimular a convivência harmoniosa entre homem/natureza. Entendida como um processo de formação e informação , que visa desenvolver uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e ativa na preservação do meio ambiente, a educação ambiental deve estar intrinsecamente vinculada a prática do ecoturismo”

A prática de educação ambiental deve envolver moradores, turistas e comerciantes, pois somente com a participação de todos será possível melhorar as condições ambientais da vila de Encantadas e de toda a Ilha do Mel.

 

 

NOTA

 

[1] Vila de Encantadas, Praia Grande, Farol, Nova Brasília, Fortaleza e Ponta Oeste.

           

 

 

VI -  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  

AB’ SABER, A.N. Bases conceptuais e papel do conhecimento na previsão de impactos. In:_____; Muller-Planteberg, C. (Orgs.). Previsão de Impactos: O estudo de impacto ambiental no Leste, Oeste e Sul. São Paulo: EDUSP, 1998.

 

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