Voltar à Página da AGB-Nacional


                                                                                            

   

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

LIMNOLOGIA DO RESERVATÓRIO DA USINA HIDRELÉTRICA DONA FRANCISCA – RS

 

 

 

 

Strassburger, Luciane[1] (strassburger@mail.ufsm.br); Pereira Filho, Waterloo[2] (waterloo@base.ufsm.br) – Universidade Federal de Santa Maria

Departamento de Geociências

 

 

 

Palavras-Chave: limnologia, reservatórios, Dona Francisca

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

[1] Acadêmica do Curso de Mestrado em Geografia / UFSM

[2] Professor do Departamento de Geociências / UFSM




 

INTRODUÇÃO

 

Hoje sabe-se que a água é um recurso esgotável e que sua demanda cresce a cada dia com o aumento da população e dos meios de produção na busca de tecnologias mais avançadas e de lucro. Com isso, torna-se de fundamental importância a conservação dos recursos hídricos disponíveis para o consumo humano, pois apenas uma pequena parcela pode ser utilizada pela população, ou seja, a água de fácil acesso à humanidade representa uma pequena parcela do total da água disponível no planeta. Os problemas de escassez da água começaram a surgir principalmente a partir da década de 50, ameaçando a sobrevivência das populações e do ambiente favorável à vida na Terra (Rebouças, 1999). Este quadro, deriva do crescimento desordenado da demanda e dos processos de degradação da sua qualidade principalmente através do lançamento de esgotos, resíduos industriais e lixo nos mananciais de água potável.

Dentre os problemas enfrentados pela falta de água está a falta de energia elétrica, já que grande parte desta é gerada através de usinas hidrelétricas, portanto, a diminuição dos índices pluviométricos ocasiona a diminuição de volume de água nos reservatórios das usinas, o que vem propiciar a diminuição da geração de energia acarretando problemas para a população de um modo geral e para a produção industrial.

A conscientização dos povos em relação à falta de água, fez com que a água que não possuía nenhum valor econômico, com o tempo, entrasse para o grupo dos bens economicamente preciosos, ou seja, a água já tem um valor financeiro que deverá crescer no tempo e desencadear muitos problemas sociais, políticos e econômicos.

Contudo, as atividades humanas estão ocasionando deterioração na qualidade da água, pois esta muitas vezes serve como depósito de resíduos indesejáveis à população, além de nas áreas rurais receber grande aporte de materiais, como solo, galhos e defensivos agrícolas utilizados nas lavouras, causando grandes alterações físicas e químicas, ou seja, alterando sua qualidade.

O Brasil é um país privilegiado quanto à disponibilidade de recursos hídricos, possui 12% do total mundial, mesmo assim enfrenta problemas devido a heterogeneidade de distribuição dos recursos, ou seja, apresenta regiões com grande abundância de água e outras em que este recurso encontra-se escasso durante quase todo ano (Hespanhol, 1999). No Brasil, está sendo amplamente utilizada a construção de barragens em rios com a finalidade de armazenar água para diversos fins, como o aumento da oferta de energia para o desenvolvimento industrial e o incremento na produção de alimentos através de projetos de irrigação. Além disso, a construção de reservatórios estimula a prática de atividades de recreação, incluindo pesca, banho e navegação com embarcações de pequeno porte à vela e a motor.

Devido ao grande potencial hidroenergético brasileiro, a construção de grandes barragens tem sido intensificada a partir da década de 50 (Kelman et al, 1999). O Rio Grande do Sul devido às condições de relevo favoráveis (rios declivosos) apresenta em seu território diversas barragens, as quais visam principalmente o abastecimento energético e conjuntamente o desenvolvimento do turismo, a utilização da água para abastecimento urbano e para irrigação na agricultura. No estado do Rio Grande do Sul, a exploração agrícola intensa e o uso de tecnologias avançadas, porém sem o cuidado de preservar o solo e as matas ciliares, tem proporcionado processos de lixiviação dos solos e conseqüentemente de alterações na qualidade da água de seus rios e lagos naturais e artificiais, reforçando a importância do estudo da qualidade de seus mananciais de água que tem importância fundamental na geração de alimentos, abastecimento doméstico e geração de energia.

A construção de um reservatório de água altera significativamente as condições naturais de uma determinada secção de um rio, proporcionando modificações  no ritmo e na vazão, tornando locais de correnteza em ambientes lênticos, o que vem acarretar mudanças nas características físicas da água, bem como na fauna e flora locais e áreas circunvizinhas. O desvio da água, reduzindo a vazão do rio, prejudica a vida aquática e terrestre, ocorrendo modificações nas variáveis limnológicas, como por exemplo, as taxas de oxigênio, o total de sedimento em suspensão, o surgimento de termoclina, entre outros (Tundisi et al, 1999).

As características gerais da área inundada, como cobertura do solo, geologia, geomorfologia, clima, uso agrícola e idade de construção do reservatório proporcionam condições favoráveis para o estudo das características limnológicas, devido a passagem do ecossistema lótico para lêntico, pois a retomada da estabilidade do ecossistema aquático é dependente da intensidade da exploração dos recursos do ecossistema terrestre inundado (Pereira Filho, 2000).

A qualidade da água de um reservatório está relacionada com a conservação da vida nos ambientes terrestre e aquático e depende das condições da área inundada. Áreas inundadas onde a presença de florestas era intensa e que não houve sua remoção antes da formação do reservatório de água, pode ocasionar um acelerado crescimento das plantas aquáticas e a eutrofização do reservatório devido a grande decomposição de folhas e galhos de árvores ocasionando a morte da ictiofauna, bem como a proliferação de mosquitos no ambiente terrestre.

Assim, pode-se destacar a influência do ecossistema terrestre nas características limnológicas da água de um lago artificial, pois de acordo com a forma da retirada da vegetação antes de sua formação e o tipo de uso da terra no seu entorno ocorrem alterações em características limnológicas da água como o Total de Sedimentos em Suspensão (TSS), a profundidade Secchi, a Condutividade Elétrica e o PH, características estas que são muito importantes para a manutenção da vida no ecossistema aquático (Branco e Rocha, 1977; Odum, 1988).

A quantidade de luz disponível no ecossistema aquático influencia diretamente no seu metabolismo (Pereira Filho, 2000). A porção iluminada da coluna d’água é denominada zona eufótica e pode variar desde alguns centímetros até dezenas de metros. A maneira mais simples de avaliação da transparência da água é através do disco de Secchi (Esteves, 1998). Entretanto, os melhores resultados e fidelidade dos dados depende de várias condições, como: o horário da medida, a rugosidade da água, a cobertura de nuvens, a precipitação e a própria condição interna da água, sendo que as águas mais turbidas tendem a subestimar o coeficiente de atenuação da luz, devido a dispersão da luz ser muito intensa (Esteves, 1998; Kirk, 1996; Pereira Filho, 2000).

O valor do disco de Secchi é importante pois representa relação direta com a transparência da água, a qual é fundamental para a reprodução da vida no ecossistema aquático.“O valor do disco de Secchi expressa uma relação direta com a transparência da água, sendo que quanto menor for a transparência da água, menor será a profundidade em que é possível a visualização do disco, devido a maior dispersão da luz” (Pereira Filho, 2000). Por outro lado, o valor do disco de Secchi é inversamente proporcional à quantidade de compostos orgânicos e inorgânicos no percurso da luz e ao coeficiente de atenuação da irradiância (Esteves, 1998; Kirk, 1996).

Contudo, apesar de haver alguns fatores limitantes o disco de Secchi é amplamente e quase universalmente utilizado, devido principalmente a sua facilidade de transporte e obtenção dos dados, o que proporciona comparações de dados de diversos trabalhos realizados em diferentes países e zonas climáticas (Esteves, 1998).

Outra importante característica limnológica é o Total de Sedimentos em Suspensão (TSS), pois “a concentração de sedimentos em suspensão está normalmente relacionada com a forma de uso da terra, os solos, a geomorfologia e a geologia das bacias hidrográficas que drenam aos reservatórios” (Pereira Filho e Galvão, 1997). O aumento do material em suspensão na água advindo do uso inadequado do solo e de práticas agrícolas antiquadas e suas conseqüências como: redução da zona eufótica, redução da concentração de oxigênio, redução do fitoplâncton e mortandagem de macrófitas e da ictiofauna é destacada por Tundisi et al. (1999).

Os sedimentos em suspensão podem ser opacos ou transparentes, coloridos ou incolores e estão diretamente relacionados com a disponibilidade de luz no ecossistema aquático (Branco, 1978; Pereira Filho, 2000). A concentração de sedimentos pode interferir na sobrevivência da flora e fauna aquáticas, pois em condição de elevada concentração de sedimentos, ocorre queda acentuada na disponibilidade de energia para realização do metabolismo aquático, além de as partículas de sedimento coloridas ter capacidade de absorver ou refletir a luz, dando origem a uma cor aparente da água (Pereira Filho, 2000; Curran e Novo, 1988; Branco, 1978).

O pH (Potencial Hidrogeniônico) é importante porque as alterações nos seus valores podem vir a afetar o processo de tratamento da água, alterações químicas no solo das áreas alagáveis e na vida aquática, principalmente dos peixes. O pH tem uma escala que varia de 0 a 14. Na água onde os valores de pH são menores que 7 esta água é considerada ácida; quando temos o pH igual a 7, a água é considerada neutra e onde os valores de pH maiores que 7, a água é considerada básica. A Organização Mundial da Saúde recomenda teores máximos de pH para água de consumo variando entre 7,0 e 8,5 e em mananciais para tratamento convencional valores variando de 6,5 a 9,2 (Esteves, 1998; Tucci, 1993). Para Odum (1988): “Solos e águas ácidos (pH inferior a 7) são geralmente característicos de regiões situadas sobre rochas ígneas e metamórficas; águas e solos alcalinos ou “duros” ocorrem em regiões com substratos calcáreos ou similares.”A presença de certos tipos de despejos eventualmente acumulados em lagos pode afetar profundamente o pH influenciando negativamente a fauna e flora aquáticas (Branco e Rocha, 1977). Isso reforça a importância da preservação dos mananciais de água quanto aos poluentes que neles são despejados.

Considerando que a construção de um reservatório de água causa alterações importantes nas características dos meios aquático e terrestre, as quais vão atingir a qualidade da água e a vida nos respectivos ecossistemas, este trabalho propõe os seguintes objetivos:

Objetivo Geral:

·                    Identificar e analisar variáveis limnológicas do reservatório da Usina Hidrelétrica Dona Francisca/RS.

Objetivos Específicos:

·                     Caracterizar limnologicamente o reservatório da Usina Hidrelétrica Dona Francisca, através das seguintes variáveis: profundidade Secchi, Total de Sedimentos em Suspensão (TSS) e pH (Potencial Hidrogeniônico);

·                     Identificar possíveis relações entre o padrão limnológico de cada compartimento aquático com as características físicas da área periférica ao reservatório.

 

CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA DE ESTUDO

 

A usina hidrelétrica Dona Francisca (Figura 1) faz parte do sistema Jacuí de geração de energia. Localiza-se nos municípios de Agudo e Nova Palma (Região Central do estado do Rio Grande do Sul), no rio Jacuí (onde foi criado um canal de desvio, aberto com explosivos em abril de 1999), 40 Km à jusante da UHE Itaúba. Foi inaugurada em maio de 2001 com capacidade de geração de 125 MW. A área do lago perfaz 2316,00 hectares e a área total perfaz 7316,73 hectares, sendo atingidas 518 propriedades rurais, perfazendo uma média de 14,12 hectares/propriedade (CEEE; DFESA, 2001).

 

FIGURA 1: Usina Hidrelétrica Dona Franscisca

FONTE: Folheto CEEE & DFESA (2001)

 

O lago da UHE Dona Francisca está localizado num relevo com vales profundos e estreitos, característicos da área de Rebordo do Planalto (Figura 2). A vegetação original, desta parte do Estado, encontra-se bastante alterada e degradada, e distribui-se de forma rarefeita e esparsa nas encostas do rio e das montanhas; em função disso a fauna vertebrada local encontra-se também, bastante descaracterizada e reduzida (Friedrich, 1993).

 

FIGURA 2: Rio Jacuí, onde visualiza-se o uso da terra e o relevo da área que foi inundada

FONTE: Folheto CEEE & DFESA (2001)

 

No total foram 07 municípios atingidos pela construção da barragem, onde predominam as pequenas propriedades familiares, colonizadas predominantemente por italianos e alemães. As principais culturas geradoras de renda são o fumo, o feijão, o arroz, a soja e o milho. As técnicas agrícolas utilizadas são precárias, sendo comuns agressões ao meio ambiente como: queimadas indiscriminadas, corte de vegetação em áreas de preservação, poluição das águas com defensivos agrícolas.

 

 

 

METODOLOGIA

 

Primeiramente fez-se uma saída de campo para reconhecimento da área e das condições de logística disponíveis para a realização da coleta dos dados “in locu” e da coleta da água para análise em laboratório. Para a obtenção dos dados e a coleta de água, obedeceu-se um distanciamento eqüidistante dos pontos amostrais com auxílio do GPS (Sistema de Posicionamento Global), modelo Garmin XL 12, obtendo-se através deste o georreferenciamento dos pontos de coleta. Foram, portanto, identificados 32 pontos amostrais em trabalho de campo realizado no dia 28/03/03, a bordo de uma voadeira, sendo possível adquirir dados em toda a extensão do lago, no horário das 09:00 as 16:00 horas. As variáveis determinadas “in locu” são: profundidade do disco de Secchi e Potencial Hidrogeniônico (pH) - obtido com o aparelho PH MASTER em subsuperfície (+ ou - 30cm).

Foi realizada coleta de água em cada um dos pontos amostrais, com a finalidade de determinar em laboratório o Total de Sedimentos em Suspensão (TSS), utilizando-se garrafas esterilizadas, com capacidade de 01 (um) litro de água.

A determinação do TSS foi realizada no laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Maria – CCNE/UFSM, utilizando-se filtros de Celulose HA com 45 mm de porosidade e 47 mm de diâmetro.

Posteriormente, para a análise dos resultados as amostras foram ordenadas de montante para jusante do reservatório e sofreram tratamento estatístico. Para a obtenção das médias, dos desvio padrão, coeficientes de variação correlações entre as variáveis.

 

RESULTADOS

 

Ao considerar o reservatório da UHE Dona Francisca como um todo, percebe-se pouca oscilação dos valores das variáveis analisadas. Porém, quando as variáveis são ordenadas de montante para jusante, nota-se a definição de três compartimentos diferenciados de acordo com os valores das variáveis limnológicas: Em análise preliminar do Total de Sedimentos em Suspensão, identificou-se os seguintes setores no reservatório: O compartimento 1 corresponde aos pontos amostrais 1 a 9 (início do represamento), o compartimento 2 corresponde aos pontos amostrais 10 a 21 (área central do reservatório) e o compartimento 3 corresponde aos pontos amostrais 22 a 32 (próximo ao dique). A Tabela 1 apresenta a média, o desvio padrão e o coeficiente de variação de cada variável de acordo com o compartimento.

 

TABELA 1: Média, desvio padrão e coeficiente de variação das variáveis analisadas, de acordo com os três compartimentos do reservatório

 

Variáveis

Compartimento

Média

Desv. Pad.

C. V.

Secchi

Compartimento 1

0,91

0,08

0,08

Compartimento 2

0,92

0,04

0,04

Compartimento 3

0,99

0,04

0,04

TSS

Compartimento 1

9,13

3,59

0,39

Compartimento 2

6,77

2,82

0,42

Compartimento 3

8,09

0,90

0,11

pH

Compartimento 1

6,74

0,15

0,02

Compartimento 2

7,10

0,37

0,05

Compartimento 3

6,55

0,52

0,08

 

Organização: STRASSBURGER, L.

 

A profundidade Secchi apresenta de modo geral boa homogeneidade dos dados (Figura 03). Esta situação representa desta forma o contexto que se encontra o reservatório em relação ao segmento inundado do rio, ou seja, tem origem em um ecossistema lêntico (o reservatório em estudo localiza-se imediatamente à jusante do reservatório de Itaúba). Com isso, a água que chega no reservatório de Dona Francisca já passou pelo processo de precipitação do material particulado em suspensão. Assim, tem-se maior disponibilidade de luz no reservatório, o que reflete em valores mais elevados para a profundidade do disco de Secchi, média geral de 0,94 m. No reservatório de Itá, a média encontrada  para a profundidade Secchi foi de 0,55 m (Strassburger, 2003), ou seja, no reservatório de Dona Francisca, o valor desta variável é quase o dobro do encontrado em Itá, demonstrando que no reservatório de Itá a disponibilidade de luz é menor do que no reservatório de Dona Francisca.

 

FIGURA 3: Profundidade do Disco de Secchi

 

No compartimento 1, onde a vazão da água é maior foi encontrada a menor média e maior variação dos dados de profundidade Secchi, indicando que o material particulado ainda não sofreu deposição acarretando na menor transparência da água. No compartimento 2, os valores da profundidade Secchi tendem a maior estabilização (Figura 3), não houve grande variação entre uma amostra e outra imediatamente a seguir. A maior média e o menor coeficiente de variação para a profundidade Secchi foram encontrados no compartimento 3 (Tabela 1), ou seja, próximo ao dique, onde a água encontra-se com menor carga de material particulado, a transparência da água ou profundidade Secchi tende a ser maior. Neste compartimento observa-se a tendência de aumento da transparência da água para amostras localizadas em direção à jusante.

As diferenciações dos valores da profundidade Secchi provavelmente estejam associadas com as atividades desenvolvidas nas áreas de captação, já que esta variável está intrinsecamente relacionada com a quantidade de material orgânico e inorgânico encontrado na água e que advém sobretudo do meio terrestre, principalmente em áreas em que há atividade agropecuária. Notou-se que, as áreas adjacentes ao lago encontram-se com a área de entorno preservada com floresta, o que proporciona menor escoamento superficial e erosão dos solos que podem carrear material para o reservatório. Assim, a pouca variância dos valores encontrados para o disco de Secchi no reservatório provavelmente refletem a homogeneidade das atividades desenvolvidas em seu entorno e de sua formação a partir de ambiente lêntico.

A variável TSS, apresentou maiores oscilações nas amostras dos pontos 5 (menor valor) e no ponto 15 (maior valor). A menor média foi obtida no compartimento 2, já no compartimento 1, foi encontrada a maior média, o maior desvio padrão e o maior coeficiente de variação (Tabela 1). Em direção ao dique, ou seja, no compartimento 3, ocorre uma certa estabilização dos valores do TSS, pois apresentou coeficiente de variação (0,11), enquanto que nos compartimentos 1 e 2 o coeficiente de variação foi de 0,39 e 0,42, respectivamente, correspondendo aos maiores coeficientes de variação dentre as variáveis analisadas (Tabela 1). A Figura 4 apresenta os valores encontrados para o TSS, na qual pode-se observar a distribuição do TSS no reservatório.

De um modo geral, os valores encontrados para o TSS são baixos (média 7,90 mg/L). Os baixos valores de TSS encontrados provavelmente estejam relacionados com a área do entorno do lago, pois esta apresenta vegetação preservada na maior parte, isto faz com que o aporte de sedimentos até o lago seja dificultado, ao contrário de áreas com ocupação agropecuária (Esteves, 1998; Tucci, 1993). No reservatório da usina hidrelétrica de Itá, onde ocorre maior ocupação de seu entorno com atividades agropecuárias, a média obtida para o TSS foi mais elevada, 16,11 mg/L (Strassburger, 2003) e no reservatório de Tucuruí, localizado na região Amazônica, a média de TSS no período seco foi de 5,66 mg/L e no período chuvoso 6,30 mg/L (Pereira Filho, 2000). Observa-se portanto, que os valores de TSS do reservatório de Dona Francisca se aproximam mais dos valores obtidos em Tucuruí, fato este provavelmente associado às condições de ocupação da terra das áreas de entorno dos reservatórios e das bacias hidrográficas de captação da água.

 

Figura 4: Total de Sedimentos em Suspensão

 

Como o TSS relaciona-se com as características da área de captação, pode-se inferir que no lago da UHE – Dona Francisca, as influências causadas no ecossistema aquático pelo ecossistema terrestre ou são, de certo modo, uniformes ou são pequenas.

 


Quanto ao pH, de um total de 32 pontos amostrais estudados, 10 encontram-se com pH acima de 7 (água básica) e os demais com valores de pH abaixo de 7 (água ácida). Observa-se que os valores de pH maiores que 7 encontram-se no compartimento 2, com exceção de dois pontos amostrais no compartimento 3. Os valores menores que 7 encontram-se, sobretudo, nos compartimento 1 e 3 (Figura 5).

 

FIGURA 5: Potencial Hidrogeniônico (pH)

 

A maior estabilização do pH é encontrada no compartimento 1, o qual apresenta média de 6,74 e o menor desvio padrão e coeficiente de variação dentre os três compartimentos (Tabela 1), embora apresente visível tendência de aumento de seus valores em direção jusante. Já a maior variação dos valores e a menor média encontram-se no compartimento 3 (Figura 5 e Tabela 1). No compartimento 2, encontram-se os valores de pH mais elevados, ou seja, com exceção de dois pontos amostrais, apresenta valores maiores que 7, portanto a maior média foi obtida neste compartimento (Tabela 1).

De acordo com Odum (1993), os solos e águas ácidas são característicos de regiões situadas sobre rochas ígneas, o que vem de encontro com este caso, ou seja, na área da UHE Dona Francisca, a formação geológica é a denominada Serra Geral, composta basicamente de rochas vulcânicas ou ígneas, as quais se sobrepõem aos sedimentos arenosos e areno-siltosos das Fomações Botucatu e Rosário do Sul (MAGNA, CEEE e SUG apud Friedrich, 1993, p.12).

Foram realizadas correlações entre as amostras nos três diferentes compartimentos do reservatório, através das quais constatou-se que não ocorreram correlações significativas entre as variáveis, exceto entre o pH e a profundidade Secchi, no compartimento 3, onde a correlação foi de -0,75 com grau de significância de 99%.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

As variáveis limnológicas estudadas mostraram, de um modo geral, que seus valores são relativamente homogêneos se considerarmos o reservatório como um todo, porém, observou-se que há três diferentes compartimentos dentro do reservatório que apresentam características semelhantes entre si, os quais foram divididos levando-se em conta os valores do Total de Sedimentos em Suspensão (TSS): compartimento 1 (pontos amostrais 1 a 9), compartimento 2 (pontos amostrais 10 a 21) e compartimento 3 (pontos amostrais 22 a 32). As médias e a variação encontradas para cada compartimento representam esta diferenciação. A profundidade do disco de Secchi apresentou maior estabilização no compartimento 3 (próximo ao dique), o que provavelmente esteja relacionado com o maior tempo de residência da água em ambiente lêntico. O TSS foi a variável que apresentou a maior variação dentre as variáveis estudadas, principalmente nos compartimentos 1 e 2. Já no compartimento 3 tende a uma homogeneização de seus valores. Este quadro demonstra que próximo ao início do represamento da água, onde ocorre maior vazão e ainda não houve a decomposição do material particulado houve maior variação de TSS, enquanto que próximo ao dique, onde as partículas em suspensão já passaram pelo processo de deposição a média e a variação de TSS tendem a diminuição dos seus valores. O pH apresentou maior média no compartimento 2 (região central do reservatório), porém sua maior variação ocorreu no compartimento 3 (próximo ao dique).

Contudo, observou-se no decorrer da pesquisa que o reservatório da UHE Dona Francisca encontra-se com suas características limnológicas poucas alteradas, o que advém, provavelmente, da conservação de floresta em seu entorno e da origem da água ser de outro ambiente lêntico, à montante.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BRANCO, S. M. & ROCHA, A. A. Poluição, proteção e usos múltiplos de represas. São Paulo: Edgard Blücher, CETESB, 1977.

 

BRANCO, S. M. Hidrologia aplicada à engenharia sanitária. 2ª ed. São Paulo: CETESB, 1978.

 

CEEE/ Dona Francisca Energética S. A. (DFESA)/ Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Estado da Participação Popular, Secretaria de Energia, Minas e Comunicações. Usina Hidrelétrica Dona Francisca – 125 MW. Folheto Informativo, 2001.

 

CURRAN, P. J. & NOVO, E. M. M. The relationship between suspended sediment concentration an remotoly sensed spectral radiance: a review. Journal of Coastal Research, Vol. 4, n.º 9. Charlottesville (Virgínia), 1988. p. 351-368.

 

ESTEVES, F. de A. Fundamentos de limnologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Interciência, 1998.

 

FRIEDRICH, J. N. Mapeamento do uso da terra por compartimento geomorfológico da sub-bacia da barragem Dona Francisca – RS com imagens multiespectrais TM do LANDSAT 5. 1993. 63 f. Monografia (Especialização em Interpretação de Imagens Orbitais e Suborbitais). Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, 1993.

 

HESPANHOL, I. Água e saneamento básico – uma visão realista. In: Águas doces no Brasil, capital ecológico, uso e conservação. REBOUÇAS, A. C.; BRAGA, B.; TUNDISI, J. G. São Paulo: Escrituras, 1999. p. 195-225.

 

KELMAN, J. et al. Hidreletricidade. In: Águas doces no Brasil, capital ecológico, uso e conservação. Rebouças, A. C.; BRAGA, B.; TUNDISI, J. G. São Paulo: Escrituras, 1999. p. 371-416.

 

KIRK, J. T. O. Light & photosynthesis in aquatic ecosystems. 2ª ed. Cambridge University Press.1996.

 

ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

 

PEREIRA FILHO, W. & GLAVÃO, L.S. Relações entre reflectância espectral e concentração de sedimentos em suspensão no reservatório Passo Real, região Sul do Brasil. [CD-ROM].In: Simposio Latino Americano de Percepción Remota, 8; Mérida – Venezuela, 1999. Anais Mérida: SELPER, 1997.

 

PEREIRA FILHO, W. Influência dos diferentes tipos de uso da terra em bacias hidrográficas sobre sistemas aquáticos da margem esquerda do reservatório de Tucuruí – Pará. São Paulo. 138f. Tese (Doutoramento em Geografia). Universidade de São Paulo. São Paulo, 2000.

 

REBOUÇAS, A. C. Água doce no mundo e no Brasil. In: Águas doces no Brasil, capital ecológico, uso e conservação. REBOUÇAS, A. C.; BRAGA, B.; TUNDISI, J. G. São Paulo: Escrituras, 1999. p. 01-36.

 

STRASSBURGER, L. Características de variáveis limnológicas do reservatório da Usina Hidrelétrica Itá – RS/SC. Santa Maria. 61f. Trabalho de Graduação (Licenciatura em Geografia). Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, 2003.

 

TUCCI, C. E. M. Hidrologia: ciência e aplicação. Vol. 4. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS//São Paulo: EDUSP:ABRH, 1993.

 

TUNDISI, J. C. et al. Limnologia de águas interiores. Impactos, conservação e recuperação de ecossistemas aquáticos. In: Águas doces no Brasil, capital ecológico, uso e conservação. REBOUÇAS, A. C.; BRAGA, B.; TUNDISI, J. G. São Paulo: Escrituras, 1999. p. 195-225.