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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

AMBIENTE E QUALIDADE DE VIDA DA POPULAÇÃO CABOCLA DA ILHA DE COTIJUBA, BELÉM – PA

 

 

*Cláudia Ribeiro da Silva

Prefeitura Municipal de Belém – Geógrafa

Claudiaribeiro5@bol.com.br / claudi3@zipmail.com.br  fone (91)96054402

 

 

*Msc. Ana Mª Medeiros Furtado (Orientadora)

Universidade Federal do Pará - Profª Adjunta de Geografia

Amedfurt@ufpa.gov.br  fone: (91)222-0168

 

 

 

Palavras Chave: veraneio e degradação sócio-ambiental.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

1-INTRODUÇÃO

A expansão urbana, a exploração de recursos naturais e o veraneio vêm promovendo a descaracterização da paisagem natural e a degradação sócio-cultural nas ilhas litorâneas paraenses, que permaneceram preservadas enquanto havia dificuldade de acesso à elas. Nessas circunstâncias encontra-se a ilha de Cotijuba, inserida na Região das Ilhas pertencente ao município de Belém.

Nos períodos de alta estação um grande fluxo de visitantes para lá se deslocam causando grande impacto, pois o local nãO possui capacidade de suporte para conter essa urbanização de veraneio. Isso reflete-se em alterações no modo de vida da população cabocla local visto envolvê-la em cultura e hábitos diferentes, além da inadequabilidade de participação ativa na economia que passa a dominar na área, mantendo ao descaso os elementos culturais daquela população.

Isso relega a Ilha à uma situação de pobreza ecológica, cultural e econômica por não desenvolver um sistema auto-sustentável e integrado que considere os métodos tradicionais de sobrevivência.      

 

2-REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

A integração sócio-econômica da ilha de Cotijuba com a cidade de Belém iniciou no século XVIII (1784) com a comercialização do arroz beneficiado no Engenho Fazendinha, situado à margem do furo do Mamão (Costa, 1992). Após a desativação deste, o local ficou habitado por famílias tipicamente caboclas que sobreviviam do extrativismo.

Em 1932, o Estado adquiriu a Ilha para construir um Educandário destinado aos menores delinqüentes, objetivando reintegrá-los à sociedade, pois a criminalidade infanto-juvenil em Belém multiplicou-se com a estagnação econômica regional após o declínio do Ciclo da Borracha (O Liberal, 19.08.1959). O Educandário Nogueira de Faria foi inaugurado em 1933 e funcionou por 35 anos em relativa tranqüilidade, sendo apontado como a mais importante obra social da gestão de Magalhães Barata (Amaral, 1990).

Imigrantes japoneses chegaram à Ilha em 1945 e ensinaram técnicas agrícolas aos educandos e, em 1951, fundaram a Cooperativa Mista de Cotijuda Ltda. Em parceria com agricultores locais. A montagem de um sistema penitenciário na Ilha ocorreu em 1968 e por algum tempo Educandário e Presídio coexistiram, porém logo o local transformou-se em Ilha Presídio, recolhendo condenados e presos políticos, adultos e menores, com um sistema penal violento e arbitrário (Paiva, 1997). Com a inauguração da Penitenciária Estadual de Fernando de Guilhon (1977) a Colônia Penal de Cotijuba foi definitivamente desativada.

O Educandário foi marco de vital importância no processo de ocupação e desbravamento da Ilha. Alunos e presidiários foram responsáveis pela construção do sistema viário que se mantém pouco modificado até os dias atuais (Souza, 1953). O estigma de Ilha Presídio povoou o imaginário paraense mantendo a população à distância. A Constituição de 1988 transferiu Cotijuba ao domínio municipal de Belém, tornando-a alvo de projetos alternativos de exploração econômica fadados à falência, e despertando o interesse de veranistas atraídos pela multiplicidade de seus atrativos turísticos e proximidade com a Capital (PMB/SECAP, 1996).

Segundo o Plano Diretor da CODEM (1997), Cotijiba possui natural vocação turística, necessitando de melhorias infra-estruturais para viabilizá-lo. À despeito de tais condições o Turismo passou a desenvolver-se nos anos 80 e, embora fosse incipiente, logo tornou-se outra fonte de renda para os moradores locais, além do extrativismo e da agricultura. Porém o acentuado e brusco fluxo de veranistas promoveu impactos nocivos que superaram os benéficos. Os problemas sociais (violência, desordem, furtos, drogas, etc.) aumentaram consideravelmente, contudo a comunidade é receptiva ao fluxo de visitantes na expectativa de melhorias na renda pelo comércio formal, informal e serviços.

E BELEMTUR (1996) propõe maior ênfase ao Ecoturismo, visto o local ser guarnecido de paisagens de aspecto selvagem, vegetação exuberante, trilhas e outros atrativos que proporcionam pleno desenvolvimento dessa atividade, se em concomitância for trabalhada a Educação Ambiental para promovera preservação do patrimônio ambiental e cultural da Ilha.

 

3-MATERIAIS E MÉTODOS

O roteiro metodológico iniciou pela captação e revisão do material bibliográfico e de informações preliminares referentes ao meio sócio-econômico, histórico, cultural e ambiental da área estudada, tendo relatórios, monografias, jornais, livros, mapas, imagens de satélite, entrevistas e questionários aplicados como fontes de consulta.

Para deslocamento e identificação dos ecossistemas usou-se a imagem de satélite TM-5 Landsat 5R4G3B de 05.06.1995. A pesquisa de campo focalizou a população local com aplicação de questionários estruturados com perguntas flexíveis, tornando-os mais acessíveis à compreensão. Nas entrevistas os informantes abordaram livremente o tema proposto. Foi aplicado um questionário exclusivo na área de mangue para detectar o grau de importância desse ecossistema para os habitantes.

 

3-CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA

Situada à margem direita do estuário do rio Pará, em meio as baías do Marajó e do Guajará, a ilha de Cotijuba insere-se no polígono de 1˚11’36” e  1˚18’09” de Latitude Sul e pelos meridianos de  48˚35’29” e  48˚31’12” WGr, correspondente à Folha AS.22-XD Belém. Tem sua posição geográfica no Farol da Ilha (1˚15’30” S e 48˚33’30” WGr), situado na ponta sudoeste (Ponta de Cima), no fuso 22.Localiza-se à 18 milhas (33Km) de Belém, possuindo 15,94Km2 de extensão. Apresenta forma alongada que segue a direção NE-SW. Ao longo do seu litoral estende-se 20Km de praias e enseadas alternadas por formações rochosas (provenientes de solos argilosos), vegetação, falésias (algumas com ondulações por depressões naturais nos terrenos) e mangues (El Robrini, 1993). Limita-se ao norte com a baía de Marajó; ao Sul com o furo do Mamão que a separa das ilhas de Jutuba e Paquetá; à Leste com a ilha de Tatuoca e à Oeste com o canal de Cotijuba, posicionado nas imediações a extremo oeste da Ilha e servindo de ligação entre a baía do Guajará e o rio Pará (Pinheiro, 1987).

Cotijuba faz parte do conjunto de ilhas antigas, formadas de depósitos arenosos e argilosos, com uma ou mais camadas de arenito, com constituição semelhante à da terra firme continental. Embora alguns julguem essas ilhas como partes destacadas do continente, tudo indica tratar-se de formações locais, posteriormente reduzidas em seus tamanhos. Topograficamente Cotijuba alinha-se com outras ilhas, constituindo uma outra margem que forma a baía do Guajará (Huber apud Moreira, 1996). Juntamente com Belém  e as demais ilhas estuarinas que formam a costa transacional Guajará-Marajó, constitui-se por arranjos de blocos losangulares ativos desde o Terciário, resultantes da interação do feixe de falhas transferentes (N45-55W) e normais (N50-60E) através de um modelo neotectônico (Igreja et al, 1990).

As principais unidades de relevo são: Terraço Peistocênico (Terra Firme) onde se observam elevações de 15-20m, constituídas de seqüências arenosas e argilosas com níveis irregulares de Grés-do-Pará; Terreno Holocênico (várzeas e zonas litorâneas) representado por terrenos encaixados nos Platôs Pleistocênicos, associados à planícies de inundação e baixios; Planícies Flúvio-marinhas que correspondem aos pequenos manguezais, praias e igarapés (onde se depositam sedimentos recentes) e às zonas de várzea constantes nos períodos de inundação (Huber, 1902).

As principais feições morfológicas são: Pontas em constante abrasão marinha, caracterizadas por falésias de sedimentos do Grupo Barreiras e Pós-Barreiras; Enseadas que constituem praias de 2-3Km de extensão e largura variada; Cordões Arenosos formados à oeste com deslocamento norte-sul (El Robrini et al, 1993). No litoral sudeste ocorrem falésias de 1-3m com porções argilosas, solos pedregosos e vegetação de várzea. Cotijuba constitui-se num platô que declina na área este-sudeste mediana, onde concentra maior número de várzeas.

Predominam os solos Latossolos Amarelos da Formação Barreiras, de textura média à argilosa, desenvolvidos nos terrenos não inundáveis de relevo plano e suavemente ondulado. São profundos envelhecidos, álicos e de aspecto maciço. Nas áreas inundáveis desenvolvem-se solos hidromórficos originados de sedimentos aluviais recentes de natureza argilosa. São pouco profundos, mal drenados, com lençol freático superficial e predominam às margens dos igarapés. Lagos pluviais recobertos por gramíneas distribuem-se na área central da Ilha, ocupando 121,68ha do territór4io. A maioria localiza-se próximo ao igapó, e o mais extenso serve para captura de jacarés, tartarugas e peixes. Na estiagem reduz-se à cacimbas.

O clima é quente-úmido (Afi) com elevada pluviosidade, chuvas abundantes e freqüentes à tarde e início da noite (dezembro-julho) com maior intensidade de janeiro à abril. Menor índice pluviométrico ocorre em julho-novembro, com estiagem mais característica de outubro à novembro. A temperatura média anual é de 26˚C e o índice pluviométrico oscila de 2500-3000mm anuais. A umidade relativa é superior a 80%, favorecendo chuvas de convecção local, mais freqüentes após insolação máxima diária (à tarde e início da noite) (Nechet, 1984).

 

4-DIAGNÓSTICO SÓCIO-AMBIENTAL DA ILHA

Verificou-se progressivo aumento das áreas de expansão urbana, com maior pressão ao longo das vias principais e à proximidade das praias, pois são locais de melhor infra-estrutura, ideais para construir casas de veraneio, pousadas e pequenos comércios. Nesses locais as benfeitorias em alvenaria são mais freqüentes enquanto que as casas da maioria dos residentes são de madeira ou taipa, denotando seu baixo nível econômico. A ocupação acelerada estende-se às faixas de preservação e marinha, que contornam as zonas sob influência das marés. As condições de salubridade são precárias, acarretando alta incidência de verminoses, propiciando reinfestações e proliferação de insetos. As fossas negras e os hábitos anti-higiênicos provocam poluição no solo e nas águas. As parasitoses mais freqüentes são: ascaridíase, oxiuríase, amebíase e giardíase.

Nas praias mais afastadas do trapiche a ocupação de veraneio se intensificou, atingindo faixas de praia e falésias. A água é canalizada de poços artesanais e a eletricidade provém de geradores à diesel. O lixo é queimado, enterrado ou lançado em áreas desocupadas.

Menor pressão antrópica ocorre à N-NE, onde as praias são estreitas, menos acessíveis, com fundo lodoso e intercaladas por mangue e várzeas. São áreas utilizadas para curral e pesca pelos habitantes de Poção e Cotijuba-mirim (pescadores, pequenos agricultores e coletores) que têm como meio de transporte canoas e bicicletas . É um local inadequado aos veranistas.

A área do mangue é utilizada para captura de camarão e peixes, coleta de frutos e gravetos. As áreas de vegetação secundária são usadas para retirada de lenha e na agricultura familiar, com algum excedente para comercialização. Atualmente o plantio de árvores frutíferas vem ganhando maior expressão. Materiais de construção (areia, argila e pedras) são retirados de vários locais da Ilha.

A nutrição dos habitantes é basicamente de frutos, peies, mandioca e alguns leguminosos e folhosas. O leite esporadicamente é utilizado na alimentação infantil.

Com o crescente número de visitantes, os ilhéus tendem a participar mais ativamente do comércio informal de produtos locais (frutas, pescados e comidas típicas) e industrializados (bebidas alcoólicas e refrigerantes), elevando esse setor econômico à categoria mais relevante do local.

 

4-CONCLUSÃO

Após análise de dados, conclui-se que embora afetada por dois tipos de urbanização, uma parcela de habitantes da Ilha procura manter seus métodos tradicionais de sobrevivência. Até os anos 70 imperava o bucolismo com práticas e costumes assentados na identidade peculiar dos ribeirinhos amazônicos. Essa reduzida população não provocava desequilíbrios apreciáveis no meio ambiente, mantendo-o estável ecologicamente.

O ciclo econômico era tipicamente simples, sem visar a produção de excedentes e girando em torno das necessidades da comunidade. Com a posterior intensificação do veraneio o modo de vida local sofreu modificações, gerando outra economia tipicamente turística, que atraiu a mão-de-obra local e aumentou o nível de intervenção na natureza, trazendo conseqüências como a desfiguração da paisagem natural, depredação do patrimônio histórico e inversão de valores sociais que agridem a cultura local.

As comunidades que apresentam baixo índice populacional são conscientes de sua vida modesta, porém regozijam-se do contato direto com a natureza e de não estar sujeitos aos vínculos emprecatícios formais.

A pesca que variava de acordo com a salubridade, tornou-se menos expressiva devido à atividades predatórias das indústrias pesqueiras que atuam nas águas limítrofes das Baías com o Atlântico.

Para as Comunidades é importante salvaguardar os recursos ambientais enquanto para os habitantes da Faveira é importante aumentar o fluxo do veraneio, para que possam desempenhar melhor suas atividades comerciais. A tendência é de que com a maior demanda da urbanização de veraneio, modificações mais radicais instalem-se por toda a Ilha, à exemplo do que ocorre com outras ilhas do município belemense, como Mosqueiro e Outeiro que são tradicionalmente utilizadas como balneários.

 

5-BIBLIOGRAFIA

-AMARAL, Assunção. Levantamento histórico da ilha de Cotijuba: análise específica do presídio Nogueira de Faria, Monografia de Especialização. Belém:UFPA, Departamento de Antropologia, 1990.

 

- BELEMTUR. Geração de renda na ilha de Cotijuba. Belém: Imprensa Oficial, 1996.

 

- __________ Inventário da oferta turística de Cotijuba. Belém: Imprensa Oficial, 1996.

 

- CODEM/SEGEP. Cartilha do plano diretor da ilha de Cotijuba. Belém: COMUS-Prefeitura Municipal de Belém, 1997.

 

- COSTA, E.P. Visão do turismo ecológico em Belém e suas três ilhas – Mosqueiro, Cotijuba e Caratateua: como vem sendo tratado e a ligação do turismo de aventura com o ecológico. TCC. Belém: UFPA, Departamento de Turismo, 1997.

 

- COSTA, Rildo F. O caráter social do sistema penal na ilha de Cotijuba. TCC. Belém: UFPA, Departamento de História, 1992.

 

- EL ROBRINI, M.; COSTA, W.J.P. e SILVA, C.A.da. Caracterização morfológica e hidrodinâmica do litoral norte-oeste da ilha de Cotijuba – baía de Marajó (Norte/Brasil) PROMAR – UFPA. In Resumos IV Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário. São Paulo: ABEQUA, 1993.

 

- FRANZINELLE, E. Contribuição à sedimentologia da baía do Marajó. Relatório Interno SUDAM/DNOS. Belém: IDESP, 1976.

 

- HUBER, J. Contribuição à geografia física dos furos de Breves e da parte ocidental do Marajó. Boletim do Museu Paraense de História Natural e Etnografia Emílio Goeldi. Tomo III, fasc. 1-4. Belém: 1900-1902.

 

- LIMA, M.J.A. Ecologia humana: realidade e pesquisa. Petrópolis: Vozes, 1984.

 

- MOREIRA, Eidorfe. Belém e sua expressão geográfica. Belém: Imprensa Universitária, 1966.

 

- NECHET, Dimitrie. Variabilidade diurna da precipitação em Belém-PA. In Anais do Congresso Brasileiro de Meteorologia III. Belo Horizonte: SMB, 1984.

 

- O LIBERAL. A história de Cotijuba. Belém: 19.08.1959.

 

- PAIVA, José M. Turismo e educação ambiental: análise e aplicações na ilha de Cotijuba, TCC, Belém: UFPA, Centro Sócio Econômico, 1997.

 

- PINHEIRO, R.V.L. Estudo hidrodinâmico e sedimentológico do estuário Guajará-Belém. Tese de Mestrado em Geociências. Belém: UFPA, Centro de Geociências, 1987.

 

- PMB/SECAP. I wokshop das ilhas de Belém. Relatório de Atividades. Belém: SEGEP, 1996.